Educação Política

mídia, economia e cultura – por Glauco Cortez

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Paisagens abstratas e uma sutileza no jogo de cores fazem parte das pinturas da artista Nale Simionatto, que esse mês ilustra o site Carta Campinas no projeto Carta Campinas Visuais.Natural de Novo Horizonte, no interior do estado de São Paulo, Nale cresceu (Continue lendo…)

AS NOITES BRANCAS DE DOSTOIÉVSKI NO MUSEU LASAR SEGALL

Imagem: Divulgação

Lasar Segall (1891-1957). Dostoiévski, c. 1927. Xilogravura sobre papel. Coleção Museu Lasar Segall/Ibram/Minc

Por Maura Voltarelli
Especial para o Educação Política

As palavras escritas muitas vezes precisam se completar em imagens. Talvez por um movimento natural de ganharam plasticidade, vida, uma certa materialidade para além do infinito da imaginação.

Grandes escritores, com densos romances, repletos de personagens ambíguos e fascinantes, são capazes de gerar representações únicas. É o caso do escritor russo Dostoiévski que teve algumas de suas histórias ilustradas por grandes nomes do expressionismo alemão e também por artistas brasileiros como Oswaldo Goeldi e Lasar Segall.

Uma exposição chamada “Noites Brancas: Dostoiévski ilustrado”, com curadoria do professor de Teoria Literária e Literatura Comparada da USP, Samuel Titan, ficou em cartaz no Museu Lasar Segall, em São Paulo, com o objetivo de aproximar do público diversas gravuras e desenhos feitos a partir da obra do autor de Crime e Castigo e Os Irmãos Karamazov.

Foram reunidas 44 obras de 22 artistas que não se centram apenas nos romances mais conhecidos de Dostoiévski. Lasar Segall e Otto Möller, por exemplo, retratam em seus desenhos a novela Uma criatura dócil, de 1876.

Em todos os desenhos, apesar das especificidades de cada um, o curador lembra ser constante a presença do preto e do branco, por isso o nome para a exposição, “noites brancas”. Ao mesmo tempo, noites brancas parece ser uma inteligente metáfora para a obra do escritor russo, que mergulha nas trevas da sociedade e do homem, da espiritualidade e do amor, para depois trazê-las à tona.

As figuras são noturnas, dão a impressão de conduzir para regiões de sombra, não muito distantes das recordações, dos crimes, do subsolo, das criaturas sem nome que Dostoiévski coloca diante de nós e que agora podemos ver em novas representações de artistas que viram em sua literatura diversos motivos para continuar recriando-a.

Xilogravura de Oswaldo Goeldi

Xilogravura de Oswaldo Goeldi

Oswaldo Goeldi também reforça o tom noturno da exposição com gravuras das quatro edições ilustradas – O idiota, Recordações das casas dos mortos (1862), Humilhados e ofendidos (1861) e Memórias de um subsolo – que o artista fez em 1944 para a editora José Olympio, no Rio de Janeiro.

Entre artistas alemães e brasileiros, as gravuras parecem nos revelar outros detalhes, elementos e tons do escritor russo de interpretações inesgotáveis.Uma forma de lê-lo além das páginas da literatura e da crítica.

O ciclo Dostoiévski e o cinema, que conta com a exibição dos longas Os irmãos Karamazov (1958), de Richard Brooks, Crimes e pecados (1989), de Woody Allen, Partner (1968), de Bernardo Bertolucci, Nina (2004), de Heitor Dhalia, entre outros, continua aberto ao público até 25/08.

Serviço:

Dostoiévski e o cinema
Onde:
Museu Lasar Segall – Rua Berta, 111 – São Paulo (SP)
Quando: 03/08 a 25/08, sábados e domingos, às 14h
Quanto: gratuito
Info.: (11) 2159.0400 ou http://www.museusegall.org.br/


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O SORTILÉGIO DO INSTANTE

Por Maura Voltarelli
Especial para o Educação Política

O instante e a perfeita reflexividade entre os elementos da imagem de Cartier-Bresson

O instante e a perfeita reflexividade entre os elementos da imagem de Cartier-Bresson

Cartier-Bresson já dizia que a fotografia é a exploração do instante, de tudo que um intervalo de tempo, com seus movimentos, cenários e cores pode produzir de incrível e único. A fotografia, neste sentido, conquista a sua natureza que não é a de ser simples reprodução do real, mas uma forma de recriá-lo, como fazem todas as outras artes.

O blog Pêssega d’Oro reuniu 50 fotos, tiradas por diferentes pessoas em vários lugares do mundo, que capturam justamente os sortilégios do instante, as surpresas, as revelações e o improvável que este pode produzir. Um pouco de sorte e muito de talento colocaram esses fotógrafos no lugar certo, no momento certo, reafirmando a velha frase de que tudo parece ser mesmo uma questão de ponto de vista!

Imagem: http://www.pessegadoro.com

Imagem: http://www.pessegadoro.com

Imagem: http://www.pessegadoro.com

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Mais fotos em http://www.pessegadoro.com/2012/09/click-perfeito-50-fotos.html?spref=fb

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"O Impossível"

“O Impossível”

Por Maura Voltarelli
Especial para o Educação Política

O Impossível. Duas criaturas estranhas, um homem, uma mulher, desenho de seios, costas, pernas, formas distorcidas, quase derretidas. Uma atração e, ao mesmo tempo, uma repulsa mútua. As garras lançadas anunciam a tragédia do contato. Mergulha-se na violência da impossibilidade de qualquer relação carnal, pois anuncia-se a iminência do perigo.

Formas ousadas, sensuais, ancestrais. Assim é a arte da escultora brasileira Maria Martins. Com prestígio no cenário artístico nacional foi no exterior, entretanto, que sua arte mais se destacou, sendo logo “adotada” por um movimento que se reconheceu nas suas formas livres: o surrealismo.

De volta ao cenário nacional, Maria, que também foi escritora, desenhista, pintora e musicista, ganha uma mostra no MAM (Museu de Arte Moderna de São Paulo) do dia 12 de julho  a 15 de setembro de 2013. Sob curadoria da escritora e pesquisadora Veronica Stigger, que possui estudos sobre a obra de Maria Martins, a mostra do MAM é uma das maiores já realizadas sobre a artista. “São mais de 30 esculturas, a maioria em bronze, distribuídas em cinco núcleos – Trópicos, Lianas, Deusas e Monstros, Cantos e Esqueletos -, que são determinados mais pela comunicação formal do que propriamente por uma ordem cronológica. A exposição reúne também livros, artigos, obras bidimensionais em papel e cerâmicas de parede”.

A mostra, cujo nome é “Metamorfoses”, procura mostrar justamente o que muda no decorrer do trabalho da artista. A grande mudança, de um núcleo a outro, vai sendo a representação dos corpos. De nítidos e separados de outros elementos, como a natureza, eles vão, cada vez mais, confundindo-se com eles, borrando-se dentro e fora de si, até que, na utopia da forma final, resta apenas o esqueleto. Na série “Cantos”, há uma referência  aos cantos de Zaratustra, de Nietzsche.

São metamorfoses que, de certa forma, também foram acompanhando a vida da artista. Filha de família tradicional, Maria Martins casou-se, pela segunda vez, com o embaixador Carlos Martins, com quem mantinha um relacionamento aberto. Vivia sob certa dualidade. De um lado, o tédio dos papéis sociais da mulher do embaixador, de outro, desejos insaciáveis, uma vontade de vida e liberdade apenas confessada em suas obras, e que transparecia em alguns episódios como o romance com Marcel Duchamp, marcado por uma impossibilidade de contato retratada na escultura “O Impossível”, e também em obras do próprio Duchamp.

Maria Martins

Maria Martins

Maria Martins teria feito coisas impensáveis para uma mulher de sua época. Corpórea, inteligente, livre, a forte personalidade da mulher parece ter se refletido na obra. Por isso os traços tão fortes, a ferocidade do domínio da forma que interroga o próprio domínio, o caráter selvagem inerente ao primitivo. Suas esculturas gritam enquanto mudam. E fazem gritar algo em nós. Algo antigo.

Definida, por ela mesma, como “o meio-dia pleno da noite tropical”, sua obra mergulha no tropicalismo sendo, ao mesmo tempo, de dentro da noite o ponto máximo de luz. Os trópicos têm, neste sentido, um papel decisivo, também conferem o calor, a vivacidade, a energia de suas formas e personagens.

Uma artista ainda por se descobrir e uma artista a ser redescoberta, cuja arte, de tão inovadora, não se enquadra em nenhum movimento artístico. A mostra do MAM pretende quebrar o silêncio recente em torno da artista, atuando em favor dessa redescoberta mais do que necessária. Silêncio que Veronica atribui a um certo preconceito.

“É uma reação à maneira como ela expõe aquilo que, na mulher, a sociedade gostaria que permanecesse escondido, como o desejo, ou a vulva”, diz a curadora. “Não se perdoa uma mulher por ser inteligente demais, corpórea demais, livre demais –ainda mais tudo ao mesmo tempo.”

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Iluminura: as visões de Hildegard

Iluminura: as visões de Hildegard

Por Maura Voltarelli

A Idade Média, período que teve início por volta do século V e se estendeu até meados do século XV, não foi, como já se sabe, apenas um período de trevas e obscuridade para o conhecimento humano. Pelo contrário, a Idade Média foi um período decisivo para o conhecimento humano, de amadurecimento da vasta cultura grega que o precedeu e de preparação de um dos maiores movimentos artísticos da história do homem: o renascimento.

Impregnada por um extenso controle religioso da vida, dos hábitos, da moral, a Idade Média guarda histórias incríveis que não cessam de ser descobertas. Não se sabe muita coisa sobre elas e isso aumenta ainda mais o mistério das histórias medievais. Mistério que é também potencializado pelo misticismo do período, pelo cenário das catedrais silenciosas, dos cantos religiosos, dos cultos pagãos que resistiam. Para a mística, a Idade Média é um lugar farto, pois nenhum período esteve tão próximos dos gregos e, ao mesmo tempo, tão distante deles.

O interdito, o proibido, a ideia do pecado e, não obstante, o desejo de liberdade, de conhecimento que continuava a sussurrar nas fendas das catedrais, fez com que histórias como a de Abelardo e Heloísa, por exemplo, fascinassem gerações.

Assim como a imagem de Heloísa, filósofa e escritora, mulher com vocação para a liberdade que foi vítima das inúmeras repressões do período, uma outra mulher, da qual se sabe menos ainda, fascina pelo talento da inteligência, da perspicácia, da vontade de independência da mulher em uma época onde as correntes eram tão apertadas.

Hildegard von Bingen teria nascido em 1098 e foi uma escritora, compositora, abadessa beneditina, visionária e profundamente ligada às vertentes místicas do cristianismo. Conhecida por suas visões, algumas resultantes de fortes dores de cabeça, Hildegard teria escrito além de textos de botânica e medicina, cartas, sons litúrgicos e poemas que eram transformados em belíssimas iluminuras, produção artística de grande importância no contexto da arte medieval. Muitas iluminuras mostram Hildegard recebendo alguma visão e ditando-a a um escriba.

Sua atividade junto às outras mulheres da época também foi bastante expressiva, tendo ela, inclusive, fundado um monastério do qual só as mulheres faziam parte. A vida monástica de Hildegard é cheia de sombras, zonas misteriosas e indeterminadas, como muito do que se conta sobre o período medieval. Mas, justamente por isso, é tão fascinante, fascínio que só aumenta diante do fato de poucos conhecerem a sua história ou sequer já terem ouvido falar dela.

Nestes vídeos segue um pouco da música mística de Hildegard:

Há também um filme, dirigido pela Margarethe Von Trotta, sobre Hildegard. Segue o trailler:

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CALAR A BOCA, NUNCA MAIS: O POVO NOVO QUER MUITO MAIS, COM TOM ZÉ

Povo Novo

A MINHA DOR ESTÁ NA RUA
AINDA CRUA
EM ATO UM TANTO BEATO, MAS
CALAR A BOCA, NUNCA MAIS! (BIS)
O POVO NOVO QUER MUITO MAIS
DO QUE DESFILE PELA PAZ
MAS
QUER MUITO MAIS.
QUERO GRITAR NA
PRÓXIMA ESQUI NA
OLHA A MENI NA
O QUE GRITAR AH/OH
O QUE GRITAR AH/OH
OLHA, MENINO, QUE A DIREITA
JÁ SE AZEITA,
QUERENDO ENTRAR NA RECEITA
DE GOROROBA, NUNCA MAIS (BIS)
JÁ ME DEU AZIA, ME DEU GASTURA
ESSA POLÍTICARADURA
DURA,
QUE RAPA-DURA!
QUERO GRITAR NA…

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A IMAGEM COMO RESISTÊNCIA: JOÃO ROBERTO RIPPER EMOCIONA

Por Maura Voltarelli

Andando pelas galerias de exposições do Memorial da América Latina, em São Paulo, depois do primeiro maravilhamento provocado pelo incrível desenho das curvas, pelo espaço aberto, pela liberdade e força das formas, meus olhos pararam diante de imagens a primeira vista desconhecidas.

Elas estavam reunidas em uma exposição que celebrava o 1º de maio, dia do trabalhador. E tinham todo propósito de estarem ali. Na singularidade do branco e preto, percorri diversos retratos de rostos, olhares, lugares, realidades.

A perfeição do retrato, a exatidão do instante fotográfico e o toque jornalístico saltava para fora das imagens. Carvoeiros, a seca, o homem, a terra, trabalhadores de todos os tipos, crianças, família, velhos, lugares, gente sozinha…

Em uma das imagens lembrei-me de olhar o nome de quem tirara aquelas fotografias: João Roberto Ripper. Só agora, pra fazer esse texto, fui ver quem era, onde tinha nascido. Nasceu no Rio de Janeiro, trabalhou como repórter fotográfico.

Mas João Roberto Ripper parece ser, antes de tudo, a sua fotografia, por isso, quando olhei os retratos, já o conhecia. Um trabalho extremamente social e que diz respeito ao homem, diz respeito à humanidade.

Mistério. As belas fotografias de Ripper são um mistério. Porque há qualquer coisa nelas de lírico e de forte, de poético e de pedra, de sombra e de luz, há uma estética perfeita e há o momento em que não se pensa na estética, onde ela simplesmente acontece sozinha. Imagem: http://imagenshumanas.photoshelter.com/gallery/Carvoeiros/G0000WvCUpV3nLkE/

Um sortilégio que captura o ato no espaço da denúncia que emociona. Talvez porque vi ali muito de nossa miséria, muito de nosso abandono. Ripper me causou uma solidão e ao mesmo tempo uma esperança. Um dos retratos de repente surpreendeu-me em lágrimas e foi a primeira fotografia (tirando as minhas que carregam todas as minhas dores e o peso da dita memória) que me deixou daquela forma, diante da imagem de um menino.

Ele trabalhava, tão triste, tão sozinho, em uma de nossas tantas minas de carvão. Seu olhar….até agora não consigo explicar e quem são as palavras? Não, elas não dão conta da vida, e era vida o que havia ali. Pura vida, de que talvez só mesmo a arte dê conta.

Imagem: revistacontemporartes.blogspot.com

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Ideia de Agamben

Ideia de Agamben

Por Maura Voltarelli

O filósofo italiano Giorgio Agamben ficou conhecido pela sua frase com forte teor polêmico, “Deus não está morto, ele virou dinheiro”. Mas Agamben já era e é, antes de tudo, o filósofo da poesia. Em seus textos, a poesia sempre é refletida a partir de um lugar elevado, sempre é posta em movimento e, mais importante, sempre acumula sentidos e horizontes de realização.

Um de seus livros, Ideia da Prosa, busca refletir precisamente sobre o que seria a poesia a partir da prosa e, mais ainda, traz diversos pequenos textos sobre diferentes ideias de temas que sempre aparecem na nossa vida. Temos no livro “Ideia da vocação”, “Ideia da Musa”, Ideia do comunismo”, Ideia do poder”, “Ideia da paz”, “Ideia da vergonha”, “Ideia da música” e tantas outras…

Deixamos aqui duas ideias fundamentais sobre as quais Agamben fala a partir de uma originalidade surpreendente e genial.

Ideia do amor

Viver na intimidade de um ser estranho, não para nos aproximarmos dele, para o dar a conhecer, mas para o manter estranho, distante, e mesmo inaparente – tão inaparente que o seu nome o possa conter inteiro. E depois, mesmo no meio do mal-estar, dia após dia não ser mais que o lugar sempre aberto, a luz inesgotável na qual esse ser único, essa coisa, permanece para sempre exposta e murada.

Ideia da morte

O anjo da morte, que em certas lendas se chama Samael, e do qual se conta que o próprio Moisés teve de o afrontar, é a linguagem. O anjo anuncia-nos a morte – e que outra coisa faz a linguagem? – mas é precisamente este anúncio que torna a morte tão difícil para nós. Desde tempos imemoriais, desde que tem história, a humanidade luta com o anjo para lhe arrancar o segredo que ele se limita a anunciar. Mas das suas mãos pueris apenas se pode arrancar aquele anúncio que, assim como assim, ele nos viera fazer. O anjo não tem culpa disso, e só quem compreende a inocência da linguagem entende também o verdadeiro sentido desse anúncio e pode, eventualmente, aprender a morrer.

AGAMBEN, Giorgio. Ideia da Prosa. Trad. João Barrento. Lisboa: Cotovia, 1999

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O CORPO É A PAISAGEM

Por Maura Voltarelli

Pequenos bonecos encostados em um seio que ganha aspectos de montanha, cavaleiros a atravessar as costas que de repente são pequenos planaltos, o cavaleiro alojado na cintura, o carro a percorrer as curvas dos quadris, as nádegas como montanhas, os seios sustentando a corda por onde passa a equilibrista, o buraco da piscina no buraco do umbigo, o umbigo que também é rio onde se pesca, as costas por onde se escorrega, qualquer conjunto de palavras será pouco diante do simples olhar as fotografias de Allan Teger, autor desta série que abaixo mostramos chamada “Bodyscapes”.

O artista, no suporte do preto e branco, transforma o corpo humano em belas paisagens, em inesperados lugares. O resultado é bonito, erótico, inusitado. Uma valorização do corpo e da arte, e talvez uma lembrança de que um está sempre ligado ao outro.

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Link de acesso para mais trabalhos de Allan Teger

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Lasar e seus colegas em uma sessão de pintura ao ar livre: liberdade e vanguarda

Lasar e seus colegas em uma sessão de pintura ao ar livre: liberdade e vanguarda

Por Maura Voltarelli

Alemão naturalizado brasileiro, Lasar Segall é considerado um dos ícones do modernismo brasileiro, seguindo e solidificando um caminho já aberto por Anita Malfati e pelo movimento modernista de 1922. Pintor de traços inusitados, que rompem com os academicismos e as formas tradicionais da pintura realista, adepto das cores fortes e expressivas, tocado pela crítica social e pela denúncia política do antissemitismo e dos horrores da guerra, Lasar combinou as heranças da tradição e cultura europeia com as cores e as temáticas tropicais, criando uma obra original e sempre atual.

A primeira exposição do artista no Brasil aconteceu em março de 1913, em São Paulo, e nas obras mostradas já se podiam ver as marcas do impressionismo alemão e da pintura holandesa.  Em comemoração ao centenário da exposição, o Museu Lasar Segall programou exposições de 50 obras do artista que pertencem ao acervo do Museu e também de algumas fotografias que faziam parte de seu arquivo pessoal.

Encontro

Encontro

Lasar tinha uma relação muito próxima com a fotografia, tanto que muitos de seus quadros, como Encontro, por exemplo, remetem diretamente a uma imagem fotográfica de seu casamento, apenas modificando alguns detalhes. Fotografias marcantes que traduzem um pouco do que foi a trajetória do artista, bem como movimentos decisivos para construir a proposta e o perfil estético de seu trabalho, como a fotografia que registra uma sessão de pintura ao ar livre com colegas da Academia de Dresden, em 1911, também fazem parte da exposição.

Nesta fotografia os colegas da academia carregam a modelo nua, em um manifesto que já ditava o movimento libertário e de vanguarda que se formava no momento.

Os demais registros fotográficos e as obras, algumas recentemente recuperadas pelo Museu, como Eternos Caminhantes, revelam o artista histórico e ousado. Eternos Caminhantes traz um grupo de andantes, tema recorrente na obra do mestre expressionista, que faz referência ao êxodo e à perseguição aos judeus. Sintética e geometrizada, a obra se instala em um tempo específico e, pela qualidade de sua construção, projeta-se na eternidade conquistada pelos grandes artistas.

Outras obras, como Bananal, trazem a temática tropical, sempre presente em Sagall principalmente na sua fase mais marcadamente expressionista. Parecem sinais do quanto o artista de terras frias ia se misturando com os costumes, as cores, a gente, das terras quentes tropicais, refletindo e ajudando a construir o modernismo de nossa arte.

Eternos caminhantes

Eternos caminhantes

Mesmo adepto do expressionismo, da (re)criação da realidade, e dono de um estilo próprio, Lasar também mantinha o diálogo com algumas tradições da pintura, revisitando gêneros como natureza-morta, retrato e paisagem. Os rostos, as frutas, os lugares ganham, no entanto, sempre o seu tom, a sua ousadia. Em cada obra respira certa sensualidade bruta original e uma denúncia visceral dos movimentos históricos, e, para os que querem encarar as trevas no coração da história, voltar ao seu Navio de emigrantes é sempre uma forma de voltar a nós mesmos.

Página do Museu Lasar Segall, onde podem ser vistas obras e fotografias do artista.

Algumas informações retiradas da revista da FAPESP, que traz reportagem com mais informações sobre o Museu Lasar Segall e sobre a exposição comemorativa.

Navio de emigrantes

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Vincent van Gogh, Prisoners Exercising, 1890

Vincent van Gogh, Prisoners Exercising, 1890

Por Maura Voltarelli

Vincent van Gogh é hoje um dos maiores pintores modernos. Difícil quem não o conheça, quem não tenha ouvido falar sobre ele alguma vez. Mais difícil ainda não se impactar com suas pinturas, com suas formas delirantes, com suas cores colossais que, de certa forma, refletem a trajetória complexa e densa de um dos maiores nomes do impressionismo mundial.

Para contar um pouco da história de Van Gogh o diretor francês Alain Resnais foi convidado, em 1948, para fazer um filme curto sobre ele, que coincidia justamente com uma exposição do artista que então estava sendo montada em Paris. O filme, intitulado Van Gogh, recebeu diversos prêmios e foi o primeiro de muitos outros filmes feitos pelo diretor sobre o universo da arte moderna, como Gauguin (1950) e Guernica (1950).

Reproduzimos aqui uma versão com legendas em espanhol, mas, para além dos diferentes códigos linguísticos, o arte/documentário de Resnais fala em uma linguagem universalmente conhecida pelo público: a linguagem da arte. E mais ainda, essa linguagem é transmitida pela pureza essencial do preto e branco, o que deixa os quadros de Van Gogh ainda mais sublimes.

A tentativa foi de reconstituir a vida do pintor por meio de seus quadros, tornando-o mais conhecido do grande público. Tarefa nem sempre fácil, pois Van Gogh foi um daqueles artistas que teve sua existência atravessada pela miséria, pela loucura, e por todas as regiões de sombra que possam se abrir diante da existência humana. Nele, no entanto, as experiências do limite só fizeram aumentar a genialidade do seu trabalho.

Assim como Hölderlin e Nietzsche, Van Gogh vivenciou em vida a experiência da morte, rompeu a barreira entre os domínios e, por isso, conseguiu na sua obra a maturidade do estilo e o frescor de uma atualidade sempre potente, sempre renovada.

França, 1948.
Direção e edição: Alain Resnais.
Narrador: Claude Dauphin. Diretor: Gaston Diehl e Robert Hessens. Producão: Pierre Braunberger, Gaston Diehl e Robert Hessens. Música original: Jacques Besse. Fotografia: Henry Ferrand. Versão original em francês com legendas em espanhol. Duração: 18 min.

Vale a pena também ver este vídeo, uma bela experiência estética que traz o quadro De sterrennacht EM MOVIMENTO.

Van Gogh não morreu devido a uma condição delirante, e sim por haver chegado a ser corporalmente o campo de ação de um problema em cujo redor se debate, desde suas origens, o espírito iníquo desta humanidade, o predomínio da carne sobre o espírito, o do corpo sobre a carne, do espírito sobre um ou sobre outra. Onde está, neste delírio, o lugar do eu humano?

Antonin Artaud

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O RAPTO DE PROSÉRPINA, DE GIAN LORENZO BERNINI: O GRITO DO MITO

Imagem: cafecomexpressao.blogspot.com

Por Maura Voltarelli

Houve um rapto, talvez de todos o mais célebre, lindamente retratado pelo artista do barroco italiano Gian Lorenzo Bernini em sua arte de dar forma, vida e movimento ao mármore. Diz o mito que enquanto colhia flores, a bela Perséfone, então ainda donzela, em sua fase Koré, foi raptada por Hades, o deus das sombras, senhor do reino dos mortos, no momento em que retirava da terra uma flor de narciso.

Hades, há muito apaixonado pela beleza da jovem deusa filha de Zeus e Deméter (a deusa das colheitas, da terra), então rapta Perséfone e a conduz ao fundo da terra. Os gritos de Perséfone no momento da captura só são ouvidos por Hécate, a deusa lunar, ligada aos mistérios noturnos.

Deméter, incomodada com o desaparecimento de Perséfone, é avisada por Hécate do rapto da filha e decide interceder junto a Zeus para que este convencesse Hades a devolvê-la à terra, que então já se encontrava devastada pelo frio e pela seca, castigo lançado por Deméter em razão de sua ira.

Diante da devastação da terra, Zeus decide interceder em favor de Deméter junto a Hades. No entanto, Perséfone estaria condenada a nunca mais poder habitar totalmente o mundo dos vivos, pois comera a fruta proibida das profundezas, que a ligava eternamente àquele domínio: a romã.

Perséfone poderia estar na terra apenas durante um tempo, mas depois teria que regressar ao hades, ocupando, dessa forma, os dois domínios, vida e morte, sendo um eterno trânsito e ponto de comunicação entre eles.  A primavera marca justamente a volta de Perséfone à terra, já o inverno e o outono sinalizam o seu retorno ao hades.

Nas profundezas, a antiga Koré se faz rainha, amadurecida pelo aprendizado da sombra. Hades e Perséfone seguem apaixonados, a brandura e clemência da deusa aplacando muitas vezes a ira do amado, intercedendo em favor de muitos mortais que por lá passam.

Imagem: charcofrio.blogspot.com

A escultura de Bernini conseguiu, e isso faz dela uma obra-prima, retratar o impulso de amor e morte que fez Hades raptar Perséfone. Os dedos, fincados sobre o corpo da jovem deusa, revelam a dimensão do seu amor, quase um desespero, e transparecem algo de profundamente erótico. Erotismo e desejo que atravessam as obras de Bernini, como se vê na também célebre escultura “O êxtase de Santa Teresa”.

“O Rapto de Prosérpina” nos chega como uma obra de arte que faz viver o mito, respirar os deuses no centro de um mundo dominado pela Razão e pelas entidades platônicas (Renascimento). Os deuses de repente voltam, regressam, com toda força, como se nunca antes tivessem ido, talvez porque de fato eles nunca foram. Guardam-nos à espreita, vigilantes, imortais.

 

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EXPERIÊNCIA ESTÉTICA É O QUE SINTETIZA A NOVA VERSÃO PARA O CINEMA DO CLÁSSICO DE TOLSTÓI “ANNA KARENINA”

Versão para o cinema de 2012

Cena de “Anna Karenina”, versão 2012

Por Maura Voltarelli

Na primeira cena, o que se vê é o título do filme sobre a cortina de um palco de teatro. Como se quem assiste fosse avisado de que um espetáculo teatral estivesse para começar. O teatro anuncia a sua presença e essa será constante ao longo de toda versão do diretor Joe Wright para o monumental romance de Tolstói Anna Karenina.

O diálogo com o teatro, o caráter performático dos atores e das cenas iniciais, os movimentos muitas vezes nauseantes da câmera, os giros, os detalhes, as cores, tudo faz de Anna Karenina uma incrível experiência estética, e, embora o filme tenha muitos pontos discutíveis, este é aparente pacífico.

A inovação da montagem é tanta que lembra um pouco o Lars Von Trier de Dogville, com o seu cenário em forma de maquete, objetos, cenas e atores sendo ali manipulados. A direção de arte impecável, a beleza dos figurinos, dos cenários, a inovação no trato da imagem e a exploração de todas as suas possibilidades também lembra um pouco o estilo do diretor Luis Fernando Carvalho em filmes belíssimos como Lavoura Arcaica, onde a beleza das imagens solta um suspiro extasiante.

Se na experiência estética, essa versão acerta, não parece acontecer o mesmo com a escolha dos atores para representar os personagens do romance. O principal erro ocorre com a escolha do ator Aaron Taylor-Johnson para interpretar o conde Vronsky, amante de Anna na história.

Anna e Vronsky na versão de 1997

Anna e Vronsky na versão de 1997

Nesta versão, o amante de Anna parece um tipo “almofadinha”, afetado, que age simplesmente por capricho. Sua paixão por Anna, que no romance aparece de forma bem mais intensa, no filme é quase nula, não chega a atingir quem assiste. Da mesma forma, o conde Vronsky que aparece no filme não parece ser o tipo de homem por quem Anna se apaixonaria, deixando para trás o marido e o filho em pleno século XIX.

Em relação à escolha de Keira Knightley para interpretar Anna Karenina, a atriz pode não ser a melhor imagem da heroína mais conhecida do escritor russo, mas está lindíssima na versão. A beleza é tão expressiva que deixou faltar um pouco uma das principais características da personagem: sua melancolia grave e doce, que se alterna com seu espírito alegre, naturalmente livre. Keira deixa transparecer a alegria de Anna, mas não deixa vir à tona seu tom melancólico. Este surge apenas no fim, de forma apressada, sem naturalidade, abortando assim a possibilidade do espectador realmente se emocionar com os momentos finais que, no livro, são dosados pelo desespero trágico e também pela conversa com a loucura.

Já o marido de Anna, bem interpretado por Jude Law, está bonzinho demais. Quem leu o livro praticamente não o reconhece. Alexei Karenin, apaixonado por Anna até o fim, e magoado justamente por esse amor constante e ao mesmo tempo fonte de sua vergonha e desmoralização pública, faz de tudo para tornar as coisas ainda mais difíceis para Anna, pois talvez essa seja a forma de tornar as coisas um pouco mais fáceis para ele. A negação do divórcio e a proibição de que Anna continuasse a ver o filho são golpes de Karenin que atingem em cheio a lucidez de Anna. No filme, isso não fica tão claro. Karenin aparece como generoso e Anna como caprichosa.

Os coadjuvantes estão ótimos. Stiva provoca risos na plateia e ganha tons performáticos que evocam de fato o personagem do livro. Já sua esposa, Dolly, aparece tão doce quanto no romance. A personagem vive um momento bastante feliz no filme quando conversa com Anna naturalmente em um local público, enquanto todas as outras pessoas riem, cochicham e falam dela pelas costas. A interpretação da atriz nesta cena é tão natural e destoante do que então se via que atinge o espectador naquele que é um dos pontos essenciais do romance: a denúncia da hipocrisia da sociedade burguesa da época.

Greta Garbo, a primeira a viver no cinema a heroína de Tolstói

Greta Garbo, a primeira a viver no cinema a heroína de Tolstói

Anna sofre no livro, e isso de certa forma se deixa ver nessa versão, todo tipo de preconceito da sociedade de sua época por ser a mulher que traiu o marido, um influente político russo, e deixou seu mundo para viver uma paixão arrebatadora com um oficial do exército. Sofre as consequências por ter quebrado as regras, por ter se apaixonado.

Este é o núcleo central da história, que sempre ganha destaque em todas as versões do livro para o cinema. Paralelamente a ele, no entanto, há uma outra célula do romance que aborda a vida no campo, as questões da agricultura russa da época, do trabalho escravo, das relações de propriedade e, principalmente, discute o ideal do que seria uma vida feliz.

A resposta para essa pergunta acontece no livro no mesmo momento em que se desenrola o desfecho da história de amor e transgressão de Anna. O grande lance de Tolstói é cruzar os significados de uma coisa e outra de modo que a tragédia que é encenada em um palco, seja respondida em outro. Se Anna paga um preço alto por tentar ser livre em um contexto onde para a mulher não era reservado muita coisa, a resposta dada por Tolstói às aflições humanas, sejam elas de homens ou mulheres, invadidas pelo dilema do moral e do amoral, do certo e do errado, da liberdade ou da convenção, é de que a felicidade estaria nas coisas simples, no lugar originário.

Keira como Anna Karenina

Keira como Anna Karenina

Para os que dizem que a história do adultério de Anna Karenina já está ultrapassada em uma sociedade “livre” como a do século XXI, eu diria que a história nem de longe está ultrapassada. Não só por que o drama de Anna vai muito além de uma simples traição, mas envolve diversos outros aspectos que até hoje rondam o universo feminino, como também porque o que está em questão na obra de Tolstói é o preconceito burguês contra qualquer ato que simplesmente fuja da norma, e esse preconceito está atualmente mais presente do que nunca. Basta olhar os bons (e poucos) jornais.

Por isso, Anna Karenina continua tão atual. Por isso o romance já teve cinco, contando esta última, montagens para o cinema. E, em cada uma, novas Annas nos emocionam, nos revelam um traço de coragem que persiste até o fim, e denunciam a hipocrisia que sempre germina neste nosso oceano, às vezes sombrio e sempre misterioso, do social.

Edição com tradução direta do russo

Edição da Cosac Naify com tradução direta do russo

Filmar uma grande obra literária, vale dizer, nunca é fácil, e comparações entre livro e filme sempre acabam um tanto injustas pois os suportes são diferentes. O filme nem sempre dá conta da densidade literária do livro, histórias surgem apressadas e, muitas vezes, não há aquele tempo que as páginas fornecem para desenvolver o personagem e entregá-lo em toda sua complexidade nas mãos do leitor.

Esta versão de Anna Karenina não emociona tanto quanto a leitura do romance, no entanto, traz algo que Tolstói, dispondo apenas do papel e da tinta, jamais poderia realizar: a exploração do universo fascinante da imagem, o transporte para o mundo do teatro, a magia de tons, músicas, movimentos e sensações combinados para recontar uma bela história.

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Por Maura Voltarelli

Pablo Picasso, Les saltimbanques, 1905

Pablo Picasso, Les saltimbanques, 1905

Elegias de Duíno, Rainer Maria Rilke

Quinta elegia

Mas quem são eles, dizei-me, os saltimbancos, um pouco
mais efêmeros que nós mesmos, desde a infância
por alguém torcidos – por amor
de que vontade jamais saciada? Entretanto ela os torce,
curva-os, entretece-os, vibra-os,
atira-os e os toma de volta! Do ar untado
e mais liso, eles resvalam
sobre o tapete gasto (adelgaçado
pelo eterno salto), esse tapete
perdido no universo.
Emplastro aderido lá, onde o céu
do subúrbio feriu a terra.
_______________E apenas lá,
ereto, mostra a grande maiúscula
inicial da Derelicção…e já o renitente
agarrar torna a rolar os homens mais fortes,
por jogo, como outrora Augusto o Forte, à mesa,
brincando com pratos de zinco.

Ah! e em torno desse centro,
a rosa do contemplar:
floresce e desfolha. Em torno do
triturador, o pistilo atingido por seu próprio
pólen florescente, novamente fecundado – fruto
aparente do desgosto, inconsciente de si mesmo –
com a fina superfície a brilhar
num sorriso leve, simulado.
Lá, o murcho, o enrugado atleta,
o velho que apenas rufla o tambor,
encolhido na pele poderosa como se outrora tivesse contido
dois homens e um já sobrevive ainda,
surdo e um pouco perturbado,
às vezes, na pele viúva.  […] (p. 27 e 28)

Nesta parte inicial da elegia, o sentimento predominante é o de frustração e inautenticidade. Os saltimbancos melancólicos não seriam movidos pelo Anjo, alheio à dor humana, e estariam “presos à imanência de um mundo incompreensível” (DA SILVA, s/d, p. 77). A existência do grupo seria um indigente “estar lá”, fazendo referência ao Dasein (o ser aí), comparação que vem do fato de as figuras no quadro estarem dispostas de modo a formar um D maiúsculo. Diante dos saltimbancos, que simplesmente estão lá, as pessoas passam indiferentes, o que talvez seja um motivo do desalento do poeta em relação à “arte pela arte”, o jogo intranscendente incapaz de iluminar a vida.

[…] Anjo: talvez haja uma praça que desconhecemos, onde,
sobre um tapete indizível, os amantes, incapazes aqui,
pudessem mostrar suas ousadas, altivas figuras
do ímpeto amoroso, suas torres de alegria, suas trêmulas
escadas que há muito se tocam onde nunca houve apoio:
e poderiam diante dos espectadores em círculo,
incontáveis mortos silenciosos. E estes arrojariam
suas últimas, sempre poupadas,
sempre ocultas, desconhecidas moedas de felicidade
para sempre válidas, diante do par
verdadeiramente sorridente, sobre o tapete
apaziguado. (p. 31)

Sob a perspectiva do Anjo, no entanto, que aparece nessa última parte do poema, o homem estaria liberto do jogo estéril da arte intranscendente, salvo da morte anônima, da vida inautêntica, realizando em uma praça milagres de harmonia em uma simbiose de amor e morte, onde ele aprenderia a sorrir verdadeiramente.

RILKE, R.M. Elegias de Duíno. Trad: Dora Ferreira da Silva. 4ºed. Rio de Janeiro: Ed. Globo, s/d

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Influenciado pelos traços fortes e próximos da naturalidade do desenho que marcam a obra de Oswaldo Goeldi, o gravurista Rubem Grilo é autor de uma obra que combina uma criação personalista com um tom de crítica social. Da riqueza de traços até a valorização de um objeto no espaço do desenho, a fase inicial de Rubem Grilo é marcada pelo aspecto mágico e fantástico das criações, representado pela série Marionetes, de 1974, e também pela sua postura política em Natividade.

Nos anos 70, Rubem Grilo também atuou como ilustrador em jornais conhecidos pela crítica social e engajamento político em uma época onde a liberdade de expressão no Brasil era limitada, para não dizer quase nula. Entre os jornais que receberam ilustrações de Grilo estão o Opinião, Movimento e o Pasquim.

A passagem pelos jornais e o percurso posterior de sua obra deixam ver a sensibilidade do artista para o social. Já nos anos 80, ele cria a série Fast Food e, no cenário contemporâneo, retoma algumas referências do passado que conferem certo tom lírico aos trabalhos de Tratador de Pássaros, Desencaixe e O Vidente.

Os trabalhos de Grilo podem ser vistos em exposição no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, até 5 de maio. No total são 123 trabalhos que permitem conhecer cada uma de suas fases. Neste link, um pouco mais sobre a trajetória do artista.

Rubem Grilo, da série Fast Food

Rubem Grilo, da série Fast Food

 

Rubem Grilo, O Tratador de Pássaros

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Rubem Grilo, Cosmos

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IMAGINA: O QUE SERIA DO MUNDO SEM SEUS POETAS?

Imagine, de John Lennon

Imagine there’s no heaven
It’s easy if you try
No hell below us
Above us only sky
Imagine all the people
Living for today

Imagine there’s no countries
It isn’t hard to do
Nothing to kill or die for
And no religion too
Imagine all the people
Living life in peace

You may say
I’m a dreamer
But I’m not the only one
I hope some day
You’ll join us
And the world will be as one

Imagine no possessions
I wonder if you can
No need for greed or hunger
A brotherhood of man
Imagine all the people
Sharing all the world

You may say,
I’m a dreamer
But I’m not the only one
I hope some day
You’ll join us
And the world will live as one

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O BANHEIRO DO PAPA É UMA REPRESENTAÇÃO POÉTICA DA RELAÇÃO TRÁGICA E CÔMICA ENTRE A GRANDE MÍDIA E O POVO

Cena do filme O banheiro do Papa

O sonho é realidade em O banheiro do Papa

O banheiro do Papa, filme de 2007, foi consagrado como melhor filme em vários festivais e com toda a razão. O filme é belíssimo e conjuga em personagens, em  interpretações impecáveis, o fantástico do sonho e o trágico do cotidiano. O banheiro do Papa é um bom título, mas o filme também poderia se chamar  O mundo de Beto, que é o personagem principal. Isto porque o banheiro do papa parece ser apenas mais uma criação da fantástica mente desse personagem, interpretado de forma incrível por Cesar Troncoso.

Mas não só ele, a interpretação de Virginia Méndes, como uma mulher vivendo o mundo real, é de uma beleza crua estarrecedora. Há no casal uma relação mítica entre o feminino racional, apolíneo, e o masculino imaginário (dionisíaco).  E esse conflito entre dois mundos, o real e o fantástico, parece povoar todas as imagens do filme, que se estabelecem a partir das notícias veiculadas pelo jornal e pelo rádio. E isso acomete de forma mágica em todas as interpretações, num impressionante trabalho de conjunto. Os personagens parecem viver um documentário sobre suas próprias vidas.

A história, nesse sentido, tem como pano de fundo uma relação perversa, mas que é tratada na maioria das vezes de forma poética e cômica, entre a população mais pobre e os meios de comunicação de massa, a grande mídia, principalmente a televisão. Essa relação faz com que o filme saia da condição primorosa de enredo e belas imagens para se traduzir em uma história imaginária. O real captado pela câmera é o ingresso para a viagem da mente humana.

Ao final do filme, que é baseado em uma história real, os diretores César Charlone e Enrique Fernández colocam alguns números estatísticos da visita do Papa João Paulo II à cidade de Melo, no Uruguai, onde se passa a história. Nesse momento, percebe-se o tamanho da relação entre mídia e imaginário popular, o tamanho da tragédia, o tamanho do destino humano.

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