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PASTOR MALAFAIA E A ‘DIFERENÇA BOÇAL’ ENTRE UM RELIGIOSO E UM CIDADÃO QUE EMITE OPINIÃO POLÍTICA

O Pastor Silas Malafaia diz em vídeo no qual fez para atacar o candidato do PT à Prefeitura de São Paulo, Fernando Haddad, que há uma “diferença boçal” (SIC!!!) entre quem emite opinião política e tem convicção de fé. Mas a diferença boçal não é a liberdade de um religioso expressar sua opinião. Essa talvez seja uma diferença abissal.

A diferença boçal está na forma e nos interesses que se escondem por trás dos religiosos que emitem suas opiniões.

Malafaia emite opinião, e tem todo o direito, mas o faz no formato de sermão. A virada para câmeras diferentes, a aproximação do vídeo, a verborragia raiosa para convencer o incauto espectador. Marshall McLuhan já há muito tempo alertava que o meio é a mensagem. A forma que Malafaia usa para discutir política é boçal porque não se diferencia da forma com que faz proselitismo religioso.

Malafaia entra na briga política não por uma preocupação com a cidade de São Paulo. Não está preocupado com o assassinato de homossexuais, de jovens da periferia, do conflito entre policiais e traficantes, não está preocupado com a educação e saúde dos paulistanos.

Malafaia é claro em seu discurso. Ele entra na política para combater o que ele chamou de “kit gay”. Então, Malafaia não entra na política como um cidadão, mas como um religioso. Mesmo que ele negue, o seu discurso não mente. E essa é a grande diferença boçal de Malafaia.

O candidato José Serra, do PSDB, continua a promover a baixaria.

Veja abaixo o trecho da diferença boçal.

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HÁ SEMPRE UM BOÇAL NA SUA COLA

Microconto – Ficção

Áulia é uma mulher bastante diferente, tem por volta de seus 30 anos, rosto comum e com traços finos, revelando uma discreta beleza por trás dos óculos finos, pequenos e estilosos. Nela tudo é uma tentativa de sair do convencional, gosta de artes plásticas e tem um visual pouco feminino, com calças jeans com um número maior, surrada, suspensa pelo cinto e camisa social. O cabelo é curto e poucas vezes estão no lugar, mas tudo isso faz parte de uma performance. O leitor pode pensar que faz parte de um estilo cabeça, desprendido, cult, de uma pessoa agradável, amiga, mas na verdade torna-se uma grande casca quando se revelam suas discretas ambições pessoais. Há nela uma estultice própria de um adolescente sem desconfiômetro, um tolo que conquistou os encantos inebriantes de alguma miséria de status social. Quem não conhece esses tipos? Estão hoje em dia em aparências diversas, mas a essência é a mesma: carreiristas em busca de grana e títulos funcionais. A alma empobrecida se alimenta das buscas materiais e dos papéis socialmente reconhecidos.

Patrícia, uma mulher discreta e que apenas busca fazer seu trabalho de maneira honesta, pouco se apena aos comentários e fofocas dentro do trabalho, a conheceu quando foi convidada para a coordenação das novas exposições de design da empresa. Áulia também foi colocada como uma das subcoordenadoras de exposições. A empresa, como nossa própria casa, tem dificuldade de fazer as mudanças internas com agilidade, e Patrícia teve que, antes mesmo de ser confirmada como coordenadora, reorganizar a exposição que ficou abandonada com a saída coordenadora anterior.
Enquanto apagava o incêndio deixado com a organização das exposições que nem havia organizado, Patrícia recebe um e-mail, enviado por Áulia, dizendo que ela era subcoordenadora e que não havia sido feita nenhuma reunião até aquele momento. E como subcoordenadora, ela frisava isso, tinha o direito de saber o que estava acontecendo. Patrícia, surpresa, se sentiu acusada de autoritária. “My God!, que estultice!”. Patrícia gostava do My god! Em inglês, era sua brincadeira, sua cena de cinema. O e-mail, sem nem ao menos ter conversado com Patrícia pelos corredores da empresa, foi enviado formalmente para todos os subcoordenadores e para os diretores da empresa.
Patrícia, apesar de educada, não era burra. Havia ali no e-mail a marca de pessoas que já foram imbecilizadas pela competição social, o que provoca uma demência nas regiões que controlam a sociabilidade. Havia uma afoita felicidade própria da idiotice contemporânea presente nas relações de trabalho. Patrícia agradeceu o e-mail e disse que estava fechando o trabalho anterior que estava pronto, não havia o que discutir, mas atrasado e as questões burocráticas para abrir as exposições precisava ser resolvidas, mas que gostaria muito da ajuda de todos os subcoordenadores.
Passado esse imprevisto e o fechamento das exposições anteriores, Patrícia marca uma reunião com todos os coordenadores, que pertencem a vários segmentos da arte-desgn. A maioria da área de informação-design e Áulia apenas da área de marcas-design. As pessoas ficam com o tempo com um perfil profissional. As marcas são aquilo que o consumidor conhece quando vê uma propaganda de um ótimo produto, acredita, compra e percebe que foi enganado, que o produto é um lixo. Áulia é um pouco como as marcas, mostram-se como as melhores do mundo, mas quando se começa usar só dá problema.
Na reunião, Áulia pediu a palavra e se disse com muito conhecimento sobre a coordenação de exposições, tem experiência, e que Patrícia deveria tomar essa, aquela e aquela outra atitude. Mas não só isso, disse que poderia fazer o projeto das novas exposições, a arte e o espaçamento. E não só isso, Áulia também disse que conhecia uma pessoa importante que poderia ser Curador e que queria uma carta assinada por Patrícia para convidá-lo e tantas outras tolices que todos na reunião acabaram por cortar suas intenções, etc etc etc. Quem a via falando, logo imaginava alguém interessada realmente em melhorar, participar. Mas o discurso de Áulia, para quem não é inexperiente, mostrava o viés competente-burocrata, cheio de formalidades que dão certa aparência de seriedade aos imbecis e uma óbvia intenção de determinar as coisas. Por trás de suas formas burocratas, havia a intenção de fazer as exposições ao seu jeito, independente das posições do seu chefe e dos outros subcoordenadores. Mas não houve nem a necessidade de Patrícia argumentar, os outros subcoordenadores rechaçaram as intenções partidarizadas de Áulia.
Feita a reunião, distribuíram-se as ações de cada subcoordenador para as próximas exposições. Apesar das estultices de Áulia, Patrícia esperava que todo aquele discurso competente traria alguns benefícios na seleção das obras, visto que era necessário apresentar um parecer sobre os vários segmentos. Dos subcoordenadores, bingo!, Áulia foi a única que fez um parecer bastante ruim, desinteressado, apressado e inconsistente. Patrícia então entendeu, havia um boçal entre os coordenadores. O boçal é alguém que não aceita a sua infelicidade e acredita que sua estupidez deve ser compartilhada, ou pior, deve ser imposta a todos. O boçal acredita deter a verdade como todos, mas a diferença é que sua verdade é uma forma de desrespeitar o outro. Como se ouve por aí, não existe meio boçal, o boçal é boçal completo. Mas ele não é um idiota, pois sua idiotice é seletiva na sociabilidade, ele reconhece as convenções sociais, mas simplesmente não respeita quando isso lhe interessa. Ele acredita que todos devem servi-lo e respeitá-lo, mas não tem inteligência e nem liderança para que isso se realize. No trânsito, por exemplo, é aquele sujeito que vem em alta velocidade dando sinal de luz para que os outros motoristas abram passagem imediatamente, ele acredita que a rodovia lhe pertence.
Áulia é o típico boçal, usa o discurso competente-burocrático, mas na hora de fazer as atividades sob sua responsabilidade se transforma numa negligente e incapaz profissional. Patrícia descobriu isso e descobriu mais algumas coisas. No sistema em que vivemos hoje há sempre um boçal onde quer que você esteja, há sempre um boçal na sua cola.

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