Educação Política

mídia, economia e cultura – por Glauco Cortez

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A FORMIGA E A CIGARRA, NA TABERNA DO SR. CUPIM

foto: mauriciomercandante flickr creative commons

É certo que você já deve ter lido ou ouvido falar, talvez na sua infância, da tal fábula sobre A cigarra e a formiga, atribuída a Esopo e narrada por Jean de La Fontaine. Na fábula, a cigarra passou o verão a cantar e, no inverno, sem ter o que comer, bateu na porta da formiga, que sem piedade lhe bateu a porta na cara.

Mas a relação da formiga com a cigarra não terminou com aquela maldita frase dita pela formiga antes de bater a porta: “você cantou, agora dance”, e que se traduziu na gíria da sociedade contemporânea: “você dançou”.

Recentemente, pesquisadores da Universidade de Cicadidae descobriram fragmentos nas escavações de um enorme território na região da Eusocialidade. Os fragmentos descobertos sugerem uma sequência inesperada de acontecimentos. Veja só:

Quando a senhora formiga bateu a porta de sua casa, o mundo desabou para aquela pobre cantora de voz tão afinada e potente, mas que pouco lhe valia para o sustento e a provisão de dias ruins. A força daquela porta, o barulho e a recusa não mais se repetiria na vida daquela talentosa cigarra, exceto no dia em que conheceu as borboletas do Direito Autoral, mas essa é uma outra história a ser desvendada, afinal chega de tristeza e lamento. Dona Cigarra não gostava de fados, pouco astuta, apenas se virou e observou todo o bosque coberto de neve. Aquilo lhe soou como um fim, ajustou sua casaca velha e poída e enfrentou o frio ainda com a insolência de assobiar Meu mundo caiu, famosa canção na voz de Maísa, brazilian singer.

Do lado de dentro da casa da Formiga, aquela batida de porta também não foi de total satisfação, mesmo porque sempre que se é egoísta e má, um fel amargo escorre pela garganta e ativa o cérebro a trabalhar intensamente para justificar tais atitudes e foi o que aconteceu. Dona formiga pegou a vassoura, logo atrás da porta, e pôs-se a varrer e a  encontrar razões. “Ela merecia. Precisa aprender, é vagabunda. Não gosta de trabalhar”. Varreu, varreu, limpou, limpou e tudo parecia brilhar na sua magnífica casa, repleta de alimentos. Vale dizer que, mas isso dona formiga procurava esquecer, grande parte dos alimentos daquela repleta dispensa fora furtado. Sim, fora furtado de árvores impossibilitadas de se defender de suas garras e também de humanos negligentes que deixam potes e pacotes de produtos mal fechados. Por qualquer fresta mínima, lá a dona formiga se infiltrava na calada da noite para abastecer sua dispensa.

Por dias e dias dona formiga comia e dormia ao lado de seus proventos enquanto dona Cigarra perambulava em busca de alimentos debaixo daquele inverno gelado. Aquilo realmente era de entediar qualquer um e dona formiga passou a pensar uma loucura: “talvez a vida da Cigarra, pedindo comida pelo bosque, seja mais feliz que a minha que nada tenho a fazer aqui trancada”. Aliás, todas as outras formigas estavam trancadas em suas casas repletas de alimentos, mas sem prosa com vizinhas para não ter a desagradável audição de um pedido de comida qualquer.  O pensamento da dona formiga foi totalmente inesperado. Poder-se-ia duvidar dessa versão, mas os fragmentos escavados pelos pesquisadores dessa fábula comprovaram essa mudança de comportamento. Os pesquisadores também suspeitam que uma depressão ou solidão tenha desencadeado tal transformação, mas isso ainda há de se provar.

Pois bem, em um impulso, dona formiga encheu uma mochila de alimentos, agasalhou-se bem, passou a chave na porta e saiu pelo bosque em busca de algo para espantar o tédio. Caminhou e caminhou por dias sem encontrar viva alma insetídia. Certa tarde ouviu bem ao longe uma bela música. Cansada, já quase sem alimentos e solitária, dona Formiga se encantou e se embalou naquele som que mais parecia uma ilusão, tamanha a fragilidade com que chegava aos seus ouvidos. Perspicaz para conseguir alimento, não foi difícil para a formiga caminhar pelo trajeto sonoro e perceber que a cada passo o som ficava mais alto e belo. Mas de repente o som sumiu. Nada mais se ouvia, apenas o silêncio.

Sem trilha a seguir era impossível continuar, estava sem alimentos e sem o som para lhe guiar. Esperou, esperou, mas aquele som não voltou durante aquele fim de noite. Tudo escuro. Para a formiga, apesar de astuta e trabalhadora, foi difícil conseguir novos provimentos no rigor do inverno e teve de se arranjar dormindo perigosamente ao relento, escondida sob uma casca seca de uma grande árvore. Sabia que logo de manhã os pássaros estarão famintos e o perigo é grande, ainda mais numa época em que não há alimentos em abundância pela floresta.

De manhã, dona formiga ficou bem quietinha sob a casa árvore, mas ainda próxima do chão. Não contava com a tempestade que se avizinhava, os ventos fortes jogaram a casca para longe e ela precisou sair correndo para escapar da passarada. No meio da neve branca, o caminhar de uma cor vermelha e preta era uma presa fácil. Logo foi avistada por um Sabiá faminto. Quando ele se aproximou, a astuta formiga conseguiu se esconder no beiral da porta do tronco da taberna do sr. Cupim. A taberna estava fechada, mas entre as brechas das lascas da entrada, comida por esses terríveis beberrões, ela ficou protegida durante todo o dia e ao final da tempestade. O Sabiá não desistiu e ficou pelas redondezas só de bico calado.

Depois desse grande susto, dona Formiga ali adormeceu e sonhou magnificamente. Ela estava em uma grande festa, com amigos formigas, cigarras, gafanhotos, borboletas, aranhas e todas a insetarada. A música era belíssima e todos rodavam, sorriam e conversavam. Isso sim é que é viver, pensou e sorriu… O movimento dos músculos da felicidade a levou a acordar bruscamente e dar de cara com o Sabiá, lá fora, a sua espera.

Baixou a cabeça e ficou profundamente triste por acordar e com a realidade a sua volta. Mas logo ouviu novamente aquela bela música. Agora não era sonho e ela estava alta, bem próxima, e vinha de dentro da taberna do sr. Cupim. Com o barulho da música, o Sabiá resolveu se afastar e a Formiga pode caminhar até a entrada da taberna. Esperta que só vendo logo pensou: “parece que conheço essa voz…”. Caminhou por entre as frestas e olhou por meio da entrada de ar. Lá estava a dona Cigarra cantando e todos por ali conversando, dançando e trabalhando, assim como no seu sonho. Parou por um momento, pensou no Sabiá e entendeu porque as Cigarras passam a vida a cantar.

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FOTOS DE KLEINER KAVERNA, NO ENSAIO DA PEÇA ‘O HOMEM DA CABEÇA DE PAPELÃO’, BASEADA NO CONTO HOMÔNIMO DE JOÃO DO RIO

O HOMEM DA CABEÇA DE PAPELÃO, CONTO DE JOÃO DO RIO, É UMA DENÚNCIA DA MECANIZAÇÃO DA VIDA E DAS MÁSCARAS SOCIAIS

Nesta segunda parte da entrevista, Orna Levin fala sobre um conto tardio de João do Rio, O homem da cabeça de papelão, e sobre dois temas principais que são retratados no conto: a mecanização da vida cotidiana e as máscaras sociais. O conto foi livremente adaptado pelo Curso Livre de Teatro, que acontece no Barracão Teatro, em Campinas, com estreia marcada para os dias 29, 30 de novembro e 01 de dezembro.

Ambos os temas do conto, como Orna explica, refletem o momento histórico da sociedade carioca da época. O Rio de Janeiro na passagem do século vivia transformações de ordem urbana e tecnológica, o que afetava o modo de vida, a percepção do tempo e também as relações sociais.

É nesse contexto que João do Rio escreve um conto que pode ser visto sob uma estética futurista, imaginando um mundo onde podemos trocar de cabeça, um mundo onde as máscaras sociais e os papéis sociais se multiplicam, e onde características como honestidade, por exemplo, já não encontram espaço. A narrativa literária, neste caso, esboça uma denúncia tanto de uma realidade onde o homem é tomado pelos objetos, quanto da falsidade das relações sociais.

E veja também a primeira parte da entrevista.

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A PRINCESA TRISTE E O PRÍNCIPE PALHAÇO

Ficção – Este deveria ser um conto de fadas, como outro qualquer. A princesa e o príncipe e um mundo encantado. E realmente parece ter sido isso mesmo o que se vai narrar aqui.

Numa pequena cidade, dava para ver nascer esta história em cada letra, sílaba, palavra ou frase que ia surgindo na folha de papel em branco. Numa pequena casa vivia a princesa, mas lá não estavam o Rei nem a Rainha. Ela vivia sozinha. Também não havia um batalhão de súditos aos seus pés, preparando as roupas, os jantares, os banhos e outras atividades cotidianas. A princesa nunca teve essas mordomias, ainda que sua família tivesse uma boa condição financeira e, pode-se dizer, passou a infância em um verdadeiro palácio, com escadas, quartos grandes, corredores e um quintal enorme cheio de frutas para brincar e se deliciar a tarde toda.

E é ali, naquela alegria da infância que nossa princesa conhece um pouco de sua melancolia. O ouvinte vai perguntar, mas como ficar triste diante de uma vida tão normal e feliz? Mas essas são as coisas da vida. O Rei, que sempre se achou mesmo um Rei, mesmo antes de se tornar Rei, não era lá tão amável quanto se podia pensar, mas também não era de todo ruim. Tinha lá seu jeito de decidir as coisas e viver em seu mundo imaginário do reino do poder. Quase não via nossa princesa diante de tantos afazeres para deixar o palácio a cada dia mais bonito, não faltar comida, tecnologia, educação e algumas marcas famosas, que custam caro justamente porque são marcas famosas. A Rainha, como todos sabem era uma mãe dedicada, mas as rainhas têm sempre aquelas ideias fixas na cabeça e, quando entra, demora muito para sair. Só mesmo com um belo tombo para tirar da cabeça daquela Rainha que aquele palácio não era tão feliz assim. Mas essas coisas são coisas de Rainha. Quem vai dizer não às rainhas sem ficar triste e também entristecê-la? Poucos se atrevem, a não ser os invejosos que enxergam brilho e felicidade em tudo que é alheio. E a Rainha não parava no lugar, nem em casa, também devido aos afazeres da vida.

E assim cresceu nossa princesa. Entre o palácio e o quintal. Entre as músicas daquele período, os programas de televisão, sim, porque naquele reino já havia muita tecnologia. Todos gostavam, a cada nova tecnologia que surgia, lá estava o Rei para reverenciar e, como consequência, os súditos todos desejavam. Mas algo marcava mais, os perfumes das plantas do quintal, o jardim e a cozinha das avós, tanto a mãe do Rei quanto a mãe da Rainha. Tudo estava ali, em seu bucólico universo de cores e sentidos. Mas tudo passa e a princesa cresce, mas ao crescer, um pouco de tudo se perde: as cores, os gostos, as músicas, as tardes, os sons, os espaços. Há uma perda a cada dia, a cada semana. As pessoas que chegam e vão embora, os domingos à tarde que atormentam, as segundas-feiras que tem aquela alegria de trabalho infinito e cansado.

A Rainha muitas vezes não estava e o Rei nunca estava. Então, o colo da vó a acalentou durante a tenra infância, mas depois tudo tornou-se só um sonho mal colocado. A vida e tantas coisas tristes que nos acontece, as pessoas que nos invejam, as pessoas que não nos amam, os que nos são indiferentes, os que nos odeiam porque, não sei por que… Mas tudo isso fazia da nossa princesa, já moça, bela com seus cabelos de princesa, seus olhos e cílios de arquitetura irreparavelmente gótica, sua boca um pouco com a beleza da boca das antigas escravas do reino, o corpo com as curvas mais cobiçadas por tantos príncipes e tolos cavalheiros.

E lá estava ela, naquela tarde de calor entediante e sonolento. Ela passava o tempo em seus livros, fugindo daquele reino de fantasia que era a sua realidade. Nos livros, ela encontrava a realidade que a fazia entender o seu conto de fadas. Sim, ela nunca duvidou das fadas que a acompanhavam em tudo, mas ela queria a realidade comum a todas as pessoas, aos viventes desse mundo, que estão do outro lado da porta, na casa vizinha, na outra cidade, dentro daqueles livros reais. Seus olhos, com aquele anoitecer gótico, escorriam lágrimas secas, que ninguém poderia enxergar, estavam lá irritadiços. A boca como um arco virado para baixo, sem que ninguém percebesse porque havia um esforço tremendo para deixar a linha reta, sem graça. Mas sua beleza impedia, era bela e triste aquela boca de lábios fortes, que não se colocavam de forma feliz, ainda que estivesse sorrindo.

A felicidade era para os bobos alegres. No fundo da alma daquela princesa havia uma dor muito grande, que nem o narrador desta história penetrou. Também não conhecemos todos os dias daquela menina, daquela infância. Era uma época que parecia feliz, mas pode ter acontecido algo que não percebemos. Não somos deuses, apenas contadores de história. Não dá para saber de tudo, ser onipresente. Havia um mistério que não poderíamos descrever porque realmente a princesa nunca falava, apenas fechava o livro e jogava seus olhos sobre o que estivesse a sua frente, a janela, a cortina, as nuvens, um sapato no chão, um farelo de comida no fundo do prato e tudo se perdia em uma densa neblina, fazendo-a voltar para a fantasia da sua vida.

Mas certa noite ela fechou o livro e viu uma pequena letra entre as páginas, de alguém muito diferente e que ela pouco conhecia. Não pergunte como apareceram aquelas letras ali, logo no início do livro, com um garrancho meio feio, de algum cavalheiro pouco afeito aos detalhes da caligrafia. Muito diferente de nossa princesa, que fez balé, piano, jazz, pintura e caprichava na letrinha redonda e pontuada. Essas letras aparecem, assim como aparecem nestas páginas, como num conto de fada. E assim, o autor das letras apareceu como um príncipe em sua vida. Coisas do destino ou dos contos de fada. E ela teve a certeza, essa certeza de Rainha, que quando coloca uma coisa na cabeça, não tira mais, a não ser que leve um tombo. E naquele príncipe ela viu também no fundo dos olhos, uma outra tristeza, muito próxima da sua, uma tristeza que não se apresentava assim de dia, nas falas cotidianas, nos afazeres do trabalho, mas lá no fundo, sem que quase ninguém a visse, só mesmo uma princesa para perceber tamanha delicadeza.

E aí, vocês já sabem como são os contos de fada, eles se apaixonaram. Mas com o tempo ela foi percebendo que aquele conto de fada da sua vida tinha se transformado em uma realidade. O príncipe que era príncipe, não porque era bonito e dava um beijo para acordá-la de um sono profundo, de um envenenamento ou outra tragédia comum na realidade dos contos de fada. O príncipe começou a decepcioná-la porque aquela tristeza, que parecia igual a sua, não era tão igual a sua. A tristeza do príncipe virava uma certa euforia de vida, era muito conto de fada para a sua fantasia de realidade. E lá estava ele, o príncipe, fazendo piadas e palhaçadas o tempo todo com ela e com suas coisas, histórias, modos e gestos. Tudo para o príncipe era motivo de ironia e piada, nada assim tão amargo ou que a magoava profundamente, mas aquela alegria que ele não controlava, aquelas tiradas, sacadas, e outras adas que, com o tempo, pareciam perturbar aquela arquitetura de tristeza que por tanto tempo a princesa construiu para suportar a sua própria existência de princesa.

E ela descobriu aos poucos que o príncipe não era um príncipe, como são os príncipes, aqueles príncipes bonitos e que a beijariam, a acordariam e não falariam mais nada. Simplesmente porque viveriam felizes para sempre e, se são felizes para sempre, não há muito o que falar e a história termina. Fim. Ele parecia um príncipe que levava esse ‘felizes para sempre’ ao pé da letra e para tudo havia uma graça, uma cor, um sabor, um humor, apesar dos olhos tristes que ela conheceu e descobriu logo de início. Ela não sabia de que conto de fadas ele teria aparecido, mas uma certeza ela tinha: tratava-se de um príncipe-palhaço. E ela teve aquela sensação, sabe…, de que o príncipe virou sapo.

Ora ora, nunca se ouviu falar de nenhuma história real ou imaginária em que habitavam príncipes-palhaços. Ela teria caído no falso conto de realidade. Somente no circo, mas o circo também sempre foi muito triste, como aquela dificuldade de artistas mambembes, circulando sem se fixar, sem morar perto dos parentes, rodando pelo mundo, passando o chapéu, vertendo um humor triste e trágico. Mas o que fazer…. E assim viveu a princesa, triste para sempre, mas de uma alegria estonteante, quando ali chegava o príncipe-palhaço, que como um mambembe ora aparecia, ora desaparecia do palco dos olhos da princesa. E assim se fez sentido aquelas duas máscaras na capa do livro do conto de fada: uma triste, outra sorrindo. Era apenas um conto de fadas de príncipes e princesas.

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LEON TOLSTÓI EM SENHOR E SERVO: AS GALINHAS E OS GALOS CACAREJARAM ABORRECIDOS

“Vassili Andrêitch entrou na casa com o velho, enquanto Nikita conduzia o trenó pelo portão aberto por Petrúchka e, por indicação do rapaz, fazia o cavalo entrar debaixo do telheiro. A dugá alta roçou no poleiro, no qual as galinhas e o galo, já acomodados, se alvoroçaram e começaram a cacarejar, aborrecidos. As ovelhas perturbadas precipitaram-se para um lado, pisoteando com os cascos o esterco congelado do chão. E o cachorro, assustado e raivoso, gania e latia freneticamente para o intruso.

Nikita conversou com todos: desculpou-se perante as galinhas, tranquilizou-as, garantindo que não as perturbaria mais; censurou as ovelhas por serem tão assustadiças sem saberem por quê, e ficou acalmando o cachorro durante o tempo todo que levou amarrando o cavalo”.

(Leon Tolstói, em Senhor e Servo, editora LPM)

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Microconto

Eu olhava a cena, mas não sabia se estava participando ou simplesmente observando do lado de fora. Estava em uma das pontas do trecho de uma estrada que me parecia ao mesmo tempo conhecida e estranha.
Era uma estrada de terra, mais exatamente um pedaço de uma curva de terra batida.
Nos dois dois lados havia plantações cultivadas, possivelmente café.
No meio da curva, uma jovem mulher estava agachada próxima às plantações, a uma certa distância de mim e do meu lado esquerdo. Ela, com cabelos lisos e pele clara, encontrava ou remexia algo precioso, brilhante, talvez joias ou metais valiosos. Eram bonitos, chamativos e arrastavam a atenção de forma intensa.
De repente, do outro lado da curva aparece um homem, aparentando pouco menos de 30 anos,  negro, careca e vestia um perfeito terno num tom entre o lilás e o rosa. Possuía um olhar indiferente e um jeito afetado. Nas mãos, segurava uma corrente de metal. Ele chegou, olhou o que acontecia, virou as costas e sumiu do lado direito das plantações de café.

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Microconto – Ficção

Áulia é uma mulher bastante diferente, tem por volta de seus 30 anos, rosto comum e com traços finos, revelando uma discreta beleza por trás dos óculos finos, pequenos e estilosos. Nela tudo é uma tentativa de sair do convencional, gosta de artes plásticas e tem um visual pouco feminino, com calças jeans com um número maior, surrada, suspensa pelo cinto e camisa social. O cabelo é curto e poucas vezes estão no lugar, mas tudo isso faz parte de uma performance. O leitor pode pensar que faz parte de um estilo cabeça, desprendido, cult, de uma pessoa agradável, amiga, mas na verdade torna-se uma grande casca quando se revelam suas discretas ambições pessoais. Há nela uma estultice própria de um adolescente sem desconfiômetro, um tolo que conquistou os encantos inebriantes de alguma miséria de status social. Quem não conhece esses tipos? Estão hoje em dia em aparências diversas, mas a essência é a mesma: carreiristas em busca de grana e títulos funcionais. A alma empobrecida se alimenta das buscas materiais e dos papéis socialmente reconhecidos.

Patrícia, uma mulher discreta e que apenas busca fazer seu trabalho de maneira honesta, pouco se apena aos comentários e fofocas dentro do trabalho, a conheceu quando foi convidada para a coordenação das novas exposições de design da empresa. Áulia também foi colocada como uma das subcoordenadoras de exposições. A empresa, como nossa própria casa, tem dificuldade de fazer as mudanças internas com agilidade, e Patrícia teve que, antes mesmo de ser confirmada como coordenadora, reorganizar a exposição que ficou abandonada com a saída coordenadora anterior.
Enquanto apagava o incêndio deixado com a organização das exposições que nem havia organizado, Patrícia recebe um e-mail, enviado por Áulia, dizendo que ela era subcoordenadora e que não havia sido feita nenhuma reunião até aquele momento. E como subcoordenadora, ela frisava isso, tinha o direito de saber o que estava acontecendo. Patrícia, surpresa, se sentiu acusada de autoritária. “My God!, que estultice!”. Patrícia gostava do My god! Em inglês, era sua brincadeira, sua cena de cinema. O e-mail, sem nem ao menos ter conversado com Patrícia pelos corredores da empresa, foi enviado formalmente para todos os subcoordenadores e para os diretores da empresa.
Patrícia, apesar de educada, não era burra. Havia ali no e-mail a marca de pessoas que já foram imbecilizadas pela competição social, o que provoca uma demência nas regiões que controlam a sociabilidade. Havia uma afoita felicidade própria da idiotice contemporânea presente nas relações de trabalho. Patrícia agradeceu o e-mail e disse que estava fechando o trabalho anterior que estava pronto, não havia o que discutir, mas atrasado e as questões burocráticas para abrir as exposições precisava ser resolvidas, mas que gostaria muito da ajuda de todos os subcoordenadores.
Passado esse imprevisto e o fechamento das exposições anteriores, Patrícia marca uma reunião com todos os coordenadores, que pertencem a vários segmentos da arte-desgn. A maioria da área de informação-design e Áulia apenas da área de marcas-design. As pessoas ficam com o tempo com um perfil profissional. As marcas são aquilo que o consumidor conhece quando vê uma propaganda de um ótimo produto, acredita, compra e percebe que foi enganado, que o produto é um lixo. Áulia é um pouco como as marcas, mostram-se como as melhores do mundo, mas quando se começa usar só dá problema.
Na reunião, Áulia pediu a palavra e se disse com muito conhecimento sobre a coordenação de exposições, tem experiência, e que Patrícia deveria tomar essa, aquela e aquela outra atitude. Mas não só isso, disse que poderia fazer o projeto das novas exposições, a arte e o espaçamento. E não só isso, Áulia também disse que conhecia uma pessoa importante que poderia ser Curador e que queria uma carta assinada por Patrícia para convidá-lo e tantas outras tolices que todos na reunião acabaram por cortar suas intenções, etc etc etc. Quem a via falando, logo imaginava alguém interessada realmente em melhorar, participar. Mas o discurso de Áulia, para quem não é inexperiente, mostrava o viés competente-burocrata, cheio de formalidades que dão certa aparência de seriedade aos imbecis e uma óbvia intenção de determinar as coisas. Por trás de suas formas burocratas, havia a intenção de fazer as exposições ao seu jeito, independente das posições do seu chefe e dos outros subcoordenadores. Mas não houve nem a necessidade de Patrícia argumentar, os outros subcoordenadores rechaçaram as intenções partidarizadas de Áulia.
Feita a reunião, distribuíram-se as ações de cada subcoordenador para as próximas exposições. Apesar das estultices de Áulia, Patrícia esperava que todo aquele discurso competente traria alguns benefícios na seleção das obras, visto que era necessário apresentar um parecer sobre os vários segmentos. Dos subcoordenadores, bingo!, Áulia foi a única que fez um parecer bastante ruim, desinteressado, apressado e inconsistente. Patrícia então entendeu, havia um boçal entre os coordenadores. O boçal é alguém que não aceita a sua infelicidade e acredita que sua estupidez deve ser compartilhada, ou pior, deve ser imposta a todos. O boçal acredita deter a verdade como todos, mas a diferença é que sua verdade é uma forma de desrespeitar o outro. Como se ouve por aí, não existe meio boçal, o boçal é boçal completo. Mas ele não é um idiota, pois sua idiotice é seletiva na sociabilidade, ele reconhece as convenções sociais, mas simplesmente não respeita quando isso lhe interessa. Ele acredita que todos devem servi-lo e respeitá-lo, mas não tem inteligência e nem liderança para que isso se realize. No trânsito, por exemplo, é aquele sujeito que vem em alta velocidade dando sinal de luz para que os outros motoristas abram passagem imediatamente, ele acredita que a rodovia lhe pertence.
Áulia é o típico boçal, usa o discurso competente-burocrático, mas na hora de fazer as atividades sob sua responsabilidade se transforma numa negligente e incapaz profissional. Patrícia descobriu isso e descobriu mais algumas coisas. No sistema em que vivemos hoje há sempre um boçal onde quer que você esteja, há sempre um boçal na sua cola.

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Estou farto de farsantes. Eu sou capitalista, mas não sou idiota. Sim, acham que me iludo com essas assombrações do passado, com um medo infinito de um comunismo cego e autoritário como na China, onde os amigos do rei se tornam capitalistas. Sou um capitalista, mas não temo pela democracia.

Não me venham com fantasmas fascistas, nazistas, integralistas, monarquistas e outras tradições obscurantistas. Esse é o capitalismo dos fracos, dos avaros, dos pobres de espírito dos pequenos intelectos, dos medrosos. Capitalismo é liberdade, não terrorismo ideológico, retrógrado, enrustido.

É certo que não sou um grande capitalista, apenas uma média empresa, alguns imóveis, mas não me sinto no mesmo barco de banqueiros, grandes empreiteiros, grandes empresários. Tenho meus interesses e esses interesses não são os mesmos dos que querem definir seus negócios pela política, pelas mamas governamentais. Esses são os falsos capitalistas, os sugadores do Estado.

Meus negócios não são licitações, mas consumo, consumo de um povo e meu negócio precisa de um povo, de pessoas capazes de comprar o que distribuo. Preciso de salário e preciso de uma grande massa de consumidores, de pessoas que tenham casas, comida e algum dinheiro para comprar meus produtos.

Gosto de viver bem e de ter liberdade, liberdade de sonhar um empreendimento, não liberdade de ser submetido a fantasias da ultra-direita, que pensa apenas em diminuir os impostos dos mais ricos e taxar os pequenos empresários, dos que impedem todos os avanços de uma relação tributária mais justa e que permita que pequenos empresários possam ser mais competitivos.

Quero um país que possa taxar as grandes fortunas e diminuir os impostos de materiais importantes para alimentação, educação e saúde.  Por isso, não me venham falar de comunismo, estou farto. Aqui no Brasil nada tem o nome certo, os de nome de social-democrata são de extrema-direita, os de nome de trabalhador são social-democratas. Acertem os ponteiros, acertem os referentes, liguem o nome à coisa e não o nome à fantasia da coisa. Vamos dar o nome aos bois, aos fascistas, aos capitalistas, aos trabalhadores, vamos dar nome de mercado ao mercado, de capital ao capital, de imposto ao imposto.

Estou farto de tantos signos que não morrem, que renascem para ser meu representante sem ter voto algum, apareçam, surjam na sua cara mais feia e suja, mostrem a sua miséria, a sua dor. Não me representem. Estou farto. Já não bastaram as torturas, as mortes, o sangue interminável dos anos da ditadura.  Estou farto dos delinquentes que querem me representar e defender o meu dinheiro. Sei… Querem é manter o apartheid a ferro e fogo. Não preciso de vocês. Estou farto de farsantes.

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O título desse texto pode lhe parecer que sou uma mulher convencida e fútil, mas vou tentar explicar melhor e você verá que tenho razão. Sou simplesmente uma estudante e me sinto assediada por homens e mulheres que me rodeiam.

Sim, não tenho nada de especial, a não ser o fato de gostar de ler e estudar. Isso faz com que tire boas notas, o que causa certa insatisfação dos que estão ao meu lado. Claro que outros  também tiram boas notas, mas na verdade isso não é tão importante.

O problema é que sou assediada pelas colegas de classe porque capricho e faço de forma prazerosa todos os trabalhos em grupo. Ora, as amigas acabam por brigarem para fazer trabalho comigo. Certa vez pediram para que eu decidisse com quem gostaria de fazer o trabalho. Não aguentei e perguntei a mim mesmo: por que fazem isso?

Ora, tenho um certo defeito que também me prejudica no atual momento da história humana, que é simplesmente ter calma para escutar as pessoas. Sim, tenho paciência para ouvir. Isso também gera disputa entre minhas amigas, a ponto de certa vez duas amigas me pedirem para eu decidisse com qual delas queria ficar amiga, ou seja, para quem deveria dar ouvidos. Ora, não quero escolher, gosto de minhas amigas. Poderia mudar meu jeito, mas acho que é um pouco difícil. Sinto-me bem assim, a não ser quando acontecem esses contratempos.

Apesar de ser razoavelmente bonita, isto é, tenho um corpo com curvas que os homens gostam, cabelos do padrão preferido das revistas femininas e olho pequenos. Não há nada de muito especial, não pensem que estou me gabando, mas me descrevendo de forma bem simples e crua. Talvez se você leitor me encontrar na rua poderá dizer que sou bem mais bela do me descrevo. Não gosto de expor minha beleza, apesar de me sentir feliz com ela. Mas isso não é muito fácil.

Também não sou fácil para os homens, não fico gratuitamente com qualquer um, só por ficar. Vejo certa falta de autoestima nas mulheres de hoje. Gosto de escolher, decidir, pensar antes de ficar. Prefiro na verdade ficar sozinha a companhias duvidosas e repletas de cascas de machismo e preconceito contra a mulher.

Mas isso não bastou, homens sentem inveja de mim e do meu namorado. Sim, procuro ser discreta no meu namoro, mas não adianta. Elas e eles tentam investigar, descobrir, debulhar a minha vida como se eu fosse uma personagem do Big Brother. Vivemos uma sociedade onde os jovens já não têm qualquer capacidade de distinguir e respeitar o que é público e o que é privado. Fala-se da vida alheia como se fala da chuva que cai, do frio ou do calor.

Sei que isso pode lhe parecer que sou um pouco arrogante, mas perceba que não. Se você um dia já passou por algo parecido, com certeza me entenderá. É por isso que digo que homens e mulheres me disputam e isso me irrita profundamente.

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LÁGRIMAS NO CANTEIRO

À espera da noite, a janela do carro foi invadida, em todo o seu quadro, pelo choro incontrolável de Luíza. De repente, como se fosse o vento, o choro adentra e toma conta do meu rosto, do meu corpo.

Viro-me de repente para ver de onde vem aquele vento triste, aquele som interno, bruto.

A vi agachada no meio do canteiro da avenida, um canteiro estreito de grama, um metro talvez. Entre suas lágrimas abundantes a regar aquela terra infértil, os carros apressados, dos dois lados, num vai e vem incessante. A cidade e suas máquinas alucinadas no fim do trabalho, com pressa, como uma ordem, como uma regra, como um castigo.

O rosto de Luíza sobre o ombro de sua mãe, que também agachada e encolhida no meio do canteiro da avenida, observava os carros com um olhar de quem se pergunta perplexa por que nada mais para, nada mais é sagrado, nada mais é lento. Carros e ônibus as faziam sumir do campo de visão de qualquer lado. Vum, vupt, vum, vupt.

A um metro de distância, o pai de Luíza estava em pé no canteiro a aguardar o momento em que o choro acalmasse. Ali, atônito e ansioso, acreditava que em algum momento ela pararia de soluçar e soltar aqueles grunhidos de dor interna e inadiável.

E tudo isso não demorou mais do que um segundo. Ao voltar a cabeça para o para-brisa, aponta aquela mancha de sangue na pista, bem em frente às lágrimas, como se fosse uma estrela de sangue, vermelha, com respingos por todos os lados. Passei por cima e já não vi mais nada. Apenas no retrovisor Luíza sumia rapidamente e seu choro silenciava pela distância.

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UMA HISTÓRIA ENFADONHA, DE ANTON TCHEKHOV, É DE UMA BELEZA SINGULAR E ATEMPORAL

O conto Uma História Enfadonha, de Anton Tchekhov, é de uma beleza singular e que nos atordoa. Escrito em 1888, portanto, há mais de cem anos, a história é narrada pelo professor Nicolai, de 62 anos, que é um sujeito enfastiado com a vida, mas é um enfado racionalizado, descritivo, justificado.

A genialidade de Tchekhov está em vários momentos, principalmente na caracterização dos personagens, mas o que mais impressiona é sua narrativa sobre a forma como as pessoas vão se tornando desinteressantes e óbvias com o amadurecimento e com a vida adulta. O personagem Nicolai é sensato e parece descrever uma sensação de enfado que nos percorre no cotidiano.

Tchekhov trabalha sobre detalhes e fala um pouco de tudo, como se estivesse se desabafando com a Rússia do final do século passado. O personagem de seu conto critica quase tudo com muita sensibilidade e racionalidade: dos alunos à literatura, do teatro aos familiares. O que poderia ser um personagem chato e enfadonho, transforma-se na verdade em uma metáfora da realidade, diante de descrições que constroem espaços reais em nossa mente.

É lindo! E isso pode ser notado em pequenas comparações aparentemente absurdas como entre literatura e política. Diz Nicolai sobre si mesmo: “Nunca meti o nariz em literatura ou política, não busquei popularidade em polêmicas com ignorantes”

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CAMINHONEIRO FILÓSOFO: “TUDO O QUE SEI É QUE NADA SEI”

O caminhoneiro filósofo

Fisolosia de estrada (foto: Andre Kenji/cc)

A estrada também nada sabe (foto: Andre Kenji/cc)

Estava em uma estrada longa e sonolenta, quando avistou aquela frase a despertar a razão. A rodovia se estendia em uma reta e se podia mirar ao longe o sobe e desce da pista ou o tempo sendo consumido pela distância.

Parece que não havia fim e já não se podia, pelo retrovisor, enxergar o início.

Na verdade, sempre se começa pelo meio, como a nossa vida. Entramos, percorremos um trajeto, e depois abandonamos.

Naquela estrada, uma das poucas distrações eram as frases de caminhão, hoje já raras e sem graça.

Mas uma frase espantou-me porque me colocou diante de um caminhoneiro filósofo. No meio do sol forte do meio dia, o caminhão lentamente seguia e dizia: “tudo o que sei é que nada sei”.

O caminhoneiro seguia assim como a estrada, que também nada sabe, e precisa de placa para  se encontrar.

A GAROTINHA, A MÃE, A TELEVISÃO E A PUBLICIDADE QUE NOS FAZ ESQUECER

A Revolução não vai ser televisionada, de Giovana Pacini

foto: A Revolução não será televisionada, de Giordana Pacini

Uma garotinha de apenas cinco anos assiste seu desenho sozinha na sala. Ela gosta muito de desenhos do Pica-Pau, mas assiste à Madeline, Sagwa e outros da Futura.

Naquela tarde, ela apenas vê trechos de programas e comerciais em vários canais. A mãe chega na sala e senta ao seu lado, dá uma abraço e fica quieta já que os olhos da menina não piscam diante da tela.

A garota vê uma peça publicitária que, para variar, mostra belas imagens, pessoas lindas e diz um monte de coisas que, se forem conquistadas ou adquiridas, vão lhe dar uma vida melhor. “Faça isso, faça aquilo, tenha isso e aquilo e viva uma vida melhor. Isso vai melhorar a sua vida”, revela uma voz em off.

A garotinha que estava ali com os sentimentos abertos e sinceros não titubeia em dialogar e responder à televisão:

“Mas eu não quero uma vida melhor. Eu gosto da minha vida”.

A mãe se calou mais ainda e se encheu de orgulho, percebeu que a garotinha, vinda ao mundo há apenas cinco anos, vive feliz. A menina quase todos os dias chora, faz birra e reclama. Mas naquele momento a mãe percebeu que dava uma boa educação e que sua filha se sentia segura e completa. Não precisava de mais nada. Até de uma vida melhor.

A garotinha parece ter descoberto apenas pelos seus próprios pensamentos e sentimentos que a publicidade, muitas vezes, tenta nos criar desejos e necessidades que na verdade não precisamos. Isso os adultos sabem, mas vivem esquecendo.

Mas ela também deixou claro que a publicidade não nos faz só lembrar de um produto ou serviço; ela nos faz esquecer. Esquecer o que realmente somos, queremos ou precisamos.

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