Educação Política

mídia, economia e cultura – por Glauco Cortez

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A COPA DO MUNDO, DA DITADURA À DEMOCRACIA: 43 ANOS COM AS MESMAS FIGURAS NA LINHA DO TEMPO

Linha do Tempo

Por Luís Fernando Praguinha
Especial para o Educação Política

Rodrigo Lobo1970 – Brasil campeão do mundo no México com possivelmente a melhor seleção de futebol de todos os tempos. Eu dava meus primeiros chutes e já trazia no sangue, ainda intrauterino, a aptidão pra perna de pau que me acompanharia a vida toda.

Tínhamos como lemas, “Pra frente Brasil” e “Brasil, ame-o ou deixe-o”

Tínhamos também Pelé, Tostão, Rivelino, Gerson e outros cabeças de bagre.

Só pra lembrar, faz 43 anos… vou lembrar mais uma vez, faz 43 anos.

João Havelange era o presidente da CBF, Zagalo era o técnico da amarelinha, porque o bobo do João Saldanha não queria que generais escalassem seu time, Carlos Alberto Parreira era o preparador físico, José Maria Marin era nosso excelentíssimo deputado estadual, José Sarney era senador da república, então uma ditadura militar presidida pelo generoso general Médici, mas alguns subversivos afirmam que ele mandava torturar as pessoas. Eu não vi nada disso. O estudante Eike Batista faria 14 anos em 1970, que belo rapazola, mas não era coleguinha de um outro estudante comunista chamado Aldo Rebelo que tinha a mesma idade. Dilma Rousseff e meu avô, um jornalista subversivo, estavam na cadeia onde recebiam muitos presentes.

Falando em jornalista subversivo, em 1975, Vladmir Herzog foi encontrado suicidado na sede do DOI-CODI, mas isso não tem nada a ver com os militares nem com o Marin.

Antes, em 74, tivemos o carrossel holandês que a Alemanha brecou e nosso glorioso Havelange foi eleito presidente da FIFA, quanta honra!

Em 78 a Argentina, na Argentina, que também gostava das mesmas coisas que o Brasil, na época, ganhou uma copa que foi mesmo do Peru.

Em 82 vi jogar a melhor seleção que vi jogar, era um tempo em que ficávamos tristes quando a seleção perdia. Tinha também outro subversivo que se chamava Sócrates, e acho que foi por isso que perdemos.

Em 83 algumas pessoas quiseram eleições diretas, veja que desplante, mas não deu certo e em 85 o senador Sarney (incrível que ele ainda era senador, não?) virou presidente, o único civil durante o estado de exceção.

Em 86 perdemos outra copa e tive pena do Telê.
Em 89 o Ricardo Teixeira Genro do Havelange foi eleito presidente da CBF, elegemos também, finalmente, por meio do voto popular, um legítimo representante do povo, o Collor e logo mais, em 90, fizemos feio de novo com o Lazaroni.

Em 1992 as pessoas pararam de gostar do Collor e enxotamos ele de lá de uma vez por todas, mais ou menos.

Em 94, o Parreira virou técnico e o Zagalo assistente técnico e provamos que é possível ser campeão jogando feio e mal, mas com o Romário. Também elegemos Fernando Henrique Cardoso presidente, com uma história de militância esquerdista, mais ou menos, vejam vocês.

Em 98 o Ronaldo teve problemas e o subversivo Lula também, então elegemos o FHC novamente, com uma história de militância de extremo centro e o Havelange foi eleito presidente de honra da FIFA, quanta honra, e Joseph Blatter assumiu a presidência da entidade, preservando o mesmo jeitinho Havelange presidir.

Em 2002 os problemas do Ronaldo já tinham passado, graças ao Rivaldo, São Marcos e toda a família Felipão, aí ganhamos o penta, que honra. Nesta época Havelange e Ricardo Teixeira com muito esforço, trabalho e dedicação, já tinham conseguido engordar em muito seu patrimônio, administrando empresas sem fins lucrativos. Meu avô morreu pouco antes da final da copa. Neste ano o Lula conseguiu, graças ao meu voto, ser eleito presidente da república, desta vez sim, um legítimo representante do povo, uma mudança real, por isso, tudo mudou tanto assim.

Em 2006, interessante, acabo de notar que ano de copa é sempre ano eleitoral, coisas do destino, bem, em 2006, o Lula ganhou de novo, não graças ao meu voto, e o Brasil perdeu a copa na Alemanha com um elenco gordo de gordos salários, mas o que de pior aconteceu na copa da Alemanha foi a morte do gordo de humor, Bussunda. Também neste ano as pessoas se esqueceram de novo e o Fernando Collor voltou na figura de um voluptuoso senador.

Em 2010 perdemos na África do Sul, o Lula elegeu a Dilma, que já tinha saído da cadeia, o Romário, é, o Romário, foi eleito deputado federal para infernizar as defesas da CBF, mas o que de pior aconteceu naquela copa foi a vuvuzela e o estilo ditatorial militar do Dunga, quem diria, em plena democracia, mais ou menos.

Em 2012 Ricardo Teixeira renuncia à presidência da CBF por motivo de força maior que a transparência, e o José Maria Marin, aquele que mamava nas tetas da ditadura mas que não tem nada a ver com o assassinato de ninguém, entrou em seu lugar.

2013, quarenta e três anos depois, Jean-Marie Faustin Goedefroid Havelange, o João, renunciou à presidência de honra da FIFA sob acusação de receber propina junto com seu genro Teixeira, mas acho que eles jamais fariam isso, mas aí a própria FIFA divulgou documentos que provavam a corrupção, aí eu não digo mais nada, coitados.

Recentemente, olha que bacana, houve convocação para a seleção. Parreira e Marin lado a lado na bancada para a coletiva. O Parreira falava sobre a impossibilidade de liberar Dante e Luiz Gustavo, do Bayer de Munique, para jogarem a final da copa da Alemanha, pois o amistoso do Brasil contra a Inglaterra no Maraca… Maracu…, naquele estádio novo que eu não lembro o nome, de propriedade daquele estudante Eike Batista, era mais importante, afinal é o Brasil, ame-o ou deixe-o, Dante e Luiz Gustavo.

O Sarney continua senador, mas agora com o Collor junto. O estudante Aldo Rebelo virou ministro dos esportes da Dilma e ambos parecem compactuar com essa inércia.

Eu amo futebol, que lástima, hoje só não temos mais aqueles cabeças de bagre do terceiro parágrafo, o resto ainda temos. Eu amo o Brasil, não vou deixá-lo, fazer o que? Mas quem ama o Brasil não precisa amar a seleção da CBF, não precisa amar o Fuleco nem a caxirola, não deve amar o Parreira, quem ama o Brasil deve se decepcionar com o Aldo, com o Lula e com a Dilma, se quiser pode até ter medo deles, deve ter medo do Eike Batista, do Marin, do Havelange, do Teixeira, do Sarney, do Collor, mas aquele medo que só faz querer enfrentar sem subestimar, porque teremos que enfrentar.

Quem ama o Brasil tem nojo dessa cortina de fumaça que encobre podres tão evidentes. São 43 anos mandados pelas mesmas figuras nefastas que fazem de tudo para manter uma legião de miseráveis, ignorantes, incultos, iletrados que gostam muito de futebol.

Imagina na Copa. Pense na Eleição. Cogite a Revolução.

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INICIEI UM CURSO, UMA PÓS-GRADUAÇÃO EM SÃO PAULO, NA SEMANA DOS PROTESTOS DO MOVIMENTO PASSE LIVRE

Ai, meu Curso!

Por Luís Fernando Praguinha

Imagem:http://manskaoosin.blogspot.com.brIniciei um curso, uma pós-graduação em São Paulo, semana passada.
Ter ido a São Paulo e feito este curso, especificamente no fim de semana que passou, quando se iniciaram os protestos contra o aumento da tarifa do transporte público, tornará este texto único até o momento, pois mesclará seriedade e humor. Cheguei a pensar em colocar um (H) ou um (S) no final de cada frase pra etiquetar como humor ou séria pra pessoa saber se ri ou não, mas achei que seria superestimar a burrice de vocês, então, se você não me conhece bem e ficou na dúvida, é porque foi humor, se você me conhece e ficou na dúvida, é coisa séria.

Bem, em primeiro lugar, pegar metrô em Sampa na sexta-feira de manhã é para os fortes. Já, pegar metrô em Sampa na sexta de manhã e com paralisação dos ônibus, é pra quem abriu mão de sua dignidade em prol de um bem maior (ir ao curso), ou então a pessoa tá a fim mesmo é de dar o curso.

Sim, fui encoxado de formas que um homem casado jamais poderia imaginar ser permitido por lei. Isso abriu meus horizontes, abriu mesmo!
Também gostei que vi muita gente bonita no metrô, mas todos faziam careta, tirando um jovem com uniforme do São Paulo, devido ao desconforto do encoxamento coletivo.

Saí do trem me sentindo livre como um pássaro e cheguei ao curso com cheiro forte de gente.

Encontrei pessoas interessantes e achei todos muito divertidos e agradáveis, visto que não sou homofóbico, tirando um colega que se sentou ao meu lado e ficou fazendo caras e bocas o tempo todo, mas ainda tenho fé que seja tique nervoso.

Quanto ao curso em si, foi muito enriquecedor. É sempre bom lembrar que a ignorância é tão infinita quanto o que se tem pra aprender. Aprendi bastante e espero não me esquecer de nada (muito rápido). O mestre demonstrou conhecimento e prazer em ensinar (S), além de uma seriedade sem ter fim (H). Achei os coelhinhos suuuuper fófis, mas isso não quer dizer nada.

A volta pra casa era sempre muito desgastante, apesar de o metrô já estar menos lotado e eu só receber encoxadas quando o trem desacelerava, saber que ia dormir na casa do cunhado era um pesadelo.

Na superfície, quebra-quebra e protesto de ambas as partes. Populares quebrando o patrimônio e a polícia quebrando os populares. Populares protestando contra o aumento das tarifas e a puliça protestando quando um popular escapava da borrachada.

Eu acho muito errado as pessoas protestarem assim, porque, afinal de contas, já nos roubam há tanto tempo e tão mais que essa mixaria, tipo um Maracanã ou um Itaquerão (meu time não precisava dessa mancha) e a gente nunca reclamou. Nossas excelentíssimas autoridades não merecem passar por esse tipo de choque. Pode dar a falsa impressão de que o povo tem força, coragem e alguma organização e que pode ser apenas o começo de uma ação maior que venha a colocar fim à excelentíssima mamata. E que se não nos tratarem com mais dignidade, respeito e transparência, afinal não somos muito idiotas, poderemos nos mostrar muito poderosos, porque a água já chegou no pescoço. Mas é só uma falsa impressão. Ainda assim, cuidado conosco!

No último dia foi legal, domingão, metrô vazio, mas me afligia um sentimento de vingança que só pude decifrar quando uma velhinha se ergueu pra descer na próxima estação e eu me vi me colocando bem juntinho dela, naquele vagão cheio de espaço. Sim, eu precisava encoxar alguém também pra me sentir menos lesado.

Foi o dia da aula prática e me impressionou muito o carinho que todos demonstraram com os coelhinhos, principalmente eu, que já tinha descarregado toda minha agressividade na velhinha do metrô. Também me admirou a facilidade com os números e o domínio sobre as regras de três que as garotas demonstraram.

Voltei pra minha cidade de carona com um novo colega, o Mário, sabem qual, né? Um cara meio esquisitão que me incluiu numa carona que ele filava do primo. Foi bom que teve até serviço de bordo. Sou grato.

Estou ansioso pela próxima aula, aprender, rever amigos. E, sinceramente, espero que na próxima não haja violência, que haja mais organização e que tenha mais gente enfrentando os poderosos e dizendo basta!

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CRÔNICA DE UMA CABRA

Da Agência Educação Política

Uma crônica para discutir o nosso tempo! Creio que me faço um pouco audaciosa na empreitada! Também acredito que sozinha simplesmente não daria conta de tarefa tão nacionalista quanto humanitária! Por isso, peço aqui ajuda à cabra. Isso mesmo, caro leitor, à velha cabra iniciada na literatura pelo querido José Américo de Almeida em sua lindíssima novela, Reflexões de uma cabra.

E vem a novela de José Américo em momento bastante oportuno. Basta pensar que lá pelos anos de 1922, quando a novela ia publicada, as questões nacionais estavam quase que à flor da pele da nação. Queria-se não apenas construir uma arte genuinamente nacional que pudesse, enfim, adentrar os portões estrangeiros. Discutia-se também a formação de um tipo nacional, a pureza da raça, a superioridade do branco em relação ao negro e ao mestiço, a luta por uma sociedade eugênica, na qual os elementos inferiores fossem simplesmente eliminados para que os tipos robustos, puros e fortes construíssem a nação. E por aí vai. Alguns absurdos, alguns méritos, mais absurdos do que méritos vale dizer! Falava-se em modernidade, como se moderno fosse um conceito novo! De todo, queria-se enterrar um passado, mandar às favas um parnasianismo atrasado, um romantismo por demais lirificado, um realismo muito quadrado.

Esticava-se o pescoço na direção do mundo e para conquistar o mundo, eis que se fazia de extrema urgência construir o nacional. E o nacional se construiria a partir da metrópole com ares provincianos: São Paulo. Era dali que tudo saía, dali brotava o progresso, ali vivia o xadrez das raças, todos muito bem adaptados, abrasileirados. São Paulo era muito mais que café para os modernistas, era progresso, era a imagem do Brasil!

No entanto, vem nesse cenário, a intrometida cabra a dizer que não. Para ela, havia muita diferença entre São Paulo e o restante do Brasil e nessa diferença residia a descaracterização de tipos regionais. Sim, o regionalismo que Mário de Andrade queria compor com o nacional, aparece na novela da cabra por demais explicitado, por demais caracterizado. Transbordam as diferenças e, no fim, tudo aquilo de moderno, tudo aquilo de nacional, vira apenas uma perda de identidade melancólica e arrastada.

A cabra de José Américo viu a descontrução do próprio homem, para citar o novelista dos tempos modernos “se ela soubesse latim, teria dito, simplesmente: ECCE HOMO. E definiria a novela. E interpretaria a psicologia do homem versátil e ambicioso que renunciara à religião, à família, à gleba, ao amor, à gratidão, ao próprio nome e acabava de renunciar à derradeira e profunda impressão de sua infância.

E olho para os tempos atuais. Não sei se conseguimos ser mais nacionais. Continuamos desiguais, muitos continuam a se descaracterizar. Talvez, não haja mais tal problema do nacional, tudo parece uma grande massa inserida dentro de um contexto maior. Mas as lutas continuam. As artes, a política, os tempos de democracia ainda tentam descobrir esse Brasil, ainda tentam encontrar o tipo nacional. Neste ponto, perco-me um pouco. Peço humilde, ajuda à cabra que terminará esse devaneio quase patológico.

Não vou sair neste ponto colocando a cabra a falar, mas creio que todos os animais pensam, e na reflexão a cabra parece dizer, ajudando a dar o tom final desta perdida crônica:

– Se ainda há o nacional, está cada vez mais difícil fazê-lo aflorar. Estamos em tempos decisivos, vejo já o horizonte de mais uma convocação popular para ditar os rumos da nação, digo eleições, como vocês chamam.  Há que se ter cuidado. De uma coisa todos aqueles modernistas tinham razão: a história caminha pra frente, os ideiais devem ser de mudança, de luta e insatisfação, mas saibam distinguir os homens dos próprios homens. Ainda que eu já tenha perdido minha esperança neles, é este o conselho que vos dou!

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