Educação Política

mídia, economia e cultura – por Glauco Cortez

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Depois de 12 anos de governo federal do PT, Leonel Brizola e Darcy Ribeiro se tornam mitos

Depois de 12 anos de Dilma Rousseff e Lula, ambos do PT (Partido dos Trabalhadores) no governo federal, é inegável não perceber a falta que Leonel Brizola e Darcy (Continue…)

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Relatos Selvagens, filme argentino, é com certeza um dos melhores do ano

O Cine Topázio, que deve fechar as portas no Shopping Prado, em Campinas, está exibindo provavelmente o melhor filme do ano. O longa argentino Relatos Selvagens, de Damián Szifron, expõe o ser humana More…

PSDB e PSB criam em São Paulo o ‘Assistencialismo Erudito’

APAGÃO DA CULTURA: O PROBLEMA DO GOVERNO DILMA NÃO ESTÁ NA INFRAESTRUTURA, MAS NA SUPERESTRUTURA

Uma das dificuldades da oposição ao governo federal é a incapacidade de entender os reais problemas do governo da presidenta Dilma Rousseff. A oposição só ataca onde Dilma Rousseff acerta. Esta semana mesmo só saíram números positivos: inflação sob controle, reservas cambiais em alta, obras do PAC em andamento, investimentos etc etc.

Assim que saem as notícias boas da economia,  vem a oposição e afirma que Dilma Rousseff não sabe investir em infraestrutura, que há descontrole, perigo, a economia vai mal etc.  Com uma oposição dessa, não precisa de base aliada. Dilma vence sozinha as próximas eleições. É inacreditável, mas eles (coloca a Marina Silva junto) negam a realidade para criticar o governo.

Mas Dilma tem um ponto fraco, que está blindado pela incompetência da oposição. A oposição não enxerga que o problema de Dilma Rousseff não é a infraestrutra, mas o retrocesso na área cultural e educacional em relação ao governo Lula. Claro que não se compara ao governo FHC, que foi na verdade um desgoverno. Mas com relação ao governo Lula, a questão cultural foi jogada no lixo.

Exemplos não faltam, a começar com o Ministério da Cultura que com Ana de Hollanda praticamente destruiu todos os avanços da gestão anterior. Marta Suplicy assumiu, mas trabalha dentro da perspectiva da direita civilizada, com subsídio ao acesso à cultura mercantil. Outro exemplo é o ciência sem fronteira, que foi bloqueado para as ciências humanas. É um governo tacanho na área cultural e os números começam a aparecer.  Parafraseando o PIG (Partido da Imprensa Golpista), há um apagão na superestrutura.

Acabou o sonho e a fantasia de construir um país de cultura horizontalizada que era mais ou menos alimentada e fomentada no governo Lula com avançadas políticas de software livre, direitos autorais flexíveis etc. Talvez por isso os protestos recentes tenham tido tanto sucesso. Dilma cumpre a agenda da oposição, que é a infraestrutura, e sem o patamar de real transformação social, que é a cultura.

A pesquisa que acaba de sair mostrando que os trabalhadores do setor cultural diminuíram nos últimos cinco anos expõe em números os graves problemas do governo Dilma Rousseff (PT), mas que são apagados no debate político. O número de trabalhadores do setor cultural caiu 12,6% entre 2007 e 2012. Os dados são do Sistema de Informações e Indicadores Culturais, apresentada hoje (18) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

“A população ocupada na cultura era 4,2 milhões em 2007 e passou para 3,7 milhões em 2012, enquanto a população ocupada no Brasil passou de 89,9 milhões para 94,7 milhões no mesmo período (aumento de 5,3%). A participação da cultura na população ocupada caiu de 4,6% em 2007 para 3,9% em 2012. Os dados foram extraídos da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad).”

O descaso cultural ou insensibilidade política para fomentar a arte e a cultura agora aparecem em números. Mas a infraestrutura vai bem. Veja os números do PAC2, melhores do nunca.

PARA AQUELES QUE (NÃO) ENTENDERAM ULISSES

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Por Maura Voltarelli
Especial para o Educação Política

Ulisses, de James Joyce, é um dos romances mais importantes da literatura moderna. Talvez por isso também seja um dos mais difíceis. A jornada de Leopold Bloom pelas ruas de Dublin que começa de manhã, quando ele está saindo para o trabalho, e termina à meia noite do mesmo dia 16 de junho de 1904, surge diante dos leitores como uma epopeia complexa, onde os fluxos de consciência, as mudanças de espaço e tempo, as experimentações com a linguagem, atuam em conjunto para reforçar a densidade da narrativa.

No entanto, o clássico de James Joyce segue fascinante e instigante por diversos motivos. Mesmo complexo, o romance atrai os leitores pela ousadia de compor uma “odisseia moderna”, onde os capítulos fazem referência aos cantos do clássico texto atribuído a Homero, e também pela beleza das cenas narradas, pela estética totalmente original da obra, e pelo belíssimo último capítulo onde o monólogo de Molly Bloom, a nova Penélope, ganha forma em níveis altíssimos de expressividade do feminino e do humano em suas angústias e esperas.

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Por tudo isso, e para aqueles que compreendem e não compreendem o Ulisses, de Joyce, mas, principalmente, para continuar colocando essa obra literária em movimento, o norte-americano Robert Berry adaptou, com a ajuda de Josh Levitas, para a graphic novel Seen a obra joyceana. Seen foi desenvolvida para ser uma plataforma exclusivamente on-line. O objetivo do criador da versão em quadrinhos do romance é fazer com que ela acompanhe a leitura da obra, servindo de guia, de facilitador ou simplesmente de complemento.

Dessa forma, para os que leram o romance, para os que não leram, ou para aqueles que abandonaram a leitura, a versão em quadrinhos surge sempre como uma alternativa que não substitui a obra, mas que a recria em diferentes suportes sempre bem vindos.

Até agora quatro capítulos foram lançados na internet. O trabalho deve estar completo até 2022, totalizando 2300 páginas de quadrinhos. Depois de tantos desenhos, o mistério de Ulisses ainda deve persistir, no entanto, ele ao menos estará contaminado de uma boa dose de humor e novos símbolos, de modo que teremos um Bloom ainda mais múltiplo e uma Molly ainda mais fascinante!

Confira nesta link os capítulos já publicados:

http://jamesjoyce.ie/category/ulysses-seen-graphic-novel/

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“EU SOU UMA ESCRAVA DO FORA DO EIXO”: O RELATO DE DRÍADE AGUIAR, SOBRE BEATRIZ SEIGNER

Veja abaixo a resposta de uma das integrantes do Fora do Eixo a Beatriz Seigner, no texto Fora do Fora do Eixo.

Eu sou uma das escravas do Fora do Eixo

Fora do Eixo

Dríade Aguiar, ao centro

Você que vai ler este texto provavelmente não me conhece. Eu sou a Dríade Aguiar e tenho 23 anos. Sou negra e nasci na periferia de Cuiabá. Hoje moro na Casa de Brasília, vivendo o Fora do Eixo, grupo ao qual pertenço desde os 16. Por dois anos morei na Casa de São Paulo, onde conheci e convivi por quase um ano com a Beatriz Seigner. A quem eu já tive como uma amiga.

Faz vários dias que estou escrevendo este texto. E pensando se devo ou não publicá-lo. Depois de tudo que tenho visto nos últimos dias, decidi que não vou ficar mais com essa angústia guardada só pra mim.

Eu sou uma das escravas do Fora do Eixo. A Beatriz não, ela é alta, branca, bonita e vem de uma família de elite. Por isso ela pode escolher. Ela sabe o que quer. E por isso pode dizer que eu sou apenas uma escrava que segue ordens de um líder de uma seita. Por isso talvez em breve ela apareça na capa da Veja, como a moça corajosa que denunciou os bárbaros do Fora do Eixo. E salvou os escravos que agora poderão ser seus assalariados, no máximo assistentes de sua direção.

Tô impressionada como algumas pessoas passaram a nos atacar a partir de um relato repleto de invenções fraudulentas de alguém que eu ja achei que foi parceira. De alguém com quem trabalhei lado a lado por quase um ano de graça, sem receber nada dela, fazendo planos de comunicação pra divulgar seu filme e ajudando a agendar exibições. E ao mesmo tempo, quando ela ficava tempo o suficiente perto, dividindo pensamentos, ouvindo música, fazendo rango e planejando junto.

A Beatriz entrava na nossa casa na hora que bem entendia. E ficava o quanto desejava. Quem conhece nossas moradias coletivas sabem que elas são abertas, que tem sempre um monte de gente nelas. Que todos podem entrar e sair a qualquer momento.

Aliás, a Beatriz não fala no texto dela, mas ela teve uma relação com um dos moradores. Não era um namoro, era um outro status, mas teve. E agora ela e a Laís vêm dizer que quem mora na casa do Fora do Eixo só pode ficar com quem é de lá. Como assim? Ela não era da casa e ficava com um morador de lá. Mas isso não interessava dizer. O que importavam era nos transformar em monstros.

Como alguém pode ter guardado tanta mágoa e não se incomodar nem um pouco em mentir loucamente pra acabar com um projeto? Um projeto de vida. Sim, eu vivo no Fora do Eixo porque eu quero, porque gosto, porque tenho feito coisas que nunca faria se não estivesse nele.

Já li muitas vezes o seu texto Beatriz. Umas quinze, vinte vezes. E sempre paro no ponto onde você nos chama de escravos pós-modernos. Se alguém escravizou alguém nessa história foi você. Eu investi minha força de trabalho, trabalhei pra você sem cobrar nada pensando que éramos parceiras, que estava construindo algo pro cinema e pros cineclubes brasileiros.

Você tem coragem de dizer na minha cara que eu não dei um duro danado para divulgar o seu trabalho? Tem coragem de dizer na minha cara que não éramos parceiras? Tem coragem de dizer na minha cara que eu não fiz um plano de comunicação que levou o seu filme a ser exibido em lugares que ele nunca iria passar nem perto?

Eu adoraria poder te dizer um monte de coisas frente a frente. Se você é tão corajosa assim pra nos difamar, pra nos chamar de escravos, porque você não aceita um debate franco sobre o nosso projeto de cultura? Porque não expõe de forma clara sua lógica financista de cultura? Porque não diz claramente que se acha artista e que por isso tem que ganhar muito mais que eu pra manter seu status quo?

Beatriz, você poderia ser mais honesta. Poderia dizer que tudo que você decidiu “denunciar” não tem a ver só com o que fazemos ou com o que você diverge das nossas propostas. Tem a ver com outras questões subjetivas. E você misturou tudo pra tentar acabar com um projeto.

Você está sendo mimada e egoísta, Beatriz. Pense nisso. E como você tá dizendo que não debate com o Pablo, que tal debater comigo? Que sou apenas uma escrava. Uma escrava pós-moderna.

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AS NOITES BRANCAS DE DOSTOIÉVSKI NO MUSEU LASAR SEGALL

Imagem: Divulgação

Lasar Segall (1891-1957). Dostoiévski, c. 1927. Xilogravura sobre papel. Coleção Museu Lasar Segall/Ibram/Minc

Por Maura Voltarelli
Especial para o Educação Política

As palavras escritas muitas vezes precisam se completar em imagens. Talvez por um movimento natural de ganharam plasticidade, vida, uma certa materialidade para além do infinito da imaginação.

Grandes escritores, com densos romances, repletos de personagens ambíguos e fascinantes, são capazes de gerar representações únicas. É o caso do escritor russo Dostoiévski que teve algumas de suas histórias ilustradas por grandes nomes do expressionismo alemão e também por artistas brasileiros como Oswaldo Goeldi e Lasar Segall.

Uma exposição chamada “Noites Brancas: Dostoiévski ilustrado”, com curadoria do professor de Teoria Literária e Literatura Comparada da USP, Samuel Titan, ficou em cartaz no Museu Lasar Segall, em São Paulo, com o objetivo de aproximar do público diversas gravuras e desenhos feitos a partir da obra do autor de Crime e Castigo e Os Irmãos Karamazov.

Foram reunidas 44 obras de 22 artistas que não se centram apenas nos romances mais conhecidos de Dostoiévski. Lasar Segall e Otto Möller, por exemplo, retratam em seus desenhos a novela Uma criatura dócil, de 1876.

Em todos os desenhos, apesar das especificidades de cada um, o curador lembra ser constante a presença do preto e do branco, por isso o nome para a exposição, “noites brancas”. Ao mesmo tempo, noites brancas parece ser uma inteligente metáfora para a obra do escritor russo, que mergulha nas trevas da sociedade e do homem, da espiritualidade e do amor, para depois trazê-las à tona.

As figuras são noturnas, dão a impressão de conduzir para regiões de sombra, não muito distantes das recordações, dos crimes, do subsolo, das criaturas sem nome que Dostoiévski coloca diante de nós e que agora podemos ver em novas representações de artistas que viram em sua literatura diversos motivos para continuar recriando-a.

Xilogravura de Oswaldo Goeldi

Xilogravura de Oswaldo Goeldi

Oswaldo Goeldi também reforça o tom noturno da exposição com gravuras das quatro edições ilustradas – O idiota, Recordações das casas dos mortos (1862), Humilhados e ofendidos (1861) e Memórias de um subsolo – que o artista fez em 1944 para a editora José Olympio, no Rio de Janeiro.

Entre artistas alemães e brasileiros, as gravuras parecem nos revelar outros detalhes, elementos e tons do escritor russo de interpretações inesgotáveis.Uma forma de lê-lo além das páginas da literatura e da crítica.

O ciclo Dostoiévski e o cinema, que conta com a exibição dos longas Os irmãos Karamazov (1958), de Richard Brooks, Crimes e pecados (1989), de Woody Allen, Partner (1968), de Bernardo Bertolucci, Nina (2004), de Heitor Dhalia, entre outros, continua aberto ao público até 25/08.

Serviço:

Dostoiévski e o cinema
Onde:
Museu Lasar Segall – Rua Berta, 111 – São Paulo (SP)
Quando: 03/08 a 25/08, sábados e domingos, às 14h
Quanto: gratuito
Info.: (11) 2159.0400 ou http://www.museusegall.org.br/


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MÍDIA NINJA NO RODA VIVA É UM EXEMPLO DA DIFICULDADE DOS JORNALISTAS DE ENTENDER A REALIDADE PÓS-PROTESTOS

Mídia NinjaA entrevista de Bruno Torturra e Pablo Capilé no Roda Viva é um exemplo vergonhoso de como é feito o jornalismo da grande mídia. No início houve uma tentativa de entender a Mídia Ninja e o Fora do Eixo.

Depois, sem entender, começaram as perguntas persecutórias porque o movimento teve algum financiamento de edital público.

Insistem no dinheiro do Fora do Eixo. É a lógica do pensamento mais reacionário e cínico que se resume ao lema: “ha…ha… vocês também gostam de dinheiro”. É algo bem baixo, mas é um espelho vergonhoso do nosso conceitual de jornalismo.

Assista o vídeo abaixo e perceba a dificuldade presente nos conceitos dos entrevistadores. Em certo momento, o apresentador, Mário Sérgio Conti diz que a resposta dos integrantes do Mídia Ninja é evasiva porque ele, entrevistador, não conseguiu enquadrá-la nos seus conceitos. Outro diz que o sistema deles é muito sofisticado, que tem algo por trás disso….

No entanto, vale a ousadia do Roda Viva, que ganhou algum ar nos últimos tempos de jornalismo. No entanto, o programa tende a se tornar medíocre com a saída de Mário Sérgio Conti e a entrada do franco atirador da Veja, Augusto Nunes.

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"O detetive selvagem"

“O detetive selvagem”

Por Maura Voltarelli

Especial para o Educação Política

Há dez anos morria o escritor chileno Roberto Bolaño. Se hoje, Bolaño é um dos escritores latino-americanos mais importantes, mais estudados e comentados, não era assim na ocasião de sua morte e durante a sua vida. Como gostava de dizer a respeito da natureza do trabalho do escritor, Bolaño encarnou como ninguém a figura do escritor exilado, ao qual se impõe de alguma forma o exílio. Este sempre existiria quando se é escritor, segundo ele, mesmo sem sair de casa. Seriam os escritores sempre “exilados de si mesmos”.

Mesmo sendo cada vez mais estudado e lembrado, as imprecisões sobre a obra do chileno ainda persistem. “O suposto vício em heroína, o relevo indevido aos Estados Unidos como suposta instância fundamental para sua consagração literária, a incompreensão do caráter intrinsecamente inconcluso (infinito) de sua obra”.

Bolaño parece permanecer, e talvez fosse esse mesmo o propósito de sua literatura, cercado por sombras. Sombras que são inerentes à literatura, sempre a recriar e prolongar fantasmas em nossa imaginação que se projetam sobre a realidade. No caso de Bolaño, a sombra é reforçada pela metáfora do detetive, tão utilizada para falar do escritor.

Tão utilizada e tão pertinente. Bolaño encarna de fato a figura de um detetive que vasculha os crimes cometidos na América Latina e faz reverberar esses crimes numa escala mundial e cada vez mais ampla, enfrentando todos os fantasmas, sejam eles íntimos ou sociais. Sua literatura é uma denúncia dos horrores, mortes e perdas da ditadura, e é sempre uma esperança, embora seja essa esperança, como diz um belo título de um de seus livros, uma “estrela distante”.

Abaixo, um documentário sobre Bolaño, onde ele é comparado, pela vida e pelo tom de sua obra, aos escritores malditos.

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"O Impossível"

“O Impossível”

Por Maura Voltarelli
Especial para o Educação Política

O Impossível. Duas criaturas estranhas, um homem, uma mulher, desenho de seios, costas, pernas, formas distorcidas, quase derretidas. Uma atração e, ao mesmo tempo, uma repulsa mútua. As garras lançadas anunciam a tragédia do contato. Mergulha-se na violência da impossibilidade de qualquer relação carnal, pois anuncia-se a iminência do perigo.

Formas ousadas, sensuais, ancestrais. Assim é a arte da escultora brasileira Maria Martins. Com prestígio no cenário artístico nacional foi no exterior, entretanto, que sua arte mais se destacou, sendo logo “adotada” por um movimento que se reconheceu nas suas formas livres: o surrealismo.

De volta ao cenário nacional, Maria, que também foi escritora, desenhista, pintora e musicista, ganha uma mostra no MAM (Museu de Arte Moderna de São Paulo) do dia 12 de julho  a 15 de setembro de 2013. Sob curadoria da escritora e pesquisadora Veronica Stigger, que possui estudos sobre a obra de Maria Martins, a mostra do MAM é uma das maiores já realizadas sobre a artista. “São mais de 30 esculturas, a maioria em bronze, distribuídas em cinco núcleos – Trópicos, Lianas, Deusas e Monstros, Cantos e Esqueletos -, que são determinados mais pela comunicação formal do que propriamente por uma ordem cronológica. A exposição reúne também livros, artigos, obras bidimensionais em papel e cerâmicas de parede”.

A mostra, cujo nome é “Metamorfoses”, procura mostrar justamente o que muda no decorrer do trabalho da artista. A grande mudança, de um núcleo a outro, vai sendo a representação dos corpos. De nítidos e separados de outros elementos, como a natureza, eles vão, cada vez mais, confundindo-se com eles, borrando-se dentro e fora de si, até que, na utopia da forma final, resta apenas o esqueleto. Na série “Cantos”, há uma referência  aos cantos de Zaratustra, de Nietzsche.

São metamorfoses que, de certa forma, também foram acompanhando a vida da artista. Filha de família tradicional, Maria Martins casou-se, pela segunda vez, com o embaixador Carlos Martins, com quem mantinha um relacionamento aberto. Vivia sob certa dualidade. De um lado, o tédio dos papéis sociais da mulher do embaixador, de outro, desejos insaciáveis, uma vontade de vida e liberdade apenas confessada em suas obras, e que transparecia em alguns episódios como o romance com Marcel Duchamp, marcado por uma impossibilidade de contato retratada na escultura “O Impossível”, e também em obras do próprio Duchamp.

Maria Martins

Maria Martins

Maria Martins teria feito coisas impensáveis para uma mulher de sua época. Corpórea, inteligente, livre, a forte personalidade da mulher parece ter se refletido na obra. Por isso os traços tão fortes, a ferocidade do domínio da forma que interroga o próprio domínio, o caráter selvagem inerente ao primitivo. Suas esculturas gritam enquanto mudam. E fazem gritar algo em nós. Algo antigo.

Definida, por ela mesma, como “o meio-dia pleno da noite tropical”, sua obra mergulha no tropicalismo sendo, ao mesmo tempo, de dentro da noite o ponto máximo de luz. Os trópicos têm, neste sentido, um papel decisivo, também conferem o calor, a vivacidade, a energia de suas formas e personagens.

Uma artista ainda por se descobrir e uma artista a ser redescoberta, cuja arte, de tão inovadora, não se enquadra em nenhum movimento artístico. A mostra do MAM pretende quebrar o silêncio recente em torno da artista, atuando em favor dessa redescoberta mais do que necessária. Silêncio que Veronica atribui a um certo preconceito.

“É uma reação à maneira como ela expõe aquilo que, na mulher, a sociedade gostaria que permanecesse escondido, como o desejo, ou a vulva”, diz a curadora. “Não se perdoa uma mulher por ser inteligente demais, corpórea demais, livre demais –ainda mais tudo ao mesmo tempo.”

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Imagem: DivulgaçãoPor Maura Voltarelli

Especial para o Educação Política

Em tempos de protestos pelas ruas do país, de insatisfações generalizadas e muitas vezes não tão distinguíveis entre si, certas personalidades revolucionárias de nossa cultura ocidental merecem ser lembradas, ou ao menos deveriam ser, por tudo que representam de clareza, força e vocação pela luta em prol de uma maioria quase sempre excluída socialmente, politicamente e culturalmente.

O filme “Rosa Luxemburgo” (Die Geduld der Rosa Luxemburg) da diretora alemã Margarethe von Trotta, que possui no seu currículo a filmografia de outras mulheres singulares da cultura alemã, como Hildegard von Bingen e Hannah Arendt, conta um pouco da história desta revolucionária de origem polonesa a partir, principalmente, das cartas de Rosa, algumas delas reunidas no volume “Rosa Luxemburgo: cartas. Vol. 3”, da Editora Unesp.

Conhecida por sua militância política de esquerda, pelo questionamento que realizou da própria teoria marxista, pelos discursos fortes e contundentes, e pela luta em prol daquilo que chamou de “social democracia” em favor de um governo que fosse realmente do proletariado, Rosa era muito mais do que a “rosa vermelha”, temida por muitos, entendida por poucos.

Complexa na sua vida política e pessoal, Rosa nunca deixava de questionar os sentidos da sua própria atividade, batendo muitas vezes de frente com os líderes do seu movimento, nunca aceitando a violência pela violência, o protesto pelo protesto. O sentido da causa deveria ser claro e esse sentido era eternamente o sentido da liberdade.

Seguindo esse impulso na direção da liberdade, Rosa foi contra a participação da Alemanha na 1º Guerra Mundial, rompendo com o Partido Social Democrata que, em certo momento, passa a apoiar o militarismo. Funda então com alguns amigos a “Liga Espartaquista”, um nome que, inspirado no grande líder da revolta dos escravos, já anuncia a questão central da liberdade e da luta contra o autoritarismo no qual vinha se convertendo parte da experiência socialista da época.

Imagem: Divulgação

Além de todas essas questões políticas, inspirado nas suas cartas de tom fortemente pessoal, o filme busca mostrar uma Rosa mais íntima entre um discurso e outro, uma Rosa onde, do começo ao fim, transborda justamente o sentimento de liberdade e o espírito revolucionário: confiante e alegre.

Rosa era a menina que, quando criança, queria ver o instante em que o botão de rosa iria desabrochar, não queria perder o tempo do milagre. A menina que ensinava a empregada de sua casa a ler e a escrever, pois estas eram (ou deveriam ser) as coisas mais importantes na vida de alguém.

Quando mulher, Rosa era a moça apaixonada, sempre forte, de irretocável caráter, dividida entre a causa e a vida pessoal (de mãe, esposa), entre a cidade em convulsão e o campo calmo e constante. A mulher que, de prisão em prisão, mesmo sendo privada constantemente de sua liberdade, nunca desanimou da promessa de uma vida mais libertária, protegida de todo e qualquer autoritarismo.

Morta de forma covarde, por militares da extrema direita alemã, precursores daquela que viria a ser futuramente a experiência nazista, Rosa, de certa forma, sobreviveu. Pois não há como falar em liberdade, luta contra qualquer tipo de opressão, e em mais “sentido de coletividade” nos dias de hoje, sem lembrar daquela que nos mostrou, de inúmeras formas, como essa luta é difícil, mas como também vale a pena cultivá-la a cada dia, ainda que seja pelos subterrâneos, transformando cada instante em um espaço de construção, afinal, como ela diz em uma de suas cartas, devemos viver a beleza de cada dia, pois este dia jamais voltará.

Abaixo, o filme completo:

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Iluminura: as visões de Hildegard

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Por Maura Voltarelli

A Idade Média, período que teve início por volta do século V e se estendeu até meados do século XV, não foi, como já se sabe, apenas um período de trevas e obscuridade para o conhecimento humano. Pelo contrário, a Idade Média foi um período decisivo para o conhecimento humano, de amadurecimento da vasta cultura grega que o precedeu e de preparação de um dos maiores movimentos artísticos da história do homem: o renascimento.

Impregnada por um extenso controle religioso da vida, dos hábitos, da moral, a Idade Média guarda histórias incríveis que não cessam de ser descobertas. Não se sabe muita coisa sobre elas e isso aumenta ainda mais o mistério das histórias medievais. Mistério que é também potencializado pelo misticismo do período, pelo cenário das catedrais silenciosas, dos cantos religiosos, dos cultos pagãos que resistiam. Para a mística, a Idade Média é um lugar farto, pois nenhum período esteve tão próximos dos gregos e, ao mesmo tempo, tão distante deles.

O interdito, o proibido, a ideia do pecado e, não obstante, o desejo de liberdade, de conhecimento que continuava a sussurrar nas fendas das catedrais, fez com que histórias como a de Abelardo e Heloísa, por exemplo, fascinassem gerações.

Assim como a imagem de Heloísa, filósofa e escritora, mulher com vocação para a liberdade que foi vítima das inúmeras repressões do período, uma outra mulher, da qual se sabe menos ainda, fascina pelo talento da inteligência, da perspicácia, da vontade de independência da mulher em uma época onde as correntes eram tão apertadas.

Hildegard von Bingen teria nascido em 1098 e foi uma escritora, compositora, abadessa beneditina, visionária e profundamente ligada às vertentes místicas do cristianismo. Conhecida por suas visões, algumas resultantes de fortes dores de cabeça, Hildegard teria escrito além de textos de botânica e medicina, cartas, sons litúrgicos e poemas que eram transformados em belíssimas iluminuras, produção artística de grande importância no contexto da arte medieval. Muitas iluminuras mostram Hildegard recebendo alguma visão e ditando-a a um escriba.

Sua atividade junto às outras mulheres da época também foi bastante expressiva, tendo ela, inclusive, fundado um monastério do qual só as mulheres faziam parte. A vida monástica de Hildegard é cheia de sombras, zonas misteriosas e indeterminadas, como muito do que se conta sobre o período medieval. Mas, justamente por isso, é tão fascinante, fascínio que só aumenta diante do fato de poucos conhecerem a sua história ou sequer já terem ouvido falar dela.

Nestes vídeos segue um pouco da música mística de Hildegard:

Há também um filme, dirigido pela Margarethe Von Trotta, sobre Hildegard. Segue o trailler:

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Por Maura Voltarelli

Andando pelas galerias de exposições do Memorial da América Latina, em São Paulo, depois do primeiro maravilhamento provocado pelo incrível desenho das curvas, pelo espaço aberto, pela liberdade e força das formas, meus olhos pararam diante de imagens a primeira vista desconhecidas.

Elas estavam reunidas em uma exposição que celebrava o 1º de maio, dia do trabalhador. E tinham todo propósito de estarem ali. Na singularidade do branco e preto, percorri diversos retratos de rostos, olhares, lugares, realidades.

A perfeição do retrato, a exatidão do instante fotográfico e o toque jornalístico saltava para fora das imagens. Carvoeiros, a seca, o homem, a terra, trabalhadores de todos os tipos, crianças, família, velhos, lugares, gente sozinha…

Em uma das imagens lembrei-me de olhar o nome de quem tirara aquelas fotografias: João Roberto Ripper. Só agora, pra fazer esse texto, fui ver quem era, onde tinha nascido. Nasceu no Rio de Janeiro, trabalhou como repórter fotográfico.

Mas João Roberto Ripper parece ser, antes de tudo, a sua fotografia, por isso, quando olhei os retratos, já o conhecia. Um trabalho extremamente social e que diz respeito ao homem, diz respeito à humanidade.

Mistério. As belas fotografias de Ripper são um mistério. Porque há qualquer coisa nelas de lírico e de forte, de poético e de pedra, de sombra e de luz, há uma estética perfeita e há o momento em que não se pensa na estética, onde ela simplesmente acontece sozinha. Imagem: http://imagenshumanas.photoshelter.com/gallery/Carvoeiros/G0000WvCUpV3nLkE/

Um sortilégio que captura o ato no espaço da denúncia que emociona. Talvez porque vi ali muito de nossa miséria, muito de nosso abandono. Ripper me causou uma solidão e ao mesmo tempo uma esperança. Um dos retratos de repente surpreendeu-me em lágrimas e foi a primeira fotografia (tirando as minhas que carregam todas as minhas dores e o peso da dita memória) que me deixou daquela forma, diante da imagem de um menino.

Ele trabalhava, tão triste, tão sozinho, em uma de nossas tantas minas de carvão. Seu olhar….até agora não consigo explicar e quem são as palavras? Não, elas não dão conta da vida, e era vida o que havia ali. Pura vida, de que talvez só mesmo a arte dê conta.

Imagem: revistacontemporartes.blogspot.com

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IDEIA DO AMOR, IDEIA DA MORTE, POR GIORGIO AGAMBEN

Ideia de Agamben

Ideia de Agamben

Por Maura Voltarelli

O filósofo italiano Giorgio Agamben ficou conhecido pela sua frase com forte teor polêmico, “Deus não está morto, ele virou dinheiro”. Mas Agamben já era e é, antes de tudo, o filósofo da poesia. Em seus textos, a poesia sempre é refletida a partir de um lugar elevado, sempre é posta em movimento e, mais importante, sempre acumula sentidos e horizontes de realização.

Um de seus livros, Ideia da Prosa, busca refletir precisamente sobre o que seria a poesia a partir da prosa e, mais ainda, traz diversos pequenos textos sobre diferentes ideias de temas que sempre aparecem na nossa vida. Temos no livro “Ideia da vocação”, “Ideia da Musa”, Ideia do comunismo”, Ideia do poder”, “Ideia da paz”, “Ideia da vergonha”, “Ideia da música” e tantas outras…

Deixamos aqui duas ideias fundamentais sobre as quais Agamben fala a partir de uma originalidade surpreendente e genial.

Ideia do amor

Viver na intimidade de um ser estranho, não para nos aproximarmos dele, para o dar a conhecer, mas para o manter estranho, distante, e mesmo inaparente – tão inaparente que o seu nome o possa conter inteiro. E depois, mesmo no meio do mal-estar, dia após dia não ser mais que o lugar sempre aberto, a luz inesgotável na qual esse ser único, essa coisa, permanece para sempre exposta e murada.

Ideia da morte

O anjo da morte, que em certas lendas se chama Samael, e do qual se conta que o próprio Moisés teve de o afrontar, é a linguagem. O anjo anuncia-nos a morte – e que outra coisa faz a linguagem? – mas é precisamente este anúncio que torna a morte tão difícil para nós. Desde tempos imemoriais, desde que tem história, a humanidade luta com o anjo para lhe arrancar o segredo que ele se limita a anunciar. Mas das suas mãos pueris apenas se pode arrancar aquele anúncio que, assim como assim, ele nos viera fazer. O anjo não tem culpa disso, e só quem compreende a inocência da linguagem entende também o verdadeiro sentido desse anúncio e pode, eventualmente, aprender a morrer.

AGAMBEN, Giorgio. Ideia da Prosa. Trad. João Barrento. Lisboa: Cotovia, 1999

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BANDA DOS HOMENS DE COR COMEMORA 80 ANOS SEM APOIO DA PREFEITURA DE CAMPINAS E DO LADO DE FORA DO CORETO

A Banda dos Homens de Cor, uma das mais tradicionais bandas de Campinas, completou hoje 80 anos.

Para comemorar, os integrantes “ocuparam” o largo do Pará, local que tradicionalmente essa banda já tocou quando tinha apoio da prefeitura da cidade.

Sem dinheiro e sem apoio do governo Jonas Donizette (PSB-PSDB), a banda tenta resistir e se fazer ouvir para não se acabar.

Enquanto isso, o Palácio dos Jequitibás (prefeitura) já acertou a construção de um teatro de ópera estimado inicialmente em R$ 80 milhões no Parque Ecológico da cidade. Isso com o apoio do governador tucano Geraldo Alckmin. Acredite, se quiser!

Veja abaixo algumas fotos da apresentação da banda esta manhã:

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A MILITÂNCIA ARROGANTE NO MOVIMENTO FEMINISTA REFORÇA O MACHISMO E EXCLUI GRUPOS POTENCIAIS PARA O DEBATE, CONTRADIZENDO A NATUREZA DA LUTA CONTRA A OPRESSÃO

Imagem: Creatice Commons (gaelx)Por Marília Moschkovich, do site Outras Palavras

A síndrome da militância arrogante

A situação não é nada nova: mulheres reforçando o machismo. Isso sempre existiu e existirá, enquanto houver machismo. Ser mulher não torna ninguém automaticamente revolucionária, feminista. Estar na condição de oprimido não torna ninguém necessariamente contra a opressão. Aqueles que lutaram e lutam pelo socialismo no mundo todo sabem bem disso. Se essa condição fosse suficiente para derrubarmos as opressões, definitivamente não teríamos saído da guerra fria como majoritariamente capitalistas, no mundo todo. Quem eram (e quem são) os soldados estadunidenses nas guerras contra “o comunismo”? Donos de empresas? A classe que tem os meios de produção? (eu realmente preciso responder essas perguntas pra vocês?)

A lógica é relativamente simples: existe uma forma dominante de pensar, que defende sempre os interesses de quem domina. Marx chamou isso de ideologia, Gramsci foi mais longe e pensou numa hegemonia, Althusser explicou que esse negócio se difunde por “aparelhos ideológicos” responsáveis em transmitir essas maneiras de pensar e reforçá-las (e, depois, dirá Foucault, a coagir e controlar as pessoas para que as executem). Essa é, substancialmente, a maneira pela qual quem concentra poder mantém o poder concentrado e a sociedade funciona como funciona. As opressões de classe, raça e gênero têm ainda uma série de ferramentas próprias para que se mantenham.

Por isso, não é de se espantar que mulheres reforcem o machismo, ou que pessoas negras reforcem o racismo, ou que pessoas mais pobres defendam os interesses de pessoas mais ricas, e daí em diante. Como militantes, porém, temos duas formas de lidar com essa situação.

A primeira forma é um tanto contraditória, mas extremamente popular entre militantes de diversas causas, infelizmente. Frustrados com essa contradição gerada pelos próprios sistemas de opressão, muitos de nós acabam descontando a frustração nas pessoas que, em tese, estaríamos defendendo. Há algumas semanas, várias companheiras feministas compartilharam no Facebook uma imagem que apontava alguns motivos pelos quais as mulheres deveriam reconhecer o feminismo. No fim da imagem, um pequeno asterisco estragava todo o propósito de militância, com os seguintes dizeres: “Mas se você prefere continuar lavando louça, provavelmente você deve ser mais útil na cozinha. Então fique lá, enquanto outras lutam por você. Não precisa expor sua ignorância para toda a rede”.

Ai. Essa me doeu na alma.

Doeu porque é uma postura muito comum: o militante, ou a militante, sente-se de alguma maneira superior porque consegue enxergar além do véu da ideologia dominante (como diria o barbudo alemão). Esse ar de superioridade faz com que ele ou ela sinta-se no direito de falar por grupos dos quais muitas vezes ele/ela não fazem parte e, muito pior que isso, excluir as próprias pessoas em situação de opressão da luta contra essa opressão. Acham-se no direito de determinar que sua luta “serve” apenas para algumas pessoas – aquelas iluminadas como ele/a, que enxergam os mesmos grilhões. Que raio de militância é essa? (Texto completo)

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A VOZ QUE VEM DO LAGO: O MUNDO ENCANTADO DA CIVILIZAÇÃO INDIANA

Imagem: moiseslima.wordpress.comPor Maura Voltarelli

Como disse Roberto Calasso no seu livro A Literatura e os deuses, o mundo, embora muitos não acreditem, está longe de desencantar-se. Os deuses não só renascem com toda força, invadindo a civilização moderna ocidental, como estão por toda parte, demonstrando que a razão não responde a todas as perguntas.

Nesta cena de um épico da literatura indiana, o Mahabharata (“A Grande História dos Bharatas”, em tradução literal), dirigida por Peter Brook e pelo dramaturgo Jean-Claude Carriére, as divindades e lendas que atravessam a cultura oriental estão representadas nos personagens da mitologia hindu, em noções filosóficas como a busca da iluminação, o karma e o dharma, e na proposta do que seria um bom modo de vida.

Na cena que reproduzimos abaixo o que transparece é o máximo encantamento da situação, a maturidade das respostas, a vulnerabilidade do ser humano, leviano, diante das divindades imersas no lago da sabedoria.

Mahabharata traz o profundo misticismo do oriente, terra de cores, círculos, superstições, cosmo, e nos lembra de uma relação que persiste pelos séculos, a relação entre homens e deuses, entre os mortais, para quem cada momento pode ser o último, e os imortais, banhados de eternidade.

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O CORPO É A PAISAGEM

Por Maura Voltarelli

Pequenos bonecos encostados em um seio que ganha aspectos de montanha, cavaleiros a atravessar as costas que de repente são pequenos planaltos, o cavaleiro alojado na cintura, o carro a percorrer as curvas dos quadris, as nádegas como montanhas, os seios sustentando a corda por onde passa a equilibrista, o buraco da piscina no buraco do umbigo, o umbigo que também é rio onde se pesca, as costas por onde se escorrega, qualquer conjunto de palavras será pouco diante do simples olhar as fotografias de Allan Teger, autor desta série que abaixo mostramos chamada “Bodyscapes”.

O artista, no suporte do preto e branco, transforma o corpo humano em belas paisagens, em inesperados lugares. O resultado é bonito, erótico, inusitado. Uma valorização do corpo e da arte, e talvez uma lembrança de que um está sempre ligado ao outro.

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Link de acesso para mais trabalhos de Allan Teger

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Lasar e seus colegas em uma sessão de pintura ao ar livre: liberdade e vanguarda

Lasar e seus colegas em uma sessão de pintura ao ar livre: liberdade e vanguarda

Por Maura Voltarelli

Alemão naturalizado brasileiro, Lasar Segall é considerado um dos ícones do modernismo brasileiro, seguindo e solidificando um caminho já aberto por Anita Malfati e pelo movimento modernista de 1922. Pintor de traços inusitados, que rompem com os academicismos e as formas tradicionais da pintura realista, adepto das cores fortes e expressivas, tocado pela crítica social e pela denúncia política do antissemitismo e dos horrores da guerra, Lasar combinou as heranças da tradição e cultura europeia com as cores e as temáticas tropicais, criando uma obra original e sempre atual.

A primeira exposição do artista no Brasil aconteceu em março de 1913, em São Paulo, e nas obras mostradas já se podiam ver as marcas do impressionismo alemão e da pintura holandesa.  Em comemoração ao centenário da exposição, o Museu Lasar Segall programou exposições de 50 obras do artista que pertencem ao acervo do Museu e também de algumas fotografias que faziam parte de seu arquivo pessoal.

Encontro

Encontro

Lasar tinha uma relação muito próxima com a fotografia, tanto que muitos de seus quadros, como Encontro, por exemplo, remetem diretamente a uma imagem fotográfica de seu casamento, apenas modificando alguns detalhes. Fotografias marcantes que traduzem um pouco do que foi a trajetória do artista, bem como movimentos decisivos para construir a proposta e o perfil estético de seu trabalho, como a fotografia que registra uma sessão de pintura ao ar livre com colegas da Academia de Dresden, em 1911, também fazem parte da exposição.

Nesta fotografia os colegas da academia carregam a modelo nua, em um manifesto que já ditava o movimento libertário e de vanguarda que se formava no momento.

Os demais registros fotográficos e as obras, algumas recentemente recuperadas pelo Museu, como Eternos Caminhantes, revelam o artista histórico e ousado. Eternos Caminhantes traz um grupo de andantes, tema recorrente na obra do mestre expressionista, que faz referência ao êxodo e à perseguição aos judeus. Sintética e geometrizada, a obra se instala em um tempo específico e, pela qualidade de sua construção, projeta-se na eternidade conquistada pelos grandes artistas.

Outras obras, como Bananal, trazem a temática tropical, sempre presente em Sagall principalmente na sua fase mais marcadamente expressionista. Parecem sinais do quanto o artista de terras frias ia se misturando com os costumes, as cores, a gente, das terras quentes tropicais, refletindo e ajudando a construir o modernismo de nossa arte.

Eternos caminhantes

Eternos caminhantes

Mesmo adepto do expressionismo, da (re)criação da realidade, e dono de um estilo próprio, Lasar também mantinha o diálogo com algumas tradições da pintura, revisitando gêneros como natureza-morta, retrato e paisagem. Os rostos, as frutas, os lugares ganham, no entanto, sempre o seu tom, a sua ousadia. Em cada obra respira certa sensualidade bruta original e uma denúncia visceral dos movimentos históricos, e, para os que querem encarar as trevas no coração da história, voltar ao seu Navio de emigrantes é sempre uma forma de voltar a nós mesmos.

Página do Museu Lasar Segall, onde podem ser vistas obras e fotografias do artista.

Algumas informações retiradas da revista da FAPESP, que traz reportagem com mais informações sobre o Museu Lasar Segall e sobre a exposição comemorativa.

Navio de emigrantes

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Vincent van Gogh, Prisoners Exercising, 1890

Vincent van Gogh, Prisoners Exercising, 1890

Por Maura Voltarelli

Vincent van Gogh é hoje um dos maiores pintores modernos. Difícil quem não o conheça, quem não tenha ouvido falar sobre ele alguma vez. Mais difícil ainda não se impactar com suas pinturas, com suas formas delirantes, com suas cores colossais que, de certa forma, refletem a trajetória complexa e densa de um dos maiores nomes do impressionismo mundial.

Para contar um pouco da história de Van Gogh o diretor francês Alain Resnais foi convidado, em 1948, para fazer um filme curto sobre ele, que coincidia justamente com uma exposição do artista que então estava sendo montada em Paris. O filme, intitulado Van Gogh, recebeu diversos prêmios e foi o primeiro de muitos outros filmes feitos pelo diretor sobre o universo da arte moderna, como Gauguin (1950) e Guernica (1950).

Reproduzimos aqui uma versão com legendas em espanhol, mas, para além dos diferentes códigos linguísticos, o arte/documentário de Resnais fala em uma linguagem universalmente conhecida pelo público: a linguagem da arte. E mais ainda, essa linguagem é transmitida pela pureza essencial do preto e branco, o que deixa os quadros de Van Gogh ainda mais sublimes.

A tentativa foi de reconstituir a vida do pintor por meio de seus quadros, tornando-o mais conhecido do grande público. Tarefa nem sempre fácil, pois Van Gogh foi um daqueles artistas que teve sua existência atravessada pela miséria, pela loucura, e por todas as regiões de sombra que possam se abrir diante da existência humana. Nele, no entanto, as experiências do limite só fizeram aumentar a genialidade do seu trabalho.

Assim como Hölderlin e Nietzsche, Van Gogh vivenciou em vida a experiência da morte, rompeu a barreira entre os domínios e, por isso, conseguiu na sua obra a maturidade do estilo e o frescor de uma atualidade sempre potente, sempre renovada.

França, 1948.
Direção e edição: Alain Resnais.
Narrador: Claude Dauphin. Diretor: Gaston Diehl e Robert Hessens. Producão: Pierre Braunberger, Gaston Diehl e Robert Hessens. Música original: Jacques Besse. Fotografia: Henry Ferrand. Versão original em francês com legendas em espanhol. Duração: 18 min.

Vale a pena também ver este vídeo, uma bela experiência estética que traz o quadro De sterrennacht EM MOVIMENTO.

Van Gogh não morreu devido a uma condição delirante, e sim por haver chegado a ser corporalmente o campo de ação de um problema em cujo redor se debate, desde suas origens, o espírito iníquo desta humanidade, o predomínio da carne sobre o espírito, o do corpo sobre a carne, do espírito sobre um ou sobre outra. Onde está, neste delírio, o lugar do eu humano?

Antonin Artaud

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O RAPTO DE PROSÉRPINA, DE GIAN LORENZO BERNINI: O GRITO DO MITO

Imagem: cafecomexpressao.blogspot.com

Por Maura Voltarelli

Houve um rapto, talvez de todos o mais célebre, lindamente retratado pelo artista do barroco italiano Gian Lorenzo Bernini em sua arte de dar forma, vida e movimento ao mármore. Diz o mito que enquanto colhia flores, a bela Perséfone, então ainda donzela, em sua fase Koré, foi raptada por Hades, o deus das sombras, senhor do reino dos mortos, no momento em que retirava da terra uma flor de narciso.

Hades, há muito apaixonado pela beleza da jovem deusa filha de Zeus e Deméter (a deusa das colheitas, da terra), então rapta Perséfone e a conduz ao fundo da terra. Os gritos de Perséfone no momento da captura só são ouvidos por Hécate, a deusa lunar, ligada aos mistérios noturnos.

Deméter, incomodada com o desaparecimento de Perséfone, é avisada por Hécate do rapto da filha e decide interceder junto a Zeus para que este convencesse Hades a devolvê-la à terra, que então já se encontrava devastada pelo frio e pela seca, castigo lançado por Deméter em razão de sua ira.

Diante da devastação da terra, Zeus decide interceder em favor de Deméter junto a Hades. No entanto, Perséfone estaria condenada a nunca mais poder habitar totalmente o mundo dos vivos, pois comera a fruta proibida das profundezas, que a ligava eternamente àquele domínio: a romã.

Perséfone poderia estar na terra apenas durante um tempo, mas depois teria que regressar ao hades, ocupando, dessa forma, os dois domínios, vida e morte, sendo um eterno trânsito e ponto de comunicação entre eles.  A primavera marca justamente a volta de Perséfone à terra, já o inverno e o outono sinalizam o seu retorno ao hades.

Nas profundezas, a antiga Koré se faz rainha, amadurecida pelo aprendizado da sombra. Hades e Perséfone seguem apaixonados, a brandura e clemência da deusa aplacando muitas vezes a ira do amado, intercedendo em favor de muitos mortais que por lá passam.

Imagem: charcofrio.blogspot.com

A escultura de Bernini conseguiu, e isso faz dela uma obra-prima, retratar o impulso de amor e morte que fez Hades raptar Perséfone. Os dedos, fincados sobre o corpo da jovem deusa, revelam a dimensão do seu amor, quase um desespero, e transparecem algo de profundamente erótico. Erotismo e desejo que atravessam as obras de Bernini, como se vê na também célebre escultura “O êxtase de Santa Teresa”.

“O Rapto de Prosérpina” nos chega como uma obra de arte que faz viver o mito, respirar os deuses no centro de um mundo dominado pela Razão e pelas entidades platônicas (Renascimento). Os deuses de repente voltam, regressam, com toda força, como se nunca antes tivessem ido, talvez porque de fato eles nunca foram. Guardam-nos à espreita, vigilantes, imortais.

 

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Versão para o cinema de 2012

Cena de “Anna Karenina”, versão 2012

Por Maura Voltarelli

Na primeira cena, o que se vê é o título do filme sobre a cortina de um palco de teatro. Como se quem assiste fosse avisado de que um espetáculo teatral estivesse para começar. O teatro anuncia a sua presença e essa será constante ao longo de toda versão do diretor Joe Wright para o monumental romance de Tolstói Anna Karenina.

O diálogo com o teatro, o caráter performático dos atores e das cenas iniciais, os movimentos muitas vezes nauseantes da câmera, os giros, os detalhes, as cores, tudo faz de Anna Karenina uma incrível experiência estética, e, embora o filme tenha muitos pontos discutíveis, este é aparente pacífico.

A inovação da montagem é tanta que lembra um pouco o Lars Von Trier de Dogville, com o seu cenário em forma de maquete, objetos, cenas e atores sendo ali manipulados. A direção de arte impecável, a beleza dos figurinos, dos cenários, a inovação no trato da imagem e a exploração de todas as suas possibilidades também lembra um pouco o estilo do diretor Luis Fernando Carvalho em filmes belíssimos como Lavoura Arcaica, onde a beleza das imagens solta um suspiro extasiante.

Se na experiência estética, essa versão acerta, não parece acontecer o mesmo com a escolha dos atores para representar os personagens do romance. O principal erro ocorre com a escolha do ator Aaron Taylor-Johnson para interpretar o conde Vronsky, amante de Anna na história.

Anna e Vronsky na versão de 1997

Anna e Vronsky na versão de 1997

Nesta versão, o amante de Anna parece um tipo “almofadinha”, afetado, que age simplesmente por capricho. Sua paixão por Anna, que no romance aparece de forma bem mais intensa, no filme é quase nula, não chega a atingir quem assiste. Da mesma forma, o conde Vronsky que aparece no filme não parece ser o tipo de homem por quem Anna se apaixonaria, deixando para trás o marido e o filho em pleno século XIX.

Em relação à escolha de Keira Knightley para interpretar Anna Karenina, a atriz pode não ser a melhor imagem da heroína mais conhecida do escritor russo, mas está lindíssima na versão. A beleza é tão expressiva que deixou faltar um pouco uma das principais características da personagem: sua melancolia grave e doce, que se alterna com seu espírito alegre, naturalmente livre. Keira deixa transparecer a alegria de Anna, mas não deixa vir à tona seu tom melancólico. Este surge apenas no fim, de forma apressada, sem naturalidade, abortando assim a possibilidade do espectador realmente se emocionar com os momentos finais que, no livro, são dosados pelo desespero trágico e também pela conversa com a loucura.

Já o marido de Anna, bem interpretado por Jude Law, está bonzinho demais. Quem leu o livro praticamente não o reconhece. Alexei Karenin, apaixonado por Anna até o fim, e magoado justamente por esse amor constante e ao mesmo tempo fonte de sua vergonha e desmoralização pública, faz de tudo para tornar as coisas ainda mais difíceis para Anna, pois talvez essa seja a forma de tornar as coisas um pouco mais fáceis para ele. A negação do divórcio e a proibição de que Anna continuasse a ver o filho são golpes de Karenin que atingem em cheio a lucidez de Anna. No filme, isso não fica tão claro. Karenin aparece como generoso e Anna como caprichosa.

Os coadjuvantes estão ótimos. Stiva provoca risos na plateia e ganha tons performáticos que evocam de fato o personagem do livro. Já sua esposa, Dolly, aparece tão doce quanto no romance. A personagem vive um momento bastante feliz no filme quando conversa com Anna naturalmente em um local público, enquanto todas as outras pessoas riem, cochicham e falam dela pelas costas. A interpretação da atriz nesta cena é tão natural e destoante do que então se via que atinge o espectador naquele que é um dos pontos essenciais do romance: a denúncia da hipocrisia da sociedade burguesa da época.

Greta Garbo, a primeira a viver no cinema a heroína de Tolstói

Greta Garbo, a primeira a viver no cinema a heroína de Tolstói

Anna sofre no livro, e isso de certa forma se deixa ver nessa versão, todo tipo de preconceito da sociedade de sua época por ser a mulher que traiu o marido, um influente político russo, e deixou seu mundo para viver uma paixão arrebatadora com um oficial do exército. Sofre as consequências por ter quebrado as regras, por ter se apaixonado.

Este é o núcleo central da história, que sempre ganha destaque em todas as versões do livro para o cinema. Paralelamente a ele, no entanto, há uma outra célula do romance que aborda a vida no campo, as questões da agricultura russa da época, do trabalho escravo, das relações de propriedade e, principalmente, discute o ideal do que seria uma vida feliz.

A resposta para essa pergunta acontece no livro no mesmo momento em que se desenrola o desfecho da história de amor e transgressão de Anna. O grande lance de Tolstói é cruzar os significados de uma coisa e outra de modo que a tragédia que é encenada em um palco, seja respondida em outro. Se Anna paga um preço alto por tentar ser livre em um contexto onde para a mulher não era reservado muita coisa, a resposta dada por Tolstói às aflições humanas, sejam elas de homens ou mulheres, invadidas pelo dilema do moral e do amoral, do certo e do errado, da liberdade ou da convenção, é de que a felicidade estaria nas coisas simples, no lugar originário.

Keira como Anna Karenina

Keira como Anna Karenina

Para os que dizem que a história do adultério de Anna Karenina já está ultrapassada em uma sociedade “livre” como a do século XXI, eu diria que a história nem de longe está ultrapassada. Não só por que o drama de Anna vai muito além de uma simples traição, mas envolve diversos outros aspectos que até hoje rondam o universo feminino, como também porque o que está em questão na obra de Tolstói é o preconceito burguês contra qualquer ato que simplesmente fuja da norma, e esse preconceito está atualmente mais presente do que nunca. Basta olhar os bons (e poucos) jornais.

Por isso, Anna Karenina continua tão atual. Por isso o romance já teve cinco, contando esta última, montagens para o cinema. E, em cada uma, novas Annas nos emocionam, nos revelam um traço de coragem que persiste até o fim, e denunciam a hipocrisia que sempre germina neste nosso oceano, às vezes sombrio e sempre misterioso, do social.

Edição com tradução direta do russo

Edição da Cosac Naify com tradução direta do russo

Filmar uma grande obra literária, vale dizer, nunca é fácil, e comparações entre livro e filme sempre acabam um tanto injustas pois os suportes são diferentes. O filme nem sempre dá conta da densidade literária do livro, histórias surgem apressadas e, muitas vezes, não há aquele tempo que as páginas fornecem para desenvolver o personagem e entregá-lo em toda sua complexidade nas mãos do leitor.

Esta versão de Anna Karenina não emociona tanto quanto a leitura do romance, no entanto, traz algo que Tolstói, dispondo apenas do papel e da tinta, jamais poderia realizar: a exploração do universo fascinante da imagem, o transporte para o mundo do teatro, a magia de tons, músicas, movimentos e sensações combinados para recontar uma bela história.

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Botafogo_BrasilAqui são umas das minhas observações, as vezes um pouco exageradas, sobre o Brasil. Nada serio.

Por Olivier Teboul

-Aqui no Brasil, tudo se organiza em fila: fila para pagar, fila para pedir, fila para entrar, fila para sair e fila para esperar a próxima fila. E duas pessoas ja bastam para constituir uma fila.

-Aqui no Brasil, o ano começa “depois do Carnaval”.

-Aqui no Brasil, não se pode tocar a comida com as mãos. No MacDonalds, hamburger se come dentro de um guardanapo. Toda mesa de bar, restaurante ou lanchonete tem um distribuidor de guardanapos e de palitos. Mas esses guardanapos são quase de plastico, nada de suave ou agradável. O objetivo não é de limpar suas mãos ou sua boca mas é de pegar a comida com as mãos sem deixar papel nem na comida nem nas mãos.

-Aqui no Brasil todo é gay (ou ‘viado’). Beber chá: e gay. Pedir um coca zero: é gay. Jogar vólei: é gay. Beber vinho: é gay. Não gostar de futebol: é gay. Ser francês: é gay, ser gaúcho: gay, ser mineiro: gay. Prestar atenção em como se vestir: é gay. Não falar que algo e gay : também é gay.

-Aqui no Brasil, os homens não sabem fazer nada das tarefas do dia a dia: não sabem faxinar, nem usar uma maquina de lavar. Não sabem cozinhar, nem a nível de sobrevivência: fazer arroz ou massa. Não podem concertar um botão de camisa. Também não sabem coisas que estão consideradas fora como extremamente masculinas como trocar uma roda de carro. Fui realmente criado em outro mundo…

-Aqui no Brasil, sinais exterior de riqueza são muito comuns: carros importados, restaurantes caríssimos em bairros chiques, clubes seletivos cujos cotas atingem valores estratosféricas.

-Aqui no Brasil, os casais sentam um do lado do outro nos bares e restaurantes como se eles estivessem dentro de um carro.

-Aqui no Brasil, os homens se vestem mal em geral ou seja não ligam. Sapatos para correr se usam no dia a dia, sair de short, chinelos e camiseta qualquer e comum. Comum também é sair de roupas de esportes mas sem a intenção de praticar esporte. Se vestir bem também é meio gay.

-Aqui no Brasil, o cliente não pede cerveja pro garção, o garção traz a cerveja de qualquer jeito.

-Aqui no Brasil, todo mundo torce para um time, de perto ou de longe.

-Aqui no Brasil, sempre tem um padre falando na televisão ou na radio.

-Aqui no Brasil, a vida vai devagar. E normal estar preso no transito o dia todo. Mas não durma no semáforo não. Ai tem que ser rápido e sair ate antes do semáforo passar no verde. Não depende se tiver muitas pessoas atrás, nem se estiverem atrasados. Também é normal ficar 10 minutos na fila do supermercado embora que tenha só uma pessoa na sua frente. Ai demora para passar os artigos, e muitas vezes a pessoa da caixa tem que digitar os códigos de barra na mão ou pedir ajuda para outro funcionário para achar o preço de um artigo. Mas, na hora de retirar o cartão de credito, ai tem que ser rápido. Não é brincadeira, se não retirar o cartão na hora, a mesma moça da caixa que tomou 10 minutos para 10 artigos vai falar agressivamente para você agilizar: “pode retirar o cartão!”.

-Aqui no Brasil, os chineses são japoneses.

-Aqui no Brasil, a música faz parte da vida. Qualquer lugar tem musica ao vivo. Muitos brasileiros sabem tocar violão embora que não consideram que toquem se perguntar pra eles. Tem músicos talentosos, mas não tantos tocam as musicas deles. Bares estão cheios de bandas de cover.

-Aqui no Brasil, a política não funciona só na dimensão esquerda – direita. Brasil é um pais de esquerda em vários aspectos e de direita em outros. Por exemplo, se pode perder seu emprego de um dia pra outro quase sem aviso. Tem uma diferencia enorme entre os pobres e os ricos. Ganhar vinte vezes o salario minimo é bastante comum, e ganhar o salario minimo ainda mais. As crianças de classe media ou alta estudam quase todos em escolas particulares, as igrejas tem um impacto muito importante sobre decisões politicas. E de outro lado, existe um sistema de saúde publico, o estado tem muitas empresas, tem muitos funcionários públicos, tem bastante ajuda para erradicar a pobreza em regiões menos desenvolvidas do país. O mesmo governo é uma mistura de política conservadora, liberal e socialista.

-Aqui no Brasil, e comum de conhecer alguem, bater um papo, falar “a gente se vê, vamos combinar, ta?”, e nem trocar telefone.

-Aqui no Brasil, a palavra “aparecer” em geral significa, “não aparecer”. Exemplo: “Vou aparecer mais tarde” significa na pratica “não vou não”.

-Aqui no Brasil, o clima é muito bom. Tem bastante sol, não esta frio, todas as condicões estão reunidas para poder curtir atividades fora. Porem, os domingos, se quiser encontrar uma alma viva no meio da tarde, tem que ir pro shopping. As ruas estão as moscas, mas os shopping estão lotados. Shopping é a coisa mais sem graça do Brasil.

-Aqui no Brasil, novela é mais importante do que cinema. Mas o cinema nacional é bom.

-Aqui no Brasil, não falta espaço. Falam que o pais tem dimensões continentais. E é verdade, daria para caber a humanidade inteira no Brasil. Mas então se tiver tanto espaço, por que é que as garagens dos prédios são tão estreitos? Porque existe até o conceito de vaga presa?

-Aqui no Brasil, comida salgada é muito salgada e comida dolce é muito doce. Ate comida é muita comida.

-Aqui no Brasil, se produz o melhor café do mundo e em grandes quantidades. Uma pena que em geral se prepare muito mal e cheio de açúcar.

-Aqui no Brasil, praias bonitas não faltam. Porem, a maioria dos brasileiros viajam todos para as mesmas praias, Búzios, Porto de Galinhas, Jericoacoara, etc.

-Aqui no Brasil, futebol é quase religião e cada time uma capela.

-Aqui no Brasil, as pessoas acham que dirigir mal, ter transito, obras com atraso, corrupção, burocracia, falta de educação, são conceitos especificamente brasileiros. Mas nunca fui num pais onde as pessoas dirigem bem, onde nunca tem transito, onde as obras terminam na data prevista, onde corrupção é só uma teoria, onde não tem papelada para tudo e onde tudo mundo é bem educado!

-Aqui no Brasil, esporte é ou academia ou futebol. Uma pena que só o futebol seja olímpico.

-Aqui no Brasil, existe três padrões de tomadas. Vai entender porque…

-Aqui no Brasil, não se assuste se estiver convidado para uma festa de aniversário de dois anos de uma criança. Vai ter mais adultos do que crianças, e mais cerveja do que suco de laranja. Também não se assuste se parece mais com a coroação de um imperador romano do que como o aniversário de dois anos. E ‘normal’.

-Aqui no Brasil, nõ tem o conceito de refeição com entrada, prato principal, queijo, e sobremesa separados. Em geral se faz um prato com tudo: verdura, carne, queijo, arroz e feijão. Dai sempre acaba comer uma mistura de todo.

-Aqui no Brasil, o Deus esta muito presente… pelo menos na linguagem: ‘vai com o Deus’, ‘se Deus quiser’, ‘Deus me livre’, ‘ai meu Deus’, ‘graças a Deus’, ‘pelo amor de Deus’. Ainda bem que ele é Brasileiro.

-Aqui no Brasil, cada vez que ouço a palavra ‘Blitz’, tenho a impressão que a Alemanha vai invadir de novo. Reminiscência da consciência coletiva francesa…

-Aqui no Brasil, pais com muita ascendência italiana, tem uma lei que se chama ‘lei do silencio’. Que mau gosto! Parece que esqueceram que la na Itália, a lei do silencio (também chamada de “omerta”) se refere a uma pratica da mafia que se vinga das pessoas que denunciam suas atividades criminais.

-Aqui no Brasil, se acha tudo tipo de nomes, e muitos nomes americanos abrasileirados: Gilson, Rickson, Denilson, Maicon, etc.

-Aqui no Brasil, quando comprar tem que negociar.

-Aqui no Brasil, os homens se abraçam muito. Mas não é só um abraço: se abraça, se toca os ombros, a barriga ou as costas. Mas nunca se beija. Isso também é gay.

-Aqui no Brasil, o polegar erguido é sinal pra tudo : “Ta bom?”, “obrigado”, “desculpa”.

-Aqui no Brasil, quando um filme passa na televisão, não passa uma vez só. Se perder pode ficar tranquilo que vai passar mais umas dez outras vezes nos próximos dias. Assim já vi “Hitch” umas quatro vezes sem querer assistir nenhuma.

-Aqui no Brasil, tem um jeito estranho de falar coisas muito comuns. Por exemplo, quando encontrar uma pessoa, pode falar “bom dia”, mas também se fala “e ai?”. E ai o que? Parece uma frase abortada. Uma resposta correta e comum a “obrigado” e “imagina”. Imagina o que? Talvez eu quem falte de imaginação.

-Aqui no Brasil, todo mundo gosta de pipoca e de cachorro quente. Não entendo.

-Aqui no Brasil, quando você tem algo pra falar, é bom avisar que vai falar antes de falar. Assim, se ouvi muito: “vou te falar uma coisa”, “deixa te falar uma coisa”, “é o seguinte”, e até o meu preferido: “olha só pra você ver”. Obrigado por me avisar, já tinha esquecido para que tinha olhos.

-Aqui no Brasil, as lojas, o negócios e os lugares sempre acham um jeito de se vender como o melhor. Já comi em em vários ‘melhor bufe da cidade’ na mesma cidade. Outro superativo de cara de pau é ‘o maior da -América latina’. Não costa nada e ninguém vai ir conferir.

-Aqui no Brasil, tem uma relação ambígua e assimétrica com a América latina. A cultura do resto da América latina não entra no Brasil, mas a cultura brasileira se exporta la. Poucos são os brasileiros que conhecem artistas argentinos ou colombianos, poucos são os brasileiros que vão de ferias na América latina (a não ser Buenos Aires ou o Machu Pichu), mas eles em geral visitaram mais países europeus do que eu. O Brasil as vezes parece uma ilha gigante na América latina, embora que tenha uma fronteira com quase todos os outros países do continente.

-Aqui no Brasil, relacionamentos são codificados e cada etapa tem um rótulo: peguete, ficante, namorada, noiva, esposa, (ex-mulher…). Amor com rótulos.

-Aqui no Brasil, a comida é: arroz, feijão e mais alguma coisa.

-Aqui no Brasil, o povo é muito receptivo. E natural acolher alguem novo no seu grupo de amigos. Isso faz a maior diferencia do mundo. Obrigado brasileiros.

-Aqui no Brasil, o brasileiros acreditam pouco no Brasil. As coisas não podem funcionar totalmente ou dar certo, porque aqui, é assim, é Brasil. Tem um sentimento geral de inferioridade que é gritante. Principalmente a respeito dos Estados Unidos. To esperando o dia quando o Brasil vai abrir seus olhos.

-Aqui no Brasil, de vez em quando no vocabulário aparece uma palavra francesa. Por exemplo ‘petit gâteau’. Mas para ser entendido, tem que falar essas palavras com o sotaque local. Faz sentido mas não deixa de ser esquisito.

-Aqui no Brasil, tem um organismo chamado o DETRAN. Nem quero falar disso não, não saberia por onde começar…

-Aqui no Brasil, dentro dos carros, sempre tem uma sacola de tecido no alavanca de mudança pra colocar o lixo.

-Aqui no Brasil, os brasileiros se escovam os dentes no escritório depois do almoço.

-Aqui no Brasil, se limpa o chão com esse tipo de álcool que parece uma geleia.

-Aqui no Brasil, a versão digital de ‘fazer fila’ e ‘digitar codigos’. No banco, pra tirar dinheiro tem dois códigos. No supermercado, o leitor de código de barra estando funcionando mal tem que digitar os códigos dos produtos. Mas os melhores são os boletos pra pagar na internet: uns 50 dígitos. Sempre tem que errar um pelo menos. Demora.

-Aqui no Brasil, o sistema sempre ta “fora do ar”. Qualquer sistema, principalmente os terminais de pagamento de cartão de credito.

-Aqui no Brasil, tem um lugar chamado cartório. Grande invenção para ser roubado direito e perder seu tempo durante horas para tarefas como certificar uma copia (que o funcionário nem vai olhar), o conferir que sua firma é sua firma.

-Aqui no Brasil, parece que a profissão onde as pessoas são mais felizes é coletor de lixo. Eles estão sempre empolgados, correndo atrás do caminhão como se fosse um trilho do carnaval. Eles também são atletas. Tens a energia de correr, jogar as sacolas, gritar, e ainda falar com as mulheres passando na rua.

-Aqui no Brasil, pode pedir a metade da pizza de um sabor e a metade de outro. Ideia simples e genial.

-Aqui no Brasil, no tem agua quente nas casas. Dai tem aquele sistema muito esperto que é o chuveiro que aquece a agua. Só tem um porem. Ou tem agua quente ou tem um débito bom. Tem que escolher porque não da para ter os dois.

-Aqui no Brasil, as pessoas saem da casa dos pais quando casam. Assim tem bastante pessoas de 30 anos ou mais morando com os pais.

-Aqui no Brasil, tem três palavras para mandioca: mandioca, aipim e macaxeira. La na franca nem existe mandioca.

-Aqui no Brasil, tem o numero de telefone tem um DDD e também um numero de operadora. Uma complicação a mais que pode virar a maior confusão.

-Aqui no Brasil, quando encontrar com uma pessoa, se fala: “Beleza?” e a resposta pode ser “Jóia”. Traduzindo numa outra língua, parece que faz pouco sentido, ou parece um dialogo entre o Dalai-Lama e um discípulo dele. Por exemplo em inglês: “The beauty? – The joy”. Como se fosse um duelo filosófico de conceitos abstratos.

-Aqui no Brasil, a torneira sempre pinga.

-Aqui no Brasil, no taxi, nunca se paga o que esta escrito. Ou se aproxima pra cima ou pra baixo.

-Aqui no Brasil, marcar um encontro as 20:00 significa as 21:00 ou depois. Principalmente se tiver muitas pessoas envolvidas.

-Aqui em Belo Horizonte, e a menor cidade grande do mundo. 5 milhões de habitantes, mas todo mundo conhece todo mundo. Por isso que se fala que BH é um ovo. Eu diria que é um ovo frito. Assim fica mais mineiro. (Vi no Sonhos em Mosaico)

Veja mais:

“OS SALTIMBANCOS”, DE PICASSO, SERVIU DE INSPIRAÇÃO PARA A QUINTA DAS “ELEGIAS DE DUÍNO”, DE RILKE, QUE ABORDA A INDIFERENÇA DO MUNDO À ARTE

Por Maura Voltarelli

Pablo Picasso, Les saltimbanques, 1905

Pablo Picasso, Les saltimbanques, 1905

Elegias de Duíno, Rainer Maria Rilke

Quinta elegia

Mas quem são eles, dizei-me, os saltimbancos, um pouco
mais efêmeros que nós mesmos, desde a infância
por alguém torcidos – por amor
de que vontade jamais saciada? Entretanto ela os torce,
curva-os, entretece-os, vibra-os,
atira-os e os toma de volta! Do ar untado
e mais liso, eles resvalam
sobre o tapete gasto (adelgaçado
pelo eterno salto), esse tapete
perdido no universo.
Emplastro aderido lá, onde o céu
do subúrbio feriu a terra.
_______________E apenas lá,
ereto, mostra a grande maiúscula
inicial da Derelicção…e já o renitente
agarrar torna a rolar os homens mais fortes,
por jogo, como outrora Augusto o Forte, à mesa,
brincando com pratos de zinco.

Ah! e em torno desse centro,
a rosa do contemplar:
floresce e desfolha. Em torno do
triturador, o pistilo atingido por seu próprio
pólen florescente, novamente fecundado – fruto
aparente do desgosto, inconsciente de si mesmo –
com a fina superfície a brilhar
num sorriso leve, simulado.
Lá, o murcho, o enrugado atleta,
o velho que apenas rufla o tambor,
encolhido na pele poderosa como se outrora tivesse contido
dois homens e um já sobrevive ainda,
surdo e um pouco perturbado,
às vezes, na pele viúva.  […] (p. 27 e 28)

Nesta parte inicial da elegia, o sentimento predominante é o de frustração e inautenticidade. Os saltimbancos melancólicos não seriam movidos pelo Anjo, alheio à dor humana, e estariam “presos à imanência de um mundo incompreensível” (DA SILVA, s/d, p. 77). A existência do grupo seria um indigente “estar lá”, fazendo referência ao Dasein (o ser aí), comparação que vem do fato de as figuras no quadro estarem dispostas de modo a formar um D maiúsculo. Diante dos saltimbancos, que simplesmente estão lá, as pessoas passam indiferentes, o que talvez seja um motivo do desalento do poeta em relação à “arte pela arte”, o jogo intranscendente incapaz de iluminar a vida.

[…] Anjo: talvez haja uma praça que desconhecemos, onde,
sobre um tapete indizível, os amantes, incapazes aqui,
pudessem mostrar suas ousadas, altivas figuras
do ímpeto amoroso, suas torres de alegria, suas trêmulas
escadas que há muito se tocam onde nunca houve apoio:
e poderiam diante dos espectadores em círculo,
incontáveis mortos silenciosos. E estes arrojariam
suas últimas, sempre poupadas,
sempre ocultas, desconhecidas moedas de felicidade
para sempre válidas, diante do par
verdadeiramente sorridente, sobre o tapete
apaziguado. (p. 31)

Sob a perspectiva do Anjo, no entanto, que aparece nessa última parte do poema, o homem estaria liberto do jogo estéril da arte intranscendente, salvo da morte anônima, da vida inautêntica, realizando em uma praça milagres de harmonia em uma simbiose de amor e morte, onde ele aprenderia a sorrir verdadeiramente.

RILKE, R.M. Elegias de Duíno. Trad: Dora Ferreira da Silva. 4ºed. Rio de Janeiro: Ed. Globo, s/d

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Baco e Ariadne

Baco e Ariadne

PÃO E VINHO
Friedrich Hölderlin

Mas amigo! Viemos demasiado tarde.
Na verdade vivem os deuses
mas sobre nossa cabeça, acima em outro mundo
trabalham eternamente e parecem preocupar-se pouco
se vivemos. Tanto se cuidam os celestes de não ferir-nos.
Pois nunca poderia contê-los um débil navio,
somente às vezes suporta o homem a plenitude divina.
A vida é um sonho dos deuses.
Mas o erro nos ajuda como um adormecimento.
E nos fazem fortes a necessidade e a noite.
Até os herois crescidos em uma cunha de bronze,
como em outro tempo seus corações são parecidos em força
aos celestes.
Eles vivem entre trovões.
Me parece às vezes melhor dormir, que estar sem companheiro.
A esperar assim, o que fazer ou dizer eu não sei.
E para que poetas em tempos de carência?
Mas, são, dizes tu, como os sacerdotes sagrados do Deus do
vinho,
que erravam de terra em terra, na noite sagrada.

(Tradução do espanhol: Maura Voltarelli)

Este poema pode ser encontrado em espanhol no ensaio “Hölderlin e la esencia de la poesia”, de Martin Heidegger, traduzido do alemão por Samuel Ramos e presente no livro Arte y poesia, 2ª ed. México: FCE, 1973

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Influenciado pelos traços fortes e próximos da naturalidade do desenho que marcam a obra de Oswaldo Goeldi, o gravurista Rubem Grilo é autor de uma obra que combina uma criação personalista com um tom de crítica social. Da riqueza de traços até a valorização de um objeto no espaço do desenho, a fase inicial de Rubem Grilo é marcada pelo aspecto mágico e fantástico das criações, representado pela série Marionetes, de 1974, e também pela sua postura política em Natividade.

Nos anos 70, Rubem Grilo também atuou como ilustrador em jornais conhecidos pela crítica social e engajamento político em uma época onde a liberdade de expressão no Brasil era limitada, para não dizer quase nula. Entre os jornais que receberam ilustrações de Grilo estão o Opinião, Movimento e o Pasquim.

A passagem pelos jornais e o percurso posterior de sua obra deixam ver a sensibilidade do artista para o social. Já nos anos 80, ele cria a série Fast Food e, no cenário contemporâneo, retoma algumas referências do passado que conferem certo tom lírico aos trabalhos de Tratador de Pássaros, Desencaixe e O Vidente.

Os trabalhos de Grilo podem ser vistos em exposição no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, até 5 de maio. No total são 123 trabalhos que permitem conhecer cada uma de suas fases. Neste link, um pouco mais sobre a trajetória do artista.

Rubem Grilo, da série Fast Food

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Rubem Grilo, O Tratador de Pássaros

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Rubem Grilo, Cosmos

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CELSO BODSTEIN DIZ QUE CINEMA É A FORMA DE SINTETIZAR REFLEXÕES DE ORDEM FILOSÓFICA, SOCIOLÓGICA E ESTÉTICA

Nesta segunda parte da entrevista à TV Educação Política, o professor Celso Bodstein fala sobre a importância da sua formação cultural cinematográfica.

Para ele, essa formação não se dá no campo da diversão, mas quando o cinema é capaz de abordar as questões filosóficas, antropológicas, sociológicas e estéticas.

Alem disso, Bodstein fala, em um segundo momento da entrevista, sobre o cinema que fala do próprio cinema. Acompanhe:

Veja também a primeira parte da entrevista sobre o cinema brasileiro atual e o documentário.

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