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FOTOS DE KLEINER KAVERNA, NO ENSAIO DA PEÇA ‘O HOMEM DA CABEÇA DE PAPELÃO’, BASEADA NO CONTO HOMÔNIMO DE JOÃO DO RIO

A peça será exibida nos dias 29 e 30 de novembro e 01 de dezembro às 20h no Barracão Teatro
(Vila Santa Isabel, Barão Geraldo, Campinas).
A direção é de Eduardo Brasil e Ana Clara Amaral.

Vi no Eu Passarin

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Curso Livre de Teatro em A Mais Valia Vai Acabar, Seu Edgar

Por Maura Voltarelli

Pela primeira vez em dez anos, o Curso Livre de Teatro do Barracão Teatro abre uma segunda temporada de apresentações para um espetáculo. A peça A Mais Valia Vai Acabar, Seu Edgar foi produzida pela turma de 2011 do Curso Livre e terá somente mais duas apresentações no próximo fim de semana.

De Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha, a peça traduz, por meio de uma prosa poética e irônica, a teoria da mais valia. Desenha-se uma espécie de duelo entre os capitalistas e os desgraçados (operários) em que um dos personagens se vê diante de uma realidade que a todo o momento lhe coloca questionamentos, obrigando-o a pensar a sua condição.

Criador do seriado A Grande Família, Vianinha sempre esteve ligado às questões sociais de sua época e, a exemplo de grandes dramaturgos como Brecht, uma de suas influências, o autor fez de sua arte uma permanente passagem pela poesia e pelo social, onde a realidade da década de 60 e posteriores anos de Ditadura Militar – contexto em que ele mais produziu – está bastante presente.

A montagem da turma 2011 do Curso Livre de Teatro é fiel ao texto de Vianinha e, ao mesmo tempo, procura trazê-lo para a realidade atual, aproximando-o do público. A sucessão de cenas rápidas, a riqueza dos diálogos, os momentos de descontração e a beleza estética da peça, combinada a uma inteligente construção simbólica da qual a música, a iluminação e a própria distribuição dos personagens faz parte, reforçam uma das mensagens principais do espetáculo: a de que mesmo por trás das feições aparentemente intransponíveis de uma sociedade injusta e desigual é possível constituir-se como sujeito de sua própria história, questionar-se, transformar-se e, por fim, decidir qual será o seu futuro, afinal, “a vida é tua”, “o sonho é teu”.

Serviço:
Quando: Sábado (17/03) às 20h e domingo (18/03) às 19h
Onde: Barracão Teatro – Rua Eduardo Modesto, 128, Barão Geraldo – Campinas
Ficha técnica: Amanda Vadilho, Ana Elisa Ferreira Moro, Bruno Mariani Azevedo, Carina Barjud, Daniela Kubota, Glauco Cortez, Karen Polaz, José Luiz Pastre, Sheyla Smanioto
Direção: Ana Clara Amaral, Eduardo Brasil e Marcelo Pinta
Iluminação: Eduardo Brasil
Sonoplastia: Ana Clara Amaral e Eduardo Brasil

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Vianinha em 1970, na época do Teatro do Autor, que subsistiu até 1973 com certa independência dos grupos de produção

Por Maura Voltarelli

Poucos são os artistas que conseguem unir à estética própria da obra de arte, as questões sociais e humanas de seu tempo. Oduvaldo Vianna Filho (1936 – 1974), mais conhecido como Vianinha, foi um deles. Com fortes bases teóricas em dramaturgos como Brecht, Vianinha foi um autor e ator que atuou nas mais diversas áreas. Fez teatro, televisão, cinema, jornalismo e até teoria crítica da cultura, faces múltiplas que fizeram da sua arte uma permanente passagem pela poesia e pelo social.

As questões humanas, a sociedade em que viveu, a política, os desafios, os sonhos de uma época estão expressos nas suas diversas peças de teatro. Todas com enredos e personagens originais, além de propostas quase sempre ousadas – principalmente para a década de 60 e posteriores anos de Ditadura Militar, contexto em que Vianinha mais produziu – grande parte delas foi censurada e o próprio Vianinha morreu sem ver algumas encenadas como Papa Highirte, que foi escrita em 1968 e montada onze anos depois, e Rasga Coração, que trabalha com uma multiplicidade de planos a alternar tempos, espaços e personagens distintos para falar da psicologia e das relações familiares de três gerações, de Getúlio Vargas ao Golpe Militar.

O teatro de Vianinha também produziu peças como Chapetuba Futebol Clube e A Mais-Valia Vai Acabar, Seu Edgar. Esta última, que está sendo montada pelo Curso Livre de Teatro, traduz por meio de uma prosa poética e, ao mesmo tempo, irônica, a teoria da mais valia. Desenha-se uma espécie de duelo entre os capitalistas e os desgraçados (operários) em que um dos personagens se vê diante de uma realidade que a todo momento lhe coloca questionamentos, obrigando-o a pensar a sua condição.

Vianinha, no entanto, não fez viver sua consciência política e social apenas nos textos de teatro. Sempre engajado nas lutas e discussões de seu tempo, ele foi participante ativo do Teatro de Arena, de onde se desligou após a montagem de Eles Não Usam Black-Tie para fundar o Centro Popular de Cultura (CPC), ligado à União Nacional dos Estudantes (UNE).

Em 1964, com o Golpe Militar e a extinção do CPC, participou da fundação do Grupo Opinião e, em 1973, em plena Ditadura Militar, aventurou-se no terreno da televisão e escreveu o seriado A Grande Família, com Armando Costa. Uma comédia de costumes que, tomando como protagonista uma remediada família brasileira, conseguiu driblar duas censuras, a da TV Globo e a dos militares, e produzir um conteúdo crítico que evidenciava a difícil vida do país nos “anos de chumbo”.

Ao lançar um olhar sobre sua trajetória, a impressão que se tem é que, para Vianinha, arte e vida sempre caminharam juntas. A intensa poesia e a elevada dramaticidade presentes nos seus textos teatrais eram as mesmas que ele encontrava nas ruas, nos movimentos populares.

O jornalista e escritor Dênis de Moraes: "a história apaixonante de Vianinha não acabou nem no ponto final de meu livro"

E foi assim, popular, que ele se fez. Popular e revolucionário. Um teatro crítico e social, mas com uma nítida preocupação em não se fechar em torno de si mesmo e falar ao povo, de onde ele emanava. É sobre Vianinha e sua arte engajada que o jornalista, escritor e professor do Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal Fluminense, Dênis de Moraes, autor da biografia Vianinha, cúmplice da paixão, fala nesta entrevista ao blog Educação Política.

Entre outras coisas, Dênis mostra a expressiva relação entre o teatro de Vianinha e o do dramaturgo alemão Bertold Brecht ao dizer que em ambos havia uma preocupação fundamental: “atuar sobre o real para mudar o mundo que não serve, porque reifica, marginaliza, exclui e castiga”. O biógrafo também lembra que o mundo expressivo de Vianinha transcendia os gêneros teatrais e que o teatro foi, para ele, a descoberta de uma ferramenta poderosa de expressão, participação e intervenção em um mundo hostil e injusto, espécie de cimento para as suas convicções mais genuínas e profundas. Convicções essas que, muitas vezes, colocaram Vianinha diante do dilema entre o que se quer ser e o que se pode ser.

Dilemas à parte, segundo Dênis de Moraes, em apenas 38 anos de vida, esse genuíno artista viveu pelo menos 100, escrevendo uma história apaixonante que nunca parou de se renovar. “Diariamente, penso nele e tento aprender e me orientar por suas lições de coerência e de coragem para travar o bom combate. Sobretudo nos momentos mais difíceis e quando tenho dúvidas”, diz o escritor.

E talvez seja isso mesmo o que se espera dos grandes artistas: que a eles possamos voltar, às suas palavras, às suas imagens, aos seus sons, nos momentos mais difíceis, ou quando temos dúvidas…

Agência Educação Política: Quero começar a entrevista com uma frase de Brecht que parece dizer algo sobre o teatro de Oduvaldo Vianna Filho, O Vianinha, de quem você escreveu a biografia, e também sobre a postura deste autor e ator diante da arte e da vida. O dramaturgo alemão diz “apenas quando somos instruídos pela realidade é que podemos mudá-la”. Vianinha teria, de certa forma, tomado de empréstimo essas preocupações de Brecht em situar sua obra teatral no âmbito de uma perspectiva social, refletindo e discutindo ele também a realidade social de seu povo, país e época como forma de revelar a dominação e desigualdade social, esclarecendo e dizendo por meio da arte aquilo que outros já não eram capazes de dizer?
Dênis de Moraes: Sem dúvida. Não é casual o fato de Brecht ser uma das referências fundamentais no aprendizado teórico de Vianinha, ainda na fase do Teatro de Arena de São Paulo, e sobretudo após o célebre Seminário de Dramaturgia que Augusto Boal dirigiu naquele grupo, em fins da década de 1950. O sentido precípuo do trabalho intelectual de Vianinha era fazer da expressão artística uma ferramenta para intervir na realidade e, em um processo de lutas contínuas e permanentes, transformá-la, na direção de uma sociedade mais igualitária, justa e inclusiva. Vianinha e Brecht coincidem em vários pontos. Um dos mais relevantes: a exigência insuperável de uma dramaturgia que investigue as aspirações e os dilemas da condição humana, em conjunturas quase sempre marcadas por conflitos, desigualdades e discriminações de todo o tipo. Atuar sobre o real, para ambos, não significava apenas tomar os elementos da vida cotidiana e social como fontes de inspiração; implica processar e angular esses elementos em uma perspectiva de compreensão aprofundada para formular e propugnar por um ideário de radical transformação. Mudar o mundo que não serve, porque reifica, marginaliza, exclui e castiga. Aos artistas e intelectuais conscientes e comprometidos se impõe, para Brecht e Vianinha, uma atitude dialética entre a observação crítica da realidade e a definição de formas estratégicas e táticas capazes de sintonizar a produção artística e intelectual com a ação política emancipatória.

AEP: Vianinha escreveu muito. São diversas peças, com enredos e personagens originais, além de propostas quase sempre ousadas, principalmente para a década de 60 e posteriores anos de ditadura militar. Muitas de suas peças foram inclusive censuradas e ele próprio faleceu sem ver algumas delas encenadas como Papa Highirte e Rasga Coração. De onde vem toda força do teatro de Vianinha? Da qualidade do texto, bem escrito, com uma poesia própria que aparece em versos rimados e sonoros? Do didatismo, ou seja, da preocupação em revelar certos mecanismos de funcionamento da estrutura social, como o da exploração capitalista, por exemplo, esboçado na peça A Mais-Valia Vai Acabar, Seu Edgar, na qual as formas de dominação se revelam ao público enquanto se revelam para o próprio personagem e onde também existe certa veia cômica dos tipos humanos representados e das situações? Ou é uma combinação de tudo isso?
Dênis: Uma combinação de tais inspirações e compromissos. Em Vianinha não havia dissociação entre o trabalho artístico, a ousadia criativa e as intenções sociais e política de uma obra dramatúrgica. Ele foi capaz de experimentar-se dos textos de agitação e propaganda até as elaborações mais sofisticadas, não hesitando em valer-se de fórmulas outras que pudessem retratar suas visões de mundo, como as comédias de costumes, os shows musicais e os roteiros televisivos. Se observarmos bem, em qualquer desses experimentos imaginativos há traços que o distinguem como autor, como a fenomenal carga poética, a aguda dramaticidade , a argúcia para o humor e a ironia, a corrosiva crítica social. São elementos constitutivos de seu mundo expressivo que transcendem os gêneros teatrais, e parecem mesmo se infiltrar entre eles, com efeitos estilísticos e de comunicabilidade os mais diversos. É importante ressaltar que, no limite do possível e mesmo do impossível, ele jamais admitia renunciar à busca da construção em nome dos apelos ideológicos. Talvez tenha sido um de seus grandes méritos como homem de teatro: na ampla maioria de sua obra, não submeteu a sensibilidade aos cálculos políticos da hora, por mais que o sentido da política o norteasse e o demandasse o tempo inteiro. Digo ampla maioria porque, evidentemente, houve exceções, como os autos de agit-prop e didatismo do CPC, por exemplo, ainda que possamos apontar o seu esforço em forjar ali tipos de espetáculos que tentassem encurtar o caminho de compreensão de problemas cruciais da realidade brasileira para plateias populares (o que, afinal, não alcançou êxito, inclusive pelo corte brutal das experiências do CPC pelo golpe militar de 1964). Vianinha tentava harmonizar o impulso criativo e as razões de ser de seu teatro, que se projetavam para muito além de círculo existencial, ainda que também o refletisse em inúmeras situações evidenciadas em suas peças, roteiros e escritos.

Vianinha em 1973, época em que produziu o seriado "A Grande Família" na TV Globo - tentativa de driblar duas censuras

AEP: Entre os escritos de Vianinha está também o seriado para TV A Grande Família, escrito em 1973, durante a ditadura militar, com Armando Costa e que faz sucesso até os dias de hoje. É interessante perceber que no meio de tantas peças Vianinha também escreveu para televisão escolhendo justamente como tema a família brasileira. Como você vê essa criação no contexto da trajetória artística de Vianna Filho? Em que medida ela dialoga com a linha crítica e social da sociedade e dos seus costumes presente em sua obra teatral?
Dênis: O seriado A grande família, escrito em plena ditadura militar, é a demonstração definitiva do talento criativo e da incrível habilidade de Vianinha para tentar para driblar as duas censuras (a do regime e a da própria emissora, a TV Globo). A partir do cotidiano de uma família da classe média remediada, ele conseguiu traduzir aspirações dos dilemas de boa parte da sociedade brasileira em meio ao chamado milagre econômico. Enquanto a máquina governamental de propaganda enaltecia os feitos do governo do general Médici, o seriado focalizava as agruras e as dificuldades impostas pelo modelo econômico excludente, perverso e entreguista em que o país vivia, com níveis alarmantes de concentração de renda e riqueza, ao mesmo tempo que as perseguições, as prisões, as torturas e os assassinatos de opositores do regime aconteciam, sob o manto do silêncio, nos porões de quartéis e órgãos de segurança. Vianinha soube mesclar a interpelação crítica da realidade com a comédia de costumes, criando uma atmosfera familiar à ampla maioria dos telespectadores, ao mesmo tempo em que infiltrava nos scripts uma série de temas, questões e impasses que caracterizavam a difícil vida do país nos anos chumbos. Tudo isso dentro de uma emissora de televisão que se alinhava ao regime militar e à sua política econômica elitista e antipopular. A enorme empatia do público com o seriado por certo contribuiu para dificultar uma censura mais severa por parte da Globo, na medida em que personagens e situações faziam somar pontos, fidelidade e liderança de audiência. Vianinha, na prática autoral, conseguiu evidenciar a importância de se explorarem brechas e contradições dentro dos grandes meios de comunicação, ocupando espaços preciosos na formulação de uma teledramaturgia mais próxima da moldura social brasileira, com sua carga atômica de mazelas, desigualdades e exclusões. Quanto à atual versão de A grande família, cabe registrar o sucesso de audiência conquistado em todos esses anos. Mas, à exceção do notável desempenho de Marco Nanini em um personagem (Lineu) muito fiel à concepção original de Vianinha, penso a versão no ar está muito longe de espelhar a riqueza e a energia crítica da versão original, que, como já ressaltado, foi exibida nos piores anos da repressão e, ainda assim, promovia um questionamento até mais inteligente, articulado e incisivo.

AEP: A preocupação social que Vianinha deixa escorrer para a maioria de seus textos também parece ter acompanhado boa parte da sua vida pessoal. Sempre engajado nas lutas e discussões de seu tempo, ele foi participante ativo do Teatro de Arena, fundou o Centro Popular de Cultura (CPC) ligado à União Nacional dos Estudantes (UNE), participou da fundação do Grupo Opinião e também fundou o Teatro do Autor. Diante de toda essa trajetória ligada ao ativismo e participação nos processos sociais e históricos nacionais, é possível separar o artista do homem no caso de Vianinha? Aliás, tal separação seria possível na arte de forma geral e, particularmente, no teatro?

Vianinha com José Renato na época do Teatro de Arena, fim dos anos 50 - teatro político e social

Dênis: Vianinha nasceu, cresceu, formou-se e tornou-se adulto em uma família de militantes comunistas, como eram seus pais, o dramaturgo Oduvaldo Vianna e Deocélia Vianna. A construção de sua fisionomia política e intelectual tem muito a ver com a trajetória de resistência e luta dos pais. Os valores que ele assumiu ao longo da vida – sobretudo a necessidade de solidarizar-se com os oprimidos, recusando e combatendo o egoísmo e a ganância do meio burguês, bem como a exploração do homem pelo homem – desbordaram para a sua obra teatral de maneira coerente e permanente. Não havia linhas de fronteira entre vida e criação; eram, na maioria das situações, uma simbiose, ou uma relação de extensão, fertilização mútua e complementaridade. Ele seguia uma existência quase franciscana, vivendo com o mínimo indispensável à sobrevivência, totalmente refratário ao consumismo, à acumulação material, à ostentação e ao desperdício. Detestava a mentalidade consumista, os valores e a hipocrisia social. Tudo o que escreveu estava impregnado dessas visões de mundo, desses compromissos ético-políticos. Não foi, portanto, um teórico do que se poderia ser; ele, a muito custo e enfrentando dificuldades financeiras e incompreensões de várias ordens, procurava praticar, coerentemente o que pensava e acreditava (desafio imenso, quase uma impossibilidade, se extremarmos esse compromisso). Assim podemos vê-lo no Teatro de Arena, no CPC, no Opinião, tanto quando escrevia ou representava, tanto quando debatia, propunha ideias, pelejava por alternativas e saídas. É claro que se deparou, frequentemente, com o dilema, tantas vezes dilacerador, entre o que se quer ser e o que se pode ser. Não é casual que, em várias peças, esse mesmo dilema aparece a alguns personagens, sobretudo quando se trata de alguém que tem compromissos com a transformação social e esbarra em obstáculos de monta, desde a família até as engrenagens de dominação, passando pelas tensões profissionais e pelas crises afetivas e amorosas. Então, não se pode absolutamente separar o homem do criador em Vianinha, sob pena de desfigurá-lo.

AEP: Falando em teatro, em livros que narram a formação do sujeito burguês clássico como Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister, do escritor alemão Goethe, o personagem principal se apaixona pelo teatro, mas, no caminho de sua formação, acaba deixando de lado tal paixão para que a sua entrada no mundo burguês fosse possível. Essa separação entre o teatro e o mundo burguês aconteceria, pois nos palcos, o sujeito pode ser tudo e viver em constante metamorfose e redescoberta de si mesmo, invocando justamente tudo aquilo que a sociedade burguesa procura sufocar, ou seja, o mundo mítico, a totalidade, o encantamento com o corpo, com as cores, com o ser. Em outras palavras, o teatro é tudo aquilo que a sociedade burguesa não quer. Neste sentido, seria o teatro o destino maior de uma personalidade como a de Vianna Filho, crítica, revolucionária, e a forma clássica por excelência para que sua consciência social e sua luta contra o imperialismo cultural pudessem jorrar? Ou, perguntado de outra forma, alguém como Vianinha renunciaria ao teatro e seria capaz de viver em um mundo onde a possibilidade de experimentar a totalidade não existisse?
Dênis: O percurso de Vianinha até o teatro foi influenciado, como mencionei, pela atmosfera familiar e também pelo contexto das lutas sociais e políticas dos anos 50. A sociedade burguesa e o tipo de desenvolvimento excludente e elitista que o Brasil então reproduzia (e dramaticamente continua reproduzindo mais de meio século depois, na atualidade) eram recusados ferozmente pela geração estudantil da qual Vianinha participava. O teatro foi, para Vianinha, a descoberta de uma ferramenta poderosa de expressão, participação e intervenção em um mundo hostil e injusto. Nesse sentido, sim, se constituiu em destino maior para uma personalidade rebelde, questionadora, inconformada. Tanto assim que o grupo no qual ele despontou e depois viria a coliderar, o célebre Teatro de Arena de São Paulo, se projetou no cenário artístico e cultural do país como uma dos principais centros de formação de consciência crítica, seja no plano interno do grupo (formando e/ou consolidando uma admirável geração de atores e diretores engajados politicamente), seja no plano externo, na medida em que constituiu em torno de si plateias receptivas a um teatro participante, crítico e empenhado em levar aos palcos o homem brasileiro, em suas múltiplas dimensões (as convergências, os diferenças, os conflitos, os anseios, as dúvidas, as esperanças, os limites, as frustrações, as conquistas, as utopias). Assim sendo, o teatro foi um cimento para as convicções mais genuínas e profundas de Vianinha; tudo aquilo que ele sentia e almejava, tudo que lhe incomoda e doía, tudo aquilo que tinha urgência e impelia à criação e à interpretação estavam relacionados, efetivamente, a uma busca, determinada, vigorosa e às vezes desesperada, de uma totalidade que refletisse não apenas o seu ser e estar no mundo, mas o mundo mais amplo, em seu ser e estar tão contraditório e fascinante. Daí eu perceber em Vianinha a necessidade de sínteses dialéticas entre a dimensão do indivíduo e a dimensão coletiva, o que não se alcança sem um profundo mergulho em nós mesmos e nas teias que a sociedade estabelece à nossa volta, com todas as consequências existenciais, sociais e políticas daí decorrentes.

Vianinha: um "cúmplice da paixão" que "jamais admitia renunciar à busca da construção em nome dos apelos ideológicos"

AEP: Você escreveu sobre a vida de um homem que, por sua vez, escreveu e viveu a vida de muitos outros homens sempre de forma intensa, onde o social, o indivíduo, as paixões e todas as misérias do ser e do mundo pulsavam em cada ato. Qual o maior desafio em biografar um ator e alguém como Oduvaldo Vianna Filho?
Dênis: Vianinha, em apenas 38 anos, viveu pelo menos 100, tamanha a intensidade de seu envolvimento com suas crenças e com a exigência crucial de tentar transpô-las para fora de si, através do teatro e da arte, o que implicou um esforço descomunal para superar as contingências cotidianas e as barreiras impostas pelo tempo em que viveu. Esse esforço o tornou um homem múltiplo e mesmo multimídia (fez teatro, televisão, cinema, jornalismo, teoria crítica da cultura), ao mesmo tempo em que era um militante comunista em tempo integral, no setor cultural. Tudo confluía para o ponto-chave: fazer política, lutar sem trégua pelas causas democráticas, socialistas e humanistas, explorando todos os espaços possíveis na batalha das ideias. E ele ainda conseguia ser um dos maiores namoradores do meio artístico… ainda que o amor e as paixões nunca suplantassem a prioridade total pela política e pela militância cultural. Como se pode imaginar, não foi tarefa fácil biografá-lo. Tentei, ao máximo, iluminar os vários Vianinhas em um só. Por tudo que se escreveu sobre o livro, acredito que cheguei bem perto… Mas a história apaixonante de Vianinha não acabou nem no ponto final. Diariamente, penso nele e tento aprender e me orientar por suas lições de coerência e de coragem para travar o bom combate. Sobretudo nos momentos mais difíceis e quando tenho dúvidas.

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Por Maura Voltarelli

“O fato do Curso Livre de Teatro não exigir experiências anteriores abre um espaço para pessoas que procuram no teatro as mais diferentes respostas e experiências. As aulas do curso acabam sendo mais do que aulas de teatro, são um momento na vida destas pessoas onde elas podem ser mais do que a vida lhes impõe, não precisam cumprir este ou aquele papel, podem errar, podem experimentar sem medo, se algo der errado, podem voltar e tentar de novo, tentar diferente”.

É com essas palavras que o ator, pesquisador e professor de teatro Eduardo Brasil – formado em Artes Cênicas pela Unicamp e coordenador do Curso Livre de Teatro que acontece no Barracão Teatro em Barão Geraldo, Campinas – revela o espírito e a proposta de um Curso que busca oferecer oportunidade e espaço para pessoas que não têm experiência com o teatro, nunca foram atores profissionais e, no entanto, buscam uma forma de expressão e comunicação, consigo mesmas e com o mundo, por meio desta manifestação artística.

Eduardo Brasil, do Curso Livre de Teatro

Aproveitando a abertura das inscrições para a temporada 2011 do Curso Livre, que seguem até dia 15 de março, Eduardo Brasil concedeu uma entrevista ao Blog Educação Política na qual fala um pouco sobre a sua relação com o teatro, o gosto em trabalhar com o treinamento de atores e também sobre alguns dilemas que envolvem a arte teatral na atualidade, como a pressão às vezes exercida pelo mercado ou a questão da transformação da arte em simples e mero produto.

O ator e professor também analisa a cena cultural campineira na atualidade, particularmente no que diz respeito ao teatro; e sintetiza a experiência diversificada e múltipla do Curso Livre em uma sugestiva palavra: troca!

Agência Educação Política: Como o teatro esteve presente ao longo da sua vida? De que forma a sua trajetória (cursos, formação, trabalhos) confundiu-se com ele e o que exatamente te motivou a seguir a carreira de ator e também de diretor e professor de teatro?
Eduardo Brasil: O teatro entrou em minha vida aos 14 anos, antes deste momento eu nunca havia tido contato algum com esta arte. Na época morava em Tatuí, uma pequena cidade do interior paulista, mas que tem o Conservatório Dramático e Musical Dr. Carlos de Campos, um dos mais conhecidos conservatórios do país. Comecei fazendo teatro na escola e no mesmo ano procurei o curso do conservatório, onde estudei entre 1994 e 1997. Esses anos foram determinantes para a minha escolha de seguir a carreira artística profissionalmente. Decidi estudar teatro na UNICAMP, pois tinha ótimas referências do seu curso de artes cênicas. Em 1998, ingressei na UNICAMP, onde estudei até 2001. Durante o curso na faculdade conheci grandes mestres e parceiros com quem estudei, pesquisei e criei espetáculos, esta vivência provocou em mim o interesse pela pesquisa. O trabalho de pesquisar e sistematizar um treinamento para o ator me colocou neste trilho de formação de outros atores. Dar aulas e cursos de teatro é uma consequência do fato de eu ser pesquisador. Exerço as atividades de ator e professor com a mesma paixão, pois em ambas aprofundo minha pesquisa e meus conhecimentos, e em ambas tenho uma coisa que considero fundamental para o teatro: relação.

AEP: Você é um dos coordenadores do Curso Livre de Teatro que acontece no Barracão Teatro em Barão Geraldo , Campinas. Uma das propostas do Curso Livre é oferecer um espaço e uma oportunidade para pessoas que não têm experiência com o teatro, nunca foram atores profissionais e, no entanto, buscam uma forma de expressão e comunicação, consigo mesmo e com o mundo, por meio desta manifestação artística. Você considera este um dos diferenciais do Curso Livre em relação a outros cursos de teatro que exigem experiência na área?
Eduardo: Com certeza, o fato do Curso Livre de Teatro não exigir experiências anteriores abre um espaço para pessoas que procuram no teatro as mais diferentes respostas e experiências. Penso que isto torna as turmas do curso um coletivo de pessoas que têm muito a trocar, pois são pessoas que vem das mais diferentes áreas de atuação, com experiências de vida muito distintas, e na medida que o grupo vai se conhecendo estas trocas de vivências vão se consolidando, dando uma “liga” muito forte ao grupo. As aulas do curso acabam sendo mais do que aulas de teatro, são um momento na vida destas pessoas onde elas podem ser mais do que a vida lhes impõe, não precisam cumprir este ou aquele papel, podem errar, podem experimentar sem medo, se algo der errado, podem voltar e tentar de novo, tentar diferente. Vejo o quanto os alunos valorizam isto e eu valorizo também.

AEP: Qualquer um pode ser ator ou é preciso ter certa aptidão e talento para representar a vida em cima do palco?
Eduardo: Não acredito em talento, em dom. Para mim, o que faz a diferença de uma pessoa para outra no trabalho teatral é o trabalho, o treino, o desejo de fazer teatro. Qualquer pessoa pode fazer teatro, e não precisa ser profissionalmente. Fazer teatro é uma experiência muito rica e transformadora, desde que haja entrega, a pessoa precisa estar inteira naquilo, e isto vale para os profissionais e para os não profissionais.

AEP: “Os espelhos são usados para ver o rosto; a arte para ver a alma”. De que forma esse pensamento do dramaturgo irlandês Bernard Shaw, autor de peças como Pigmaleão, dentre outras, pode ser relacionado com a essência da arte teatral? Você concorda com ela?
Eduardo: Este pensamento alimentou e inspirou artistas em muitas épocas e tem um valor positivo, pois torna a arte atrativa. Porém, hoje, o teatro, a dança, a performance, enfim, as artes da cena, exploram as linguagens, os espaços e o corpo de uma forma mais ampla. ’… A arte para ver a alma’ e o corpo também. É o corpo que esta lá em cena, ele também diz, também é carregado de conhecimentos e os troca constantemente com o meio e com o outro. As artes da cena podem nos fazer ter experiências, vivências que transcendem os limites de corpo e alma.

Saiba mais

CURSO LIVRE DE TEATRO É UMA EXPERIÊNCIA PARA ALÉM DA DRAMATURGIA

Imagem creative commom por Tostoini

Imagem creative commom por Tostoini

O Curso Livre de Teatro, que é realizado atualmente no Barracão Teatro em Campinas, foi uma das experiências mais apaixonantes que já vivi. Não só pela experiência dramatúrgica, não só pelas pessoas que conheci e nem pelos professores-atores que tratam o curso de uma forma séria e profissional, ao mesmo tempo em que tratam os alunos com respeito e afeto.  O Curso Livre de Teatro, turma 2008,  permitiu a mim, mas também a todos os outros alunos, descobrir o que estava na nossa cara, na frente do nosso nariz, sob os nossos pés. A poesia da vida. E é muito bom.

As inscrições para a Turma 2009 estão abertas. Se houver algum leitor interessado, o e-mail do curso livrre é: cursolivredeteatro@yahoo.com.br

E segue abaixo um texto que escrevi e que a idéia dele ajudou, junto com os textos de outros atores e de grandes escritores, a construir o trabalho que resultou na peça Sob meus pés, apresentada no final do ano passado.

 

Vim para dizer apenas que eu sou ator. Sim, um ator.
Mas não me venhas com julgamentos estéticos,
Não me venhas com comentários sobre minha performance
Não adianta falar que sou um canastrão, que faço apenas clichês da representação
Não adianta falar que ajo como na televisão: caras, bocas e expressões repetidas ao infinito.
Não falo disso, não falo da arte. Falo que sou um ator. Minha condição, ator

Por isso estou aqui a vos narrar esta história.
Sempre quis ser ator. Sempre sonhei com isso.
Mas esperem… Não pensem nos motivos que me fizeram ser ator
Vocês nunca descobrirão, podem tentar, chutar, palpitar
Não…. Nunca pensei em ser galã de telenovela Nem estrelar um grande filme
Está certo, vou abrir uma exceção, posso ter imaginado beijar uma bela atriz, contracenar, seduzir.
Mas são todos pensamentos fugazes, pequenos, fantasiosos
Eu sou ator…não porque dramatizo falas banais, nem porque faço rir pela falta de criatividade cênica, pelo erro.
Não é o avesso da arte.

Acho que vocês querem os fatos, vejo que estão ansiosos.
Sou ator porque posso abrir meus braços, fazer movimentos, correr, brincar, pular
Ah, como era bom brincar o Carnaval na infância.
Ah, como era bom jogar futebol naquele campinho de várzea.
São esses momentos que me fazem lembrar porque sou hoje um ator.
Vocês não me entendem. Sei que não expliquei completamente
Desculpem, mas eu precisava falar, ator também precisa se expressar, não basta representar.

Mas não se angustiem, eu vou revelar agora:
Olhem para mim! Vejam! meus braços, meu corpo. Sim, meu corpo está vivo!
Sou ator porque resgatei um corpo morto no porão da sala de televisão
Resgatei um corpo morto em frente a um computador
Resgatei um corpo morto dentro de quatro paredes de um escritório
Estava lá, imóvel, entravado, prensado, domesticado
Sendo chicoteado e maltratado por um cérebro narcisista que mal sabe pensar,
Mas se acha a obra-prima na natureza, um privilegiado conhecedor, filósofo, pensador.
Mas um pensador sôfrego se tens o corpo enjaulado, atrofiado.
Sou ator porque ressuscitei meu corpo que estava entregue, desfalecido
Eu precisava da natureza, da natureza do meu corpo, da natureza do ator. Acorda!

 

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Cartaz da peça Terceira Margem do Rio

Cartaz da peça Terceira Margem do Rio

O grupo Magma Cênica, formado por ex-alunos do Curso Livre de Teatro de Campinas, apresenta neste final de semana, sexta e sábado (30 e 31 às 21h) e domingo (01 às 20h) a peça A Terceira Margem do Rio, a partir da obra de Guimarães Rosa.

A peça foi encenada como conclusão do curso no final de 2007 e, em 2008, o grupo resolveu continuar o trabalho, readaptando para esta apresentação com a colaboração cênica de Robson Haderchpek, Eduardo Brasil e Ana Clara Amaral.

A peça será apresentada no Barracão Teatro, que fica na rua Eduardo Modesto, 128, Vila Santa Isabel, Barão Geraldo, em Campinas. Ingresso no Chapéu, isto é, você paga quanto pode ao final da peça.

O Curso Livre de Teatro é mais um movimento da capacidade criativa que existe no grande universo dramatúrgico que existe em Campinas, especialmente em Barão Geraldo, e que é fomentado pela presença do curso de Artes Cênicas da Unicamp. Campinas tem um grande potencial de popularização do teatro, é centro de referência nas artes cênicas, mas que ainda não foi absorvido por políticas públicas específicas.

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