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mídia, economia e cultura – por Glauco Cortez

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BRASIL TEVE SEU HOLOCAUSTO DURANTE A DITADURA MILITAR: MILITANTES FORAM INCINERADOS EM FORNO DE USINA DE AÇÚCAR

Do site Carta Maior

Desaparecidos políticos: incinerados em forno de usina de açúcar

Em troca de créditos e facilidades junto à ditadura, uma usina de açúcar do Rio de Janeiro teria cedido seu forno para incinerar cadáveres de presos políticos mortos nas mãos do aparato repressivo. O acordo teria sido feito no final de 1973. A informação, divulgada pelo site iG, consta do livro de um dos protagonistas da barbárie, o agente do DOPS, Claudio Guerra, que mediou os serviços da usina e acaba de publicar um relato desse e de outros crimes.

Em ‘Memórias de uma guerra suja’, um depoimento a Rogério Medeiros e Marcelo Netto, Guerra afirma que a partir de então 11 desaparecidos políticos brasileiros foram reduzidos a cinzas no imenso forno da Usina Cambahyba, localizada no município fluminense de Campos. Seu proprietário, um anti-comunista radical, Heli Ribeiro, era amigo pessoal de Guerra.

As vítimas desse Auschwitz tropical, segundo o livro, seriam: João Batista e Joaquim Pires Cerveira, presos na Argentina pela equipe do delegado Fleury;– Ana Rosa Kucinsk e seu marido, Wilson Silva, “a mulher apresentava marcas de mordidas pelo corpo, talvez por ter sido violentada sexualmente, e o jovem não tinha as unhas da mão direita”; – David Capistrano (“lhe haviam arrancado a mão direita”) , João Massena Mello, José Roman e Luiz Ignácio Maranhão Filho, dirigentes históricos do PCB; – Fernando Augusto Santa Cruz Oliveira e Eduardo Collier Filho, militantes da Ação Popular Marxista Leninista (APML).

Informado hoje sobre a versão, o irmão de Ana Rosa Kucinski, jornalista e escritor Bernardo Kucinski, não descarta a hipótese: “Nunca tinha ouvido antes, mas é verossímel: os precursores desse método foram os nazistas’, diz Bernardo, autor de um romance que leva o leitor a percorrer o outro lado igualmente cruel da tragédia: a labiríntica procura de um pai pela filha tragada no sorvedouro do aparato repressivo. “K”, publicado no ano passado pela Editora Expressão Popular, está na segunda edição com lançamentos previstos na Inglaterra e Espanha.

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Sem violência, pela Verdade

Enquanto as discussões sobre a instalação da Comissão da Verdade acontecem em âmbito oficial, um movimento de caráter extra-oficial, que utiliza a internet como meio de organização, se faz cada vez mais presente nas ruas por meio de frases pintadas no asfalto, cartazes, faixas e pichações.

São centenas de jovens e representantes de familiares de desaparecidos da ditadura que se espalharam em manifestações políticas em cidades como São Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte, Belém e Fortaleza. Pessoas que não viveram os anos de Ditadura Militar no Brasil, mas que estão ligadas a eles por meio de sua história particular ou mesmo ideologia e se opõem ao estado autoritário que se instalou em 1964.

O escracho, que já se mostrou legítimo em países como Argentina, Chile e Uruguai, também atravessados por ditaduras, encontra sua força na espontaneidade, na liberdade, neste tom próprio do escracho que é o de “fazer de qualquer jeito”, “algo meio relaxado, sem pudor”. Porque eles não têm vergonha nenhuma de dizer quem foram os torturadores, os “homens sinistros” que precisam ser punidos e apontados nas ruas, nas suas casas e, em contrapartida, lembrar quem foram as vítimas desses mesmos torturadores.

Eles gritam e pintam frases, empunham cartazes, de forma natural, para não deixar que a memória se perca, ou melhor, para garantir o direito à Memória e à Justiça. Não só porque a história brasileira mereça ser realmente contada, como também porque todas as vidas que se perderam lutando pela liberdade durante os anos de chumbo também merecem ser agora honradas e reconhecidas pela via da mesma liberdade que um dia lhes foi tão cara!

O poder do escracho
Apontar os torturadores é legítimo. E eficaz, como comprovam Argentina, Chile e Uruguai
Por FRANCISCO FOOT HARDMAN

Escracho ou esculacho? Você decide. Porque, de repente, eles estavam por toda parte. Cartazes, pichações, faixas, imagens desenhadas ou pintadas no asfalto da rua. Pois é das ruas que se trata, de uma nova significação do espaço público normalizado pela “boa vizinhança” e pela operação sistemática de produzir o esquecimento para apagar, das memórias individuais e coletivas, os últimos traços de medo que teimavam em sombrear a alma vazia desses homens sinistros. Pouco importa, nesse caso, a privacidade do “lar, doce lar”, a solenidade do local de trabalho. É preciso botar a boca no trombone e assinalar essa geografia do “antilugar”, do “não lugar”, desvelar esse inconsciente de uma história que teima em reaparecer quando muitos a imaginavam sepulta.

Os espectros dos desaparecidos são o GPS real que guia essas alegres levas do Levante. Boa parte das centenas de jovens e representantes de familiares de desaparecidos da ditadura que se espalharam em manifestações políticas contra o esquecimento e a impunidade de torturadores e outros responsáveis pelas ações do aparato de terrorismo do Estado durante a ditadura militar em cidades como São Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte, Belém, Fortaleza, não viveu aqueles anos. Isso é tanto mais notável quanto virou ideia fixa repetir que o Brasil é o país da desmemória. Quantos Harry Shibatas precisarão ser ainda desmascarados? Porque é certo que esse médico-legista coqueluche da “legalização” dos extermínios praticados por agentes da Oban e do Deops não foi caso único no amplo aparato do terror instalado pelos serviços da inteligência do regime militar. Quantos mais foram cúmplices dos perpetradores, administrando a ciência médica a serviço da “otimização” das dosagens de tortura? Quantos juramentos de Hipócrates rasgados sem nenhuma punição dos conselhos regionais ou nacional de medicina?

O escracho é uma manifestação legítima e eficaz. Comprovou-se isso na Argentina, no Chile e no Uruguai. Não deve pretender a violência física da invasão de domicílios ou ataques diretos aos homens sinistros. Apenas desmascará-los em praça pública, in absentia. Não pode, de modo nenhum, ser um movimento a substituir ou a se sobrepor à Comissão da Verdade, que certamente em breve iniciará seus tão relevantes trabalhos. É, na verdade, um livre momento de expressão e desabafo da sociedade civil organizada. A informação precisa e atualizada, a rapidez e leveza de sua estrutura de mobilização, em que a internet joga, como em outros exemplos recentes de democracia direta, um papel decisivo, bem como a imaginação criadora de suas variadas formas, esses são seus ingredientes de sucesso.

Pode-se dizer que, defronte à decrépita sessão nostalgia do Clube Militar, no dia 29 de março, ensaiou-se igualmente um escracho. Evitar o confronto e a violência física, no entanto, deve ser sempre um objetivo no sentido de ampliar seu entendimento e simpatia pela opinião pública. Os homens sinistros sempre foram mestres na arte da provocação: não é o caso de entrar no seu jogo, nem de lhes oferecer pretextos banais. Os matadores dos porões da ditadura não merecem nenhum pedestal da fama, mesmo que perversa. Mereceriam, sim, a imputação nos crimes contra a humanidade em que estão diretamente envolvidos, conforme o entendimento assentado pelo direito humano internacional e pelos tratados e acordos da ONU e da OEA dos quais o Brasil é signatário. Mas tal questão é objeto de outras instâncias, e a Comissão da Verdade é passo significativo no sentido de sua desejável revisão. Jamais o escracho deve se impor tarefas que lhe são de todo impróprias ou inalcançáveis. Sua força maior reside, justamente, em sua completa extraoficialidade. É um ato político. É uma prática pedagógica. E isso por si só é muito. (Texto completo)

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do Blog de Hildegard Angel, no R7, Via Vi O Mundo

Foi um acaso. Eu passava hoje pela Rio Branco, prestes a pegar o Aterro, quando ouvi gritos e vi uma aglomeração do lado esquerdo da avenida. Pedi ao motorista para diminuir a marcha e percebi que eram os jovens estudantes caras-pintadas manifestando-se diante do Clube Militar, onde acontecia a anunciada reunião dos militares de pijama celebrando o “31 de Março” e contra a Comissão da Verdade.

Só vi jovens, meninos e meninas, empunhando cartazes em preto e branco, alguns deles com fotos de meu irmão e de minha cunhada. Pedi ao motorista para parar o carro e desci. Eu vinha de um almoço no Clube de Engenharia. Para isso, fui pela manhã ao cabeleireiro, arrumei-me,  coloquei joias, um vestido elegante, uma bolsa combinando com o rosa da estampa, sapatos prateados. Estava o que se espera de uma colunista social.

A situação era tensa. As crianças, emboladas, berrando palavras de ordem e bordões contra a ditadura e a favor da Comissão da Verdade. Frases como “Cadeia Já, Cadeia Já, a quem torturou na ditadura militar”. Faces jovens, muito jovens, imberbes até. Nomes de desaparecidos pintados em alguns rostos e até nas roupas. E eles num entusiasmo, num ímpeto, num sentimento. Como aquilo me tocou!

Manifestantes mais velhos com eles, eram poucos. Umas senhoras de bermudas, corajosas militantes. Alguns senhores de manga de camisa. Mas a grande maioria, a entusiasmada maioria, a massa humana, era a garotada. Que belo!

Eram nossos jovens patriotas clamando pela abertura dos arquivos militares, exigindo com seu jeito sem modos, sem luvas de pelica nem punhos de renda e sem vosmecê, que o Brasil tenha a dignidade de dar às famílias dos torturados e mortos ao menos a satisfação de saberem como, de que forma, onde e por quem foram trucidados, torturados e mortos seus entes amados. Pelo menos isso. Não é pedir muito, será que é?

Quando vemos, hoje, crianças brasileiras que somem, se evaporam e jamais são recuperadas, crianças que inspiram folhetins e novelas, como a que esta semana entrou no ar, vendidas num lixão e escravizadas, nós sabemos que elas jamais serão encontradas, pois nunca serão procuradas. Pois o jogo é esse. É esta a nossa tradição. Semente plantada lá atrás, desde 1964 – e ainda há quem queira comemorar a data! A semente da impunidade, do esquecimento, do pouco caso com a vida humana neste país.

E nossos quixotinhos destemidos e desaforados ali diante do prédio do Clube Militar.  ”Assassino!”, “assassino!”, “torturador!”, gritava o garotinho louro de cabelos longos anelados e óculos de aro redondo, a quem eu dava uns 16 anos, seguido pela menina de cabelos castanhos e diadema, e mais outra e mais outro, num coro que logo virava um estrondo de vozes, um trovão. Era mais um militar de cabeça branca e terno ajustado na silhueta, magra sempre, que tentava abrir passagem naquele corredor humano enfurecido e era recebido com gritos e desacatos. Uma recepção com raiva, rancor, fúria, ressentimento. Até cuspe eu vi, no ombro de um terno príncipe de Gales.

Magros, ainda bem, esses velhos militares, pois cabiam todos no abraço daqueles PMs reforçados e vestidos com colete à prova de balas, que lhes cingiam as pernas com os braços, forçando a passagem. E assim eles conseguiram entrar, hoje, um por um, para a reunião em seu Clube Militar: carregados no colo dos PMs.

Os cartazes com os rostos eram sacudidos. À menção de cada nome de desaparecido ao alto-falante, a multidão berrava: “Presente!”. Havia tinta vermelha cobrindo todo o piso de pedras portuguesas diante da portaria do edifício. O sangue dos mortos ali lembrados. Tremulavam bandeiras de partidos políticos e de não sei o quê mais, porém isso não me importava. Eu estava muito emocionada. Fiquei à parte da multidão.

Recuada, num degrau de uma loja de câmbio ao lado da portaria do prédio. A polícia e os seguranças do Clube evacuaram o local, retiraram todo mundo. Fotógrafos e cinegrafistas foram mandados para a entrada do “corredor”,  manifestantes para o lado de lá do cordão de isolamento. E ninguém me via. Parecia que eu era invisível. Fiquei ali, absolutamente sozinha,  testemunhando  tudo  aquilo, bem uns 20 minutos, com eles passando pra lá e pra cá, carregando os generais, empurrando a aglomeração, sem perceberem a minha presença. Mistério.

Até que fui denunciada pelas lágrimas. Uma senhora me reconheceu, jogou um beijo. E mais outra. Pessoas sorriram para mim com simpatia. Percebi que eu representava ali as famílias daqueles mortos e estava sendo reverenciada por causa deles. Emocionei-me ainda mais. Então e enfim os PMs me viram.

Eu, que estava todo o tempo praticamente colada neles! Um me perguntou se não era melhor eu sair dali, pois era perigoso. Insisti em ficar, mesmo com perigo e tudo. E ele, gentil, quando viu que não conseguiria me demover: “A senhora quer um copo d’água?”. Na mesma hora o copo d’água veio. O segurança do Clube ofereceu: “A senhora não prefere ficar na portaria, lá dentro? “. “Ah, não, meu senhor. Lá dentro não. Prefiro a calçada”. E nela fiquei, sobre o degrau recuado, ora assistente, ora manifestante fazendo coro, cumprindo meu papel de testemunha, de participante e de Angel. Vendo nossos quixotinhos empunharem, como lanças, apenas a sua voz, contra as pás lancinantes dos moinhos do passado, que cortaram as carnes de uma geração de idealistas.

A manifestação havia sido anunciada. Porém, eu estava nela por acaso. Um feliz e divino acaso. E aonde estavam naquela hora os remanescentes daquela luta de antigamente? Aqueles que sobreviveram àquelas fotos ampliadas em PB? Em seus gabinetes? Em seus aviões? Em suas comissões e congressos e redações?  Será esta a lição que nos impõe a História: delegar sempre a realização dos “sonhos impossíveis” ao destemor idealista dos mais jovens?

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Pelo direito à memória

“O curso do amor verdadeiro nunca é suave”. É essa frase contida em Sonho de Uma Noite de Verão, peça de Shakespeare e também citada por Karl Marx, em O Capital que servia como uma espécie de código para o casal Norberto Nehring – então economista com 29 anos e professor da USP nos anos de 1970, além de militante da Aliança Libertadora Nacional (ALN), e sua esposa, Maria Lygia Quartim de Moraes, atualmente professora titular de sociologia da Unicamp – se comunicar e ter a garantia de que realmente falavam entre si nos negros anos da Ditadura Militar no Brasil.

É também essa frase que serve como fio narrativo de uma história de amor entre uma família e amor pelos ideias de revolução no sentido mais original que essa palavra possa ter, ou seja, o de mudança, sonho, utopia. História recuperada depois de 42 anos a partir de uma caderneta de anotações de Norberto e, particularmente, de uma carta de despedida escrita por ele em meados de abril de 1970, que foi lida em julgamento na Justiça Federal de São Paulo, na tarde de 1º de março de 2012, para decidir a validade de um recurso da União, condenada em primeira instância a pagar indenização por danos morais e materiais à mulher e à filha de Norberto.

A caderneta serve hoje como testemunho da história e das circunstâncias durante muito tempo sombrias da morte de Norberto em pleno regime militar, além de evocar toda carga de memória, afetividade e perda que estão envolvidas nos episódios ligados à repressão e perseguição pela polícia da ditadura. É como se o passado se tornasse de repente mais vivo do que nunca, como se os anos não tivessem passado e as marcas duras da tortura persistissem ainda hoje.

Durante muito tempo, a morte de Norberto em condições bastante suspeitas foi declarada oficialmente como sendo resultado de suicídio por enforcamento. No entanto, fez parte da luta de seus familiares e amigos mais próximos provar o contrário, que ele teria sido assassinado pela própria polícia da repressão e, a partir daí, lutar pela responsabilização do estado por sua morte e, acima de tudo, pela reabilitação da verdade.

Verdade que a família decidiu buscar não só em nome da memória individual de Norberto, mas em nome de toda uma memória histórica e coletiva que, todos os dias, é esquecida quando a nação se nega a olhar para o próprio passado e arrancar também ela do fundo da gaveta as suas cadernetas vermelhas, amareladas pelo tempo, empoeiradas pela já quase anestesiada memória.

Segue abaixo trecho do artigo de Flavio Lobo, publicado no caderno Aliás, do jornal O Estado de S.Paulo com trechos dos escritos de Norberto e mais detalhes da história:

A caderneta de Norberto
Guardada há 42 anos, a carta de um jovem professor da USP morto pela repressão ecoa nos tribunais e desnuda o Brasil da tortura
Por Flavio Lobo

Ela é pequena, leve e tem capa de plástico vermelho. No canto inferior direito da capa, a palavra “NOTE” ainda é fácil de reconhecer, apesar de a impressão ter esmaecido e de seu provável dourado original estar agora mais para o cobre. Na parte de dentro, 42 folhas de papel quadriculado, do tipo usado em cadernos de desenho, estão coladas numa folha de papelão não muito grosso, presa à capa. As duas primeiras páginas e as 70 últimas estão em branco (amarelado). Nas restantes, há mais de quatro décadas lê-se uma carta de despedida.

Em algum lugar na cidade de São Paulo, em meados de abril de 1970, o economista Norberto Nehring, de 29 anos, abriu a caderneta, virou a primeira página e começou a escrever para a mulher e a filha:

Ia e Marta,

Minhas adoradas

Cheguei num sábado aqui na terra e, tristeza, já estou frito. Frito!

Norberto voltara ao Brasil havia poucos dias. Desembarcara no Aeroporto do Galeão, no Rio, com documentos falsos. O nome que constava nos papéis de identidade combinava com seus olhos claros e a ascendência germânica. Já a nacionalidade argentina poderia levantar suspeitas. Mas não foi a esse ponto fraco que Norberto atribuiu sua triste situação, pelo que relataria a seguir:

Logo de cara dei com um conhecido da Pfizer, que arregalou os olhos. Isto deixou-me nervoso e também, por um anterior excesso de confiança, terminei por errar meu nome na portaria do hotel… Que besteira! Custou-me a vida.

Militante da Aliança Libertadora Nacional, a ALN, grupo guerrilheiro que lutava para derrubar a ditadura militar e fazer a revolução socialista no País, Norberto sabia dos riscos que estava correndo. Vários de seus companheiros tinham sido mortos, entre eles o fundador e primeiro comandante da organização, Carlos Marighella. Outros estavam presos ou desaparecidos. Nos cárceres, as torturas eram brutais e sistemáticas.

Norberto já tinha sido preso. Numa manhã de janeiro de 1969, policiais do Departamento de Ordem Política Social (Dops) cercaram a casa onde vivia com a mulher e o levaram. Nos dez dias que passou na carceragem, foi interrogado, sofreu ameaças, testemunhou torturas. Como seu grau de envolvimento com a guerrilha ainda não era de conhecimento do Dops, foi liberado para comparecer ao aniversário de 5 anos da filha. Só passou pela festa e fugiu. Logo foi para Cuba, onde iniciou treinamento militar com intenção de voltar ao combate no Brasil.

Maria Lygia, a “Ia” da carta de despedida, foi com a filha Marta para Cuba, encontrar Norberto. Técnico em química e graduado em economia pela USP, ele até foi convidado a permanecer na ilha trabalhando com petróleo. Mesmo ciente de que o precário treinamento militar que recebia por lá não seria muito útil no Brasil, ainda assim manteve a decisão de retornar ao País. Norberto, que antes de ser preso dava aulas na USP, acreditava que poderia semear a revolução fazendo trabalho de base, conscientizando trabalhadores e estudantes, articulando a luta política. Ao chegar, viu que seus planos dificilmente vingariam. (Texto completo)

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Para os que realmente merecem

Por trás dos nomes das sete mulheres vítimas da ditadura militar que foram anistiadas e indenizadas pela Comissão da Anistia na última sexta-feira (09/03) estão as histórias de sonhos interrompidos, medo, dor, angústia e humilhação que marcam a vida de quem foi submetido, de alguma forma, ao autoritarismo dos regimes ditadoriais.

Hilda Alencar Gil, Ida Schrage, Dulce Maia, Maria Angélica Bacellar, Maria Nadja, Maria Niedja Leite de Olivera, Darci Toshiko Miyaki e Gilda Fioravante foram vítimas de tortura e perseguição política durante a Ditadura Militar. Mesmo com as particularidades de cada história, todas sofreram na pele o desrespeito constante à integridade humana, às liberdades civis e se viram no meio da tempestade que se levantava contra a construção da democracia brasileira.

No reencontro, algumas delas relembraram as histórias, os momentos de dor em que procuravam se ajudar como podiam, a prisão no Dops, as diversas perseguições, e não deixaram de pedir justiça em nome dessa mesma memória que elas compartilhavam e que não pode ser perdida. Entre as homenageadas do julgamento estavam as “mães de maio” (movimento formado por mães que perderam seus filhos na reação aos ataques de facções criminosas em maio de 2006).

Elas enfatizaram a necessidade de se fazer justiça tanto no passado quanto no presente, já que os crimes que acontecem hoje são, segundo elas, sustentados pela mesma herança autoritária e impune que vem do passado. “Exigimos deste país a memória, a justiça e a verdade do que aconteceu em maio e do que aconteceu na ditadura. Exigimos a abertura dos arquivos da ditadura”, disse Débora Maria da Silva, representante das mães de maio.

Veja trecho da notícia sobre o assunto publicada pelo jornal O Globo:

Mulheres perseguidas na ditadura conseguem anistia e indenização
Secretário nacional de Justiça pediu desculpas para cada uma das sete brasileiras
Por Tatiana Farah

SÃO PAULO – Lágrimas e reencontros marcaram nesta sexta-feira o “julgamento” de sete mulheres vítimas da ditadura militar. Em sessão especial de homenagem às mulheres, a Comissão da Anistia julgou e anistiou mulheres que sofreram torturas e perseguições políticas.

– Quero, em nome do Estado, pedir desculpas por todas as perseguições, prejuízos e dores que a senhora sofreu – disse o secretário nacional de Justiça e presidente da Comissão de Anistia, Paulo Abrão, a cada uma das mulheres, entre elas Hilda Alencar Gil, que reivindicou o direito de voltar a estudar Ciências Sociais na USP, já que teve de abandonar o curso devido a perseguições políticas.

Integrante do grupo Polop (Política Operária), Hilda foi mulher do jornalista Pedro Ferreira de Medeiros. Pedro escreveu um artigo histórico na extinta revista O Cruzeiro, sobre o famigerado Comando de Caça aos Comunistas (CCC). No texto intitulado “Comando do Terror”, de 1968, o jornalista dava nomes e conta histórias de integrantes do CCC, o que deflagrou uma perseguição ao casal que não teve parada, mesmo com Pedro e Hilda no exílio.

– A verdade é que ele (Pedro) sempre se recusou a desmentir qualquer uma daquelas afirmações – disse Hilda, que passou a receber uma pensão de R$ 2 mil e uma cota de R$ 222 mil em relação aos pagamentos retroativos desde que correu o processo de anistia.

Planos de estudos e empregos adiados

Militante da Ação Popular (AP) nos anos 60, Ida Schrage teve de viver na clandestinidade , mas acabou presa em 1969. Ficou quatro meses no Dops, onde sofreu tortura física e psicológica. Foi condenada pelo tribunal militar a seis anos de prisão. Na Alemanha, onde se abrigou, dedicou-se a apoiar as mulheres vítimas de violência do Estado de diversos países: (Texto completo)

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Refazendo a história: para Rocha Paiva, o estado militar ditatorial não teria relação com a morte de Herzog

No verdadeiro jogo político que vai se desenhando em torno da aprovação definitiva da Comissão da Verdade que, obviamente, não é do interesse de certos grupos da mídia e tampouco de certas categorias profissionais, duas recentes atitudes, bastante opostas, merecem destaque.

A primeira delas foi protagonizada por um oficial da reserva chamado Luiz Eduardo Rocha Paiva que decidiu vir à tona para reafirmar a posição que parte das forças armadas nacionais sempre desempenhou na nossa história: a de disseminadoras da repressão e da violência.

Quem pratica a violência de forma injustificada já é covarde por si só, não conseguindo olhar a realidade social e intervir nela sem a ajuda de uma arma que intimide ou de uma atitude que subjugue e anule o outro. Negar o passado e, o que é ainda pior, negar a verdade histórica e a verdade dos seus próprios atos é ainda mais covarde, beirando o cinismo e uma certa “loucura prepotente”.

É exatamente isso que parte dos militares da reserva que claramente vivem uma período de insubordinação, dando-se o direito de repreender rudemente “a comandante suprema das Forças Armadas, prerrogativa Constitucional de Dilma Rousseff, ou negar autoridade ao ministro da Defesa, Celso Amorim, como bem lembrou notícia publicada pela Carta Maior.

Mas voltando ao oficial Paiva, este, depois de ostentar muitas condecorações e fazer carreira dentro do Exército, agora faz declarações absurdas que negam o passado e a verdade, dizendo que Vladimir Herzog não teria sido trucidado na tortura e que tampouco a presidente Dilma Rousseff teria sido torturada. Nega ainda que este país viveu debaixo de uma ditadura ao longo de longos 21 anos, além de outros disparates em relação às ações de resistência armada à ditadura. Aliás, a comissão da verdade é justamente para isso, acabar com as versões e descobrir a verdade.

O mais grave, no entanto, não é exatamente as declarações do oficial Paiva, e sim a inércia dos comandantes da ativa diante desse evidente ato de indisciplina.  Tal situação demonstra que, mais do que nunca, é hora do estado brasileiro e das principais organizações da sociedade civil tomarem uma atitude diante do desrespeito que se comete todos os dias impunemente à própria história nacional. E foi isso que fez um grupo de cineastas ao lançar um manifesto em apoio à Comissão da Verdade, repudiando “os ataques desses setores minoritários das Forças Armadas brasileiras, que de forma alguma irão obstruir as investigações que devem ser iniciadas o quanto antes”, afirma o manifesto que também alerta para o fato de as frequentes manifestações de militares atentarem contra as instituições democráticas e o próprio estado de direito.

É sabido que o Brasil é o único país da América do Sul que ainda não investigou e puniu os crimes cometidos durante a ditadura militar. É também sabido que a Comissão da Verdade está emperrada por aqui porque os poderosos de hoje, incluindo grupos de mídia, só o são porque tomaram impulso justamente na mola propulsora da repressão e da violência amplamente praticada nos 21 anos de governo militar.

Mas sem dúvida é mais interessante aos oficiais brasileiros negar o passado e preservar junto à grande maioria da opinião pública a imagem de “crescimento econômico e ordem” que serviu para mascarar toda a desordem cometida e que ainda é a grande lembrança que muitos têm dessa época. Por que não ficar com essa “doce” lembrança? Uma Comissão da Verdade? Pra que verdade? Eles, os militares, já fizeram a deles, basta agora o estado brasileiro e a sociedade organizada decidir qual será a sua.

Veja trecho da notícia da Carta Maior sobre a postura dos oficiais e em seguida o manifesto dos cineastas apoiando a Comissão:

Os covardes e seu medo do passado e da verdade
Por Eric Nepomuceno

Em dezembro, o Uruguai, em respeito a acordos internacionais assinados pelo país reconhecendo que crimes de lesa-humanidade cometidos por agentes do Estado são imprescritíveis, abriu brechas em sua esdrúxula lei de anistia para investigar seqüestros, assassinatos e torturas cometidos durante a última ditadura militar e punir os responsáveis. Na ocasião, o general Pedro Aguerre, comandante do Exército uruguaio, disparou uma frase contundente: “Quem nega o passado comete um ato de covardia”.

Lembrei da frase ao ver a formidável demonstração de covardia que está embutida na insolência do manifesto assinado por oficiais da reserva e, muito especialmente, pela impertinente mostra de cinismo oferecida por um general também da reserva, chamado Luiz Eduardo Rocha Paiva.

Antes de abandonar a caserna, esse cidadão passou 38 de seus 62 anos de vida como oficial da ativa. Espetou no peito as condecorações de praxe, ocupou postos de destaque (entre janeiro e julho de 2007, por exemplo, na segunda presidência de Lula da Silva, foi secretário-geral do Exército), fez um sem-fim de cursos altamente especializados. Ou seja: tem trajetória e transcendência dentro do Exército.

Luiz Eduardo Rocha Paiva é um dos que negam o passado. E, não satisfeito, vai além: trata de negar a verdade, que não costuma merecer o respeito dos covardes. Nega que Vladimir Herzog tenha sido trucidado na tortura. Diz duvidar que a presidente Dilma Rousseff tenha sido torturada. Nega que este país viveu debaixo de uma ditadura ao longo de longos 21 anos. E diz tamanhos disparates ao mencionar ações da resistência armada à ditadura que fica difícil concluir se mente de verdade ou apenas está enganado, por falta de conhecimento.

Não acontece por acaso essa insubordinação de militares da reserva (um dos arautos do movimento se vangloria de ter contado 77 oficiais generais entre os que assinaram a nota criticando duramente a presidente e desautorizando o ministro da Defesa, embaixador Celso Amorim). Além dos generais e brigadeiros (nenhum almirante), o manifesto reúne um significativo número de assinaturas de oficiais superiores (338 até a segunda-feira 5 de março) e outras muitas dezenas de subalternos. Pelo andar da carruagem, mais assinaturas se somarão. Com isso, torna-se cada vez mais difícil, em termos práticos, aplicar a correspondente punição, como pretende a presidente Dilma Rousseff. Mas há aspectos que chamam a atenção. (Texto completo)

Cineastas lançam manifesto em apoio à Comissão da Verdade
Diante das manifestações de alguns setores militares “confrontando as instituições democráticas e o próprio estado de direito”, um grupo de mais de cem cineastas brasileiros divulgou um manifesto em defesa da Comissão da Verdade. “Repudiamos os ataques desses setores minoritários das Forças Armadas brasileiras, que de forma alguma irão obstruir as investigações que devem ser iniciadas o quanto antes”, afirma o manifesto.
Por Redação da Carta Maior

MANIFESTO DOS CINEASTAS BRASILEIROS EM APOIO À COMISSÃO DA VERDADE

Nós, cineastas brasileiros, expressamos a nossa preocupação com as frequentes manifestações de militares confrontando as instituições democráticas e o próprio estado de direito. Todos os cidadãos brasileiros têm o direito de conhecer o que foram os 21 anos de ditadura militar instaurada com o golpe de 1964. É preciso que a Comissão da Verdade, instituída para esclarecer fatos obscuros daquele período, em que foram cometidas graves violências institucionais, perseguições, torturas e assassinatos, tenha plenas condições e apoio da sociedade brasileira para realizar essa tarefa histórica.

Repudiamos os ataques desses setores minoritários das Forças Armadas brasileiras, que de forma alguma irão obstruir as investigações que devem ser iniciadas o quanto antes. Estaremos atentos para que tal comissão seja composta por pessoas comprometidas com a democracia e com a verdade.

1. João Batista de Andrade
2. Roberto Gervitz
3. Lucia Murat
4. Manfredo Caldas
5. Luiz Carlos Lacerda
6. Jaime Lerner
7. Hermano Penna
8. Helena Solberg
9. David Meyer
10. Luiz Alberto Cassol
11. Renato Tapajós
12. Geraldo Moraes
13. Laís Bodansky
14. Luiz Bolognesi
15. Silvio Da Rin
16. Rosenberg Cariri
17. Toni Venturi
18. Joel Zito Araujo
19. André Kotzel
20. Paulo Morelli
21. Carlos Alberto Riccelli
22. Ana Maria Magalhães
23. Henri Gervaiseau
24. Zita Carvalhosa
25. Ícaro Martins
26. Rubens Rewald
27. Ruy Guerra
28. Daniela Capelato
29. Wolney Oliveira
30. Guilherme de Almeida Prado
31. Jorge Alfredo
32. Roberto Berliner
33. André Ristum
34. Carlos Gerbase
35. Omar Fernandes Aly
36. Renato Barbieri
37. Jeferson De
38. Alain Fresnot
39. Murilo Salles
40. Sergio Roizenblit
41. Gilson Vargas
42. Marcio Curi
43. Newton Canito
44. Isa Albuquerque
45. Rose La Creta
46. Rodolfo Nanni
47. Monique Gardenberg
48. José Joffily
49. Chico Guariba
50. Luiz Dantas
51. Tetê Moraes
52. Eliane Caffé
53. Walter Carvalho
54. Augusto Sevá
55. Eliana Fonseca
56. Daniel Santiago
57. Paulo Halm
58. Mariza Leão
59. Sergio Rezende
60. Jorge Durán
61. Miguel Faria
62. Jom Tob Azulay
63. Flavio Frederico
64. Tatiana Lohmann
65. Mauro Baptista Vedia
66. Claudio Kahns
67. Lauro Escorel
68. José Araripe Jr
69. Galuber Paiva Filho
70. Ricardo Pinto e Silva
71. Sergio Bloch
72. Ariane Porto
73. Cesar Charlone
74. Roberto Farias
75. Roberto Santos Filho
76. Oswaldo Caldeira
77. Ricardo Elias
78. Christian Saghaard
79. Pola Ribeiro
80. Tuna Espinheira
81. Lázaro Faria
82. Marina Person
83. David Kullock
84. Mara Mourão
85. Silvio Tendler
86. Sergio Machado
87. Cecília Amado
88. Edgard Navarro
89. Henrique Dantas
90. Cesar Cavalcanti
91. Dodô Brandão
92. Carolina Paiva
93. Guto Pasko
94. Carlos Dowling
95. Duarte Dias
96. Kleyton Amorim Marinho
97. Renato Ciasca
98. Rubens Xavier
99. Antonio Olavo
100. Luiz Carlos Barreto
101. Lucy Barreto
102. Paula Barreto
103. Bruno Barreto
104. Phillipe Barcinski
105. Cristina Leal
106. Tata Amaral
107. Eduardo Escorel
108. Alfredo Barros
109. Helena Ignez
110. Sergio San

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RESISTIR É PRECISO: LIVRO REÚNE CAPAS DE JORNAIS QUE COMBATERAM A DITADURA MILITAR NO BRASIL

O livro “As Capas desta História”, recentemente lançado pelo Instituto Vladimir Herzog como parte do projeto “Resistir é Preciso…”, resgata a memória do Brasil e da imprensa nacional durante os anos de ditadura militar por meio da reunião de uma série de capas de jornais que combateram o regime na época.

O interessante do trabalho de pesquisa e compilação trazido pelo livro é ver algumas capas raras que compõem a obra. Ao todo são mais de 300 capas de jornais alternativos, clandestinos e produzidos no exílio. Neste sentido, o livro faz um rastreamento da jornalismo brasileiro desde o ano do Golpe, até a Anistia e oferece a possibilidade para que jornais não tão conhecidos do público, que nos anos de ditadura viviam na cladestinidade, ganhem enfim o olhar da plateia.

Outro ponto que merece destaque quanto ao livro é a revelação de uma imprensa contestadora e questionadora desde o início. Jornais como O Pasquim, o Correio Braziliense, primeiro jornal independente brasileiro, e a própria revista de Antropofagia e a Klaxon, dos modernistas de 1922, entraram para a história pela sua inteligência, sagacidade crítica, criatividade e consciência social. Qualidades muito distantes da imprensa atual!

Veja trecho de texto publicado sobre o assunto pelo Brasil de Fato:

Livro reúne capas de jornais brasileiros que combateram a ditadura

Obra faz parte do projeto “Resistir é Preciso…”, Instituto Vladimir Herzog, que resgata e demonstra a luta dos jornalistas brasileiros durante a ditadura
Da Redação

O Instituto Vladimir Herzog lançará, nesta terça-feira (25), em São Paulo, o livro “As Capas desta História”, que resgata a memória do Brasil e da imprensa nacional durante os anos de ditadura civil-militar. O lançamento ocorrerá a partir das 19h na Livraria Cultura da Avenida Paulista (2073).

Em mais de um ano de pesquisa, o autor Ricardo Carvalho encontrou verdadeiras raridades que compõem a obra: são mais de 300 capas de jornais alternativos, clandestinos e produzidos no exílio.

Por meio das fotos das capas, a obra registra a trajetória dessa imprensa desde 1964, ano do golpe, até a Lei da Anistia, em 1979. Publicações elaboradas por exilados e até então inéditas no Brasil se destacam ao lado de capas de jornais mais conhecidos, como Pasquim, Opinião , Movimento e Unidade , do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo.

Além disso, o capítulo inicial “Precursores desta História” demonstra a tendência contestadora e questionadora da imprensa brasileira, desde seus primórdios. O jornal Correio Braziliense , primeiro jornal independente brasileiro, publicado em Londres; a Revista de Antropofagia e Klaxon, ligadas ao Movimento Modernista Brasileiro da década de 1920; e o jornal A Manha, diário de crítica e sátira do Barão de Itararé, são alguns exemplos que fazem parte desta seção especial. (Texto completo)

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PARA DILMA, CRIAÇÃO DA COMISSÃO DA VERDADE GARANTE TRANSPARÊNCIA E O PLENO EXERCÍCIO DA DEMOCRACIA

Sem mais silêncio...

As duas recentes conquistas que abrem caminho para a consolidação da democracia brasileira foram comentadas pela presidente Dilma Rousseff que as considerou um meio de tornar o estado brasileiro mais transparente, além de indispensáveis para o exercício da cidadania.. A primeira conquista diz respeito à regulamentação da Lei do Acesso à Informação e a segunda à aprovação da Comissão da Verdade.

A Lei do Acesso à Informação vai permitir que todos os brasileiros consultem documentos e informações produzidos pela administração pública. A partir da aprovação da Lei, cada órgão da administração pública terá seis meses para disponibilizar em uma página na internet informações sobre atuação, contratos, licitações, gastos com compras, repasses e transferências de recursos. Tudo estará discriminado e ao alcançe do cidadão brasileiro.

Por falar em cidadão brasileiro, a aprovação da Comissão da Verdade que investigará o período da ditadura militar no Brasil vem justamente para consolidar a cidadania nacional por meio do resgate da nossa história. Como bem lembrou Dilma, ainda há episódios de mortes e desaparecimentos não esclarecidos e é preciso perscrutar a sombra que paira sobre esse período de nossa história para que a verdade permaneça sobre todos os disfarçes.

Veja texto sobre o assunto publicado pela Agência Brasil:

Dilma: acesso a informações públicas e Comissão da Verdade vão tornar o país mais transparente
Por Paula Laboissière

Brasília – A presidenta Dilma Rousseff disse hoje (31) que a lei que regulamenta o acesso a informações públicas e a criação da Comissão da Verdade vão tornar o Estados brasileiro mais transparente. Durante o programa Café com a Presidenta, ela disse ainda que o objetivo do governo é garantir o exercício pleno da democracia.

“A Lei do Acesso à Informação vai permitir que todos os brasileiros consultem documentos e informações produzidos pela administração pública. Isso vai valer para o Poder Executivo, para o Legislativo, para o Judiciário e para o Ministério Público, tanto no governo federal quanto nos estados e nos municípios.”

Segundo Dilma, cada órgão terá seis meses para publicar em uma página na internet informações sobre atuação, contratos, licitações, gastos com compras, repasses e transferências de recursos. “Isso vai permitir que as pessoas saibam, por exemplo, quanto a escola pública em que o filho estuda recebe para a merenda escolar e o valor que o SUS [Sistema Único de Saúde] repassa para os serviços de saúde da sua cidade”, completou.

Sobre a criação da Comissão da Verdade, a presidenta avaliou que o ato representa o resgate da história brasileira. Durante o programa, ela lembrou que ainda há episódios de desaparecimentos e mortes não esclarecidos. (Texto completo)

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MORTE DA JUÍZA PATRÍCIA ACIOLI MOSTRA QUE BRASIL PRECISARÁ DE 100 ANOS PARA SE LIVRAR DO DANO CAUSADO PELA DITADURA

Patrícia Acioli

A morte da juíza Patrícia  Acioli, promovida ou não por milícias de policiais, mostra que o Brasil vai precisar de pelo menos 100 anos para se livrar de todo o dano causado pela ditadura militar instalada em 1964.

A ditadura ajudou a construir o submundo da cultura da violência, uma cultura herdada do coronelismo e inspirada no fascismo. Ela possibilitou a criação de facções criminosas bem organizadas nos tráficos de drogas, deu liberdade para torturadores e policiais matarem e consolidou o país como um dos mais desiguais do mundo.

A ditadura  criou uma cultura de que a lei não vale nada e que muitas vezes está presente nas sentenças dos tribunais superiores. A ditadura alçou ao poder –  em várias esferas, seja legislativa, executiva e judiciárias – as piores pessoas, para que o regime pudesse ser mantido a ferro e fogo.

A ditadura criou a cultura do medo e da covardia. Os juízes no Brasil estão acovardados. Criou-se uma Justiça cínica, que se funda em pormenores técnicos para livrar corruptos e poderosos.

Os grandes juízes, como Patrícia Acioli, quando não estão resignados, tornam-se vulneráveis.

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PARA TRIBUNAL DE JUSTIÇA GAÚCHO TORTURA É CRIME CONTRA A DIGNIDADE HUMANA QUE NÃO PRESCREVE

Tortura nunca mais!

“A dignidade da pessoa humana é um dos fundamentos da República Federativa do Brasil, e a tortura o mais expressivo atentado a esse pilar da República, de sorte que reconhecer imprescritibilidade dessa lesão é uma das formas de dar efetividade à missão de um Estado Democrático de Direito, reparando odiosas desumanidades praticadas na época em que o país convivia com um governo autoritário e a supressão de liberdades individuais consagradas”. Essas foram as palavras do desembargador Jorge Luiz Lopes do Canto, do Tribunal de Justiça gaúcho que condenou o estado do RS ao pagamento de R$ 200 mil a Airton Joel Frigeri, torturado durante o regime militar no Brasil.

O desembargador gaúcho definiu a tortura como um tipo de crime que não prescreve posto que atenta contra a dignidade humana, um dos pilares da República Federativa do Brasil e do vigente regime democrático. O seu argumento para considerar a tortura como crime imprescritível apóia-se na natureza do regime democrático. Se uma democracia permite que a tortura seja perdoada e passe apenas como um momento da história, a própria democracia, em sua natureza básica e essencial, passa a estar ameaçada.

Uma das maiores incongruências da legislação atual é justamente não julgar e punir todos aqueles responsáveis por promover a tortura durante o regime militar e não indenizar aqueles que foram vítimas dela; por isso a proposta de anistia para torturadores apesar de se sustentar dentro dos argumentos jurídicos, não encontra a mínima sustenção ética, humana e histórica.

Reside justamente aí um dos problemas da nossa legislação. Em diversos pontos, a lei não coincide com a essência da democracia, tampouco com a história de um país e seu povo. É por isso que não nos vemos refletidos em grande parte do sistema jurídico atual, é por isso que o consideramos como algo tão distante, impenetrável por nós, cidadãos. Vez ou outra uma voz lúcida aparece, como essa vinda do RS, e faz vir a tona por meio da lei uma realidade que a muitos é preferível que fique escondida, como ficou por muito tempo pela mesma lei que hoje luta para lançar luz sobre os panos negros da nossa história.

Mais detalhes sobre a decisão inédita do Tribunal gaúcho e também sobre a vida de Airton Joel Frigeri, vítima da supressão das liberdades individuais pelos miliares durante os anos de chumbo, podem ser vistos em reportagem publicada pela Carta Maior, cujo trecho segue abaixo:

Decisão inédita: crime de tortura não prescreve
Da Redação

A 5ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça gaúcho condenou o Estado do Rio Grande do Sul ao pagamento de R$ 200 mil, por danos morais, a torturado durante o regime militar. Então com 16 anos, Airton Joel Frigeri foi buscado em casa em 9/4/1970 e levado algemado à Delegacia Regional da Polícia Civil de Caxias do Sul, depois ao Palácio da Polícia em Porto Alegre e detido na Ilha do Presídio, situado no rio Guaíba em frente a capital. Foi posto em liberdade em agosto do mesmo ano.

O autor da ação narrou que, com o objetivo de conseguir informações sobre outros participantes da VAR-Palmares, foi interrogado várias vezes por meio de tortura por choques elétricos nas orelhas, mãos e pés, por meio de um telefone de campanha, chamado Maricota. Permaneceu longos períodos com algemas nos braços. Recebeu golpes com o Papaléguas, pedaço de madeira preso a uma tira de borracha de pneu com cerca de 40 cm de comprimento por 4 cm de largura. No Palácio da Polícia, escutava a tortura sendo aplicada a outras pessoas.

Na Ilha do Presídio, ´Pedras Brancas´, descreve o autor: (…) não havia chuveiro elétrico, os banhos eram tomados em uma lata de tinta furada, de onde escorria a água de um cano. Os banheiros eram abertos sem paredes e com uma abertura gradeada dando direto para as águas do rio. As celas não possuíam janelas e as grades davam para um corredor, sem porta ou vidro algum, onde o vento gelado do inverno gaúcho soprava diuturnamente. O chão era de puro concreto. (Texto completo)

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VIOLÊNCIA NOS PRESÍDIOS BRASILEIROS REVELA QUE A TORTURA PERSISTE INDEPENDENTE DE REGIME POLÍTICO

Tortura silenciosa...

A violência física e moral contra alguém parece fazer parte de um substrato cultural comum da sociedade haja vista o fato de ela ter atravessado diferentes momentos históricos e sobrevivido a todos eles. A diferença é que em alguns ele ganha notoriedade maior justamente por legitimá-los, é o caso dos regimes autoritários, em outros, é preferível que ela permaneca escondida, no mais absoluto silêncio, é o caso de democracias em geral, como a brasileira.

Depois do fim do regime limitar, hoje nós acreditamos que somos livres, que há direitos garantidos e participação efetiva, mas as coisas não são bem assim. No entanto, alguns logo dirão que a realidade hoje é bem melhor do que a dos anos de chumbo onde você sequer podia dizer algo que corria o risco de ser preso e, uma vez preso, ver desprender-se de seu corpo o que ainda lhe restava da sua alma a cada nova seção de tortura e violência de todas as ordens.

No entanto, guardadas as devidas proporções, a realidade atual não é tão diferente daquela. A liberdade existe sim, a priori, mas há que se discutir que tipo de liberdade é essa e até que ponto ela constrói ou anula um indivíduo. Quando à tortura, essa permanece mais viva do que nunca.

Contribuindo para compor o falido quadro dos presídios e penitenciárias brasileiras, as denúncias de maus tratos sofridos por presos comuns não param de aumentar. Elas começam a romper a barreira da impunidade e do silêncio, desejáveis para que a tortura de hoje não invoque a tortura de ontem, para que o regime político de hoje não seja questionado.

Obviamente qualquer democracia é preferível a uma ditadura, mas não se deve aceitar qualquer democracia e a qualquer custo. Os direitos humanos continuam tão distantes na democracia atual do que eram na época da ditadura militar, a vida continua valendo muito pouco e, como disse Aldo Zaidan, coordenador-geral de Combate à Tortura da Secretaria Nacional de Direitos Humanos da Presidência, “uma forma de reparação da tortura do passado é o combate à tortura do presente. Todo dia ainda tem tortura no Brasil. Ela é um costume, um ato histórico bárbaro”.

Veja trecho de notícia sobre o assunto publicada pelo Portal Vermelho:

Herança da ditadura, tortura persiste em presídios e delegacias
Da Redação, com informações do O Globo

Quase 26 anos depois do fim da ditadura militar (1964-1985) no Brasil, a tortura insiste em sobreviver nos presídios e delegacias do país. Só este ano, a Pastoral Carcerária da CNBB já recebeu 25 denúncias de violências praticadas contra presos comuns.

No ano passado, foram 70. Para um país com 500 mil presos, os números podem parecer inexpressivos. Mas a quantidade de notificações é só uma amostra da realidade das cadeias brasileiras, onde abusos resistem favorecidos pelo silêncio e pela impunidade.

O caso de X., de 42 anos, torturado em 24 de março deste ano por cinco policiais civis, na 10ª DP, em Botafogo, Zona Sul do Rio, foi uma exceção. A vítima teve o pênis apertado com um alicate para confessar um crime que não cometeu.

Na maioria das vezes, os agressores não são identificados e punidos, como revela Aldo Zaidan, coordenador-geral de Combate à Tortura da Secretaria Nacional de Direitos Humanos da Presidência.

“Uma forma de reparação da tortura do passado é o combate à tortura do presente. Todo dia ainda tem tortura no Brasil. Ela é um costume, um ato histórico bárbaro”, admite Zaidan. “Estamos estruturando a rede para notificar este crime. Não existem estatísticas nem condenações.” (Texto Completo)

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DE DEFENSORA DOS DIREITOS DEMOCRÁTICOS E DA LIBERDADE, VELHA MÍDIA AGORA PARECE ESTAR COM MEDO DA VERDADE

Já passou da hora de passar a limpo!

Diante da recente decisão da presidente Dilma Rousseff em instalar uma Comissão da Verdade para enfim, antes tarde do que nunca, investigar os crimes cometidos durante a ditadura militar, notou-se uma silêncio misterioso por parte de alguns setores da velha mídia e atitudes sutilmente contrárias por parte de outros, como mostra texto da jornalista Cynara Menezes, publicado pela Carta Capital.

É no mínimo estranho, para não dizer contraditório, que os mesmo veículos de imprensa que outrora acusaram Lula de estar próximo dos líderes autoritários, de atentar contra a liberdade de imprensa e o direito à pluralidade da informação; de tentar implantar um novo regime ditadorial no Brasil, agora simplesmente silenciem ou torçam o nariz diante da concreta atitude da presidente Dilma contra o obscurantismo e a favor da clareza nas investigações e do respeito aos direitos humanos, incluindo aí tanto as vítimas dos crimes cometidos durante a ditadura quanto os seus familiares.

A criação de tal Comissão é urgente. Como lembra Cynara, nossos vizinhos Chile, Argentina e Uruguai já proporcionaram uma satisfação oficial do estado aos familiares e vítimas no que diz respeito aos crimes cometidos em seus respectivos períodos ditadoriais. Apenas o Brasil segue tentando “tapar o sol com a peneira”, como se diz, repetindo sempre as mesmas desculpas ao afirmar que não se deve revirar o passado, posto que ele pode incomodar o presente.

Incomodar! Uma palavra que parece não definir, mas ao menos esclarecer o comportamento da nossa mídia super democrática. A impressão é de que a investigação da comissão possa trazer à tona algumas verdades inconvenientes que a velha mídia prefere esquecer e, neste sentido, vem convidando também a nação a esquecê-las. Mas a luz vencerá as trevas!

Veja trecho da texto de Cynara Menezes na Carta Capital:

Quem tem medo da verdade?
Por Cynara Menezes

Temos diante de nós uma oportunidade de ouro: a de colocar em pratos limpos quem é democrata de fato no País e quem usa a democracia como uma bandeira de conveniência. Durante oito anos, a grande imprensa brasileira cobrou do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva fictícios atentados contra a liberdade de expressão. Acusavam Lula de possuir “anseios autoritários”. Nunca antes na história viram-se jornais tão zelosos do sagrado direito do cidadão de se informar. Mas quem agora, dentre estes baluartes da democracia, será capaz de se posicionar ao lado da presidenta Dilma Rousseff em favor da instalação da Comissão da Verdade, que pretende apurar os crimes cometidos durante a ditadura? Ou isto não é direito à informação?

Dilma tem manifestado a auxiliares seu interesse em proporcionar uma satisfação oficial do Estado a familiares e vítimas da ditadura, como fizeram nossos vizinhos na Argentina, Chile e Uruguai. Faz parte da agenda da ex-guerrilheira, presa e torturada, destacar-se na defesa dos Direitos Humanos. A titular da pasta, ministra Maria do Rosário, declarou, de chegada, ser assunto prioritário do governo a instalação da comissão. Mas foi só a presidenta assumir que sumiram das páginas mais “liberais” de nossa imprensa os artigos dos colunistas fixos em defesa da comissão. Foram suplantados por textos em defesa da… Defesa, o poderoso ministério que abriga os militares das três Forças. (Texto Completo)

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A ATIVISTA POR TRÁS DA ARTISTA, ENCONTROS ENTRE ELIS REGINA E A HISTÓRIA POLÍTICA DO BRASIL

Artista ativista!

Em ótimo texto escrito por Sérgio Luz, publicado originalmente no Blog  Mania de História e repercutido pela revista Carta Capital, é revelada ao leitor um pouco da vivência política da “Pimentinha”, como chamava Vinicius de Moraes ou Elis Regina, como a maioria dos brasileiros conhece. O talento musical de Elis muitas vezes cruzou o caminho da história política do Brasil e o interessante do texto é justamente mostrar esses momentos de forma consistente e original.

O autor começa falando de como é raro alguém passar da morte para a vida, no entanto, revela que durante a ditadura militar aconteceu um pouco de tudo nesse país. Elis, por exemplo, foi enterrada pelo cartunista Henfil, ao lado de outros nomes que ele considerava responsáveis por fazer a propaganda do autoritário governo dos militares. Isso se deu depois que Elis apareceu na gravação de uma chamada veiculada em todas as TVs, conclamando o povo a cantar o Hino Nacional no dia 7 de setembro de 1972, uma data explorada ao máximo pelos militares. Ao lado dela, outros artistas que apareceram na TV também foram enterrados.

Os anos eram de chumbo e Henfil tinha suas desconfianças e exageros, o fato é que, como revela o texto, do inferno pra onde fora enviada, Elis alcança o paraíso quando tem o nome associado à campanha pela Lei da Anistia, quando uma das canções interpretadas por ela, O Bêbado e a Equilibrista, composta por Aldir Blanc e João Bosco, pedia justamente a volta do irmão do Henfil, ou seja, o sociólogo Betinho, que estava exilado, fugindo da perseguição dos militares e esperando apenas pela anistia para poder voltar ao Brasil.

Por fim, um pouco mais contemporâneos, Elis assegura sua presença no Paraíso da história quando lidera um grupo de artistas de esquerda (Fagner, Belchior, Gonzaguinha, João Bosco, Macalé e Carlinhos Vergueiro, entre outros), em vários shows feitos com o objetivo de levantar dinheiro para o Fundo da Greve do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, no ABC paulista, em 1979. Escondido aí no meio já estava o nome de Luíz Inácio Lula da Silva.

Nesse caminho, o texto vai ligando música e história política, passando pela ditadura e pelo governo mais popular da história do país. E no meio de tudo isso, lá estava ela, uma Elis não tão conhecida que, por trás da expressiva e única voz, demonstrava uma alma tão forte e intensa quanto cada uma das sua brilhantes interpretações! E assim, fatos e composições vão se cruzando para ajudar a ler um pouco mais da bela partitura em que brilhou a vida desta grande artista e grande mulher brasileira!

Vale a leitura! Segue trecho e vídeo com a música que se tornou o hino oficial da luta pela Anistia no Brasil:

Elis Regina, ditadura e Lula
Em 36 anos de vida, a cantora gravou 27 LPs, 14 compactos simples e seis duplos. Um total de quatro milhões de cópias vendidas

Por Sérgio Luz

Sair da vida para um cemitério, é comum, acontece com todo mundo. Mas sair de um cemitério para a vida, só mesmo simbolicamente. Pois foi o que aconteceu com uma gaúcha chamada Elis Regina Carvalho Costa que, em 36 anos de vida, gravou 27 LPs, 14 compactos simples e seis duplos, que venderam um total de quatro milhões de cópias – um número até hoje impressionante.

Em poucos anos, Elis sai do Inferno para o Paraíso. Ao Inferno, ela chega ao ser “enterrada” no Cemitério dos Mortos-Vivos do Cabôco Mamadô – para onde o cartunista Henfil, no semanário O Pasquim, mandava pessoas que, na opinião dele, colaboravam com a ditadura militar no início da década de 70. Ao Paraíso, Elis ascende ao liderar um grupo de artistas de esquerda (Fagner, Belchior, Gonzaguinha, João Bosco, Macalé e Carlinhos Vergueiro, entre outros), que faz vários shows para levantar dinheiro para o Fundo da Greve do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, no ABC paulista, em 1979.

Essa vivência política é um lado pouco conhecido de Elis Regina que, aos 18 anos, foi sozinha para o Rio de Janeiro, onde chegou a morar num quarto-e-sala na Rua Barata Ribeiro, 200, em Copacabana (um prédio tipo balança-mas-não-cai, celebrizado numa peça de teatro, “Um Edifício Chamado 200”, de Paulo Pontes). (Texto Completo)

 

Caía a tarde feito um viaduto
E um bêbado trajando luto
Me lembrou Carlitos
A lua, tal qual a dona do bordel,
Pedia a cada estrela fria
Um brilho de aluguel
E nuvens, lá no mata-borrão do céu,
Chupavam manchas torturadas, que sufoco!
Louco, o bêbado com chapéu-coco
Fazia irreverências mil pra noite do Brasil.
Meu Brasil
Que sonha com a volta do irmão do Henfil.
Com tanta gente que partiu num rabo de foguete.
Chora a nossa pátria mãe gentil,
Choram Marias e Clarisses no solo do Brasil.
Mas sei que uma dor assim pungente
Não há de ser inutilmente, a esperança
Dança na corda bamba de sombrinha
E em cada passo dessa linha pode se machucar
Azar, a esperança equilibrista
Sabe que o show de todo artista
Tem que continuar…

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HERANÇA DA TORTURA DA DITADURA MILITAR, QUE O STF LEGITIMOU, ESTÁ NA ESSÊNCIA DA CRUELDADE DA MORTE DE ELIZA SAMÚDIO

A trama cultural do assassinato de Eliza Samúdio

Nem em imagens fictícias dá para suportar a violência e a tortura?

O caso do goleiro Bruno do Flamengo trouxe à tona duas faces violentas da cultura brasileira: a primeira é a violência contra a mulher, herança da colonização, e a segunda, a tortura praticada por militares criminosos, herança da ditadura militar.

A essência dos requintes de crueldade do assassinato de Eliza Samúdio remetem à cultura da tortura e dos assassinatos nos porões da ditadura militar. Um policial treinado seria o suspeito da tortura e morte da jovem. Para o Supremo Tribunal Federal, em decisão recente, a tortura praticada por militares e as dezenas de assassinatos durante o regime militar estão perdoados.

O perdão aos torturadores e o perdão aos assassinos de mulheres estão expostos de forma mais evidente no caso do goleiro Bruno do Flamengo. É urgente e necessária uma política nacional de combate ao machismo e à tortura, ainda resistente no país.

Além dessas duas heranças, há também o mundo fútil da exploração do corpo presente muito presente na mídia de uma sociedade com excessiva concentração de renda. A história do crime nos remete à toda uma prática social aceita, que é a valorização excessiva dos atributos do corpo como forma de se dar bem na vida em uma sociedade de pobres e milionários. Há uma desigualdade social difícil de combater que parece estar presente na trama do Caso Bruno.

Beleza, corpo, desigualdade social, machismo, tortura e ditadura militar parecem compor esse quadro macabro do assassinato de Eliza Samúdio.

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JORNALISTA MORTO DURANTE DITADURA MILITAR GANHA HOMENAGEM NO RIO DE JANEIRO

Jornalista morto na ditadura ganha memorial

Por: Vladimir Platonow, da Agência Brasi/Brasil Atual

Rio de Janeiro – O ministro Paulo Vannuchi, da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, inaugurou na noite de segunda-feira (5), na Associação Brasileira de Imprensa (ABI), no Rio, um memorial em homenagem ao jornalista Mário Alves, morto durante a ditadura militar. Vannuchi lembrou que esse foi o 21º ato do governo Lula em memória a personalidades e lideranças ligadas à esquerda ou à vanguarda política brasileira.

“É importante multiplicar eventos como esse. São atos para reforçar a ideia de que é preciso criar um consenso nacional a favor da reconciliação, que não se dá sufocando o debate, mas sim convencendo pessoas que participaram do aparelho da repressão a abrir todas as informações, dizendo onde os corpos dos desaparecidos podem ser procurados”, afirmou Vannuchi, adiantando que outros dez memoriais serão inaugurados este ano.

Filiado ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) desde 1939, Mário Alves fundou em 1968 o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), ao lado de militantes históricos como Jacob Gorender e Apolônio de Carvalho. Secretário-geral do PCBR, ele dirigiu os jornais Novos Rumos e Voz Operária. Foi preso pelos militares em duas oportunidades, em junho de 1964, quando ficou um ano detido, e em 16 de janeiro de 1970. Desta vez, foi levado para oDestacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi) e morto, um dia depois, no quartel do Exército da Rua Barão de Mesquita, na Tijuca, zona norte do Rio.

Sua morte, após sessões de tortura, foi testemunhada por outros presos políticos, mas o corpo jamais foi encontrado. Um dos companheiros de prisão foi o professor de história Emir Amed, que chegou a ser levado para a mesma cela de Mário Alves.

“É um resgate cultural, espiritual, político e ideológico de um homem que conheci pessoalmente. Eu vi na cela do DOI-Codi seu colchão ensanguentado. Ele era um intelectual, de uma cultura vastíssima. Lutou pela democracia em nossa pátria e foi massacrado até a morte”, lembrou Amed.

Lúcia Caldas, filha de Mário Alves, representou a família e disse que, apesar das evidências de que ele foi morto, ainda tem esperança de um dia encontrá-lo vivo.
“Eu não sepultei o meu pai, o que é muito difícil para os familiares de qualquer desaparecido político. No plano consciente, sei que ele foi trucidado. Mas em sonhos, me lembro de meu pai e penso se ele não estaria vivo, em algum lugar. É uma esperança que continua aqui dentro”, desabafou Lúcia. (Texto Integral)

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HERANÇA DA DITADURA, TORTURA PRATICADA POR POLICIAIS É LEGITIMADA PELO SUPREMO

Supremo pode absolver torturadores

A violência policial é muito presente na vida dos brasileiros em todas as classes sociais. Ninguém escapa, mas é a população negra e que mora em favela ou na periferia que sente na pele a herança da ditadura militar. Os exemplos saltam nos jornais todos os dias. Veja o mais recente caso de tortura e morte praticado por policiais em São Paulo.

A violência e tortura policial, que ainda resiste após 20 anos de democracia, mostram que esse legado da ditadura está consolidado como prática constante no Brasil. Acontece com jovens que fazem pequenos furtos, mas a maioria dos torturados e mortos é de trabalhadores sem passagem pela polícia, inocentes. Há uma cultura, gerada pelos torturadores da ditadura militar no Brasil, que é a cultura do temor à autoridade, temor policial.

A pacificação gerada pela Lei da Anistia é uma grande falácia. A violência dos torturadores militares ou a serviço de militares durante a ditadura escapou ao controle do Estado e da sociedade. Claro que não são todos os policiais, assim como não foram todos os militares que torturaram. É preciso saber quem são e puni-los.

O Supremo Tribunal Federal, ao legitimar a Lei da Anistia, acabou por legitimar a tortura que acontece atualmente no Brasil.

Se historicamente não punimos torturadores, continuaremos a ser lenientes com essa prática horrenda.

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FOLHA DE S.PAULO ESTÁ CERTA, PERTO DE GILMAR MENDES DITADURA É DITABRANDA; MILITARES SÃO AMADORES FRENTE À MONARCOJURISPRUDÊNCIA

Do blog do Azenha

Gilmar Mendes pede a retirada do ar de programa da TV Câmara que ouviu jornalistas de “O Globo” e “Carta Capital”

Atualizado em 19 de março de 2009 às 21:31 | Publicado em 19 de março de 2009 às 21:11

Carta aberta aos jornalistas do Brasil

19/03/2009 20:54:59

Leandro Fortes

No dia 11 de março de 2009, fui convidado pelo jornalista Paulo José Cunha, da TV Câmara, para participar do programa intitulado Comitê de Imprensa, um espaço reconhecidamente plural de discussão da imprensa dentro do Congresso Nacional. A meu lado estava, também convidado, o jornalista Jailton de Carvalho, da sucursal de Brasília de O Globo. O tema do programa, naquele dia, era a reportagem da revista Veja, do fim de semana anterior, com as supostas e “aterradoras” revelações contidas no notebook apreendido pela Polícia Federal na casa do delegado Protógenes Queiroz, referentes à Operação Satiagraha. Eu, assim como Jailton, já havia participado outras vezes do Comitê de Imprensa, sempre a convite, para tratar de assuntos os mais diversos relativos ao comportamento e à rotina da imprensa em Brasília. Vale dizer que Jailton e eu somos repórteres veteranos na cobertura de assuntos de Polícia Federal, em todo o país. Razão pela qual, inclusive, o jornalista Paulo José Cunha nos convidou a participar do programa.

Nesta carta, contudo, falo somente por mim.

Durante a gravação, aliás, em ambiente muito bem humorado e de absoluta liberdade de expressão, como cabe a um encontro entre velhos amigos jornalistas, discutimos abertamente questões relativas à Operação Satiagraha, à CPI das Escutas Telefônicas Ilegais, às ações contra Protógenes Queiroz e, é claro, ao grampo telefônico – de áudio nunca revelado – envolvendo o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, e o senador Demóstenes Torres, do DEM de Goiás. Em particular, discordei da tese de contaminação da Satiagraha por conta da participação de agentes da Abin e citei o fato de estar sendo processado por Gilmar Mendes por ter denunciado, nas páginas da revista CartaCapital, os muitos negócios nebulosos que envolvem o Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP), de propriedade do ministro, farto de contratos sem licitação firmados com órgãos públicos e construído com recursos do Banco do Brasil sobre um terreno comprado ao governo do Distrito Federal, à época do governador Joaquim Roriz, com 80% de desconto.

Terminada a gravação, o programa foi colocado no ar, dentro de uma grade de programação pré-agendada, ao mesmo tempo em que foi disponibilizado na internet, na página eletrônica da TV Câmara. Lá, qualquer cidadão pode acessar e ver os debates, como cabe a um serviço público e democrático ligado ao Parlamento brasileiro. O debate daquele dia, realmente, rendeu audiência, tanto que acabou sendo reproduzido em muitos sites da blogosfera.

Qual foi minha surpresa ao ser informado por alguns colegas, na quarta-feira passada, dia 18 de março, exatamente quando completei 43 anos (23 dos quais dedicados ao jornalismo), que o link para o programa havia sido retirado da internet, sem que me fosse dada nenhuma explicação. Aliás, nem a mim, nem aos contribuintes e cidadãos brasileiros. Apurar o evento, contudo, não foi muito difícil: irritado com o teor do programa, o ministro Gilmar Mendes telefonou ao presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer, do PMDB de São Paulo, e pediu a retirada do conteúdo da página da internet e a suspensão da veiculação na grade da TV Câmara. O pedido de Mendes foi prontamente atendido.

Sem levar em conta o ridículo da situação (o programa já havia sido veiculado seis vezes pela TV Câmara, além de visto e baixado por milhares de internautas), esse episódio revela um estado de coisas que transcende, a meu ver, a discussão pura e simples dos limites de atuação do ministro Gilmar Mendes. Diante desta submissão inexplicável do presidente da Câmara dos Deputados e, por extensão, do Poder Legislativo, às vontades do presidente do STF, cabe a todos nós, jornalistas, refletir sobre os nossos próprios limites. Na semana passada, diante de um questionamento feito por um jornalista do Acre sobre a posição contrária do ministro em relação ao MST, Mendes voltou-se furioso para o repórter e disparou: “Tome cuidado ao fazer esse tipo de pergunta”. Como assim? Que perguntas podem ser feitas ao ministro Gilmar Mendes? Até onde, nós, jornalistas, vamos deixar essa situação chegar sem nos pronunciarmos, em termos coletivos, sobre esse crescente cerco às liberdades individuais e de imprensa patrocinados pelo chefe do Poder Judiciário? Onde estão a Fenaj, e ABI e os sindicatos?

Apelo, portanto, que as entidades de classe dos jornalistas, em todo o país, tomem uma posição clara sobre essa situação e, como primeiro movimento, cobrem da Câmara dos Deputados e da TV Câmara uma satisfação sobre esse inusitado ato de censura que fere os direitos de expressão de jornalistas e, tão grave quanto, de acesso a informação pública, por parte dos cidadãos. As eventuais disputas editoriais, acirradas aqui e ali, entre os veículos de comunicação brasileiros não pode servir de obstáculo para a exposição pública de nossa indignação conjunta contra essa atitude execrável levada a cabo dentro do Congresso Nacional, com a aquiescência do presidente da Câmara dos Deputados e da diretoria da TV Câmara que, acredito, seja formada por jornalistas.

Sem mais, faço valer aqui minha posição de total defesa do direito de informar e ser informado sem a ingerência de forças do obscurantismo político brasileiro, apoiadas por quem deveria, por dever de ofício, nos defender.

Leandro Fortes
Jornalista

Brasília, 19 de março de 2009

Clique aqui para ir ao site da Carta Capital, que diz: “Gilmar Mendes, o censor”.

Clique aqui para ver, na TV Viomundo, o programa que Gilmar Mendes não quer que você veja.

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CARTA CAPITAL TRAZ UMA ASSUSTADORA HISTÓRIA DA FAMÍLIA DE GILMAR MENDES; TERRA DO MINISTRO NÃO TEM JUSTIÇA

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CONDENAÇÃO DE CORONEL ABRE PRECEDENTES CONTRA TORTURADORES DA DITADURA MILITAR

Família comemora condenação moral e política de coronel torturador

Flávia Albuquerque
Repórter da Agência Brasil

São Paulo – A decisão da Justiça de responsabilizar o coronel reformado Carlos Alberto Brilhante Ustra por tortura durante a ditadura militar foi comemorada hoje (10) pela família Teles, em São Paulo. A sentença saiu ontem (9) e condena o coronel moral e politicamente pela tortura contra César Augusto Teles, Maria Amélia de Almeida Teles e Criméia Alice Schmidt de Almeida. A família não pede indenização financeira, mas o reconhecimento de que o Estado mantinha como torturadores membros do Exército.

A família falou com a imprensa durante evento em homenagem aos 40 anos do 30º Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), realizado em Ibiúna, no interior paulista. A cerimônia ocorreu no Memorial da Resistência, na Estação Pinacoteca do Estado, e reuniu ex-presos políticos e pessoas que participaram da luta contra a ditadura e a favor da democracia.

Durante a cerimônia foram inaugurados dois painéis: um com as fotos dos 23 estudantes mortos na época da ditadura e outro com a lista dos 719 presos durante o Congresso. Na lista aparecem os nomes Jean Marc Von der Weid, Wladimir Palmeira, Franklin Martins e José Dirceu, entre outros. A cerimônia foi organizada pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República, em parceria com a Secretaria de Estado da Cultura e com a UNE.

Uma das autoras da ação judicial que resultou na declaração de Ulstra como torturador, Amélia afirmou que a decisão é extremamente importante não só para a família Teles, mas também para a sociedade brasileira em geral, porque resgata a cidadania, a ética e a justiça. “Abre possibilidades para o Brasil criar uma cultura de combate, de pôr fim à ditadura, à tortura, ao desmando. É um momento em que a democracia se reconstrói e se consolida”.

O marido de Amélia, César Augusto Teles, disse que desde a época em que a família foi presa, em 1972, eles tentam levar os torturadores o julgamento, mas até conseguir um advogado disposto a isso era complicado, devido ao clima de terror existente no país por causa da ditadura. “Hoje eu sinto que foi uma decisão ainda pequena, mas importante porque é um primeiro passo para que outros também recorram e peçam a punição desses torturadores, que são criminosos. Mas acho que eles não têm perdão, mas também não estou procurando vingança. Quero que o país viva dentro da lei e que as pessoas tenham o direito de ter o pensamento que quiserem, desde que não infrinjam a lei”.

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