Educação Política

mídia, economia e cultura – por Glauco Cortez

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POR QUE SÓ ATUAR POLITICAMENTE EM BENEFÍCIO DA SOCIEDADE DEPOIS DE UMA GRANDE E LANCINANTE DOR?

Imagem: gaf arq creative commons - flickrA história tem nos ensinado, pelo menos a história dos últimos séculos, que é na tragédia que o homem evolui. Essa é uma dialética cruel para nós humanos, mas parece ser esse o desafio da emancipação da razão. Depois da tragédia, a sociedade reage.

Parece muito fácil e raso culpar os músicos, os donos da boate e os bombeiros pela tragédia na boate Kiss em Santa Maria (RS), assim como fazem os programas policiais sensacionalistas da televisão brasileira ou a revista semanal Veja, que se limita a análises de dois neurônios, o do bem e o do mal, sempre que acontece algum grande drama social.

A culpabilidade serve para ver o passado, não o presente. É preciso pensar os sentidos humanos do problema para que se possa entendê-lo antecipadamente e talvez evitá-lo.

Existem inúmeras outras mortes traumáticas que acontecem constantemente por esse Brasil e que, após a tragédia, as pessoas agem da mesma forma que a sociedade age agora, com fiscalizações por todo o Brasil, tentando dar um resposta política.

Depois da tragédia, há a atuação politica na mobilização dos empresários de casa noturna, na imprensa, nos poderes públicos etc. Todos buscam na política e na solidariedade uma solução. Possivelmente emerge o sentimento de não querer passar por isso e nem que outras pessoas passem pelo que os parentes das vítimas passam.  Mas por que buscamos essa solidariedade e essa política somente depois da tragédia se somos suficientemente racionais para buscá-la preventivamente?

A tragédia, como a da boate Kiss,  é exposta mundialmente porque é coletiva, mas fica esquecida quando são vítimas individuais, uma tragédia familiar. Vale a pena recordar casos e histórias individuais. A primeira que me vem à cabeça é o Instituto Ives Ota, criado pelo pai do garoto de 8 anos do mesmo nome, após seu assassinato. Também há o caso dos pais de uma garota que criaram uma ong sobre segurança de esportes radicais após filmar a morte da filha em um bang jump, também  assisti a um vídeo sobre uma mãe que criou uma ong para segurança de turismo de aventura, após perder a filha em uma queda de cavalo em um resort e tantos outros.

Todos parecem fatalidades e é certo que essas coisas podem acontecer, mas é nesse momento de tragédia pessoal que atuação política surge e deixa a esfera do privado (prover e pensar somente na sua família) e passa a consciência dialética de que o bem estar da sua família precisa do bem estar também da sociedade. Nesse momento, país e mães com a dor da perda criam ongs, entidades e associações para que outras pessoas não sintam ou não passem pelo que passaram. Diante dessa dor impensável parece eclodir o gene social adormecido pelo capitalismo.

Por que não criar essas entidades antes da morte dos filhos? Por que só atuar politicamente e em benefício da sociedade depois de uma grande e lancinante dor? Por que não somos capazes de usar a razão e percebermos que é necessário que todos atuem de alguma forma socialmente, coletivamente e politicamente?

Parece triste reconhecer que no capitalismo a tragédia tornou-se a origem da ação política, seja na esfera pública ou privada.

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Precaridade no atendimento às crianças: ausência de programas educacionais, sociais e falhas das próprias famílias

As fugas e os arrastões já fazem parte da realidade de muitos menores em situação de rua na cidade de São Paulo. O problema se insere em uma complexa teia de causas e consequências onde a pior delas é a situação de abandono em que vivem os menores e o sentimento de revolta que vai tomando conta deles, preenchendo um espaço que poderia ser dos sonhos, do conhecimento e das oportunidades.

Vindos de famílias desestruturadas, quando há família, os menores em situação de rua geralmente são encaminhados aos Conselhos Tutelares da cidade (que são poucos e trabalham sobrecarregados), a abrigos, ou, quando maiores de idade, vão para a Fundação Casa (antiga Febem). Em nenhum desse lugares recebem tratamente adequado, como mostra reportagem publicada pela Agência Brasil.

Especialistas ouvidos pela Agência, falam de uma falência no sistema público de atendimento aos menores que é apenas a ponta mais visível de um problema que encontra raízes na ausência de educação pública de qualidade e na falta de estrutura familiar.

A situação da infância no Brasil fica assim envolvida na mesma desigualdade social e de oportunidades com a qual já nos acostumamos. Um problema difícil de resolver, sintoma da forma como o social sempre foi tratado no Brasil.

Veja trecho da notícia sobre o assunto publicada pela Agência Brasil:

Arrastões mostram falência no atendimento a crianças, dizem especialistas
Por Bruno Bocchini

São Paulo – Arrastões feitos por crianças e adolescentes e fugas recorrentes dos abrigos são indicativos da falência do Poder Público e da sociedade civil em resolver o problema dos menores em situação de rua. A opinião é de dois especialistas ouvidos pela Agência Brasil.

Na última segunda-feira (22), a cidade de São Paulo registrou o segundo arrastão feito por crianças e adolescentes na Vila Mariana – bairro da zona sul de São Paulo. Após invadirem um hotel, sete menores foram apreendidos pela polícia. Alegaram ter menos de 12 anos e foram levados ao Conselho Tutelar, onde passaram a depredar o local.

“Agora que nós vemos que a coisa está degringolada, temos que começar tudo de novo chegando à raiz, chegando à origem: um Estado que traga educação pública. Tudo o que podemos fazer é paliativo. É colocar band aid em tumor”, destaca o desembargador e coordenador da área de Infância e Juventude do Tribunal de Justiça de São Paulo, Antonio Carlos Malheiros.

Na tarde de ontem (23), três dos sete jovens apreendidos fugiram do abrigo para onde tinham sido encaminhados. Dois foram reconhecidos como maiores de 12 anos e levados para a Fundação Casa, antiga Febem. (Texto completo)

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