Educação Política

mídia, economia e cultura – por Glauco Cortez

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IDEIA DO AMOR, IDEIA DA MORTE, POR GIORGIO AGAMBEN

Ideia de Agamben

Ideia de Agamben

Por Maura Voltarelli

O filósofo italiano Giorgio Agamben ficou conhecido pela sua frase com forte teor polêmico, “Deus não está morto, ele virou dinheiro”. Mas Agamben já era e é, antes de tudo, o filósofo da poesia. Em seus textos, a poesia sempre é refletida a partir de um lugar elevado, sempre é posta em movimento e, mais importante, sempre acumula sentidos e horizontes de realização.

Um de seus livros, Ideia da Prosa, busca refletir precisamente sobre o que seria a poesia a partir da prosa e, mais ainda, traz diversos pequenos textos sobre diferentes ideias de temas que sempre aparecem na nossa vida. Temos no livro “Ideia da vocação”, “Ideia da Musa”, Ideia do comunismo”, Ideia do poder”, “Ideia da paz”, “Ideia da vergonha”, “Ideia da música” e tantas outras…

Deixamos aqui duas ideias fundamentais sobre as quais Agamben fala a partir de uma originalidade surpreendente e genial.

Ideia do amor

Viver na intimidade de um ser estranho, não para nos aproximarmos dele, para o dar a conhecer, mas para o manter estranho, distante, e mesmo inaparente – tão inaparente que o seu nome o possa conter inteiro. E depois, mesmo no meio do mal-estar, dia após dia não ser mais que o lugar sempre aberto, a luz inesgotável na qual esse ser único, essa coisa, permanece para sempre exposta e murada.

Ideia da morte

O anjo da morte, que em certas lendas se chama Samael, e do qual se conta que o próprio Moisés teve de o afrontar, é a linguagem. O anjo anuncia-nos a morte – e que outra coisa faz a linguagem? – mas é precisamente este anúncio que torna a morte tão difícil para nós. Desde tempos imemoriais, desde que tem história, a humanidade luta com o anjo para lhe arrancar o segredo que ele se limita a anunciar. Mas das suas mãos pueris apenas se pode arrancar aquele anúncio que, assim como assim, ele nos viera fazer. O anjo não tem culpa disso, e só quem compreende a inocência da linguagem entende também o verdadeiro sentido desse anúncio e pode, eventualmente, aprender a morrer.

AGAMBEN, Giorgio. Ideia da Prosa. Trad. João Barrento. Lisboa: Cotovia, 1999

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Aaron Swartz, ativista digital suicidado recentemente

Aaron Swartz, ativista digital “suicidado” recentemente

Eu sinto fortemente que não é suficiente simplesmente viver no mundo como ele é e fazer o que os adultos disseram o que você deve fazer, ou o que a sociedade diz o que você deve fazer. Eu acredito que você deve sempre estar questionando. Eu levo muito a sério essa atitude científica de que tudo que você aprende é provisional, tudo é aberto ao questionamento e à refutação. O mesmo se aplica à sociedade. Eu cresci e através de um lento processo percebi que o discurso de que nada pode ser mudado e que as coisas são naturalmente como são é falso. Elas não são naturais. As coisas podem ser mudadas. E mais importante: há coisas que são erradas e devem ser mudadas. Depois que eu percebi isso, não havia como voltar atrás. Eu não poderia me enganar e dizer ‘Ok, agora vou trabalhar para uma empresa’. Depois que percebi que havia problemas fundamentais os quais eu poderia enfrentar, eu não podia mais esquecer isso“.

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Freud: a terceira ferida narcísica na humanidade

O essencial, o núcleo da questão é o que Freud chamou de “modo de pensar”. O modo de pensar psicanalítico significa que se leve em conta o inconsciente. Significa admitir que o “eu” não é dono da casa. O “eu” é uma das instâncias do funcionamento psíquico, mas é dominado pelo inconsciente. E Freud reconheceu isso ao dizer que ele tinha imposto a terceira ferida narcísica à humanidade. A primeira foi revelada por Nicolau Copérnico, quando ele disse que a Terra gira em torno do Sol e não o contrário. A segunda se deu quando Darwin disse que o homem descende do macaco e a terceira quando Freud afirmou que o homem não manda na sua casa, isto é, não é o consciente que nos governa. O caráter subversivo da psicanálise é que ela se choca com o pensamento espontâneo do homem que pensa que é seu “eu” que conta. O ser humano tem dificuldade de admitir os dados da psicanálise, isto é, que tem um inconsciente que se manifesta por meio do sonho, dos chistes, dos lapsos, dos atos falhos, dos esquecimentos. Isso determina o sujeito muito mais do que o consciente, a racionalidade. E o caráter subversivo da psicanálise repousa ainda no fato de que ela não quer adaptar o indivíduo à sociedade, mas libertá-lo. É uma escola de liberdade e nesse sentido ela é subversiva, qualquer que seja o regime. Há regimes democráticos que a toleram, mas ela é incompatível com os totalitarismos. A psicanálise é intolerável também por causa da sexualidade. Essa dimensão fundamental da sexualidade infantil que Freud explicita a partir de 1905 é o aspecto mais escandaloso que o levará a ser acusado de pansexualismo.

(Trecho da entrevista de Michel Plon à Carta Capital, edição 707)

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O debate cultural segue a agenda da grande imprensa

“Nós vivemos numa sociedade leiga, essencialmente marcada por um pluralismo de cosmovisões. Então não existe mais aquele tipo de mentalidade monolítica, que tinha uma certa garantia de verdade, chancelada ou religiosamente ou metafisicamente. Pelo contrário, nós vivemos hoje numa espécie de diáspora de convicções. Cada uma delas sustentando seu próprio direito, e esse direito efetivamente só pode ser assegurado no caso de uma sociedade multicultural como a nossa e essencialmente pluralista do ponto de vista ético, a partir da argumentação. 
Desde que você não queira impor alguma coisa, nem pela força nem pela astúcia, a única via possível de legitimação de pretensões é a via argumentativa. Esse é um elemento que complica bastante nossas relações hoje. Nós não temos mais o recurso mais ou menos rápido e cômodo de invocar a vontade de Deus. Não, “eu creio” é uma afirmação que tem de exibir seus títulos de crédito. Se você não for capaz de exibir esses títulos de crédito não está suficientemente qualificado para participar do debate público. 

Uma sociedade multicultural, eticamente plural como a nossa, mas uma sociedade de massa, tem necessariamente que conviver com certos riscos de manipulação em termos de formação, de formatação de opinião, que são capazes de engendrar uma espécie de aparência de liberdade, uma aparência de formação livre de convencimento, onde de fato há uma espécie de direcionamento prévio. O exemplo mais claro que posso oferecer para vocês disso é a formatação do debate cultural pela agenda da sociedade, digamos, ligada aos interesses da grande imprensa hoje. 

Todas as questões fundamentais que estão sendo levadas à discussão não são questões que nascem fora do âmbito dos interesses mais importantes da indústria cultural. De tal maneira que nós não somos tanto autônomos e independentes na escolha dos temas que nós discutimos, porque aquilo já está dado antes. Já está pautado antes pela imprensa”. (Texto integral na Revista E)

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NA SOCIEDADE ATUAL O “ESTAR SÓ” É VISTO COMO DOENÇA OU EPIDEMIA DISFARÇANDO OS REAIS MALES DA CONTEMPORANEIDADE

Aparentemente, não parece existir nenhum problema no “estar só”. Para muitos, a solidão pode ser até um desprazer, mas outros a apreciam ou trocariam tudo por momentos de convivência consigo mesmos.

No entanto, a tendência do mundo moderno em diagnosticar, racionalizar e sintomatizar quase tudo começa a ver a solidão como uma espécie de doença ou epidemia, causa de todos os males. E aí reside certa inversão promovida pelos alienistas de plantão. Afinal, seria a solidão causa ou efeito de todos os males?

Cabe pensar que estamos sim cada vez mais sozinhos. Alguns por opção. Outros, no entanto, estão sozinhos sem perceber a solidão. Hiperconectados, a maioria tem a ilusão de não estar só para, de repente, surpreenderem-se solitários.

Assim, será mesmo que a solidão é a causa de todos os males, ou, um mundo onde a subjetividade se perde em meio às multidões e comercialização dos sentimentos humanos, é que não nos convida a uma espécie de narcisismo conectado em busca de uma individualidade fragmentada?

Se a solidão graça em excesso a culpa não parece ser dela, mas a sociedade não quer olhar para as sua próprias misérias e criações, é mais fácil diagnosticar e inventar doenças que estão no ser humano, jamais fora dele.

E não há aqui uma crítica à conectividade, posto seus benefícios democráticos e novidades, e sim à sociedade que faz dela o único reduto possível de salvação para as ausências que ela mesma cria, diluindo todas as outras possibilidades reais de troca e convivência.

Veja trecho de texto que gera reflexão sobre o assunto publicado pela revista Cult:

Política da solidão
Clinicalização do estar só escamoteia o verdadeiro mal da sociedade atual, que é a hiperconectividade
Marcia Tiburi

Algo vai muito mal com a autocompreensão do ser humano sob a crença de que existe um padrão normal dos afetos que calibraria o todo da experiência emocional humana. A crença na normalidade confirma apenas que vivemos mergulhados na incomunicabilidade. Os sentimentos humanos são nebulosos e confusos, mas não são expressos senão por meio de atos desesperados que falam por si mesmos.

Se a norma fosse estabelecida pelo que há de mais comum, teríamos de voltar ao paradoxo de Bacamarte: o anormal é normal, o normal é anormal.

O fenômeno contemporâneo da psiquiatrização da vida nasceu como tentativa de eliminar a estranheza humana. Hoje ele sustenta a indústria cultural da saúde, que se serve do sofrimento humano como a hiena se serve da carniça.

Para os fins do logro capitalista já não basta aproveitar a desgraça do outro, também se pode ajudar a incrementar a produção do infortúnio usando a arma do discurso. A moral une-se à ciência nessas horas e quem paga o preço é o indivíduo humano, do qual se extirpa a capacidade de pensar sobre sua própria vida.

Se a indústria farmacêutica depende da evolução das drogas e dos remédios, depende também da existência de doenças. Criar um remédio pode implicar a criação da doença.

Assim é que uma das mais fundamentais experiências humanas na mira dos sacerdotes da moral que propagam a psiquiatrização da vida é, hoje, a solidão. A banalidade da proposta não é pouco violenta.

Em pesquisa recentemente divulgada, um médico norte-americano definiu a solidão não apenas como doença, mas como epidemia. Tratou-a como uma tendência contrária à evolução. Definida como um erro da “natureza humana”, a solidão passa a ser vista fora de sua dimensão social e histórica. Como doença, ela seria a causa do sofrimento e não o efeito da perda de sentido da convivência entre as pessoas. Em última instância, daquilo que seria o significado mais próprio da política como universo da integração entre indivíduos e comunidades. (Texto completo)

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BANIDA PELA DITADURA MILITAR, FILOSOFIA TERÁ LIVRO DIDÁTICO DISTRIBUÍDO EM ESCOLAS DA REDE PÚBLICA A PARTIR DE 2012

Se a filosofia abre as interrogações, as ditaduras preferem o ponto final

A filosofia como prática é um exercício que leva a questionamentos sobre si mesmo e sobre o mundo, que ajuda a olhar a realidade de forma mais crítica, organizar melhor os argumentos e construir opiniões sólidas sobre os mais variados assuntos. A filosofia desde a Grécia antiga é considerada como uma das mais elevadas práticas do saber, por isso, ela era tão cultuada por nomes como Platão e Aristóteles. Refletir era sinônimo de abrir-se para o mundo e ter o mundo aberto diante de si.

Obviamente, uma ciência do pensamento como a filosofia não é nada interessante para regimes ditadoriais e autoritários que querem, antes de tudo, eliminar a própria capacidade de pensamento da população. Em ditaduras se obedece, não se pensa, em ditaduras se copia, não se inventa, em ditaduras não se questiona, se submete. Seguindo essa lógica, não é de se espantar que o ensino de filosofia nas escolas do país tenha sido banido com a ditadura militar de 1964.

A ausência da filosofia nas escolas públicas prolongou-se ainda por mais um longo período e só voltou a ser obrigatória como disciplina para estudantes do ensino médio a partir de 2008. Sem dúvida um atraso social e humano. Agora, uma boa notícia, a partir de 2012 serão distribuídos livros didáticos com dicas e instruções para orientar melhor o ensino de filosofia nas escolas da rede pública.

Com o apoio do livro didático, o professor pode preparar melhor as aulas e os alunos se localizam melhor, no entanto, vale dizer que livro didático nenhum faz milagre. Ele não substitui o professor, tampouco basta para os alunos. Deve servir como apoio, mas nunca como instrumento de acomodação e limitação do saber. Bons professores e alunos insteressados continuam sendo a melhor fórmula para o bom ensino da filosofia e de qualquer outra das nossas disciplinas.

Veja trecho de notícia sobre o assunto publicada no site da Agência Brasil:

Banida das escolas desde a ditadura, filosofia vai ter livros didáticos distribuídos na rede pública em 2012
Por Amanda Cieglinski

Brasília – A filosofia vai voltar, na prática, para o conteúdo curricular dos alunos de ensino médio, depois de 47 anos fora dos currículos das escolas de educação básica no país. No ano que vem, as escolas da rede pública receberão pela primeira vez, desde a ditadura, livros didáticos da disciplina para orientar o trabalho dos professores. Foi o regime militar que baniu a filosofia das escolas.

Em 2008, uma lei trouxe de volta a filosofia e a sociologia como disciplinas obrigatórias para os estudantes do ensino médio. A professora Maria Lúcia Arruda Aranha ensinava filosofia em 1971 quando a matéria foi extinta pelo governo militar. Hoje, é uma das autoras dos livros que foram selecionados para serem distribuídos aos alunos da rede pública pelo Programa Nacional do Livro Didático (PNLD).

“Ela desapareceu [a filosofia nas escolas] na década de 70 e reapareceu como disciplina optativa em 1982. Mas, nesse meio tempo, eu continuava dando aula em escola particular. A gente ensinava, só que o nome da matéria não podia constar como filosofia”, lembra.

Ela avalia que o país “demorou demais” para incluir as duas disciplinas novamente entre as obrigatórias e ainda falta “muito chão” para que elas sejam ministradas da forma adequada. Ainda faltam professores formados na área já que, por muito tempo, não havia mercado de trabalho para os licenciados e a procura pelo curso era baixa. Em 2009, 8.264 universitários estavam matriculados em cursos superiores de filosofia – 78 vezes menos do que o total de alunos de direito. (Texto Completo)

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“O JORNALISMO DA GRANDE IMPRENSA ESTÁ AÍ PARA FALSIFICAR A REALIDADE”, DIZ FILÓSOFO

Luiz Fuganti

Por Maura Voltarelli

Se você perguntar a um jornalista ou a um leitor de jornal qual a função do jornalismo, as respostas tendem a convergir para algo em torno de “buscar a verdade dos fatos”. Essa possibilidade, objeto dos estudos filosóficos desde os tempos de Platão, na Grécia Antiga, é ainda hoje um dos temas das aulas e dos estudos do filósofo, arquiteto, professor e escritor Luiz Fuganti. Alto, cabelos finos e já esbranquiçados, olhos atentos e pensamento ágil, frenético, profundo e denso. Há mais de 20 anos, ele ministra cursos, palestras e seminários acerca de um tipo de pensamento sem referências, imanente à própria natureza.

Fuganti é autor de obras como Saúde, Desejo e Pensamento; Ética como Potência e Moral como Servidão; Formação do Pensamento Ocidental; Diferença e Analogia em Platão; e Espaço, Poder, Estética e Sentido, entre outros. Em sua casa, na cidade de São Paulo, onde realiza reuniões semanais que fazem parte de um projeto conhecido como Escola Nômade, ele recebeu a Agencia Educação Política para uma entrevista na qual se falou um pouco sobre tudo.

De saída, já foi antecipando: “o jornalismo da grande imprensa está aí exatamente para falsificar a verdade, já que produz um discurso cujo objetivo é promover o assujeitamento, pois o indivíduo desacredita de si próprio e vai buscar externamente a ele a noção de realidade”. Fuganti recorre ao legado de pensadores e filósofos como Spinoza e Michel Foucault para expor suas ideias. A seguir, seguem os principais trechos da entrevista que correu solta e descontraída em meio a almofadas coloridas espalhadas pelo chão e regada por uma boa dose de café.

AEP: É possível chegar a uma verdade absoluta? Ou ela carregaria sempre uma certa subjetividade?
Fuganti: Eu sempre digo que existe um absoluto de cada ponto de vista. É como dizem: inventem o real ou não existem fatos, só interpretações de um acontecimento. O fato, portanto, é sempre uma versão do acontecimento. E às vezes acontece que a objetividade é mais objetiva ou o fato é mais fato porque contemplam a crença geral e são sustentados por um comando que mantém a ordem social. Ou seja, a maneira de enunciar já está ligada a um princípio de realidade, que é social, econômica, política e historicamente constituído.

AEP: Quando você se refere à maneira de enunciar, está se referindo ao uso da linguagem e à importância que esta adquire dentro do jornalismo?
Fuganti: Exatamente, me refiro ao discurso, que além de ser determinado é também determinante, constitutivo da realidade. A linguagem fabrica a verdade. É uma fábrica semiótica das coisas, da qual fazem uso os gênios da mídia. Toda a imprensa faz parte dessa máquina social, produzindo sentidos de futuro, crenças e desejos. A informação, portanto, tem implicada e esconde sempre uma transformação incorporal na maneira de a gente apreender, vivenciar e experimentar o tempo. Isso causa a modificação do futuro, do passado e do modo como você percebe o presente, o que resulta em produção de subjetividade.

AEP: Como a gente descreveria o funcionamento da mídia?
Fuganti: Essa máquina semiótica ajuda a criar o sujeito assujeitado, desacreditado de si e que busca a verdade fora dele próprio. Ele mesmo não tem realidade suficiente; é como se nele existisse um buraco. Em seguida, vem essa instância da verdade objetiva –a mídia– e o preenche, gerando aceitação e requalificando depois de tirar a qualidade por meio do deslocamento e captura da atenção.

AEP: Mas como a mídia se sustenta neste processo?
Fuganti: A própria sociedade banca o poder da mídia. As pessoas preferem muito mais a versão ao invés da realidade, trata-se do eterno “ouvi dizer” e “experiência vaga” de que fala o filósofo holandês Baruch de Spinoza. Saiba mais

EXPERIÊNCIA PESSOAL DO TEÓRICO STUART HALL MOSTRA COMO A CULTURA NOS AFETA DE MANEIRA TRAUMÁTICA

“Quando eu fiz dezessete anos, minha irmã teve um colapso nervoso. Ela começou um relacionamento com um estudante de medicina que veio de Barbados para a Jamaica. Ele era de classe média, mas era negro e meus pais não permitiam o namoro. Houve uma tremenda briga em família e ela, na verdade, recuou da situação e entrou em crise. De repente me conscientizei da contradição da cultura colonial, de como a gente sobrevive à experiência da dependência colonial, da classe e cor e de como isso pode destruir você, subjetivamente.

Estou contando esse fato porque ele foi muito importante para o meu desenvolvimento pessoal. Isso acabou para sempre com a distinção entre o ser público e o ser privado, para mim. Aprendi, em primeiro lugar, que a cultura era algo profundamente subjetivo e pessoal, e ao mesmo tempo uma estrutura em que a gente vive. Pude ver que todas essas estranhas aspirações e identificações que meus pais haviam projetado sobre nós, seus filhos, destruíram minha irmã. Ela foi a vítima, portadora das ambições contraditórias de meus pais naquela situação colonial. Desde então, nunca mais pude entender porque as pessoas achavam que essas questões estruturais não estavam ligadas ao psíquico – com emoções, identificações e sentimentos, pois para mim, essas estruturas são coisas que a gente vive. Não quero dizer apenas que elas são pessoais; elas são, mas são também institucionais e têm propriedades estruturais reais, elas te derrubam, te destroem.

Foi uma experiência muito traumática porque havia pouca ou quase nenhuma assistência psiquiátrica na Jamaica naquela época. Minha irmã passou por uma série de tratamentos com eletrochoque, feitos por um clínico geral, dos quais ela nunca se recuperou. Nunca mais saiu de casa. Ela cuidou de meu pai até ele morrer. Depois, cuidou de minha mãe até morrer. E cuidou do meu irmão, que ficou cego, até a morte dele. Foi uma verdadeira tragédia que vivi junto com ela e decidi que não podia aguentar; não conseguiria ajudá-la, embora eu soubesse o que estava errado. Eu tinha dezessete ou dezoito anos.”

(Trecho da entrevista de Stuart Hall, publicada no livro Da Diáspora, identidades e mediações culturais (Editora da UFMG), organizado por Liv Sovik)

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“Vivemos continuamente na dimensão do projeto, correndo atrás de objetivos postos num futuro mais ou menos distante e pensamos, ilusão suprema, que nossa felicidade depende da realização completa de fins medíocres ou grandiosos, pouco importa, que estabelecemos para nós mesmos. Comprar o último MP3, uma poderosa câmera fotográfica; ter um quarto mais bonito, uma moto mais moderna; seduzir, realizar um projeto, montar uma empresa de qualquer tipo que seja: cedemos sempre à miragem de uma felicidade adiada, de um paraíso ainda a ser construído, aqui ou no além.

Esquecemos que não há outra realidade além da que é vivida aqui e agora, e que essa estranha fuga para adiante nos faz com certeza falhar. Assim que o objetivo é alcançado, temos quase sempre a experiência dolorosa da indiferença, ou mesmo da decepção. Como crianças que se desinteressam do brinquedo no dia seguinte ao Natal, a posse de bens tão ardentemente desejados não nos torna nem melhores nem mais felizes do que antes. As dificuldades de viver e o trágico da condição humana não são modificados e, segundo a famosa expressão de Sêneca, “enquanto se espera viver, a vida passa”. (Luc Ferry, filósofo francês)

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O caminhoneiro filósofo

Fisolosia de estrada (foto: Andre Kenji/cc)

A estrada também nada sabe (foto: Andre Kenji/cc)

Estava em uma estrada longa e sonolenta, quando avistou aquela frase a despertar a razão. A rodovia se estendia em uma reta e se podia mirar ao longe o sobe e desce da pista ou o tempo sendo consumido pela distância.

Parece que não havia fim e já não se podia, pelo retrovisor, enxergar o início.

Na verdade, sempre se começa pelo meio, como a nossa vida. Entramos, percorremos um trajeto, e depois abandonamos.

Naquela estrada, uma das poucas distrações eram as frases de caminhão, hoje já raras e sem graça.

Mas uma frase espantou-me porque me colocou diante de um caminhoneiro filósofo. No meio do sol forte do meio dia, o caminhão lentamente seguia e dizia: “tudo o que sei é que nada sei”.

O caminhoneiro seguia assim como a estrada, que também nada sabe, e precisa de placa para  se encontrar.

FALTARÁ PROFESSOR DE SOCIOLOGIA, FILOSOFIA E MÚSICA

Número de professores especializados precisa ser 20 vezes maior para cumprir lei

Amanda Cieglinski
Repórter da Agência Brasil

Brasília – O Congresso Nacional aprovou, no primeiro semestre, duas leis que incluem novas disciplinas nos currículos da educação básica: filosofia, sociologia e música. Especialistas em educação comemoraram a inclusão, que garante a crianças e adolescentes uma formação mais integral. Mas a novidade também coloca o dedo em um antiga ferida da educação brasileira: a falta de professores para disciplinas específicas.

De acordo com um estudo da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior (Capes), órgão que agora responde pela formação de docentes para a educação básica, o Brasil tem, hoje, 31.118 profissionais atuando como professores de filosofia, sendo que, desse total, apenas 23% têm formação específica. Na sociologia, são 20.339 professores atuantes, sendo 2.499 licenciados (12%).

Estimativa da Capes aponta que serão necessários 107.680 docentes, em cada uma das disciplinas, para atender aos 24.131 estabelecimentos de ensino médio. A oferta será obrigatória nos três anos desse nível de ensino.

Segundo o diretor de educação básica da Capes, professor Dilvo Ristoff, para atender à nova demanda seria necessário aumentar em 20 vezes o número de professores formados por ano, que hoje é de 2.884 em filosofia e 3.018 em sociologia.

“Como não houve obrigatoriedade do oferecimento dessas disciplinas nos últimos anos, isso também desestimulou a formação de professores nessas áreas nas universidades”, disse Ristoff, em entrevista à Agência Brasil.

A demanda foi calculada considerando uma carga horária de 20 horas semanais para cada professor, em turmas de 30 alunos. “Se a gente levar em conta que 50% dos que se formam tendem a exercer outras profissões, a gente chega ao dramático número de 40 vezes mais graduados por ano”, estimou.

Ainda não há um estudo específico sobre o impacto da obrigatoriedade do ensino da música na educação básica. Os dados existentes são sobre os professores de educação artística, área em que há profissionais formados em número suficiente para atender a demanda. Ainda assim, a maioria não atua no magistério.

“Certamente haverá um impacto, é uma demanda de outra natureza, não só de docentes, mas de ambientes específicos, professores com teoria, professores com prática, instrumentos musicais e a própria carga horária”, avaliou Ristoff.

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