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A NATUREZA NA IMAGEM: TRABALHO FOTOGRÁFICO REVELA BELEZA DO CERRADO E REFLETE SOBRE OS EFEITOS DAS QUEIMADAS NA REGIÃO DO JALAPÃO

Por Maura Voltarelli

“As atitudes dos homens só podem ser avaliadas pelos próprios homens. A natureza tem a sua própria dinâmica, contudo diante de ações humanas negativas, o cerrado reage na mesma medida, pode provocar efeitos irreversíveis, e nesta situação o homem é prejudicado diretamente”.

É na costura tênue entre as relações do homem com a natureza, da natureza com o homem e deste último com as possibilidades de arte e captura poética que a artista, antropóloga e professora universitária Silvia Helena Cardoso desenvolveu sua tese de doutorado pelo Instituto de Artes (IA) da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) que resultou no livro de fotografias Estrada, Paisagem e Capim, onde ela realiza um retrato poético e social do Jalapão, região de cerrado localizada no estado do Tocantins.

Ao perceber na paisagem do cerrado qualquer coisa que ia além da beleza aparente, Silvia decidiu pensar esse sentimento como matéria de criação e também como forma de conhecimento. Trabalhando a subjetividade como estrutura poética, as fotografias traduzem um pouco as sensações provocadas no homem – a partir do olhar da artista – pela paisagem. Tem-se assim quase que duas estéticas superpostas: a da fotografia, com suas formas, ângulos, luzes e tons, e a do cerrado, com seus horizontes distantes e profundos que, como diz Silvia, lembram uma paisagem desértica e, por isso, solicitam do homem uma espécie de viagem interior rumo a memórias e lugares também distantes e profundos.

O trabalho de Silvia, no entanto, fez da beleza do Jalapão objeto de reflexão e denúncia social no que diz respeito às queimadas que assolam a região, modificam o cenário e expõem os termos em que se dá a relação do homem com a natureza, projetando-a de uma visão específica (cerrado brasileiro) para uma visão geral (homem no mundo). Mesmo reconhecendo que as queimadas são um meio de sobrevivência da população local, Silvia lembra que com a destruição do bioma cerrado “o homem perde a oportunidade de conhecê-lo e viver de forma diferenciada; e a natureza deixa de existir, tornando a vida humana também inexistente“.

Em entrevista concedida ao blog Educação Política, a artista que registrou as cenas do cerrado brasileiro inspirando-se em nomes como Guimarães Rosa e seu Grande Sertão: Veredas diz que “é preciso muita educação para modificar tal desintegração entre o homem e o cerrado especificamente”. Seu trabalho faz ver o quanto se perde com essa desintegração. Em um mundo onde tudo é e não é, preservar a relação com a natureza aparece como uma forma de ser nas fotografias de Silvia, seja por meio da expressão artística que ela, natureza, possa inspirar, seja pelo processo de reencontro consigo mesmo que ela sutilmente desencadeia.

Agência Educação Política: A viagem ao Jalapão, área de cerrado no estado do Tocantins, deu origem a um trabalho poético que você realizou a partir de fotografias da região e que resultou no livro Estrada, Paisagem e Capim, composto por 72 imagens entre as cinco mil imagens capturadas originalmente. O registro fotográfico do Jalapão também constituiu a sua tese de doutorado na qual você procurou desenvolver um trabalho poético em que a subjetividade é pensada como conhecimento e como matéria poética. A fotografia recorta o instante, assim como também recorta a paisagem. A forma de olhar, neste sentido, faz toda diferença e aí, de fato, a subjetividade surge como matéria poética. De que forma o Jalapão e a paisagem do cerrado foi olhada por você?

Estrada, Paisagem e Capim: da série Estrada

Silvia Helena Cardoso: A paisagem no Jalapão não foi só olhada, observada. Especialmente na primeira viagem em julho de 2006, a paisagem foi sentida. Percebi ali qualquer coisa para além da beleza aparente. Senti o lugar, mas não sabia exatamente o que era o sentimento, como entende-lo, como defini-lo, se é que existe uma definição objetiva para isso. De qualquer forma, penso este sentimento como matéria de criação e também como forma de conhecimento.

AEP: Ao comentar o seu trabalho, você disse que a beleza do Jalapão presenciada em um primeiro momento deslocou-se para uma espécie de melancolia provocada pelo encontro com um cenário agredido pelas queimadas. A melancolia seria assim uma das faces da beleza? Uma complementaria a outra de modo que da beleza mais profunda, também pudesse se fazer ouvir as vozes da tristeza ou da angústia?
Silvia: A melancolia, acredito, é uma sensação de tristeza, especialmente quando não temos alternativas diante do que é imposto. No Jalapão, a beleza está lá, é forte e marcante, é uma característica do lugar, contudo, o cerrado é constantemente ameaçado pelas queimadas. As queimadas são ações dos homens. O fogo natural, aquele que aparece sem a presença do homem, é difícil de acontecer. Portanto, as queimadas são resultados de ações equivocadas, tais como, colocar o fogo no solo como forma de prepará-lo para a próxima roça; ou mesmo atear fogo para limpar – tirar árvores e plantas – de um pedaço de terra. Por outro lado, quando você está no cerrado que é uma paisagem que lembra o deserto, não é deserto, mas lembra o deserto, especialmente porque a densidade populacional é pequena e o horizonte é distante e profundo, e leva para uma espécie de viagem interior, o homem toma contato com sensações de outros momentos da sua própria vida.

AEP: No seu retrato e relato poético do Jalapão a presença do homem parece ser marcante, não só pelo conhecimento oferecido pelas histórias orais narradas por moradores do Jalapão e que fazem parte do imaginário coletivo do local, como também pela presença do homem na natureza como destruidor em razão das queimadas que assolam a região. Como você descreveria a partir da sua experiência com a fauna e flora do Jalapão, a relação do homem com a paisagem na atualidade? Haveria uma presença do homem que integra a paisagem e outra que a desintegra?
Silvia: O homem precisa do lugar, do meio ambiente, enfim, o homem do cerrado precisa do lugar, em certa medida sabe que a sua presença também é um fator de mudança da própria natureza; o homem jalapoeiro reconhece a beleza do lugar, mas também tem que sobreviver e tal sobrevivência leva muitas vezes a condutas distantes da preservação da natureza. É preciso muita educação para modificar tal desintegração entre homem e a natureza, e o cerrado especificamente.

Estrada, Paisagem e Capim: da série Resistência

AEP: Você também comentou que apesar do Jalapão não ser totalmente desértico “a imensidão do cerrado é tão profunda e oceânica a ponto de promover uma viagem interna, necessária ao artista”. As paisagens desérticas são vistas pela crença humana como provocadoras de questionamentos e de mudanças no homem, ditando seus destinos e tendo mais poder sobre sua vida do que ele mesmo. Sendo assim, invertendo a pergunta anterior, qual a relação que a paisagem pode estabelecer com o homem? Ela é capaz de salvá-lo ou condená-lo? Ela tira ou recoloca máscaras? Ou ela faz tudo ao mesmo tempo?
Silvia: Então, a paisagem está lá, perto e longe, está quieta, silenciosa, muda muito lentamente. Por outro lado, a paisagem é uma construção cultural, você pode vê-la a partir do seu próprio olhar e sensação, cada homem tem um repertório próprio, uma espécie de ferramenta, que filtra o que está diante dos olhos. Se o homem tem certa disposição a olhar e sentir a paisagem como ela se apresenta, este mesmo homem pode estabelecer uma conexão com ele próprio, a paisagem assim é um elemento detonador deste encontro.
As atitudes dos homens só podem ser avaliadas pelos próprios homens. A natureza tem a sua própria dinâmica, contudo diante de ações humanas negativas, o cerrado reage na mesma medida, pode provocar efeitos irreversíveis, e nesta situação o homem é prejudicado diretamente. Não é uma questão de salvação ou condenação, mas numa situação de desaparecimento do bioma cerrado, o homem perde a oportunidade de conhece-lo e viver de forma diferenciada; e a natureza deixa de existir tornando a vida humana também inexistente.

Estrada, Paisagem e Capim: da série Terra em extinção

AEP: Em sua opinião, a natureza representa uma possibilidade de permanência em um mundo de tantas fugas? Ela teria relações com a fotografia que, a seu modo e guardadas as devidas proporções, de certa forma também permanece em tempo e memória?
Silvia: Sim, a natureza é uma aliada do próprio homem, não o contrário; a natureza talvez é mais amiga do homem do que o próprio homem. Ela é como um templo onde o homem toma contato consigo mesmo.
A fotografia é uma expressão, uma linguagem, que traz o olhar de quem a fez. Quando um fotógrafo escolhe um lugar para trabalha-lo fotograficamente, não pensa num primeiro momento em memória, história, mas em mostrar certas particularidades, no meu trabalho, por exemplo, a beleza jalapoeira. Contudo, a fotografia é um objeto que pode ser considerado história, memória e marca de um tempo a partir de um trabalho poético visual. Os artistas e suas obras deixam suas marcas e propõem discussões a partir de seus trabalhos.

AEP: Jalapão em uma palavra…
Silvia: Beleza

AEP: Jalapão em uma imagem…
Silvia: Paisagem

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Estrada, Paisagem e Capim: da série Imensidão

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