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AS NOITES BRANCAS DE DOSTOIÉVSKI NO MUSEU LASAR SEGALL

Imagem: Divulgação

Lasar Segall (1891-1957). Dostoiévski, c. 1927. Xilogravura sobre papel. Coleção Museu Lasar Segall/Ibram/Minc

Por Maura Voltarelli
Especial para o Educação Política

As palavras escritas muitas vezes precisam se completar em imagens. Talvez por um movimento natural de ganharam plasticidade, vida, uma certa materialidade para além do infinito da imaginação.

Grandes escritores, com densos romances, repletos de personagens ambíguos e fascinantes, são capazes de gerar representações únicas. É o caso do escritor russo Dostoiévski que teve algumas de suas histórias ilustradas por grandes nomes do expressionismo alemão e também por artistas brasileiros como Oswaldo Goeldi e Lasar Segall.

Uma exposição chamada “Noites Brancas: Dostoiévski ilustrado”, com curadoria do professor de Teoria Literária e Literatura Comparada da USP, Samuel Titan, ficou em cartaz no Museu Lasar Segall, em São Paulo, com o objetivo de aproximar do público diversas gravuras e desenhos feitos a partir da obra do autor de Crime e Castigo e Os Irmãos Karamazov.

Foram reunidas 44 obras de 22 artistas que não se centram apenas nos romances mais conhecidos de Dostoiévski. Lasar Segall e Otto Möller, por exemplo, retratam em seus desenhos a novela Uma criatura dócil, de 1876.

Em todos os desenhos, apesar das especificidades de cada um, o curador lembra ser constante a presença do preto e do branco, por isso o nome para a exposição, “noites brancas”. Ao mesmo tempo, noites brancas parece ser uma inteligente metáfora para a obra do escritor russo, que mergulha nas trevas da sociedade e do homem, da espiritualidade e do amor, para depois trazê-las à tona.

As figuras são noturnas, dão a impressão de conduzir para regiões de sombra, não muito distantes das recordações, dos crimes, do subsolo, das criaturas sem nome que Dostoiévski coloca diante de nós e que agora podemos ver em novas representações de artistas que viram em sua literatura diversos motivos para continuar recriando-a.

Xilogravura de Oswaldo Goeldi

Xilogravura de Oswaldo Goeldi

Oswaldo Goeldi também reforça o tom noturno da exposição com gravuras das quatro edições ilustradas – O idiota, Recordações das casas dos mortos (1862), Humilhados e ofendidos (1861) e Memórias de um subsolo – que o artista fez em 1944 para a editora José Olympio, no Rio de Janeiro.

Entre artistas alemães e brasileiros, as gravuras parecem nos revelar outros detalhes, elementos e tons do escritor russo de interpretações inesgotáveis.Uma forma de lê-lo além das páginas da literatura e da crítica.

O ciclo Dostoiévski e o cinema, que conta com a exibição dos longas Os irmãos Karamazov (1958), de Richard Brooks, Crimes e pecados (1989), de Woody Allen, Partner (1968), de Bernardo Bertolucci, Nina (2004), de Heitor Dhalia, entre outros, continua aberto ao público até 25/08.

Serviço:

Dostoiévski e o cinema
Onde:
Museu Lasar Segall – Rua Berta, 111 – São Paulo (SP)
Quando: 03/08 a 25/08, sábados e domingos, às 14h
Quanto: gratuito
Info.: (11) 2159.0400 ou http://www.museusegall.org.br/


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Lasar e seus colegas em uma sessão de pintura ao ar livre: liberdade e vanguarda

Lasar e seus colegas em uma sessão de pintura ao ar livre: liberdade e vanguarda

Por Maura Voltarelli

Alemão naturalizado brasileiro, Lasar Segall é considerado um dos ícones do modernismo brasileiro, seguindo e solidificando um caminho já aberto por Anita Malfati e pelo movimento modernista de 1922. Pintor de traços inusitados, que rompem com os academicismos e as formas tradicionais da pintura realista, adepto das cores fortes e expressivas, tocado pela crítica social e pela denúncia política do antissemitismo e dos horrores da guerra, Lasar combinou as heranças da tradição e cultura europeia com as cores e as temáticas tropicais, criando uma obra original e sempre atual.

A primeira exposição do artista no Brasil aconteceu em março de 1913, em São Paulo, e nas obras mostradas já se podiam ver as marcas do impressionismo alemão e da pintura holandesa.  Em comemoração ao centenário da exposição, o Museu Lasar Segall programou exposições de 50 obras do artista que pertencem ao acervo do Museu e também de algumas fotografias que faziam parte de seu arquivo pessoal.

Encontro

Encontro

Lasar tinha uma relação muito próxima com a fotografia, tanto que muitos de seus quadros, como Encontro, por exemplo, remetem diretamente a uma imagem fotográfica de seu casamento, apenas modificando alguns detalhes. Fotografias marcantes que traduzem um pouco do que foi a trajetória do artista, bem como movimentos decisivos para construir a proposta e o perfil estético de seu trabalho, como a fotografia que registra uma sessão de pintura ao ar livre com colegas da Academia de Dresden, em 1911, também fazem parte da exposição.

Nesta fotografia os colegas da academia carregam a modelo nua, em um manifesto que já ditava o movimento libertário e de vanguarda que se formava no momento.

Os demais registros fotográficos e as obras, algumas recentemente recuperadas pelo Museu, como Eternos Caminhantes, revelam o artista histórico e ousado. Eternos Caminhantes traz um grupo de andantes, tema recorrente na obra do mestre expressionista, que faz referência ao êxodo e à perseguição aos judeus. Sintética e geometrizada, a obra se instala em um tempo específico e, pela qualidade de sua construção, projeta-se na eternidade conquistada pelos grandes artistas.

Outras obras, como Bananal, trazem a temática tropical, sempre presente em Sagall principalmente na sua fase mais marcadamente expressionista. Parecem sinais do quanto o artista de terras frias ia se misturando com os costumes, as cores, a gente, das terras quentes tropicais, refletindo e ajudando a construir o modernismo de nossa arte.

Eternos caminhantes

Eternos caminhantes

Mesmo adepto do expressionismo, da (re)criação da realidade, e dono de um estilo próprio, Lasar também mantinha o diálogo com algumas tradições da pintura, revisitando gêneros como natureza-morta, retrato e paisagem. Os rostos, as frutas, os lugares ganham, no entanto, sempre o seu tom, a sua ousadia. Em cada obra respira certa sensualidade bruta original e uma denúncia visceral dos movimentos históricos, e, para os que querem encarar as trevas no coração da história, voltar ao seu Navio de emigrantes é sempre uma forma de voltar a nós mesmos.

Página do Museu Lasar Segall, onde podem ser vistas obras e fotografias do artista.

Algumas informações retiradas da revista da FAPESP, que traz reportagem com mais informações sobre o Museu Lasar Segall e sobre a exposição comemorativa.

Navio de emigrantes

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