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mídia, economia e cultura – por Glauco Cortez

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MANUAL DE LITERATURA (EN)CANTADA TRAZ TEXTOS DE MACHADO DE ASSIS E MÁRIO DE ANDRADE TRANSFORMADOS EM RAP

MC’s Machado de Assis, Cruz e Sousa e Mário de Andrade

A literatura, e todas as formas de arte, têm um íncrivel poder de mudar a realidade social e de promever diálogos antes impensados entre os diferentes estratos da sociedade. Acreditando neste poder transformador e na multiplicidade da linguagem artística, o músico e jornalista francês Frédéric Pagès tem explorado a musicalidade presente em textos literários consagrados ao transpor para letras de rap clássicos da literatura brasileira.

Depois de gravar Récits du Sertão, em 1998, com trechos musicados de Guimarães Rosa e elogiado por Augusto de Campos e Mia Couto, Frédéric lança agora o disco Manual de Literatura (En)Cantada, onde jovens da periferia de Diadema gravam no ritmo do rap textos de Machado de Assis, Cruz e Sousa e Mário de Andrade.

Com o projeto, Frédéric quer demonstrar o quanto os métodos pedagógicos de educação estão ultrapassados e o papel que a arte-educação pode ter para disseminar o conhecimento de forma eficiente, seja qual for o lugar, seja qual for a cultura. Transformar textos literários em rap é sem dúvida uma ótima forma de reinventar a prática literária, explorando o seu sempre inesgotável potencial de criação e fazendo-a cada vez mais fértil.

Veja mais no site da revista Cult!

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CAIXA DECIDE TIRAR DO AR PROPAGANDA NA QUAL MACHADO DE ASSIS APARECE COMO UM HOMEM “BRANCO”

O "outro" bruxo do Cosme Velho

A Caixa Econômica Federal decidiu, na sua última peça publicitária, voltar no tempo e mostrar que, entre os correntistas do banco, estava o escritor Machado de Assis, imortal da Academia Brasileira de Letras. Machado de fato tinha conta na Caixa Econômica e, olhando bem, pode-se inclusive encontrar breves e sutis registros do banco na sua obra literária.

Por exemplo, no romance Esaú e Jacó, Machado escreve referindo-se aos planos dos pais para os filhos gêmeos que estavam por nascer, “Também lhe ensinava a enriquecer depressa; e ajudá-lo-ia começando por uma caderneta na Caixa Econômica, desde o dia em que nascesse até os vinte e um anos” (p.68). O registro do banco como se percebe é breve e está ligado à narrativa, compondo apenas uma referência de espaço, lugar, no contexto da história.

Não há menção ideológica ao banco, a obra não permite depreender qualquer elogio à Caixa e, se for levada em consideração a crítica que Machado tece do início ao fim desse romance ao modelo da tradicional família patriarcal brasileira, com suas contas em bancos e planos de segurança para o futuro, pode-se chegar até a uma interpretação de que Machado nem era muito a favor de bancos (não deles em si mas do que representam), embora aí já se trate de especulação em torno de sua obra, o que não é aconselhável fazer posto que qualquer especulação ideológica em torno de uma obra literária faz com que se perca o texto em tudo aquilo que ele tem de realmente relevante e que está no próprio texto, não fora dele.

Em outros termos, Machado é um escritor completo, como poucos, como já diria Antonio Candido, e dispensa especulações. Sua obra é rica o bastante e se faz nas suas próprias invenções, dispensa as alheias. O comercial da Caixa, no entanto, pecou justamente por especular demais. Especulou em torno da figura de Machado ao retratá-lo como um branco, enquanto, na verdade, o escritor era mulato. Com isso, deu vazão a toda uma cultura de preconceito que sempre existiu e existe no Brasil até hoje, impulsinonando o velho ideal que atravessou o império, a república, e banhou o modernismo literário brasileiro, o de embranquecimento da nação em prol da construção de uma raça pura, pretensamente superior e “brasileira”.

Nada mais distante dos brasileiros. Se a Caixa quer ser o banco de todos os brasileiros, jamais poderia excluir parte de nossa constituição histórica e social, maquiando a realidade pensando que, talvez, muitos nem lembrariam que um dos maiores escritores brasileiros era sim mulato e tratava das questões raciais com a mesma sutileza de sempre.

A última especulação da Caixa foi, enfim, transformar algo que era um simples lugar, referência de espaço e época na obra machadiana, em uma espécie de discurso, bandeira. Pode ser que Machado adorasse a Caixa Econômica, pode também não ser, mas o mais provável é que ele nem pensasse nisso. Tinha uma conta e caderneta de poupança como qualquer outro cidadão de sua época com uma boa condição de vida, e fez menção ao banco no seu testamento e em alguns momentos de sua obra como qualquer escritor poderia fazer. “Vou à Caixa” equivale quase como um “vou à padaria”.

Mas não especulemos demais. A publicidade faz o seu papel (exagerando às vezes, o que faz com que algumas peças como essa sejam retiradas do ar), mas os textos informativos ou literários não devem fazê-lo.

Veja texto sobre o assunto publicado pelo Última Instância em que a Caixa se retrata em relação ao comercial. Abaixo segue também a publicidade.

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HOMENS E MULHERES ME DISPUTAM E ISSO ME IRRITA

Microconto – Ficção

O título desse texto pode lhe parecer que sou uma mulher convencida e fútil, mas vou tentar explicar melhor e você verá que tenho razão. Sou simplesmente uma estudante e me sinto assediada por homens e mulheres que me rodeiam.

Sim, não tenho nada de especial, a não ser o fato de gostar de ler e estudar. Isso faz com que tire boas notas, o que causa certa insatisfação dos que estão ao meu lado. Claro que outros  também tiram boas notas, mas na verdade isso não é tão importante.

O problema é que sou assediada pelas colegas de classe porque capricho e faço de forma prazerosa todos os trabalhos em grupo. Ora, as amigas acabam por brigarem para fazer trabalho comigo. Certa vez pediram para que eu decidisse com quem gostaria de fazer o trabalho. Não aguentei e perguntei a mim mesmo: por que fazem isso?

Ora, tenho um certo defeito que também me prejudica no atual momento da história humana, que é simplesmente ter calma para escutar as pessoas. Sim, tenho paciência para ouvir. Isso também gera disputa entre minhas amigas, a ponto de certa vez duas amigas me pedirem para eu decidisse com qual delas queria ficar amiga, ou seja, para quem deveria dar ouvidos. Ora, não quero escolher, gosto de minhas amigas. Poderia mudar meu jeito, mas acho que é um pouco difícil. Sinto-me bem assim, a não ser quando acontecem esses contratempos.

Apesar de ser razoavelmente bonita, isto é, tenho um corpo com curvas que os homens gostam, cabelos do padrão preferido das revistas femininas e olho pequenos. Não há nada de muito especial, não pensem que estou me gabando, mas me descrevendo de forma bem simples e crua. Talvez se você leitor me encontrar na rua poderá dizer que sou bem mais bela do me descrevo. Não gosto de expor minha beleza, apesar de me sentir feliz com ela. Mas isso não é muito fácil.

Também não sou fácil para os homens, não fico gratuitamente com qualquer um, só por ficar. Vejo certa falta de autoestima nas mulheres de hoje. Gosto de escolher, decidir, pensar antes de ficar. Prefiro na verdade ficar sozinha a companhias duvidosas e repletas de cascas de machismo e preconceito contra a mulher.

Mas isso não bastou, homens sentem inveja de mim e do meu namorado. Sim, procuro ser discreta no meu namoro, mas não adianta. Elas e eles tentam investigar, descobrir, debulhar a minha vida como se eu fosse uma personagem do Big Brother. Vivemos uma sociedade onde os jovens já não têm qualquer capacidade de distinguir e respeitar o que é público e o que é privado. Fala-se da vida alheia como se fala da chuva que cai, do frio ou do calor.

Sei que isso pode lhe parecer que sou um pouco arrogante, mas perceba que não. Se você um dia já passou por algo parecido, com certeza me entenderá. É por isso que digo que homens e mulheres me disputam e isso me irrita profundamente.

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