Educação Política

mídia, economia e cultura – por Glauco Cortez

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OS MERVAIS, DORAS E MIRIANS DA VIDA E O QUE CONSTITUI A OPINIÃO PÚBLICA NACIONAL

Opinião pública nem sempre é um conceito fácil de exprimir, visualizar e localizar precisamente. Isso porque há nele algo de abstrato, afinal, qual é de fato a opinião pública brasileira, por exemplo, a opinião que traduz o que pensa a maioria dos brasileiros sobre diversos assuntos?

Sobre isso, um interessante texto de Mino Carta, publicado pela Carta Capital, expõe que nossa opinião pública certamente não seria aquela dos Mervais, Doras e Mirians da vida, referindo-se a Merval Pereira, Dora Kramer e Miriam Leitão. No máximo, eles representam os seus leitores ou aqueles que concordam com o que eles dizem, mas a opinião pública brasileira, para Mino, nem seria aquela que de fato tem contato com a mídia nativa e que, na ocasião de uma eleição, por exemplo, vota sem necessariamente sofrer influência desta última.

Poderíamos discurtir alguns pontos, pensando que a influência dessa mídia é sim expressiva em diversas camadas sociais, no entanto, muitos continuam dedidindo seus destinos políticos quase que por instinto, por uma preferência ou outra, não abalada pelos discursos de Mervais e Mirians…

Mino é preciso ao afirmar o tipo de opinião pública que tais discursos de Mervais e Mirians querem personificar. Justamente o discurso que foi e vai contra as mudanças importantes para o país, quem é adepto da democracia sem povo e de um país de 20 milhões de brasileiros, o discurso mais egocêntrico possível.

Radiografar a opinião pública brasileira é sem dúvida um desafio, mas não é difícil identificar qual é o perfil da opinião pública que responde à mídia nativa e seu “jornalismo onírico” (que faz dos seus sonhos verdade). Sobre este, restam poucas ou nenhuma dúvida.

Veja trecho do texto:

Opinião pública, o que é?
Por Mino Carta

Pergunto aos meus reflexivos botões qual seria no Brasil o significado de opinião pública. Logo garantem que não se chama Merval Pereira, ou Dora Kramer, ou Miriam Leitão. Etc. etc. São inúmeros os jornalistas nativos que falam em nome dela, a qual, no entanto, não deixa de ser misteriosa entidade, ou nem tão misteriosa, segundo os botões.

A questão se reveste de extraordinária complexidade. Até que ponto é pública a opinião de quem lê os editorialões, ou confia nas elucubrações de Veja? Digo, algo representativo do pensamento médio da nação em peso? Ocorre-me recordar Edmar Bacha, quando definia o País -como Belíndia, pouco de Bélgica, muito de Índia. À época, houve quem louvasse a inteligência do economista. Ao revisitá-la hoje, sinto a definição equivocada.

Os nossos privilegiados não se parecem com a maioria dos cidadãos belgas. A Bélgica vale-se da presença de uma burguesia autêntica, culta e naturalmente refinada. Trata-se de tetranetos da Revolução Francesa. Só para ser entendido pelos frequentadores do Shopping Cidade Jardim em São Paulo: não costumam levar garrafas de vinho célebre aos restaurantes, acondicionadas em bolsas de couro relampejante, para ter certeza de uma noite feliz. Até ontem, antes do jantar encharcavam-se em uísque.

Em contrapartida, a minoria indiana, sabe das coisas e leu os livros. Já a maioria, só se parece com a nossa apenas em certos índices de pobreza, relativa ou absoluta. No mais, é infelicitada por conflitos, até hoje insanáveis, étnicos e religiosos. Nada de Bélgica, tampouco de Índia. Nem por isso, a diferença, ainda brutal, existe entre brasileiros ricos e pobres, embora desde o governo Lula tenha aumentado o número de remediados. (Texto completo)

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DEMÓSTENES TORRES DIZ EM CONVERSA GRAVADA QUE GILMAR MENDES ATUOU EM FAVOR DA QUADRILHA DE CARLINHOS CACHOEIRA
PARA ALÉM DE CACHOEIRA, É PRECISO DE UMA CPI DO PÉSSIMO JORNALISMO OU DO JORNALISMO SEM CARÁTER
CHEIA DE PUBLICIDADE, VAZIA DE BOM JORNALISMO, ASSIM A REVISTA VEJA REFLETE A MÍDIA NATIVA, DIZ MINO CARTA
CPI DO CACHOEIRA PÕE PT NUMA ENCRUZILHADA: ENFRENTA A CONCENTRAÇÃO MIDIÁTICA OU COMPACTUA COM A BARBÁRIE DA ELITE CONTRA O POVO

CHEIA DE PUBLICIDADE, VAZIA DE BOM JORNALISMO, ASSIM A REVISTA VEJA REFLETE A MÍDIA NATIVA, DIZ MINO CARTA

E assim funciona boa parte da imprensa nacional...

Quando o fato explode, foge-se do assunto com amenidades. Quando o fato se comprova e o cerco começa a se fechar, o melhor é desviar a atenção para o outro lado. Assim é que parece agir a revista Veja, reflexo perfeito da mídia nativa, de seus valores, de como e em que ela se funda, para o jornalista Mino Carta.

Já era de se esperar que o escândalo  envolvendo o bicheiro Carlinhos Cachoeira fosse atingir muita gente, revelando coisas escusas, que, para alguns, melhor seria que nunca viessem à tona. O fato é que o escândalo está revelando muito mais do que se pensava sobre o patronato midiático nacional, como diz Mino.

Quando estourou o caso, a revista Veja recorreu ao santo sudário. Agora que a CPI do Cachoeira está instalada, ela recupera o mensalão e decide a todo custo dar como certo um escândalo que está longe de ser totalmente esclarecido com a clara intenção de confundir a população.

Como lembra Mino, o mensalão e o caso Cachoeira não têm nada a ver um com o outro. Mas faz parte da receita da casa grande aproximar coisas arbitrárias, é assim que se fundam seus discursos. O mensalão como diz Mino, reafirmando a postura de Carta Capital, ainda não foi provado, já as evidências de corrupção no caso Cachoeira, bem como o envolvimento da revista Veja são praticamente indiscutíveis. O julgamento a respeito do mensalão cabe ao Supremo Tribunal Federal não à revista Veja.

Jornalista não julga. Noticia. Preceito básico. E se afirma tem que ter provas. Estas ainda não são suficientes para confirmar o mensalão, como aliás reconheceu o próprio presidente do Supremo ministro Ayres Brito. Já a CPI do Cachoeira, independente de seus resultados, é tida por Mino como dotada de expressivo potencial para tornar-se o inquérito da mídia nativa!

Veja trecho de seu editorial à Carta Capital:

CPI da mídia?
Por Mino Carta

Recheada de anúncios, a última edição da Veja esmera-se em representar à perfeição a mídia nativa. A publicidade premia o mau jornalismo. Mais do que qualquer órgão da imprensa, a semanal da Editora Abril exprime os humores do patronato midiático em relação à CPI do Cachoeira e se entrega à sumária condenação de um réu ainda não julgado, o chamado mensalão, apresentado como “o maior escândalo de corrupção da história do País”.

A ligação entre o inquérito parlamentar e o julgamento no Supremo Tribunal Federal é arbitrária, a partir das sedes diferentes dos dois eventos. Mas a arbitrariedade é hábito tão arraigado dos herdeiros da casa-grande a ponto de formar tradição. Segundo a mídia, a CPI destina-se a desviar a atenção da opinião pública do derradeiro e decisivo capítulo do processo chamado mensalão. Com isso, a CPI pretenderia esconder a gravidade do escândalo a ser julgado pelo Supremo.

O caso revelado pelo vazamento dos inquéritos policiais que levaram à prisão do bicheiro Cachoeira existe. Pode-se questionar o fato de que o vazamento se tenha dado neste exato instante, mas nada ali é invenção. Inclusive, a peculiar, profunda ligação do jornalista Policarpo Junior, diretor da sucursal de Veja em Brasília, com o infrator enfim preso. Não é o que se espera de um qualificado integrante do expediente de uma revista pronta a se apresentar como filiada ao clube das mais importantes do mundo. Pois é, o Brasil ainda é capaz de dar guarida a grandes humoristas.

Não faltam, nesta área, os alquimistas, treinados com requinte para cumprir a vontade do patrão. Jograis inventores. Um deles sustenta impávido que a presidenta Dilma despenca em São Paulo para recomendar a Lula toda a cautela em apoiar a CPI do Cachoeira, caldeirão ao fogo, do qual respingos candentes poderão atingir o PT. É possível. E daí? Certo é que a recomendação não houve. E que o Partido dos Trabalhadores escala, no topo da pirâmide, um presidente, Rui Falcão, tão pateticamente desastrado ao rolar a bola na boca da pequena área para o chute midiático. Disse ele que a CPI vinha para “expor a farsa do mensalão”. De graça, ofertou a deixa preciosa aos inimigos. Só faltava essa… (Texto completo)

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MINO CARTA: “ELES QUEREM QUE NADA MUDE, SE POSSÍVEL QUE REGRIDA”

Sequestrada no último domingo, 1º de abril, por sinal, dia da mentira

O escândalo envolvendo o senador (já ex) Demóstenes Torres é representativo de toda crise moral por que passa a sociedade brasileira à medida em que arrasta consigo nomes e instituições importantes que desempenham, ou pelo menos deveriam desempenhar, papéis importantes na cena democrática nacional.

Tal crise moral, que passa pela postura totalmente omissa da mídia e reflete os crônicos problemas nacionais, entre eles a corrupção, desigualdade e impunidade, é assunto de um editorial de Mino Carta publicado pela Carta Capital. Depois do sequestro sofrido pela última edição da revista que simplesmente foi retirada das bancas em Goiânia, Mino lembra a tentativa da mídia em fazer com que o escândalo fique restrito à figura do senador que, inclusive, já se apressou em desligar-se do DEM (o partido dos democratas, veja só).

Além disso, as relações entre o bicheiro Carlinhos Cachoeira e o chefe da sucursal da revista Veja em Brasília, Policarpo Júnior, são quase que invisíveis para boa parte da imprensa que cultua o hábito de acreditar que aquilo que ela não noticia, nunca existiu de fato. O essencial é perceber que os pontos mais delicados do relatório da Polícia Federal que se refere ao escândalo de Demóstenes são simplesmente ignorados.

E o que aparece, aparece com atraso, e da forma enviesada como já se conhece, afinal, quanto mais a teia intricada de relações entre o bicheiro Cachoeira e o governo tucano de Goiás vai se desenrolando, mais pessoas vão sendo pegas por ela. A imprensa, no entanto, não deveria silenciar em relação aos detalhes da operação, tampouco ao sequestro de uma revista de importante circulação nacional, afinal, a imprensa está aí para dizer, noticiar os fatos.

Quando ela silencia, não só deixa de ser imprensa por não mais dizer, como também porque o seu silêncio ou atraso, acaba revelando que as suas relações com a sociedade não são mais de olhar para essa mesma sociedade e refleti-la jornalisticamente, e sim a de misturar-se com os próprios fatos sociais, o que automaticamente impede um relato sobre estes. Assim, a mídia termina por não noticiar, termina por não ser mais imprensa e prefere defender-se acusando aqueles que ainda fazem jornalismo de serem “ideológicos”.

Se for ideologia se ater aos fatos, fiscalizar o poder, contribuir para construir uma democracia e pensar mudanças para o país, dizemos ser esta uma ótima ideologia que todos os veículos deveriam seguir. Antes ter ideias, do que não tê-las, antes encarar as reais limitações do país bem como as heranças de nossa ditadura mais do que real, do que ficar inventando problemas e mascarando as reais contradições nacionais, como a desigualdade que impede a liberdade, como o conservadorismo e preconceito que impedem as reais mudanças e que, como bem diz Mino Carta, servem aos interesses daqueles que “querem que nada mude, se possível que regrida”.

Veja trecho do texto:

Demóstenes, Marconi e Policarpo
Por Mino Carta

O caso do senador Demóstenes Torres é representativo de uma crise moral que, a bem da sacrossanta verdade, transcende a política, envolve tendências, hábitos, tradições até, da sociedade nativa. No quadro, cabe à mídia um papel de extrema relevância. Qual é no momento seu transparente objetivo? Fazer com que o escândalo goiano fique circunscrito à figura do senador, o qual, aliás, prestimoso se imola ao se despedir do DEM. DEM, é de pasmar, de democratas.

Ora, ora. Por que a mídia silencia a respeito de um ponto importante das passagens conhecidas do relatório da Polícia Federal? Aludo ao relacionamento entre o bicheiro Cachoeira e o chefe da sucursal da revista Veja em Brasília, Policarpo Júnior. E por que com tanto atraso se refere ao envolvimento do governador Marconi Perillo? E por que se fecha em copas diante do sequestro sofrido por CartaCapital em Goiânia no dia da chegada às bancas da sua última edição? Lembrei-me dos tempos da ditadura em que a Veja dirigida por mim era apreendida pela PM.

A omissão da mídia nativa é um clássico, precipitado pela peculiar convicção de que fato não noticiado simplesmente não se deu. Não há somente algo de podre nas redações, mas também de tresloucado. Este aspecto patológico da atuação do jornalismo pátrio acentua-se na perspectiva de novas e candentes revelações contidas no relatório da PF. Para nos esclarecer, mais e mais, a respeito da influência de Cachoeira junto ao governo tucano de Goiás e da parceria entre o bicheiro e o jornalista Policarpo. E em geral a dilatar o alcance da investigação policial.

Quanto à jornalística, vale uma súbita, desagradável suspeita. Como se deu que os trechos do documento relativos às conversas entre Cachoeira e Policarpo tenham chegado à redação de Veja? Sim, a revista os publica, quem sabe apenas em parte, para demonstrar que o chefe da sucursal cumpria dignamente sua tarefa profissional. Ou seria missão? No entanto, à luz de um princípio ético elementar, o crédito conferido pelo jornalista às informações do criminoso configura, por si, a traição aos valores da profissão. Quanto à suspeita formulada no início deste parágrafo, ela se justifica plenamente: é simples supor vazamento originado nos próprios gabinetes da PF. E vamos assim de traição em traição. (Texto completo)

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MINO CARTA LEMBRA O TALENTO PECULIAR DE MILLÔR FERNANDES E CHICO ANYSIO, CAPAZES DE FAZER RIR PENSANDO

MINO CARTA LEMBRA O TALENTO PECULIAR DE MILLÔR FERNANDES E CHICO ANYSIO, CAPAZES DE FAZER RIR PENSANDO

"Já não se fazem a alegria e a melancolia de antigamente, diria Millôr. A energia criativa, a santa ironia. À espera, então, de um futuro feliz para todos".

Além de relembrar e salientar o talento que tanto Millôr Fernandes, quanto Chico Anysio tinham, cada um à sua maneira, de provocar o riso sem deixar de solicitar o pensamento, a crítica, a percepção ativa e não apenas passiva do que se vê ou ouve, Mino Carta toma como tema neste editorial publicado na Carta Capital a questão dos nossos heróis representativos de uma época perdida: “entre o imediato pós-guerra e o golpe de 1964. O Brasil do futuro que nunca chegou”, escreve Mino.

O futuro de então tinha uma concepção mais harmônica, digamos mais justa e razoável do que seria “ser futuro”. “Moderno sem mania de grandeza, como escreve Mino, independente porque livre de qualquer forma de colonização. Já hoje, o Brasil ainda continua sendo visto por alguns como “o país do futuro”, mas esse futuro não é mais o mesmo. Sonha-se com o crescimento econômico forte, potente, ignorando os abismo da desigualdade social e cultural do Brasil em relação ao mundo.

Não só o ideal da época não existe mais, como sua figuras, seus tipos próprios. Os novos tempos já estão produzindo os seus. Longe de nostalgia ou romantismo puro e simples (o ideal de volta ao passado), o texto é muito mais uma reflexão sobre o presente a partir do momento em que este presente vai sendo esvaziado das poucas vozes lógicas, coerentes, que ainda lhe restam.

Veja trecho do texto:

Heróis de um Brasil perdido
Por Mino Carta

Quando cheguei ao Brasil, agosto de 1946, a revista semanal chamava-se O Cruzeiro, da frota dos Diários Associados do almirante Chatô. Tratava-se de uma publicação provinciana na forma e no conteúdo, mas algumas de suas páginas nada tinham de provinciano. Aquelas ilustradas por uma equipe de excelentes fotógrafos, entre os quais se destacava Jean Manzon. Outra, sorrateiramente ocupada pelo Amigo da Onça, a maligna criatura do humorista Péricles. E as duas entregues ao “Pif-Paf” de Millôr Fernandes encantariam Saul Steinberg, honrariam a melhor New Yorker.

Encantaram também a família Carta, que se passou à disputa acirrada do exemplar do Cruzeiro, da sala aos aposentos. Mas quem era este Millôr? Descobrimos um jovem de 23 anos, capaz de um humor que não desdenhava desatar o riso, embora, com naturalidade, fizesse pensar. De resto “livre pensar é só pensar”. Não é mesmo?

Dez anos depois fui para a Itália e lá fiquei por mais de três. De regresso a São Paulo no começo da década de 60, capturou-me no vídeo um comediante de 30 anos chamado Chico Anysio, capaz de encarnar dezenas de personagens que faziam rir sem deixar de convocar a inteligência dos espectadores. Millôr e Chico, talentos extremos, morreram nos últimos dias, depois de vidas bem vividas a bem da graça e da leveza, na sua função de elevar o espírito, sem descurar da consistência e da densidade. Ambos produziram muito e sem tropeços, aprumados e certeiros.

Conheci os dois, com Chico estive ralas vezes, de Millôr fui bom amigo e com ele cheguei a trabalhar. Não é disso, porém, que pretendo falar agora, e sim de como as duas figuras são representativas de um Brasil perdido. Entre o imediato pós-guerra e o golpe de 1964. O Brasil do futuro que nunca chegou. (Texto completo)

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A pedra no meio do caminho

A imprensa estrangeira ao que parece está mais atenta ao Brasil do que os próprios jornais brasileiros. Aliás, não que seja questão de atenção, a imprensa internacional apenas faz a lição de casa do jornalismo que, pelas terras de cá, já foi abandonada há tempos. Por isso, em editorial recentemente publicado pelo jornalista Mino Carta na revista Carta Capital, ele lembra que se o brasileiro quiser realmente saber o que se passa no seu próprio país, o melhor é que ele recorra à imprensa internacional.

Isso porque nas linhas da grande mídia nacional, o leitor brasileiro não encontrará muita coisa a respeito das recentes expulsões de muitas famílias nas principais cidades-sede do Mundial de 2014. O método no Brasil continua sendo o mesmo. Toda pedra que está no meio do caminho é simplesmente enxotada e essa pedra geralmente atende pelo nome de “povo”. Um povo tão pouco importante que não merece sequer a atenção da mídia nacional e que naturalmente deve dar licença para que as obras da Copa enfim possam aparecer.

É esse o raciocínio muito oportuno dos jornais brasileiros: o que não é por eles noticiado simplesmente nunca existiu e esse mesmo povo deixa de ser pedra no meio do caminho para ser simplesmente doutrinado por uma mídia que nunca o representou, tampouco pretende, e que acaba ela também doutrinada pela própria realidade que ela recria todos os dias.

Como bem diz Mino, “é o resultado inescapável do conluio automático, tácito, instintivo eu diria, que se estabelece entre barões midiáticos e fiéis sabujos quando consideram ameaçado seu desabusado apreço pelo status quo”. Conluio esse que emburrece o Brasil e que, apostando nessa mesma ignorância nacional, sustenta o “sacrifício de incontáveis cidadãos para a felicidade de empreiteiros, políticos e quejandos”, escreve Mino.

E esses cidadãos, como lembra o jornalista, e como quer a mídia nacional, não se indignam, não se revoltam, simplesmente vão deixando as coisas como estão, esvaziados de qualquer espírito de cidadania. No Brasil, as tempestades vêm fortes, mas passam rápido. Por isso, denúncias morrem como se nunca tivessem vindo à tona, escândalos de corrupção emudecem e a justiça continua servindo aos ricos. Aqui não se aprende com a pedra no meio do caminho, como queria dizer o poeta, aqui ela é apenas ignorada, ou chutada pra fora.

Veja trecho do texto:

Indignação, nunca
Por Mino Carta

O The New York Times na segunda 5 publicou com destaque uma reportagem sobre a situação dos cidadãos brasileiros enxotados de suas moradias por se encontrarem no caminho das obras da Copa de 2014 e das Olimpíadas de 2016. A história não envolve somente o Rio, mas também outras cidades-sede do Mundial de Futebol. CartaCapital denunciou as remoções forçadas na edição de 20 de abril do ano passado. Poucos dias depois, a Relatora Especial da ONU, Raquel Rolnik, denunciou as autoridades municipais envolvidas na operação, que desrespeita a legislação e os compromissos internacionais assumidos pelo Brasil para a defesa dos direitos humanos.

Já então a relatora apontava diversas violações, “todas de grande gravidade”. Multiplicaram-se de lá para cá, inexoravelmente. Maus-tratos generalizados, “zero dias” de tempo para deixar a moradia, 400 reais de “aluguel social” enquanto o enxotado espera ser contemplado por algum demorado plano de habitação. Antes do diário nova-iorquino, nos últimos tempos levantaram o assunto outros jornais e sites estrangeiros, como The Guardian, El País, o Huffington Post. CartaCapital voltou a tratá-lo em janeiro passado, com uma larga reportagem assinada por Rodrigo Martins e Willian Vieira, intitulada “Os retirantes das favelas” para focalizar, entre outros aspectos, uma das consequências das remoções forçadas.

E a mídia nativa? Não foi além de raros e ralos registros. Para saber das coisas do Brasil, recomenda-se amiúde recorrer à imprensa estrangeira. Ou melhor, seria recomendável o recurso. No mais, vale reconhecer, a mídia tem sido eficaz na manipulação das informações quando não na omissão dos fatos, de sorte a se fortalecer na convicção de que eventos por ela não noticiados simplesmente não se deram. É o resultado inescapável do conluio automático, tácito, instintivo eu diria, que se estabelece entre barões midiáticos e fiéis sabujos quando consideram ameaçado seu desabusado apreço pelo status quo. (Texto completo)

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EM PALESTRA PARA ESTUDANTES DE JORNALISMO, MINO CARTA AFIRMA QUE O JORNALISMO REFLETE OS ATRASOS DO PAÍS E QUE MÍDIA É OMISSA

Na opinião de Mino, para uma mídia que não respeita a verdade factual, omite fatos quando lhe convém e às vezes até mente, a regulação é indispensável

A necessidade de regulamentar o funcionamento da mídia no Brasil foi um dos assuntos discutidos pelo diretor de redação da revista Carta Capital, Mino Carta, em palestra na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo.

Mino falou para uma plateia onde a maioria das pessoas era formada por estudantes de jornalismo e voltou a manifestar, como tem feito em entrevistas recentes, seu descontentamento em relação ao jornalismo que vem sendo feito atualmente no país.

O jornalista que fundou revistas como a Veja e a Quatro Rodas, disse que os donos de jornais em sua maioria carregam a herança da Casa Grande e mostram a realidade como eles gostariam que ela fosse, não como ela realmente é, daí pode-se concluir que se tem feito de tudo nas redações brasileiras, menos jornalismo.

Veja trecho de notícia publicada pela Carta Capital sobre o assunto:

‘A regulação é indispensável’
Por Gabriel Bonis

Em uma palestra sobre o atual jornalismo brasileiro na Faculdade Cásper Líbero, na segunda-feira 3, o jornalista Mino Carta, diretor de redação de CartaCapital, defendeu a regulamentação da mídia como forma de controlar os interesses dos proprietários de veículos do setor. “Quando se toca neste assunto, a mídia se apressa em dizer que está sendo tolhida. Porém, trabalhei fora do país em um lugar onde patrão não poderia ser diretor de redação por lei. É indispensável estabelecer esse limite”, disse Carta.

Aos 77 anos, o jornalista, criador das revistas Quatro Rodas, Veja e CartaCapital e do Jornal da Tarde, afirmou a uma platéia lotada, principalmente por estudantes de jornalismo, que a profissão reflete os atrasos políticos e sociais do País. “Não tenho uma boa opinião do jornalismo brasileiro e isso não deve mudar a curto ou médio prazo”, alfinetou.

Porém, essa visão não desanima a estudante de jornalismo Helena Lima. “É uma análise bem realista, mas não chega a assustar”, observou. “Creio que essa análise pessimista é até comum entre os jornalistas de uma forma geral”, concordou a também estudante Carolina Salomão, de 21 anos.

Segundo Carta, “alguns senhores, donos de veículos de mídia, carregam a herança da Casa Grande. Mostram um país que eles gostariam de ver”. Como exemplo deste posicionamento, cita o episódio ocorrido com o ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva, na França, na última semana. (Texto completo)

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MINO CARTA E SUAS “PROVOCAÇÕES”

Mino mostra que relatar o fato no Brasil é provocação

Recentemente, o editor da revista Carta Capital, Mino Carta, esteve no programa “Provocações” da TV Cultura, apresentado por Antônio Abujamra.

Abaixo, alguns momentos da entrevista em que não faltaram ótimas provocações como “Não é que o jornalismo brasileiro está em crise, ele é muito ruim, só isso (risos). Se você pega um jornal inglês e confronta com um brasileiro você fica com pena, você fica realmente entristecido. Eles, a mídia, querem um país de 20 milhões de habitantes e uma democracia sem povo”.

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MINO CARTA: SILÊNCIO DA MÍDIA É SEMELHANTE AO SILÊNCIO DA MÁFIA ITALIANA

Mino Carta voltou com o blog, mas é no site da Carta Capital que traz esse excelente texto.

um silencio mafioso na midia

Mino Carta: um silencio mafioso na mídia

As provas são irrefutáveis

Que diria o atento leitor, o cidadão honrado, ao ser informado que o supremo representante da Justiça brasileira compra terrenos de 2 milhões de reais por um quinto do valor? E que diria ao verificar que, ao aliar à atividade de magistrado a de empresário da educação, fecha contratos sem licitação para cursos diversos com entidades estatais as mais variadas, desde a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional até o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação? É de se supor que o cidadão em pauta ficaria entre atônito e espantado.

A mídia nativa aposta porém em leitores rudes e ignaros, que não precisam, ou melhor, não podem e não devem conhecer situações do Brasil 2008 como as acima apontadas. Donde, que Gilmar Mendes, presidente do Supremo Tribunal Federal, aquele que chamou às falas o presidente da República, durma sonos tranqüilos a despeito do clamoroso conflito de interesses revelado pela magistral reportagem de Leandro Fortes, publicada na edição de CartaCapital da semana passada.

A mídia nativa alimenta uma convicção terrível e, ao mesmo tempo, patética: não acontece aquilo que ela não noticia. Por quanto tempo ainda conseguirá enganar muitos cidadãos, por mais honrados e atentos? A verificar. Vale, em todo caso, citar o chamado ombudsman (ombudsman? Estaremos na Suécia?) da Folha de S.Paulo, na sua tentativa de explicar o silêncio do seu jornal em relação às revelações de CartaCapital.

Pergunta-lhe diretamente um leitor por que ignorar fatos tão relevantes, sem deixar de recordar que o célebre grampo da conversa entre Mendes e o senador Demóstenes Torres, até hoje sem prova, teve ampla cobertura da Folha. Responde o ombudsman que, dependesse dele, ambos os assuntos não teriam registro, embora sustente que a reportagem de CartaCapital apenas se refere “a um possível conflito de interesses”.
Possível? Escancarado, indigno de um país que se pretende democrático. Que esperar, no entanto, do ombudsman (esta palavra, insisto, me causa enormes perplexidades) de um jornal que, por exemplo, se esbaldou em casos como o do cartão corporativo da tapioca, enquanto enterrava rapidamente as informações sobre o relacionamento tucano com a Alstom. Seria demais exigir do solerte fâmulo que se perguntasse por que o próprio Gilmar Mendes, ao reagir contra CartaCapital, falasse em “pistolagem jornalística” em lugar de se dizer vítima de mentiras. Não diz porque as provas são contundentes, e um magistrado ao menos sabe disso.

Agora sou eu quem pergunta aos meus pacientes botões qual seria a razão pela qual figuras como Gilmar Mendes, ou como Daniel Dantas, contam com o pronto amparo da mídia nativa. Arrisco-me a um palpite: antes de qualquer outro interesse eventualmente em jogo, trata-se talvez de exercer a proteção corporativa, pontual e inexorável entre aqueles que, de uma forma ou de outra, participam dos mesmos privilégios e os mantêm com a ferocidade necessária. Os donos do poder, dispostos a vender a alma para deixar as coisas como estão.

Há, entre os próprios mestres chamados a transmitir seu saber no instituto de propriedade de Gilmar Mendes e mais dois sócios, quem se prontifique a enaltecer a qualidade dos cursos ali ministrados, em precipitada prática do vitupério. É o de menos. Demais é constatar a obediência à omertà por parte da mídia, a lei do silêncio imposta ao povo siciliano pela Máfia e aqui cumprida pelos senhores midiáticos.

Diz Mendes, de quem supomos mais familiaridade com a lupara do que com a pistola, que CartaCapital serve às conveniências do diretor afastado da Abin, Paulo Lacerda. Pingos nos is. Lacerda, íntegro e competente policial, merece o maior respeito. Afastado injustamente, por obra das insuportáveis pressões do presidente do STF e do ministro da Defesa, Nelson Jobim, já foi convidado a retornar ao cargo pelo presidente da República. Foi o reconhecimento tácito, mas explícito, do erro cometido ao dar ouvidos a dois prepotentes intérpretes da nossa Idade Média. (Mino Carta)

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