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mídia, economia e cultura – por Glauco Cortez

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LIVRO APROVADO PELO MEC É ALVO DE CRÍTICAS DA IMPRENSA POR CONTER “ERROS GRAMATICAIS”

A língua é um fenômeno curioso. Nela, existe algum mistério que está além do simples certo ou errado, alguma força maior que a faz viver em movimento constante, de forma múltipla e particular. Ao falar sobre questões linguísticas deveria se ter mais cuidado, um mínimo de conhecimento e, principalmente, uma postura não daquele que julga, mas daquele que antes busca conhecer.

A distribuição do livro “Por uma vida melhor”, da professora Heloísa Ramos, com supostos “erros gramaticais” pelo Programa Nacional do Livro Didático, do Ministério da Educação, tem feito muito barulho e dentro de todo esse barulho muita coisa equivocada foi dita. O livro busca dar maior importância à linguagem oral, contemplando-a juntamente com a linguagem escrita e sua norma culta, neste sentido, leva em consideração que frases como “nós pega o peixe” poderiam ser consideradas corretas em certos contextos.

Outra proposta para o ensino de gramática

Os defensores da gramática e da norma erudita condenaram o livro e a sua linha de proposta pedagógica dizendo que isso é um desrespeito à língua portuguesa, que agora se ensina errado nas próprias escolas, que se está jogando a toalha e a educação não vale mais nada. Enfim, eles temem pela língua.

A questão é será que há mesmo algo a temer pela língua? Será que ela precisa mesmo de tantos jornalistas, gramáticos e escritores atacando as formas da linguagem oral porque esta pode destruir a norma culta e aí sim seremos um país de pessoas analfabetas que não sabem escrever e falar corretamente? Há um medo absurdo em toda essa crítica que chega ao desespero típico dos que matam uma nova forma, para não mexer no esquema das antigas.

Em primeiro lugar, deve ser dito que muitos dos jornalistas que estão criticando o livro didático e sua proposta ao falarem e redigirem seus textos cometem muitos dos “erros” que eles tanto condenam, sem dizer que, a maioria não tem conhecimento mínimo de linguística para sair falando e revestem seu discurso de tanto preconceito que não há espaço para qualquer tipo de reflexão.

Em segundo lugar, deve se lembrar de que os gramáticos têm muita dificuldade em lidar com as formas novas da língua, afinal, elas exigem mudanças nos sagrados manuais, assim, eles abraçam a causa de uma língua que supostamente deve ser defendida a todo custo, inclusive da própria língua. Pois faz parte do movimento da língua introduzir formas novas como “os livro.

Além disso, ao dizer “os livro”, por exemplo, não há um problema comunicacional, é possível entender o que se diz, a construção não está de todo equivocada, o problema que existe aí é de outra ordem e obviamente deve ser estudado, no entanto, é importante sim que as gramáticas e os livros didáticos contemplem essas novas formas explicando por que uma língua permite que surjam construções como essa e dizendo, obviamente, qual é a norma culta, a forma consagradamente correta de dizer.

Sem dúvida, a gramática que for dinâmica como é a própria língua, será uma gramática muito mais completa e eficiente, afinal, quando simplesmente se aponta uma forma como errada, perde-se muito mais do que quando se procura entender quais mecanismos mentais e sociais propiciaram que aquela forma existisse. Por isso, pode-se dizer que esse livro didático ao invés de pisotear a norma culta está colocando-a no mais alto patamar, pois não se aprende uma língua sem abrir-se para a sua totalidade.

Se fôssemos levar em consideração todas essas críticas que têm sido feitas, um escritor como Guimarães Rosa poderia ser apedrejado em praça pública por inventar palavras e frases que desmerecem a sagrada norma culta. No entanto, muitos dos jornalistas, escritores e membros da Academia que estão agora condenando o livro didático da professora Heloísa Ramos, rendem ao escritor vastas homenagens. E o incrível é que com os escritos de Guimarães a língua não parece ter se perdido, muito pelo contrário.

Abaixo, alguns trechos de notícias e comentários que saíram na imprensa sobre o assunto:

MEC lava as mãos no caso dos livros com erros
Do Globo
Por Cássio Bruno

Escritores e educadores criticaram ontem a decisão de distribuir o livro, tomada pelos responsáveis pelo Programa Nacional do Livro Didático. Para Mírian Paura, professora do Programa de Pós-graduação em Educação da Uerj, as obras distribuídas pelo MEC deveriam conter a norma culta:
– Não tem que se fazer livros com erros. O professor pode falar na sala de aula que temos outra linguagem, a popular, não erudita, como se fosse um dialeto. Os livros servem para os alunos aprenderem o conhecimento erudito.
Na obra “Por uma vida melhor”, da coleção “Viver, aprender”, a autora afirma num trecho: “Posso falar ‘os livro?’ Claro que pode, mas dependendo da situação, a pessoa pode ser vítima de preconceito linguístico.” Em outro, cita como válidas as frases: “nós pega o peixe” e “os menino pega o peixe”.
Autor de dezenas de livros infantis e sobre Machado de Assis, o escritor Luiz Antônio Aguiar também é contra a novidade:
– Está valendo tudo. Mais uma vez, no lugar de ensinar, vão rebaixar tudo à ignorância. Estão jogando a toalha. Isso demonstra falta de competência para ensinar. (Texto completo)

Livro adotado pelo MEC defende ‘erro’
Da redação O Estado de S.Paulo

“Nós pega o peixe” ou “os menino pega o peixe”. Para os autores do livro de língua portuguesa Por uma Vida Melhor, da Coleção Viver, Aprender, adotado pelo Ministério da Educação (MEC), o uso da língua popular – ainda que com seus erros gramaticais – é válido.
A obra também lembra que, caso deixem a norma culta, os alunos podem sofrer “preconceito linguístico”.
Diz um trecho do livro, publicado pela Editora Global: “Você pode estar se perguntando: “Mas eu posso falar “os livro”?” Claro que pode. Mas fique atento, porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico. Muita gente diz o que se deve e o que não se deve falar e escrever, tomando as regras estabelecidas para a norma culta como padrão de correção de todas as formas linguísticas”. (Texto completo)

Os livro mais interessante estão emprestado
Coluna do Augusto Nunes

A menção a leituras informa que a frase reproduzida no título do post não foi pinçada de alguma discurseira de Lula. Mas os autores do livro didático “Por uma vida melhor”, chancelado pelo MEC, decerto se inspiraram na oratória indigente do Exterminador do Plural para a escolha de exemplos que ajudem a ensinar aos alunos do curso fundamental que o s no fim das palavras é tão dispensável quanto um apêndice supurado. O certo é falar errado, sustenta o papelório inverossímil.
A lição que convida ao extermínio da sinuosa consoante é um dos muitos momentos cafajestes dessa abjeta louvação da “norma popular da língua portuguesa”. Não é preciso aplicar a norma culta a concordâncias, aprendem os estudantes, porque “o fato de haver a palavra os (plural) já indica que se trata de mais de um livro”. Assim, continuam os exemplos, merece nota 10 quem achar que “nós pega o peixe”. E só podem espantar-se com um medonho “Os menino pega o peixe” os elitistas incorrigíveis.
“Muita gente diz o que se deve e o que não se deve falar e escrever tomando as regras estabelecidas para norma culta como padrão de correção de todas as formas linguísticas”, lamenta um trecho da obra. Por isso, o estudante que fala errado com bastante fluência “corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico”. A isso foram reduzidos pelo Brasil de Lula e Dilma os professores que efetivamente educam: não passam de “preconceituosos linguísticos”. (Texto completo)

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ESCOLA PÚBLICA RESERVA UM TEMPO PARA O APRENDIZADO DA CULTURA POPULAR BRASILEIRA POR MEIO DA TRADIÇÃO ORAL

Em defesa da oralidade!

Da Agência Educação Política

Nos tempos atuais, é um fenômeno comum ver, por parte de alguns pensadores e críticos, certa desqualificação da linguagem oral em detrimento da linguagem escrita. Esta última, passa por um processo de valorização que é muito bem vindo e essencial, no entanto, não pode vir sozinho, esquecendo-se de que tão importante quanto a escrita é a fala, já que ambas, apesar de distintas, se completam, se relacionam, se interpenetram. Uma não vive sem a outra, elas fazem parte de um mesmo movimento de representação e entendimento crítico e artístico da realidade.

Indo na contramão da tendência contemporânea e da maioria das escolas brasileiras que têm como foco de aprendizado a língua escrita e não a língua falada, uma escola da rede pública de São Paulo decidiu reservar um tempo para que os alunos tenham contato com a nosssa cultura popular através das tradições da linguagem oral que estão bastante esquecidas pelos educadores atuais.

O trabalho é realizado pelo Ponto de Cultura Amorim Rima e Centro de Estudos e Aplicação da Capoeira (Ceaca), que atua dentro da escola. Comandado por Alcides Lima, o ponto de cultura atende cerca de 300 crianças de 1ª a 4ª série. As aulas sobre a cultura popular ministradas pelo ponto de cultura fogem dos padrões do ensino formal das escolas brasileiras e são baseadas na técnica da repetição que faz parte da tradição oral, além de contarem com atividades como capoeira com coco, ciranda, puxada de rede, maculelê e samba de roda.

A valorização da cultura popular brasileira e da tradição oral, sem dúvida alguma, é uma forma de complementar o ensino formal que vigora na maioria das escolas brasileiras e de tornar o aprendizado mais completo e efetivo. Quando as crianças tomam contato com a oralidade, além de falar melhor, elas passam a escrever melhor, uma coisa deriva da outra, uma faz parte da outra e, no caso do modelo adotado por esta escola de SP, elas ainda saem com um conhecimento maior sobre a cultura popular brasileira, que encontra cada vez menos espaço dentro da lógica da indústria cultural.

Na ação deste grupo que faz parte de um projeto maior, a Ação Griô Nacional, uma rede que integra 130 pontos de cultura em todo o país e que, através de seus mestres, busca fortalecer a identidade cultural de crianças e adolescentes, segundo a tradição de cada comunidade, está um importante resgate de uma tradição que nunca deve se perder: a oralidade. São exemplos e ações como essa que fazem com que tal frase que vem logo abaixo, dita por um conhecido escritor latino-americano, não ganhe muita repercussão. É ótimo ver as conquistas de uma sociedade letrada, mas a educação se faz com voz e palavra, na mesma proporção!

“Uma comunidade sem literatura escrita se exprime com menos precisão, riqueza de nuances e clareza do que outra cujo instrumento principal de comunicação, a palavra, foi cultivado e aperfeiçoado graças aos textos literários. Uma humanidade sem romances, não contaminada pela literatura, se pareceria com uma comunidade de tartamudos e afásicos, atormentada por problemas terríveis de comunicação causados por uma linguagem ordinária e rudimentar”. (Mario Vargas Llosa, desmerecendo a oralidade e tomando a escrita como positiva por si própria)

Leia mais sobre essa iniciativa de incorporar a oralidade na educação escolar em reportagem publicada no Brasil de Fato.

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