Educação Política

mídia, economia e cultura – por Glauco Cortez

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FOTOS DE KLEINER KAVERNA, NO ENSAIO DA PEÇA ‘O HOMEM DA CABEÇA DE PAPELÃO’, BASEADA NO CONTO HOMÔNIMO DE JOÃO DO RIO

A peça será exibida nos dias 29 e 30 de novembro e 01 de dezembro às 20h no Barracão Teatro
(Vila Santa Isabel, Barão Geraldo, Campinas).
A direção é de Eduardo Brasil e Ana Clara Amaral.

Vi no Eu Passarin

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BERTOLD BRECHT EM SANTA JOANA DOS MATADOUROS: O INJUSTO ANDA CALMAMENTE NA RUA, O JUSTO SE ESCONDE

Cena da peça encenada em São Paulo

NOS MATADOUROS. OS DEPÓSITOS DAS INDÚSTRIAS GRAHAM

Os pátios já estão quase vazios. De raro em raro passam grupos de trabalhadores.

JOANA chega e pergunta:
Alguém aqui viu três homens à procura de uma carta?
Gritaria ao fundo, que vem avançando. Entram cinco homens cercados de tropa: os dois trabalhadores do comando da greve e os três da central elétrica. Um dos homens do comando pára e começa a falar aos soldados.

O DIRIGENTE
Vocês nos levam para a cadeia, mas fiquem sabendo que foi para ajudar gente igual a vocês que fizemos o que fizemos.

UM SOLDADO
Então continua andando, que você ajuda a gente mais ainda.

O DIRIGENTE
Esperem uni pouco!

UM SOLDADO
Está com medo?

O DIRIGENTE
Pode ser, mas não é por isso que estou falando. Eu quero que vocês entendam por que nos prenderam. Ouçam, porque vocês não sabem.

OS SOLDADOS RINDO
Está bem, diga por que nós te prendemos.

O DIRIGENTE
Vocês não têm propriedade, mas ajudam os que têm. Por quê? Porque ainda não enxergaram a maneira de ajudar os expropriados como vocês mesmos.

O SOLDADO
Muito bem, e agora vamos continuar.

O DIRIGENTE
Esperem! Eu não terminei a frase: mas nesta cidade os trabalhadores que têm emprego já começaram a ajudar os trabalhadores desempregados. Portanto a maneira de ajudar os expropriados está ficando clara. Pensem nisso.

O SOLDADO
Você está querendo que a gente te solte?

O DIRIGENTE
Você não me entendeu? Entenda que a vez de vocês também está chegando.

O SOLDADO
Vamos continuar?

O DIRIGENTE
Vamos, vamos continuar.

Eles continuam. Joana para e acompanha os presos com os olhos. Ela ouve a conversa de duas pessoas a seu lado

UM
Que gente é essa?

O OUTRO
Nenhum desses
Cuidou só de si
Passaram tormentos
Para dar pão a desconhecidos.

O PRIMEIRO
Por que tormentos?

O OUTRO
O injusto anda calmamente na rua mas
O justo se esconde.

(Trecho da peça Santa Joana dos Matadouros, de Bertold Brecht)

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BERTOLT BRECHT: OS DIAS DO TEU CATIVEIRO ESTÃO CONTADOS, TALVEZ MESMO OS MINUTOS

“Schauva, os dias do teu cativeiro estão contados, talvez mesmo os minutos. Por longo tempo te mantive sob o freio de ferro da razão, que te pôs a boca em sangue, te espanquei a golpes de princípios racionais, te maltratei, com a lógica. És de natureza um fraco, e quanto te lançam insidiosamente um argumento, logo os engoles avidamente, não te podes conter. Obedecendo à tua natureza, não resistes ao desejo de lamber a mão de um superior, mas os teus seres superiores podem ser de toda sorte, e agora te chegou a hora da libertação – e breve poderá seguir tuas inclinações, que são baixas, e o teu infalível instinto, que te ensina a calcares as solas de teus sapatos das criaturas humanas. Pois o tempo da confusão e da desordem acabou, sem que tenham vindo os grandes tempos que encontrei descritos na canção do caos, canção que iremos cantar mais uma vez como lembrança desta época maravilhosa; senta-te e não massacres a música. Não receies que a ouçam , o refrão agrada sempre. Canta”.  (trecho de O círculo de giz caucasiano, de Bertolt Brecht)

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PRIMUS, PEÇA DA BOA COMPANHIA, IMPRESSIONA PELA QUALIDADE TÉCNICA E ESTÉTICA, MAS AO FINAL FICA UMA QUESTÃO…

CHEIRO DE CÉU, UMA COMÉDIA COM TRAMA E TEXTO PARA AGRADAR QUEM DIZ QUE NÃO GOSTA DE TEATRO

Cena de Cheiro do Céu

A peça Cheiro de Céu, em cartaz no Espaço Parlapatões, em São Paulo, é ótima para ser indicada a pessoas que costumam dizer que não gostam de teatro.

A peça é uma comédia deliciosa de Mário Viana que, ao propor uma trama clássica, como são as comédias de William Shakespeare, consegue unir modernidade e tradição. Dirigida por Norival Rizzo, conta uma história que se passa em um reino medieval, mas bem revestida por um humor contemporâneo.

Os atores, jovens, mas com ótima caracterização e figurino, dão conta do recado com muita graça e presença corporal. Aliás, são os textos, direção e os atores que seguram e dão beleza à peça. Nesse caso, nem precisa investir muito em cenário, mas vale destacar a força que tem a iluminação da peça, que ajuda a compor o ambiente e é capaz de fazer algumas brincadeiras.

A peça é exigente para quem gosta de teatro e, ao mesmo tempo, uma ótima diversão, para quem não gosta. Mesmo porque, dizer  “não gosto de teatro” equivale a dizer “não gosto de música”. A diversidade musical e teatral da nossa cultura é tão grande que esse tipo de frase soa desonesta.

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CURSO LIVRE DE TEATRO É UMA EXPERIÊNCIA PARA ALÉM DA DRAMATURGIA

Imagem creative commom por Tostoini

Imagem creative commom por Tostoini

O Curso Livre de Teatro, que é realizado atualmente no Barracão Teatro em Campinas, foi uma das experiências mais apaixonantes que já vivi. Não só pela experiência dramatúrgica, não só pelas pessoas que conheci e nem pelos professores-atores que tratam o curso de uma forma séria e profissional, ao mesmo tempo em que tratam os alunos com respeito e afeto.  O Curso Livre de Teatro, turma 2008,  permitiu a mim, mas também a todos os outros alunos, descobrir o que estava na nossa cara, na frente do nosso nariz, sob os nossos pés. A poesia da vida. E é muito bom.

As inscrições para a Turma 2009 estão abertas. Se houver algum leitor interessado, o e-mail do curso livrre é: cursolivredeteatro@yahoo.com.br

E segue abaixo um texto que escrevi e que a idéia dele ajudou, junto com os textos de outros atores e de grandes escritores, a construir o trabalho que resultou na peça Sob meus pés, apresentada no final do ano passado.

 

Vim para dizer apenas que eu sou ator. Sim, um ator.
Mas não me venhas com julgamentos estéticos,
Não me venhas com comentários sobre minha performance
Não adianta falar que sou um canastrão, que faço apenas clichês da representação
Não adianta falar que ajo como na televisão: caras, bocas e expressões repetidas ao infinito.
Não falo disso, não falo da arte. Falo que sou um ator. Minha condição, ator

Por isso estou aqui a vos narrar esta história.
Sempre quis ser ator. Sempre sonhei com isso.
Mas esperem… Não pensem nos motivos que me fizeram ser ator
Vocês nunca descobrirão, podem tentar, chutar, palpitar
Não…. Nunca pensei em ser galã de telenovela Nem estrelar um grande filme
Está certo, vou abrir uma exceção, posso ter imaginado beijar uma bela atriz, contracenar, seduzir.
Mas são todos pensamentos fugazes, pequenos, fantasiosos
Eu sou ator…não porque dramatizo falas banais, nem porque faço rir pela falta de criatividade cênica, pelo erro.
Não é o avesso da arte.

Acho que vocês querem os fatos, vejo que estão ansiosos.
Sou ator porque posso abrir meus braços, fazer movimentos, correr, brincar, pular
Ah, como era bom brincar o Carnaval na infância.
Ah, como era bom jogar futebol naquele campinho de várzea.
São esses momentos que me fazem lembrar porque sou hoje um ator.
Vocês não me entendem. Sei que não expliquei completamente
Desculpem, mas eu precisava falar, ator também precisa se expressar, não basta representar.

Mas não se angustiem, eu vou revelar agora:
Olhem para mim! Vejam! meus braços, meu corpo. Sim, meu corpo está vivo!
Sou ator porque resgatei um corpo morto no porão da sala de televisão
Resgatei um corpo morto em frente a um computador
Resgatei um corpo morto dentro de quatro paredes de um escritório
Estava lá, imóvel, entravado, prensado, domesticado
Sendo chicoteado e maltratado por um cérebro narcisista que mal sabe pensar,
Mas se acha a obra-prima na natureza, um privilegiado conhecedor, filósofo, pensador.
Mas um pensador sôfrego se tens o corpo enjaulado, atrofiado.
Sou ator porque ressuscitei meu corpo que estava entregue, desfalecido
Eu precisava da natureza, da natureza do meu corpo, da natureza do ator. Acorda!

 

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Cartaz da peça Terceira Margem do Rio

Cartaz da peça Terceira Margem do Rio

O grupo Magma Cênica, formado por ex-alunos do Curso Livre de Teatro de Campinas, apresenta neste final de semana, sexta e sábado (30 e 31 às 21h) e domingo (01 às 20h) a peça A Terceira Margem do Rio, a partir da obra de Guimarães Rosa.

A peça foi encenada como conclusão do curso no final de 2007 e, em 2008, o grupo resolveu continuar o trabalho, readaptando para esta apresentação com a colaboração cênica de Robson Haderchpek, Eduardo Brasil e Ana Clara Amaral.

A peça será apresentada no Barracão Teatro, que fica na rua Eduardo Modesto, 128, Vila Santa Isabel, Barão Geraldo, em Campinas. Ingresso no Chapéu, isto é, você paga quanto pode ao final da peça.

O Curso Livre de Teatro é mais um movimento da capacidade criativa que existe no grande universo dramatúrgico que existe em Campinas, especialmente em Barão Geraldo, e que é fomentado pela presença do curso de Artes Cênicas da Unicamp. Campinas tem um grande potencial de popularização do teatro, é centro de referência nas artes cênicas, mas que ainda não foi absorvido por políticas públicas específicas.

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EU QUERO VER A RAINHA É BELEZA, INTELIGÊNCIA E SENSIBILIDADE SOCIAL NUM ÚNICO ATO

A peça Eu Quero Ver a Rainha, de Fabiana Fonseca, é algo que vira do avesso o universo feminino. A atriz, que idealizou o projeto, conseguiu unir pesquisa e dramaturgia de uma forma intensa. Poderia ser um espetáculo para mulheres, mas fala também diretamente aos homens.
Ao ver a peça, gerada em uma sociedade tão determinada pelo vazio da produtividade e do lucro que se constrói sobre o universo feminino, vive-se um extasiamento. E nos faz pensar como foi possível chegar a tal resultado e a imaginar questões para além do campo teatral.
Fabiana Fonseca é uma mulher absolutamente linda, com seu belo corpo e delicado rosto, mas se constrói na peça como uma mulher competente e sensível às questões sociais e ao mundo desigual em que vivemos. Fabiana foge do esterótipo da beleza burra e contrói uma beleza sensível e competente. Fabiana é a Rainha, ou melhor, Totalmente Demais (Ouça).

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MIMO: UM CABEÇÃO COM GRAÇA E SENSIBILIDADE

A peça Mimo, do grupo holandês Muganga, é poesia singela e bela. O espetáculo, que tem no palco apenas Carlos Lagoeiro, um brasileiro que fundou o grupo há 21 anos na Holanda, é uma mistura de tecnologia e criatividade em proveito da arte.

Mas o grupo não precisou de muita tecnologia: um dos momentos mais belos da peça, uma dança amorosa que povoa o cabeção do Mimo, é feito apenas com um retroprojetor. É um momento sublime. O grupo teve várias apresentações no Brasil.

Como diz o próprio site do grupo, o espetáculo é um casamento entre o teatro e as artes plásticas:“Mimo é um espetáculo solo de Carlos Lagoeiro, diretor artístico/ator do Teatro Munganga e Marion Hoekveld, artista plástica. Trata-se de um encontro entre o teatro e as artes visuais em um espetáculo sem texto”

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