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mídia, economia e cultura – por Glauco Cortez

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IDEIA DO AMOR, IDEIA DA MORTE, POR GIORGIO AGAMBEN

Ideia de Agamben

Ideia de Agamben

Por Maura Voltarelli

O filósofo italiano Giorgio Agamben ficou conhecido pela sua frase com forte teor polêmico, “Deus não está morto, ele virou dinheiro”. Mas Agamben já era e é, antes de tudo, o filósofo da poesia. Em seus textos, a poesia sempre é refletida a partir de um lugar elevado, sempre é posta em movimento e, mais importante, sempre acumula sentidos e horizontes de realização.

Um de seus livros, Ideia da Prosa, busca refletir precisamente sobre o que seria a poesia a partir da prosa e, mais ainda, traz diversos pequenos textos sobre diferentes ideias de temas que sempre aparecem na nossa vida. Temos no livro “Ideia da vocação”, “Ideia da Musa”, Ideia do comunismo”, Ideia do poder”, “Ideia da paz”, “Ideia da vergonha”, “Ideia da música” e tantas outras…

Deixamos aqui duas ideias fundamentais sobre as quais Agamben fala a partir de uma originalidade surpreendente e genial.

Ideia do amor

Viver na intimidade de um ser estranho, não para nos aproximarmos dele, para o dar a conhecer, mas para o manter estranho, distante, e mesmo inaparente – tão inaparente que o seu nome o possa conter inteiro. E depois, mesmo no meio do mal-estar, dia após dia não ser mais que o lugar sempre aberto, a luz inesgotável na qual esse ser único, essa coisa, permanece para sempre exposta e murada.

Ideia da morte

O anjo da morte, que em certas lendas se chama Samael, e do qual se conta que o próprio Moisés teve de o afrontar, é a linguagem. O anjo anuncia-nos a morte – e que outra coisa faz a linguagem? – mas é precisamente este anúncio que torna a morte tão difícil para nós. Desde tempos imemoriais, desde que tem história, a humanidade luta com o anjo para lhe arrancar o segredo que ele se limita a anunciar. Mas das suas mãos pueris apenas se pode arrancar aquele anúncio que, assim como assim, ele nos viera fazer. O anjo não tem culpa disso, e só quem compreende a inocência da linguagem entende também o verdadeiro sentido desse anúncio e pode, eventualmente, aprender a morrer.

AGAMBEN, Giorgio. Ideia da Prosa. Trad. João Barrento. Lisboa: Cotovia, 1999

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‘PÃO E VINHO’, DO POETA ALEMÃO FRIEDRICH HÖLDERLIN, PROCLAMA QUE OS DEUSES ESTÃO VIVOS E QUE A FUNÇÃO DO POETA NOS TEMPOS DE CARÊNCIA É ATUAR EM FAVOR DO MITO POR VIR

Baco e Ariadne

Baco e Ariadne

PÃO E VINHO
Friedrich Hölderlin

Mas amigo! Viemos demasiado tarde.
Na verdade vivem os deuses
mas sobre nossa cabeça, acima em outro mundo
trabalham eternamente e parecem preocupar-se pouco
se vivemos. Tanto se cuidam os celestes de não ferir-nos.
Pois nunca poderia contê-los um débil navio,
somente às vezes suporta o homem a plenitude divina.
A vida é um sonho dos deuses.
Mas o erro nos ajuda como um adormecimento.
E nos fazem fortes a necessidade e a noite.
Até os herois crescidos em uma cunha de bronze,
como em outro tempo seus corações são parecidos em força
aos celestes.
Eles vivem entre trovões.
Me parece às vezes melhor dormir, que estar sem companheiro.
A esperar assim, o que fazer ou dizer eu não sei.
E para que poetas em tempos de carência?
Mas, são, dizes tu, como os sacerdotes sagrados do Deus do
vinho,
que erravam de terra em terra, na noite sagrada.

(Tradução do espanhol: Maura Voltarelli)

Este poema pode ser encontrado em espanhol no ensaio “Hölderlin e la esencia de la poesia”, de Martin Heidegger, traduzido do alemão por Samuel Ramos e presente no livro Arte y poesia, 2ª ed. México: FCE, 1973

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NO BRASIL DO SÉCULO XXI E COM AGRONEGÓCIO AINDA ESCRAVOCRATA, É NECESSÁRIO O POETA CRUZ E SOUZA

Imagem vagner carvalheiroESCRAVOCRATA

Oh! trânsfugas do bem que sob o manto régio
manhosos, agachados – bem como um crocodilo,
viveis sensualmente à luz dum privilégio
na pose bestial dum cágado tranqüilo.

Eu rio-me de vós e cravo-vos as setas
ardentes do olhar – formando uma vergasta
dos raios mil do sol, das iras dos poetas,
e vibro-vos à espinha – enquanto o grande basta.

O basta gigantesco, imenso, extraordinário –
da branca consciência – o rútilo sacrário
no tímpano do ouvido – audaz me não soar.

Eu quero em rude verso altivo adamastórico,
vermelho, colossal, d’estrépito, gongórico,
castrar-vos como um touro – ouvindo-vos urrar!

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IMAGINA: O QUE SERIA DO MUNDO SEM SEUS POETAS?

Imagine, de John Lennon

Imagine there’s no heaven
It’s easy if you try
No hell below us
Above us only sky
Imagine all the people
Living for today

Imagine there’s no countries
It isn’t hard to do
Nothing to kill or die for
And no religion too
Imagine all the people
Living life in peace

You may say
I’m a dreamer
But I’m not the only one
I hope some day
You’ll join us
And the world will be as one

Imagine no possessions
I wonder if you can
No need for greed or hunger
A brotherhood of man
Imagine all the people
Sharing all the world

You may say,
I’m a dreamer
But I’m not the only one
I hope some day
You’ll join us
And the world will live as one

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DE JOÃO CABRAL PARA DANDARA: OS VERSOS DE UM AVÔ POETA PARA A NETA

O poeta dos versos curtos, pouco emotivos, inclinados para o trabalho com a forma, mas destinados, a seu modo, a falar sobre a vida, revela-se em livro recentemente lançado com poemas dedicados à sua neta Dandara, um poeta de frases carinhosas e doces.

Enquanto foi embaixador no Senegal, à época de 1975, um dos mais importantes poetas do século XX, o pernambucano João Cabral de Melo Neto, recebia de sua filha Inez Cabral, fotos da neta que tinha então dois anos de idade. As fotos inspiraram uma série de versos que ele escrevia e enviava à neta no Brasil.

O livro Ilustrações para Fotografias de Dandara traz instantes poéticos como “Eis Dandara, alegria da rua,/que nasceu a assoviar,/ quando virás por aqui/ ver teus avós em Dacar?” e projeta aos olhos do leitor uma poesia de pura vivência e descoberta, exatamente como se desenha no tempo da existência humana esse instante inicial e único, o instante da infância para os quais os poetas estão sempre voltados, de uma forma ou de outra, em versos metafísicos ou concretos, pois esta vida severina, por mais que seja dura, também um dia já foi, e vez ou outra é, apenas uma menina!

O livro sai publicado pela editora Objetiva e já está nas livrarias de todo país. Mais informações na página da editora.

Vi na edição da revista Cult de junho de 2011.

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SERIA DRUMMOND O “FAZENDEIRO DO AR”?

“Eu confesso que desde criança tive uma espécie de fascinação inconsciente pela palavra, pela forma visual da palavra. O aspecto visual das palavras, a forma, a escrita, o papel com desenhos, com riscos, com letras me causava uma impressão muito forte. E eu acho que tudo que eu fiz, em matéria de literatura, vem desse primeiro contato com a palavra impressa”.

O autor desta bela e sincera reflexão é o poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade. Ele revela a origem da sua ligação com as palavras no curta-metragem dirigido por Fernando Sabino e David Neves, O Fazendeiro do Ar (1972). O filme mostra um Drummond calmo e reflexivo, debruçado sobre aspectos de sua própria vida, crenças, vocação, talento, família, religião, dentre outros temas que tangenciam a existência humana.

Interessante ver o desfilar da história por comentários do próprio sujeito desta história. Muito se discute a respeito da personalidade de Drummond atualmente. Recentemente, um livro foi lançado trazendo o que seria uma possível biografia do poema “No meio do caminho”, antológico na história da Literatura Brasileira.

Também especula-se a respeito de suas opiniões políticas e literárias a cada carta antiga que reaparece, a cada novo estudo, a cada nova suposição. Por que no fundo não passarão disso, suposições. Drummond está sim em sua obra, mas não totalmente nela. Um homem é sempre mais do que o que ele cria, escreve. E um homem como Drummond talvez tenha sido bem mais simples e prático do que querem supô-lo críticos e jornalistas.

Filmes como esse, que vem logo abaixo, ajudam a divisar um homem apaixonado pelas palavras, pelos seus amigos, desejoso de certa estabilidade para receber as letras com calma, poetar apenas com a angústia inerente ao próprio ser. Alguém que, com certeza, tinha suas opiniões sobre política e literatura, como qualquer homem de seu tempo. Se em um momento pendeu mais para direita, se em outro mais para esquerda, nada disso importa.

Ao ouvi-lo e lê-lo, fica a impressão de que suas opiniões eram regidas por crenças autênticas e tidas como justas no seio de sua subjetividade. O mais, são circunstâncias e contextos, pedras ou pontes em um caminho largo e cheio de beleza!

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A MISSÃO DAS FOLHAS, RUY BELO

Ruy Belo

Da Agência Educação Política

Os poucos versos que seguem são do poeta português Ruy Belo e considerados por muitos críticos como a chave-interpretativa para toda sua extensa obra.

Basicamente, nesta poesia, Ruy Belo coloca em questão o par visível/invisível que pode ser estendido para uma associação homem/Deus, voz/silêncio, papel/poesia.

As folhas definem o vento, ou seja, o vento, elemento que não pode ser visto, passa a existir, é definido pela folha, esta sim elemento material, capaz de ser visto e tocado. A matéria define o espírito.

Da mesma forma, Deus é definido apenas pelo homem. De entidade invisível, ele passa a existir de forma concreta na crença humana. O silêncio, igualmente abstrato, ganha forma na voz do poeta. A poesia totalmente imaterial, metafórica e inteligível, faz-se notada, vista, ganha formas e sentidos na superfície de papel.

Os temas do visível e do invisível são recorrentes na obra poética de Ruy Belo, perpassada por um forte tom de religiosidade e por uma permanência do divino por meio da figura do espírito, do inteligível, traduzido por uma espécie de sopro.

A poesia de Ruy Belo também é a poesia da alteridade, da relação com o outro, que pode ou não ser visto. Essa relação com o outro está presente nestes versos aqui colocados na forma da relação entre a folha e o vento. Desenham-se sucessivos pares de equivalências em versos de uma beleza singular que dizem muito, quando dizem pouco!

Folhas/ a guardar o eterno / a dizer o que amas/ a traduzir o belo

 

A MISSÃO DAS FOLHAS

Naquela tarde quebrada
contra o meu ouvido atento
eu soube que a missão das folhas
é definir o vento

 

 

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ALGUNS VERSOS DE DORA FERREIRA DA SILVA

Uma Poeta...

Dora Ferreira da Silva é uma poeta e tradutora paulista, dona de uma vasta obra poética bastante desafiadora e rica. A poesia de Dora, basicamente, gira em torno de três elementos principais: a imaginação que adquire um profundo aspecto reflexivo, a presença dos mitos que fazem referência à Grécia antiga e à presença de uma forte carga simbólica e arquetípica, produto do contato de Dora com obras do psiquiatra suíço C. G. Jung traduzidas por ela.

Sua poesia é um desafio, pela riqueza linguística e imagética, mas é um presente aos sentidos! Em todos os sentidos…

EIS-ME AQUI

Quem – senão tu – sabe de que fundo germinei
de que abismo ou estrela me precipitei entre os que acolhem
ou repudiam?

A princípio morava à beira de um rio
em sua margem de conchas e pedras
e as palavras não soavam tão estranhas. Mas por ordem arbitrária
afastei-me de todo o convívio e segui sem pouso fixo.
Assim o quiseste. Acendi a lâmpada apoiando-a sobre o peito
ou foste tu que me acendeste na lâmpada queimando o coração?
Assim o quiseste. Nasci de teus dedos tua mão exigente
não assinalava caminhos. Apenas impelia.
Curvei-me nos altares de passado e futuro
no abismo do instante conheci o eterno: a flor em seu aceno
a árvore e o céu lento
o outono –
esse o aprendizado que me foi pedido.

(Dora Ferreira da Silva, 1987)

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Belos e iluminados versos, místicos, cuidadosamente colocados entre a tranformação e a revelação, construtores do mundo pela palavra!

Escrevo do lado mais invisível das imagens
Na parede de dentro da escrita e penso
Erguer à altura da visão o candeeiro
Branco das palavras com as mãos

Como a paveia atrás do segador
Vejo os pés descalços dos que correm
E escrevo para os que morrem sem nunca terem provado o pão
Grito-lhes: imaginai o que nunca tivestes nas mãos

Correi. Como o segador seguindo o segador
Numa ceifa terrestre, tombando. Digo:
Imaginai*

Daniel Faria

*Poema incluído no livro Dos Líquidos. Porto, Fundação Manoel Leão, 2000

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Versos rabiscados, tingidos e trocados embalam a poesia deste inventor de palavras, deste apaixonado pela infância, deste Poeta Manoel de Barros!

POEMA DE SETE FACES, DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

A narração inspirada e intensa de Paulo Autran, o recorte e a inteligente união de fragmentos do cinema, a musicalidade sutil e macia, o toque aveludado, as formas da arte, a representação sublime do prosaico do cotidiano, tudo aquilo que constitui o centro da poesia de Carlos Drummond de Andrade está aqui neste vídeo, semioticamente muito bem representado!

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O CASO ‘ELIZA SAMUDIO’
E O MACHISMO TOTAL

Por Salete Maria

O caso Eliza Samudio
Que tem chocado o Brasil
Emerge como prelúdio
De um grande desafio:
Exortar nossa Justiça
Pra deixar de ser omissa
Ante o machismo tão vil!

Trata-se de um momento
De grande reflexão
Pois não basta só lamento
Ou alguma oração
É hora de provocar
Propondo um outro olhar
Sobre processo e ação

Saiu na televisão
Rádio, internet e jornal
Notícia em primeira mão
Toda manchete é igual:
Ex-amante de goleiro
(Aquele cheio de dinheiro!)
Sumiu sem deixar sinal

Muita especulação
– discurso de autoridade-
Uns dizem que é armação
Outros dizem que é verdade
Polícia e delegacia
Justiça e promotoria:
Fogueira de vaidades!

Mei-mundo de advogados
Investigação global
Cada um no seu quadrado
Falando em todo canal
Subjacente a tudo
Um peixe muito graúdo:
Androcentrismo total!

A mídia fala em Bruno
Eliza e gravidez
Flamengo, orgia e fumo
-esta é a bola da vez!-
Tem muito ‘especialista’
Em busca de alguma pista
Pra ser o herói do mês

E a história se repetindo
Mudando apenas o nome
Outra mulher sucumbindo
Sob ameaça dum homem
Uma vida abreviada
Cuja morte anunciada
A estatística consome

Assim é a violência
Lançada sobre a mulher
Ela pede providência
E cara faz o que quer
Mas a Justiça, que é lerda,
Machista, ‘fazendo merda’
Vem com papo de mané

E oito meses depois
Da ‘denúncia’ inicial
Que é o feijão com arroz
Do distinto tribunal
Nadica de nada existe
Mas autoridade insiste
Que isto, sim, é normal

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O RETRATO DO PAI

Ela já estava bem velha,
num estilo para poucos amigos,
sem cores nos cabelos, xales pelos ombros.
Mantinha o seu ofício de escrever,
e brincava com cachorros ao fim do dia.


Sem luxo, sem excessos materiais,
livros escorriam sobre a escrivaninha.
Alguns bem velhos, outros jogados.
Mas bem ali no meio da bagunça
o impecável retrato do pai.

Um pai ainda jovem, alinhado.
Um retrato que captou o esplendor
da beleza da juventude.
Livros escuros faziam sombra
sobre a luz do olhar daquele pai, meu pai.

Um pai moço sobre a escrivaninha
de uma velha senhora.

Depois de tanto tempo,
depois de tantos amores,
depois de tantos amigos,
o retrato do jovem pai.


No fim da vida,
uma filha sob o olhar do pai,
ao lado do pai.

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Cena da peça Café com Queijo

O teatro pode aparar nossas arestas da imbecilidade.
Ele nos coloca diante de nossas angústias por meio da arte,
por meio da cultura, da música, da construção dos gestos.
A beleza da luz, a beleza do momento em que há apenas penumbra.
O sorriso nas pessoas na plateia, a arte do corpo no ator.

O pensamento é levado, domado, dirigido por um sonho que
nos acorda de nossa própria banalidade cotidiana.
Vivemos entre a mesquinharia de nossa própria sorte em preocupações insanas.
Tudo para sustentar uma razão produtiva, uma razão sem finalidade utópica.
Eu estive em outros mundos, o mundo do teatro e lá havia luz
A luz que num fluxo cotidiano me faz esvair de minha própria e insistente bestialidade.

(Um texto para a peça Café com Queijo, do Lume Teatro, de Campinas)

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ARTE BRUTA

Imagem por Krazydad/creative commons

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Descobri o mundo em que vivia.
De todo lixo
fiz estátuas em bronze puro
mas desvaneceram ao sol do meio dia.
De toda miséria
tentei fazer poemas
mas fiquei preso a rabiscos e lágrimas.

 

 

 

 


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OBRA-PRIMA

Ceumar é mais uma da série obra-prima da música brasileira. O Brasil pulsa com a sua arte que muitos não podem ver, não podem sentir. Mas basta procurar…como derreter neve, explodir nave.

Para os que fazem do cotidiano uma eterna paixão.

Boca da Noite

Composição: Ceumar / Chico César / Tata Fernande

Da boca da noite ao pingo do meio-dia
Passei horas procurando a tua boca
E ela não respondia
Por amor ou euforia
Tudo de novo eu faria
Por amor ou euforia
Eu faria tudo de novo
Derreteria a neve
Explodiria a nave
Derreteria a neve
Explodiria a nave
Cantaria Wave
Por amor ou euforia
Tudo de novo eu faria
Por amor ou euforia
Eu faria tudo de novo

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Imagem creative commom por Tostoini

Imagem creative commom por Tostoini

O Curso Livre de Teatro, que é realizado atualmente no Barracão Teatro em Campinas, foi uma das experiências mais apaixonantes que já vivi. Não só pela experiência dramatúrgica, não só pelas pessoas que conheci e nem pelos professores-atores que tratam o curso de uma forma séria e profissional, ao mesmo tempo em que tratam os alunos com respeito e afeto.  O Curso Livre de Teatro, turma 2008,  permitiu a mim, mas também a todos os outros alunos, descobrir o que estava na nossa cara, na frente do nosso nariz, sob os nossos pés. A poesia da vida. E é muito bom.

As inscrições para a Turma 2009 estão abertas. Se houver algum leitor interessado, o e-mail do curso livrre é: cursolivredeteatro@yahoo.com.br

E segue abaixo um texto que escrevi e que a idéia dele ajudou, junto com os textos de outros atores e de grandes escritores, a construir o trabalho que resultou na peça Sob meus pés, apresentada no final do ano passado.

 

Vim para dizer apenas que eu sou ator. Sim, um ator.
Mas não me venhas com julgamentos estéticos,
Não me venhas com comentários sobre minha performance
Não adianta falar que sou um canastrão, que faço apenas clichês da representação
Não adianta falar que ajo como na televisão: caras, bocas e expressões repetidas ao infinito.
Não falo disso, não falo da arte. Falo que sou um ator. Minha condição, ator

Por isso estou aqui a vos narrar esta história.
Sempre quis ser ator. Sempre sonhei com isso.
Mas esperem… Não pensem nos motivos que me fizeram ser ator
Vocês nunca descobrirão, podem tentar, chutar, palpitar
Não…. Nunca pensei em ser galã de telenovela Nem estrelar um grande filme
Está certo, vou abrir uma exceção, posso ter imaginado beijar uma bela atriz, contracenar, seduzir.
Mas são todos pensamentos fugazes, pequenos, fantasiosos
Eu sou ator…não porque dramatizo falas banais, nem porque faço rir pela falta de criatividade cênica, pelo erro.
Não é o avesso da arte.

Acho que vocês querem os fatos, vejo que estão ansiosos.
Sou ator porque posso abrir meus braços, fazer movimentos, correr, brincar, pular
Ah, como era bom brincar o Carnaval na infância.
Ah, como era bom jogar futebol naquele campinho de várzea.
São esses momentos que me fazem lembrar porque sou hoje um ator.
Vocês não me entendem. Sei que não expliquei completamente
Desculpem, mas eu precisava falar, ator também precisa se expressar, não basta representar.

Mas não se angustiem, eu vou revelar agora:
Olhem para mim! Vejam! meus braços, meu corpo. Sim, meu corpo está vivo!
Sou ator porque resgatei um corpo morto no porão da sala de televisão
Resgatei um corpo morto em frente a um computador
Resgatei um corpo morto dentro de quatro paredes de um escritório
Estava lá, imóvel, entravado, prensado, domesticado
Sendo chicoteado e maltratado por um cérebro narcisista que mal sabe pensar,
Mas se acha a obra-prima na natureza, um privilegiado conhecedor, filósofo, pensador.
Mas um pensador sôfrego se tens o corpo enjaulado, atrofiado.
Sou ator porque ressuscitei meu corpo que estava entregue, desfalecido
Eu precisava da natureza, da natureza do meu corpo, da natureza do ator. Acorda!

 

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ALICE RUIZ PARTICIPA DE SARAU EM EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA SOBRE CUBA

Alice Ruiz é autora da genial Milágrimas em parceria com Itamar Assumpção

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A exposição de fotografia de Jamile Abdalla, entitulada Sob o Sol do Caribe, será aberta dia 16 deste mês no Alphaville Tenis Clube, em Barueri.

A exposição, que retrata uma Cuba de muitas cores, ficará aberta até o dia 28.

A abertura terá um sarau, a partir das 19h, com a participação da poetisa Alice Ruiz. Além da poesia, Alice tem ótimas letras em parceria com Itamar Assumpção, Zeca Baleiro, Alzira Espíndola e outros.

Impossível não dizer que Alice Ruiz é autora de Milágrimas em parceria com Itamar. Vale a pena ouvir essa obra-prima que inspirou um espetáculo de Ivaldo Bertazzo.

Veja as fotos e as cores de Cuba no site da Pandora

Visite o site de Alice Ruiz

Veja abaixo Milágrimas com Zélia Duncan.

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