Educação Política

mídia, economia e cultura – por Glauco Cortez

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LITERATURA: O ANÚNCIO DA COMPANHIA TELEFÔNICA EM ‘ATÉ O DIA EM QUE O CÃO MORREU’, DE DANIEL GALERA

Imagem: creative commons - Lari Arruguetti“Eu tinha comprado o jornal só para ver o tal anúncio da companhia telefônica no qual a Marcela tinha trabalhado.  Página Dupla. A propaganda era sobre um serviço no qual o usuário ganha descontos nas ligações de celular pra determinados números a sua escolha. Algo do tipo “pague mais barato para falar com seus amigos”. O anúncio, dirigido ao público jovem, mostrava um grupo de amigos numa praia. Dois surfistas musculosos de sunga e três minas gostosas de biquíni, alinhados diante do mar com grandes sorrisos no rosto e cabelos impecavelmente penteados. Os modelos estavam posicionados lado a lado de modo a substituir simbolicamente os algarismos de uma cifra em dinheiro, e separados por uma grande vírgula sobre a areia. A Marcela estava do lado esquerdo da vírgula, usando um biquíni verde, cabelos esvoaçantes, maquiada, saudável, feliz, enroscada num sujeito que segurava uma prancha debaixo do braço. A mensagem por trás daquilo seria algo como “converta suas amizades em dinheiro”. Era sem dúvida um dos anúncios mais retardados que eu já tinha visto. A Marcela não parecia ela mesma debaixo do pôr-do-sol retocado de Photoshop. Arranquei as folhas e botei fogo no anúncio com meu isqueiro. As chamas puseram o cachorro em estado de alerta.” (trecho do livro Até o dia em que o cão morreu, de Daniel Galera)

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“No entanto antes será preciso dizer quem e que coisa era essa Matilde Arcángel. E lá vou eu. Vou contar a vocês tudo isso e sem pressa. Devagarinho. Afinal, temos a vida inteira pela frente.
Era filha de uma tal dona Sinesia, dona da pensão de Chupaderos; um lugar como se diz por aí caído no crepúsculo, lá onde a jornada termina. Assim que tudo que era arriero que recorria esses rumos acabou ficando sabendo dela e pôde agradar os olhos olhando Matilde. Porque naqueles tempos, antes que desaparecesse, Matilde era uma mocinha que se infiltrava feito água no meio de todos nós.
Mas no dia menos esperado, e sem que a gente percebesse de qual maneira, ela se transformou em mulher. Brotou nela um olhar do semi-sonho que cavoucava pregando-se dentro da gente como um prego que dá muito trabalho despregar. E depois sua boa explodiu, como se tivesse sido deflorada a beijos. Ficou bem bonita a moça, a cada um sua justiça seja feita.”
(A Herança de Matilde Arcángel, em Chão em Chamas)

“Você se lembra, Justina? Você ajeitou as cadeiras ao longo do corredor para que as pessoas que viessem vê-la esperassem a vez. Ficaram vazias. E minha mãe sozinha, no meio dos círios; sua cara pálida e seus dentes brancos mal aparecendo entre os lábios arroxeados, endurecidos pela morte arroxeada. Suas pestanas já quietas; já quieto seu coração.
Você e eu ali, rezando rezas intermináveis, sem que ela ouvisse nada, sem que você e eu ouvíssemos nada, tudo perdido na sonoridade do vento debaixo da noite. Você tinha passado o vestido negro, engomado o decote estreito e o punho das mangas para que as mãos parecessem novas, cruzadas sobre o peito morto; seu velho peito amoroso, em cima dele eu dormi durante tempos, e que me deu de comer e que palpitou para ninar meus sonhos.
Ninguém veio vê-la. Foi melhor assim. A morte não se reparte como se fosse um bem. Ninguém anda à procura de tristezas.”
(Pedro Páramo, de Juan Rufo)

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