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VAN GOGH NA BELEZA DO PRETO E BRANCO, POR ALAIN RESNAIS

Vincent van Gogh, Prisoners Exercising, 1890

Vincent van Gogh, Prisoners Exercising, 1890

Por Maura Voltarelli

Vincent van Gogh é hoje um dos maiores pintores modernos. Difícil quem não o conheça, quem não tenha ouvido falar sobre ele alguma vez. Mais difícil ainda não se impactar com suas pinturas, com suas formas delirantes, com suas cores colossais que, de certa forma, refletem a trajetória complexa e densa de um dos maiores nomes do impressionismo mundial.

Para contar um pouco da história de Van Gogh o diretor francês Alain Resnais foi convidado, em 1948, para fazer um filme curto sobre ele, que coincidia justamente com uma exposição do artista que então estava sendo montada em Paris. O filme, intitulado Van Gogh, recebeu diversos prêmios e foi o primeiro de muitos outros filmes feitos pelo diretor sobre o universo da arte moderna, como Gauguin (1950) e Guernica (1950).

Reproduzimos aqui uma versão com legendas em espanhol, mas, para além dos diferentes códigos linguísticos, o arte/documentário de Resnais fala em uma linguagem universalmente conhecida pelo público: a linguagem da arte. E mais ainda, essa linguagem é transmitida pela pureza essencial do preto e branco, o que deixa os quadros de Van Gogh ainda mais sublimes.

A tentativa foi de reconstituir a vida do pintor por meio de seus quadros, tornando-o mais conhecido do grande público. Tarefa nem sempre fácil, pois Van Gogh foi um daqueles artistas que teve sua existência atravessada pela miséria, pela loucura, e por todas as regiões de sombra que possam se abrir diante da existência humana. Nele, no entanto, as experiências do limite só fizeram aumentar a genialidade do seu trabalho.

Assim como Hölderlin e Nietzsche, Van Gogh vivenciou em vida a experiência da morte, rompeu a barreira entre os domínios e, por isso, conseguiu na sua obra a maturidade do estilo e o frescor de uma atualidade sempre potente, sempre renovada.

França, 1948.
Direção e edição: Alain Resnais.
Narrador: Claude Dauphin. Diretor: Gaston Diehl e Robert Hessens. Producão: Pierre Braunberger, Gaston Diehl e Robert Hessens. Música original: Jacques Besse. Fotografia: Henry Ferrand. Versão original em francês com legendas em espanhol. Duração: 18 min.

Vale a pena também ver este vídeo, uma bela experiência estética que traz o quadro De sterrennacht EM MOVIMENTO.

Van Gogh não morreu devido a uma condição delirante, e sim por haver chegado a ser corporalmente o campo de ação de um problema em cujo redor se debate, desde suas origens, o espírito iníquo desta humanidade, o predomínio da carne sobre o espírito, o do corpo sobre a carne, do espírito sobre um ou sobre outra. Onde está, neste delírio, o lugar do eu humano?

Antonin Artaud

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NO MONÓLOGO A CASA AMARELA, GERO CAMILO DESENHA UM RETRATO POÉTICO E EXISTENCIAL DE VAN GOGH

O ator Gero Camilo interpretando Van Gogh: "é necessário ter ousadia para sentir uma comunhão com a pessoa que se vai interpretar".

“Sou de um lugar pequeno, gosto de ser pequeno, mas penso grande”. São frases como essa que fazem ver um pouco da personalidade múltipla e complexa do pintor impressionista Vincent Van Gogh, personalidade que o ator Gero Camilo tenta revelar ao público na peça de sua autoria A Casa Amarela, em cartaz no Tucarena até 28 de agosto, com direção de Marcia Abujamra.

Como o próprio título permite depreender, a peça focaliza um dos períodos mais produtivos e intensos da vida de Van Gogh, tanto do ponto de vista da produção artística, quanto da vivência e pesquisa estética da obra de arte, acompanhada pela intensidade e crua poesia da sua dimensão psíquica e existencial.

Depois de viver uma fase criativa em Paris, Van Gogh vai para Arles, no sul da França, com o sonho de fundar uma comunidade de criação artística. A Casa Amarela, no entanto, só chega a abrigar ele e o também pintor Paul Gauguin, que protagonizaram uma relação de mútua admiração, mas longe de ser pacífica. É nessa época que Van Gogh discepa parte de sua orelha em um dos seus momentos de loucura.

Nos palcos, essa história linear é revestida de poesia e contada a partir daquele que seria o ponto de vista do próprio Van Gogh. Esse deslocamento do foco narrativo permite que os delírios, os questionamentos e a existência densa do pintor chegue ao público de forma mais próxima, sendo quase compartilhada por ele. Prova disso são os inúmeros momentos de indagação da peça em que a platéia é convidada à reflexão e a pensar em eternas perguntas como: quem somos?, de onde viemos?, para onde vamos?

Mesmo sem ver de perto, algumas cenas e a própria história de vida de Van Gogh permitem apostar no espetáculo. Van Gogh e os caminhos de sua obra são sempre uma boa receita para inspirar peças teatrais ou qualquer outra manifestação artística, pois sua vida sintetiza a experiência humana em todas as suas dúvidas e dentro de toda sua loucura. Afinal, em algum lugar, nós todos também moramos dentro de uma casa amarela.

Veja entrevista com o ator Gero Camilo sobre a peça no site da revista Cult.

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LIVRO REÚNE OBRAS ARTÍSTICAS QUE RETRATAM O ABSINTO EM DIFERENTES ÉPOCAS

O Absinto, Degas (1876)

O absinto, destilado de altíssimo teor alcoólico, que pode causar alucinações sendo por isso proibido em diversos países passou a ser incorporado pelas artes entre o fim do século 19 e o início do século 20. Diversas telas, esculturas e passagens literárias passaram a citar a bebida revestindo-a de certa relevância estética e artística. O livro “Absinto – Uma História Cultural”, do pesquisador Phil Baker reúne essas obras artísticas que escolheram ou foram escolhidas pela bebida.

O absinto, por causar delírios e vertigens, era a grande peça inspiradora de muitos artistas e por fazê-los criar, a bebida ganhava presença no seus objetos de criação. Tal como o vinho de Dionísio responsável pelo delírio desenfreado das bacantes, pela sua alegria farta e eterna, pela experiência cósmica de sua existência, o absinto também fazia com o homem saísse dos trilhos normais, enveredando por um caminho onde distante da racionalidade, ele encontrava o território vasto dos sentidos, a força criadora e renovadora do espírito.

Foi com alguns goles de Absinto que Van Gogh pintou Natureza Morta com Absinto (1887). Na tela, uma garrafa e um copo de absinto representados com toda cor e traços fortes peculiares ao estilo do pintor. Estudiosos dizem que um dos distúrbios de Van Gogh, a psicose tóxica, teria se manifestado por causa do uso excessivo de absinto e seria o responsável, ao lado de outros distúrbios psíquicos do pintor, pelo seu estilo único ao pintar a realidade.

Vicent Van Gogh, Natureza Morta com Absinto (1887)

Picasso também rendeu homenagem ao absinto, retratando-o em uma escultura cubista de 1914, com suas formas geométricas e seu efeito estético suspreendente. A escultura é tida como o último trabalho significativo a retratar a “fada verde”, como a bebida era conhecida. Depois, seu uso foi definitivamente proibido na França. Vale dizer que, por volta de 1910, consumia-se 36 milhões de litros anuais da bebida no país, ou seja, o absinto, antes de ser abolido, já havia sido bebido pela cultura social e pela arte inspirando formas, cores e devaneios!

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OS MÚLTIPLOS ROSTOS DE VAN GOGH

Um belo vídeo!

Em movimentos leves e exatos vão se desenhando os diferentes rostos, os olhares mudos, a aparência pensativa e enigmática de um pintor que construiu uma obra tão diversa e fascinante, como também foram diversas e fascinantes as diferentes formas com que ele via a si mesmo.

Estados de uma alma que nunca esteve dissociada da vida, tampouco de sua obra!

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