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MOMENTO DE LIVRE EXPRESSÃO E DESABAFO, O ESCRACHO GANHA AS RUAS PARA IMPEDIR QUE OS ANOS DE CHUMBO SEJAM ESQUECIDOS E GARANTIR JUSTIÇA

Sem violência, pela Verdade

Enquanto as discussões sobre a instalação da Comissão da Verdade acontecem em âmbito oficial, um movimento de caráter extra-oficial, que utiliza a internet como meio de organização, se faz cada vez mais presente nas ruas por meio de frases pintadas no asfalto, cartazes, faixas e pichações.

São centenas de jovens e representantes de familiares de desaparecidos da ditadura que se espalharam em manifestações políticas em cidades como São Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte, Belém e Fortaleza. Pessoas que não viveram os anos de Ditadura Militar no Brasil, mas que estão ligadas a eles por meio de sua história particular ou mesmo ideologia e se opõem ao estado autoritário que se instalou em 1964.

O escracho, que já se mostrou legítimo em países como Argentina, Chile e Uruguai, também atravessados por ditaduras, encontra sua força na espontaneidade, na liberdade, neste tom próprio do escracho que é o de “fazer de qualquer jeito”, “algo meio relaxado, sem pudor”. Porque eles não têm vergonha nenhuma de dizer quem foram os torturadores, os “homens sinistros” que precisam ser punidos e apontados nas ruas, nas suas casas e, em contrapartida, lembrar quem foram as vítimas desses mesmos torturadores.

Eles gritam e pintam frases, empunham cartazes, de forma natural, para não deixar que a memória se perca, ou melhor, para garantir o direito à Memória e à Justiça. Não só porque a história brasileira mereça ser realmente contada, como também porque todas as vidas que se perderam lutando pela liberdade durante os anos de chumbo também merecem ser agora honradas e reconhecidas pela via da mesma liberdade que um dia lhes foi tão cara!

O poder do escracho
Apontar os torturadores é legítimo. E eficaz, como comprovam Argentina, Chile e Uruguai
Por FRANCISCO FOOT HARDMAN

Escracho ou esculacho? Você decide. Porque, de repente, eles estavam por toda parte. Cartazes, pichações, faixas, imagens desenhadas ou pintadas no asfalto da rua. Pois é das ruas que se trata, de uma nova significação do espaço público normalizado pela “boa vizinhança” e pela operação sistemática de produzir o esquecimento para apagar, das memórias individuais e coletivas, os últimos traços de medo que teimavam em sombrear a alma vazia desses homens sinistros. Pouco importa, nesse caso, a privacidade do “lar, doce lar”, a solenidade do local de trabalho. É preciso botar a boca no trombone e assinalar essa geografia do “antilugar”, do “não lugar”, desvelar esse inconsciente de uma história que teima em reaparecer quando muitos a imaginavam sepulta.

Os espectros dos desaparecidos são o GPS real que guia essas alegres levas do Levante. Boa parte das centenas de jovens e representantes de familiares de desaparecidos da ditadura que se espalharam em manifestações políticas contra o esquecimento e a impunidade de torturadores e outros responsáveis pelas ações do aparato de terrorismo do Estado durante a ditadura militar em cidades como São Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte, Belém, Fortaleza, não viveu aqueles anos. Isso é tanto mais notável quanto virou ideia fixa repetir que o Brasil é o país da desmemória. Quantos Harry Shibatas precisarão ser ainda desmascarados? Porque é certo que esse médico-legista coqueluche da “legalização” dos extermínios praticados por agentes da Oban e do Deops não foi caso único no amplo aparato do terror instalado pelos serviços da inteligência do regime militar. Quantos mais foram cúmplices dos perpetradores, administrando a ciência médica a serviço da “otimização” das dosagens de tortura? Quantos juramentos de Hipócrates rasgados sem nenhuma punição dos conselhos regionais ou nacional de medicina?

O escracho é uma manifestação legítima e eficaz. Comprovou-se isso na Argentina, no Chile e no Uruguai. Não deve pretender a violência física da invasão de domicílios ou ataques diretos aos homens sinistros. Apenas desmascará-los em praça pública, in absentia. Não pode, de modo nenhum, ser um movimento a substituir ou a se sobrepor à Comissão da Verdade, que certamente em breve iniciará seus tão relevantes trabalhos. É, na verdade, um livre momento de expressão e desabafo da sociedade civil organizada. A informação precisa e atualizada, a rapidez e leveza de sua estrutura de mobilização, em que a internet joga, como em outros exemplos recentes de democracia direta, um papel decisivo, bem como a imaginação criadora de suas variadas formas, esses são seus ingredientes de sucesso.

Pode-se dizer que, defronte à decrépita sessão nostalgia do Clube Militar, no dia 29 de março, ensaiou-se igualmente um escracho. Evitar o confronto e a violência física, no entanto, deve ser sempre um objetivo no sentido de ampliar seu entendimento e simpatia pela opinião pública. Os homens sinistros sempre foram mestres na arte da provocação: não é o caso de entrar no seu jogo, nem de lhes oferecer pretextos banais. Os matadores dos porões da ditadura não merecem nenhum pedestal da fama, mesmo que perversa. Mereceriam, sim, a imputação nos crimes contra a humanidade em que estão diretamente envolvidos, conforme o entendimento assentado pelo direito humano internacional e pelos tratados e acordos da ONU e da OEA dos quais o Brasil é signatário. Mas tal questão é objeto de outras instâncias, e a Comissão da Verdade é passo significativo no sentido de sua desejável revisão. Jamais o escracho deve se impor tarefas que lhe são de todo impróprias ou inalcançáveis. Sua força maior reside, justamente, em sua completa extraoficialidade. É um ato político. É uma prática pedagógica. E isso por si só é muito. (Texto completo)

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Sociólogo Michael Löwy: por uma sociologia crítica do conhecimento

Do ponto de vista de uma sociologia crítica do conhecimento, a formulação que nos parece mais interessante entre os sociólogos franceses contemporâneos é (no domínio que nos ocupa) a de Pierre Bourdieu, segundo qual as chances de contribuir na produção da verdade dependem de dois fatores principais: “o interesse que se tem em saber e em fazer saber a verdade ( ou inversamente, em ocultá-la ou ocultá-la de si) e a capacidade que se tem de produzi-la”. Em outros termos: “o sociólogo está mais armado para descobrir o oculto quanto mais armado cientificamente, quando ele utiliza melhor o capital de conceitos, de métodos, de técnicas acumulado por seus predecessores, Marx, Durkheim, Weber, e como outros, é quando é mais ‘crítico’, quando a intenção consciente ou inconsciente que o anima é mais subversiva, quando tem mais interesse em desvendar o que é censurado, contido, no mundo social”.
Quanto a nós, pensamos que o ponto de vista potencialmente mais crítico e mais subversivo é o da última classe revolucionária, o proletariado. Mas não há dúvida de que o ponto de vista do proletário não é de forma alguma uma garantia suficiente do conhecimento da verdade social: é somente o que oferece a maior possibilidade objetiva de acesso à verdade. E isso porque a verdade é para o proletariado uma arma indispensável à sua auto-emancipação. As classes dominantes, a burguesia ( e também a burocracia, em um outro contexto) têm necessidade de mentiras e ilusões para manter seu poder. Ele, o proletariado, tem necessidade de verdade… (LÖWY, p. 208 e 209).

Michael Löwy em As aventuras de Karl Marx contra o Barão de Münchhausen. São Paulo: Busca Vida, 1987

Somente a verdade é revolucionária….(Gramsci, no lema de seu jornal Ordine Nuovo)

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