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PRIMEIRO PÓS-DOUTORANDO CEGO DO DEPARTAMENTO DE MÚSICA DA UNICAMP, VILSON ZATTERA FAZ DA SUA ARTE UMA FORMA DE LUTAR POR MAIS INCLUSÃO E ACESSIBILIDADE

O músico Vilson Zattera: arte e inclusão

Por Maura Voltarelli

Talvez das artes seja a música a que menos precise das imagens captadas pelos olhos, posto que a realidade das harmonias parecem ser mais internas do que externas e,  quanto mais profundas, mais expressivas. Ágeis dedos, aguçados ouvidos e uma sensibilidade extensa, quase doce. Teríamos aí um músico de talento e vocação que sabe como contornar as pedras  surdas que aparecem pelo caminho.

No caminho do músico Vilson Zattera o que não faltaram foram pedras que ele, no entanto, aprendeu a superar uma a uma. Natural de Caxias do Sul (RS), Vilson perdeu a visão aos sete anos de idade, mas o sonho de ser músico jamais foi descartado por ele. Na ponta dos dedos, Vilson passou a sentir as cordas do seu violão, a grafia em braile das partituras e, aos poucos, além da música foi ganhando outra paixão: a de criar condições para que estudantes e professores cegos de música possam não apenas ler uma partitura e interpretar uma melodia, como também ter acesso a programas por meio dos quais eles possam compor suas próprias canções.

Mestre pela Universidade da Califórnia e phD pela Universidade de Washington, Vilson conheceu muito bem as dificuldades que o mundo acadêmico apresenta para o músico portador de qualquer tipo de deficiência. Por isso, decidiu lutar para melhorar as condições acadêmicas aqui no Brasil, onde a musicografia em braile ainda é algo recente. Vilson lembra que o principal problema das universidades em relação ao músico cego, mais do que a existência das partituras em braile, é a falta de material teórico disponível e de investimentos em programas de computador que permitam ao músico atuar também na área de arranjo e composição musical.

A ampliação da acessibilidade tornou-se assim uma das principais bandeiras de Zattera que, hoje, é o primeiro pós-doutorando cego do IA, o Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Na sua passagem pelo Departamento de Música da Universidade, ele pretende criar condições que possam integrar o músico cego cada vez mais, possibilitando abertura, troca, diversidade e experiência, de modo a enriquecer a linguagem musical.

Nesse ritmo, Vilson concedeu uma entrevista ao blog Educação Política em que conta um pouco das notas que definiram a sua história com a música, bem como dos desafios que, longe de fazê-lo silenciar seu violão, possibilitaram a composição de uma bela e nova harmonia.

Agência Educação Política: A música parece ter te acompanhado por quase toda vida. O que exatamente te fez despertar para o desejo de ser músico?
Vilson Zattera: Desde muito cedo fui fascinado por música e instrumentos musicais mas, na verdade, meu contato direto com um instrumento musical e consequentemente com a música começou depois que perdi a visão aos sete anos de idade. O primeiro instrumento que ganhei foi uma escaleta ou melódica e, logo em seguida, um acordeão que toquei até meus doze anos de idade. Apenas dois ou três anos antes de ingressar na Universidade foi que comecei a tocar violão e compor música popular.

AEP: Quais foram as mudanças e as principais dificuldades encontradas quando você perdeu a visão e passou apenas a ouvir as melodias e sentir as notas e as cordas na ponta dos dedos?
Vilson: Como falei anteriormente, o meu primeiro contato com um instrumento musical se deu logo depois que perdi a visão, pois a partir desse momento o meu meio de interação com o mundo passou a ser através do tato e da audição. A música passou a ser uma maneira de me integrar e interagir com as pessoas videntes e também um meio de expressar meus sentimentos. Na verdade, a dificuldade com as partituras em Braille se tornou maior quando entrei no curso de bacharelado em violão na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre. Além de serem quase inexistentes em Braille os livros que eram exigidos para as matérias teóricas, a maior parte das partituras para violão eu mesmo transcrevia sempre com a ajuda de outras pessoas que liam para mim, para posteriormente serem memorizadas parte por parte e, finalmente, estudadas no instrumento, o que consumia grande parte do meu tempo e energia. Hoje em dia, mesmo com o avanço tecnológico, a transcrição de partituras musicais para o Braille é bastante complexa e é nesse sentido que estou trabalhando, a fim de tornar mais acessível a transcrição desse material e colocar à disposição para pessoas com deficiência visual além das partituras musicais, materiais didáticos importantes na formação musical.

Partituras em braile: algo recente nas universidades brasileiras

AEP: Você possui mestrado pela Universidade da Califórnia e phD pela Universidade de Washington. Agora é o primeiro pós-doutorando cego do IA, o Instituto de Artes da Unicamp onde você pretende aprimorar os programas de musicografia em braille, desenvolver projetos que promovam a acessibilidade autônoma a alunos e professores cegos de música e desenvolver metodologia para violão direcionada a deficientes visuais? Como você vê hoje o mundo acadêmico em geral em relação ao deficiente? As universidades brasileiras estão preparadas para recebê-los? No caso dos estudos em música, por exemplo, quais seriam, na sua opinião, os principais desafios para que um músico cego possa não apenas ler uma partitura e interpretar uma melodia, como também compor as suas próprias harmonias?
Vilson: Devido às dificuldades que venho enfrentando ao longo desses anos nos meus estudos de música é que estou desenvolvendo projetos no sentido de amenizar outras mesmas dificuldades que uma pessoa cega tenha encontrado ou venha a encontrar. Hoje em dia, para trabalharmos com softwares em música para a transcrição de partituras em Braille, manipulação de áudio e midi e mesmo ter acesso a materiais de estudos, nós, deficientes visuais, precisamos contar com a ajuda de outras pessoas, o que nos limita tanto na aquisição de conhecimento, de desenvolvimento profissional e na interação com o mundo que nos cerca, pois o processo de edição de materiais de música em Braille é bastante complexo e lento. Os softwares de música para trabalhar com áudio e midi estão cada dia mais inacessíveis para deficientes visuais, pois os comandos destes programas se dão através de gráficos e ícones, sendo que os leitores de telas existentes não nos fornecem nenhum feedback para sabermos o que está aparecendo na tela.
Sobre as universidades no Brasil, falando mais especificamente da Unicamp, percebo que essa universidade vem se preocupando muito com a idéia de acessibilidade e inclusão. Se pensarmos as universidades do Brasil num todo, podemos reparar que existem falhas, porém há um componente que é muito importante no nosso país: a boa vontade dos professores. Falo disso pois quando fiz o meu bacharelado em Porto Alegre, mesmo não tendo acesso à computação como temos hoje em dia, a material didático e etc., os professores de lá sempre se dispuseram a passar os conteúdos de maneira que eu pudesse acompanhar dentro do possível os outros alunos. Aqui dentro da Unicamp, além da boa vontade dos professores e da direção em integrar os alunos deficientes, estão acontecendo muitas pesquisas na área tecnológica e educacional nesse sentido.

Proust: a experiência musical seria uma experiência "sine materia"

AEP: Em Um amor de Swann, Proust escreve: “Mas num dado momento, sem claramente conseguir distinguir um contorno, dar um nome ao que o agradava, de repente encantado, ele tentara captar a frase ou a harmonia – ele mesmo não sabia – que passava e que lhe havia aberto ainda mais a alma, como certos odores de rosas circulando no ar úmido da noite têm a propriedade de dilatar nossas narinas. Talvez, por não conhecer a música tenha podido vivenciar uma sensação tão confusa, uma dessas sensações como talvez sejam apenas as puramente musicais, inextensas, inteiramente originais, irredutíveis a qualquer outra espécie de sensação. Uma expressão desse tipo, por um instante, é por assim dizer sine materia”. Tal sensação de encantamento descrita por Proust diante de um momento musical capaz de dilatar a alma e o corpo, conduzindo-os nas notas de uma outra peculiar sinfonia na direção de sensações primitivas, genuínas, naturalmente elevadas e únicas, não seria, em certa medida, uma forma de ver, talvez a verdadeira forma de ver? Em outras palavras, se a música pode provocar tudo isso – assim como a beleza que vive nas outras artes – ela não te faz de repente ver novamente, tal como um sonho que salta do sono e vibra na escala do real?
Vilson: Embora a música sempre tenha me remetido a essa sensação de transcendència e êxtase , foi na época da minha adolescència que a música assumiu uma importância vital.
O período da adolescência por si só já é uma fase de conflitos para todos os jovens. Para mim, além de todas essas dificuldades inerentes a este período, a deficiência visual com suas implicações veio se somar a este quadro. Foi a partir desse momento, em especia,l que a música passou a ser um modo pelo qual eu podia ver, sentir e interagir com o mundo, mesmo sem a visão física. Como eu lembro bem das cores, da natureza e de alguns detalhes da vida diária, quando ouço as músicas , em especial do período impressionista, muitas imagens de lugares ou paisagens, não necessariamente bem definidas, muitas nuances de cores, de sombra e de luz vêm a minha mente e é maravilhoso poder sentir o mundo nessa relação som/imagem, talvez semelhante ao que descreve Proust no parágrafo citado. Na minha tese de Doutorado, por exemplo, nos Estados Unidos, meu orientador me pediu que eu analisasse algumas músicas do Hermeto Pascoal, de um ponto de visto simbólico, ou seja, descrever as sensações que os sons e harmonias dessas músicas nos remetem.

AEP: Música e acessibilidade em uma palavra:
Vilson: Desafio!

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