Educação Política

mídia, economia e cultura – por Glauco Cortez

Arquivos de tags: literatura

Condição de mulher excluída está no centro da literatura de Carolina de Jesus

Devido aos cem anos de nascimento da escritora Carolina de Jesus, muita coisa foi dita e publicada recentemente sobre sua vida e obra literária. No entanto, para além das efemérides, Carolina de Jesus (Continue Lendo…)

Anúncios

PARA AQUELES QUE (NÃO) ENTENDERAM ULISSES

us_comic_tel_0002_16
Por Maura Voltarelli
Especial para o Educação Política

Ulisses, de James Joyce, é um dos romances mais importantes da literatura moderna. Talvez por isso também seja um dos mais difíceis. A jornada de Leopold Bloom pelas ruas de Dublin que começa de manhã, quando ele está saindo para o trabalho, e termina à meia noite do mesmo dia 16 de junho de 1904, surge diante dos leitores como uma epopeia complexa, onde os fluxos de consciência, as mudanças de espaço e tempo, as experimentações com a linguagem, atuam em conjunto para reforçar a densidade da narrativa.

No entanto, o clássico de James Joyce segue fascinante e instigante por diversos motivos. Mesmo complexo, o romance atrai os leitores pela ousadia de compor uma “odisseia moderna”, onde os capítulos fazem referência aos cantos do clássico texto atribuído a Homero, e também pela beleza das cenas narradas, pela estética totalmente original da obra, e pelo belíssimo último capítulo onde o monólogo de Molly Bloom, a nova Penélope, ganha forma em níveis altíssimos de expressividade do feminino e do humano em suas angústias e esperas.

us_comic_tel_0016_16

Por tudo isso, e para aqueles que compreendem e não compreendem o Ulisses, de Joyce, mas, principalmente, para continuar colocando essa obra literária em movimento, o norte-americano Robert Berry adaptou, com a ajuda de Josh Levitas, para a graphic novel Seen a obra joyceana. Seen foi desenvolvida para ser uma plataforma exclusivamente on-line. O objetivo do criador da versão em quadrinhos do romance é fazer com que ela acompanhe a leitura da obra, servindo de guia, de facilitador ou simplesmente de complemento.

Dessa forma, para os que leram o romance, para os que não leram, ou para aqueles que abandonaram a leitura, a versão em quadrinhos surge sempre como uma alternativa que não substitui a obra, mas que a recria em diferentes suportes sempre bem vindos.

Até agora quatro capítulos foram lançados na internet. O trabalho deve estar completo até 2022, totalizando 2300 páginas de quadrinhos. Depois de tantos desenhos, o mistério de Ulisses ainda deve persistir, no entanto, ele ao menos estará contaminado de uma boa dose de humor e novos símbolos, de modo que teremos um Bloom ainda mais múltiplo e uma Molly ainda mais fascinante!

Confira nesta link os capítulos já publicados:

http://jamesjoyce.ie/category/ulysses-seen-graphic-novel/

Leia mais em Educação Política:

AS NOITES BRANCAS DE DOSTOIÉVSKI NO MUSEU LASAR SEGALL
MÍDIA NINJA NO RODA VIVA É UM EXEMPLO DA DIFICULDADE DOS JORNALISTAS DE ENTENDER A REALIDADE PÓS-PROTESTOS
EXÍLIO, CRIME, FANTASMAS: OS DEZ ANOS DA MORTE DE ROBERTO BOLAÑO RENOVAM O FASCÍNIO EM TORNO DA OBRA DO ESCRITOR CHILENO
CORPÓREA, INTELIGENTE, LIVRE: AS METAMORFOSES DE MARIA MARTINS

AS NOITES BRANCAS DE DOSTOIÉVSKI NO MUSEU LASAR SEGALL

Imagem: Divulgação

Lasar Segall (1891-1957). Dostoiévski, c. 1927. Xilogravura sobre papel. Coleção Museu Lasar Segall/Ibram/Minc

Por Maura Voltarelli
Especial para o Educação Política

As palavras escritas muitas vezes precisam se completar em imagens. Talvez por um movimento natural de ganharam plasticidade, vida, uma certa materialidade para além do infinito da imaginação.

Grandes escritores, com densos romances, repletos de personagens ambíguos e fascinantes, são capazes de gerar representações únicas. É o caso do escritor russo Dostoiévski que teve algumas de suas histórias ilustradas por grandes nomes do expressionismo alemão e também por artistas brasileiros como Oswaldo Goeldi e Lasar Segall.

Uma exposição chamada “Noites Brancas: Dostoiévski ilustrado”, com curadoria do professor de Teoria Literária e Literatura Comparada da USP, Samuel Titan, ficou em cartaz no Museu Lasar Segall, em São Paulo, com o objetivo de aproximar do público diversas gravuras e desenhos feitos a partir da obra do autor de Crime e Castigo e Os Irmãos Karamazov.

Foram reunidas 44 obras de 22 artistas que não se centram apenas nos romances mais conhecidos de Dostoiévski. Lasar Segall e Otto Möller, por exemplo, retratam em seus desenhos a novela Uma criatura dócil, de 1876.

Em todos os desenhos, apesar das especificidades de cada um, o curador lembra ser constante a presença do preto e do branco, por isso o nome para a exposição, “noites brancas”. Ao mesmo tempo, noites brancas parece ser uma inteligente metáfora para a obra do escritor russo, que mergulha nas trevas da sociedade e do homem, da espiritualidade e do amor, para depois trazê-las à tona.

As figuras são noturnas, dão a impressão de conduzir para regiões de sombra, não muito distantes das recordações, dos crimes, do subsolo, das criaturas sem nome que Dostoiévski coloca diante de nós e que agora podemos ver em novas representações de artistas que viram em sua literatura diversos motivos para continuar recriando-a.

Xilogravura de Oswaldo Goeldi

Xilogravura de Oswaldo Goeldi

Oswaldo Goeldi também reforça o tom noturno da exposição com gravuras das quatro edições ilustradas – O idiota, Recordações das casas dos mortos (1862), Humilhados e ofendidos (1861) e Memórias de um subsolo – que o artista fez em 1944 para a editora José Olympio, no Rio de Janeiro.

Entre artistas alemães e brasileiros, as gravuras parecem nos revelar outros detalhes, elementos e tons do escritor russo de interpretações inesgotáveis.Uma forma de lê-lo além das páginas da literatura e da crítica.

O ciclo Dostoiévski e o cinema, que conta com a exibição dos longas Os irmãos Karamazov (1958), de Richard Brooks, Crimes e pecados (1989), de Woody Allen, Partner (1968), de Bernardo Bertolucci, Nina (2004), de Heitor Dhalia, entre outros, continua aberto ao público até 25/08.

Serviço:

Dostoiévski e o cinema
Onde:
Museu Lasar Segall – Rua Berta, 111 – São Paulo (SP)
Quando: 03/08 a 25/08, sábados e domingos, às 14h
Quanto: gratuito
Info.: (11) 2159.0400 ou http://www.museusegall.org.br/


Leia mais em Educação Política:

EXÍLIO, CRIME, FANTASMAS: OS DEZ ANOS DA MORTE DE ROBERTO BOLAÑO RENOVAM O FASCÍNIO EM TORNO DA OBRA DO ESCRITOR CHILENO
CORPÓREA, INTELIGENTE, LIVRE: AS METAMORFOSES DE MARIA MARTINS
MARGARETHE VON TROTTA EM “ROSA LUXEMBURGO” MERGULHA NA VIDA DA MULHER E REVOLUCIONÁRIA CUJA GRANDE CAUSA FOI A DA LIBERDADE
O MISTICISMO DE HILDEGARD VON BINGEN

EXÍLIO, CRIME, FANTASMAS: OS DEZ ANOS DA MORTE DE ROBERTO BOLAÑO RENOVAM O FASCÍNIO EM TORNO DA OBRA DO ESCRITOR CHILENO

"O detetive selvagem"

“O detetive selvagem”

Por Maura Voltarelli

Especial para o Educação Política

Há dez anos morria o escritor chileno Roberto Bolaño. Se hoje, Bolaño é um dos escritores latino-americanos mais importantes, mais estudados e comentados, não era assim na ocasião de sua morte e durante a sua vida. Como gostava de dizer a respeito da natureza do trabalho do escritor, Bolaño encarnou como ninguém a figura do escritor exilado, ao qual se impõe de alguma forma o exílio. Este sempre existiria quando se é escritor, segundo ele, mesmo sem sair de casa. Seriam os escritores sempre “exilados de si mesmos”.

Mesmo sendo cada vez mais estudado e lembrado, as imprecisões sobre a obra do chileno ainda persistem. “O suposto vício em heroína, o relevo indevido aos Estados Unidos como suposta instância fundamental para sua consagração literária, a incompreensão do caráter intrinsecamente inconcluso (infinito) de sua obra”.

Bolaño parece permanecer, e talvez fosse esse mesmo o propósito de sua literatura, cercado por sombras. Sombras que são inerentes à literatura, sempre a recriar e prolongar fantasmas em nossa imaginação que se projetam sobre a realidade. No caso de Bolaño, a sombra é reforçada pela metáfora do detetive, tão utilizada para falar do escritor.

Tão utilizada e tão pertinente. Bolaño encarna de fato a figura de um detetive que vasculha os crimes cometidos na América Latina e faz reverberar esses crimes numa escala mundial e cada vez mais ampla, enfrentando todos os fantasmas, sejam eles íntimos ou sociais. Sua literatura é uma denúncia dos horrores, mortes e perdas da ditadura, e é sempre uma esperança, embora seja essa esperança, como diz um belo título de um de seus livros, uma “estrela distante”.

Abaixo, um documentário sobre Bolaño, onde ele é comparado, pela vida e pelo tom de sua obra, aos escritores malditos.

Leia mais em Educação Política:

CORPÓREA, INTELIGENTE, LIVRE: AS METAMORFOSES DE MARIA MARTINS
MARGARETHE VON TROTTA EM “ROSA LUXEMBURGO” MERGULHA NA VIDA DA MULHER E REVOLUCIONÁRIA CUJA GRANDE CAUSA FOI A DA LIBERDADE
O MISTICISMO DE HILDEGARD VON BINGEN
A IMAGEM COMO RESISTÊNCIA: JOÃO ROBERTO RIPPER EMOCIONA

A COPA DO MUNDO, DA DITADURA À DEMOCRACIA: 43 ANOS COM AS MESMAS FIGURAS NA LINHA DO TEMPO

Linha do Tempo

Por Luís Fernando Praguinha
Especial para o Educação Política

Rodrigo Lobo1970 – Brasil campeão do mundo no México com possivelmente a melhor seleção de futebol de todos os tempos. Eu dava meus primeiros chutes e já trazia no sangue, ainda intrauterino, a aptidão pra perna de pau que me acompanharia a vida toda.

Tínhamos como lemas, “Pra frente Brasil” e “Brasil, ame-o ou deixe-o”

Tínhamos também Pelé, Tostão, Rivelino, Gerson e outros cabeças de bagre.

Só pra lembrar, faz 43 anos… vou lembrar mais uma vez, faz 43 anos.

João Havelange era o presidente da CBF, Zagalo era o técnico da amarelinha, porque o bobo do João Saldanha não queria que generais escalassem seu time, Carlos Alberto Parreira era o preparador físico, José Maria Marin era nosso excelentíssimo deputado estadual, José Sarney era senador da república, então uma ditadura militar presidida pelo generoso general Médici, mas alguns subversivos afirmam que ele mandava torturar as pessoas. Eu não vi nada disso. O estudante Eike Batista faria 14 anos em 1970, que belo rapazola, mas não era coleguinha de um outro estudante comunista chamado Aldo Rebelo que tinha a mesma idade. Dilma Rousseff e meu avô, um jornalista subversivo, estavam na cadeia onde recebiam muitos presentes.

Falando em jornalista subversivo, em 1975, Vladmir Herzog foi encontrado suicidado na sede do DOI-CODI, mas isso não tem nada a ver com os militares nem com o Marin.

Antes, em 74, tivemos o carrossel holandês que a Alemanha brecou e nosso glorioso Havelange foi eleito presidente da FIFA, quanta honra!

Em 78 a Argentina, na Argentina, que também gostava das mesmas coisas que o Brasil, na época, ganhou uma copa que foi mesmo do Peru.

Em 82 vi jogar a melhor seleção que vi jogar, era um tempo em que ficávamos tristes quando a seleção perdia. Tinha também outro subversivo que se chamava Sócrates, e acho que foi por isso que perdemos.

Em 83 algumas pessoas quiseram eleições diretas, veja que desplante, mas não deu certo e em 85 o senador Sarney (incrível que ele ainda era senador, não?) virou presidente, o único civil durante o estado de exceção.

Em 86 perdemos outra copa e tive pena do Telê.
Em 89 o Ricardo Teixeira Genro do Havelange foi eleito presidente da CBF, elegemos também, finalmente, por meio do voto popular, um legítimo representante do povo, o Collor e logo mais, em 90, fizemos feio de novo com o Lazaroni.

Em 1992 as pessoas pararam de gostar do Collor e enxotamos ele de lá de uma vez por todas, mais ou menos.

Em 94, o Parreira virou técnico e o Zagalo assistente técnico e provamos que é possível ser campeão jogando feio e mal, mas com o Romário. Também elegemos Fernando Henrique Cardoso presidente, com uma história de militância esquerdista, mais ou menos, vejam vocês.

Em 98 o Ronaldo teve problemas e o subversivo Lula também, então elegemos o FHC novamente, com uma história de militância de extremo centro e o Havelange foi eleito presidente de honra da FIFA, quanta honra, e Joseph Blatter assumiu a presidência da entidade, preservando o mesmo jeitinho Havelange presidir.

Em 2002 os problemas do Ronaldo já tinham passado, graças ao Rivaldo, São Marcos e toda a família Felipão, aí ganhamos o penta, que honra. Nesta época Havelange e Ricardo Teixeira com muito esforço, trabalho e dedicação, já tinham conseguido engordar em muito seu patrimônio, administrando empresas sem fins lucrativos. Meu avô morreu pouco antes da final da copa. Neste ano o Lula conseguiu, graças ao meu voto, ser eleito presidente da república, desta vez sim, um legítimo representante do povo, uma mudança real, por isso, tudo mudou tanto assim.

Em 2006, interessante, acabo de notar que ano de copa é sempre ano eleitoral, coisas do destino, bem, em 2006, o Lula ganhou de novo, não graças ao meu voto, e o Brasil perdeu a copa na Alemanha com um elenco gordo de gordos salários, mas o que de pior aconteceu na copa da Alemanha foi a morte do gordo de humor, Bussunda. Também neste ano as pessoas se esqueceram de novo e o Fernando Collor voltou na figura de um voluptuoso senador.

Em 2010 perdemos na África do Sul, o Lula elegeu a Dilma, que já tinha saído da cadeia, o Romário, é, o Romário, foi eleito deputado federal para infernizar as defesas da CBF, mas o que de pior aconteceu naquela copa foi a vuvuzela e o estilo ditatorial militar do Dunga, quem diria, em plena democracia, mais ou menos.

Em 2012 Ricardo Teixeira renuncia à presidência da CBF por motivo de força maior que a transparência, e o José Maria Marin, aquele que mamava nas tetas da ditadura mas que não tem nada a ver com o assassinato de ninguém, entrou em seu lugar.

2013, quarenta e três anos depois, Jean-Marie Faustin Goedefroid Havelange, o João, renunciou à presidência de honra da FIFA sob acusação de receber propina junto com seu genro Teixeira, mas acho que eles jamais fariam isso, mas aí a própria FIFA divulgou documentos que provavam a corrupção, aí eu não digo mais nada, coitados.

Recentemente, olha que bacana, houve convocação para a seleção. Parreira e Marin lado a lado na bancada para a coletiva. O Parreira falava sobre a impossibilidade de liberar Dante e Luiz Gustavo, do Bayer de Munique, para jogarem a final da copa da Alemanha, pois o amistoso do Brasil contra a Inglaterra no Maraca… Maracu…, naquele estádio novo que eu não lembro o nome, de propriedade daquele estudante Eike Batista, era mais importante, afinal é o Brasil, ame-o ou deixe-o, Dante e Luiz Gustavo.

O Sarney continua senador, mas agora com o Collor junto. O estudante Aldo Rebelo virou ministro dos esportes da Dilma e ambos parecem compactuar com essa inércia.

Eu amo futebol, que lástima, hoje só não temos mais aqueles cabeças de bagre do terceiro parágrafo, o resto ainda temos. Eu amo o Brasil, não vou deixá-lo, fazer o que? Mas quem ama o Brasil não precisa amar a seleção da CBF, não precisa amar o Fuleco nem a caxirola, não deve amar o Parreira, quem ama o Brasil deve se decepcionar com o Aldo, com o Lula e com a Dilma, se quiser pode até ter medo deles, deve ter medo do Eike Batista, do Marin, do Havelange, do Teixeira, do Sarney, do Collor, mas aquele medo que só faz querer enfrentar sem subestimar, porque teremos que enfrentar.

Quem ama o Brasil tem nojo dessa cortina de fumaça que encobre podres tão evidentes. São 43 anos mandados pelas mesmas figuras nefastas que fazem de tudo para manter uma legião de miseráveis, ignorantes, incultos, iletrados que gostam muito de futebol.

Imagina na Copa. Pense na Eleição. Cogite a Revolução.

Veja mais:

INICIEI UM CURSO, UMA PÓS-GRADUAÇÃO EM SÃO PAULO, NA SEMANA DOS PROTESTOS DO MOVIMENTO PASSE LIVRE

Ai, meu Curso!

Por Luís Fernando Praguinha

Imagem:http://manskaoosin.blogspot.com.brIniciei um curso, uma pós-graduação em São Paulo, semana passada.
Ter ido a São Paulo e feito este curso, especificamente no fim de semana que passou, quando se iniciaram os protestos contra o aumento da tarifa do transporte público, tornará este texto único até o momento, pois mesclará seriedade e humor. Cheguei a pensar em colocar um (H) ou um (S) no final de cada frase pra etiquetar como humor ou séria pra pessoa saber se ri ou não, mas achei que seria superestimar a burrice de vocês, então, se você não me conhece bem e ficou na dúvida, é porque foi humor, se você me conhece e ficou na dúvida, é coisa séria.

Bem, em primeiro lugar, pegar metrô em Sampa na sexta-feira de manhã é para os fortes. Já, pegar metrô em Sampa na sexta de manhã e com paralisação dos ônibus, é pra quem abriu mão de sua dignidade em prol de um bem maior (ir ao curso), ou então a pessoa tá a fim mesmo é de dar o curso.

Sim, fui encoxado de formas que um homem casado jamais poderia imaginar ser permitido por lei. Isso abriu meus horizontes, abriu mesmo!
Também gostei que vi muita gente bonita no metrô, mas todos faziam careta, tirando um jovem com uniforme do São Paulo, devido ao desconforto do encoxamento coletivo.

Saí do trem me sentindo livre como um pássaro e cheguei ao curso com cheiro forte de gente.

Encontrei pessoas interessantes e achei todos muito divertidos e agradáveis, visto que não sou homofóbico, tirando um colega que se sentou ao meu lado e ficou fazendo caras e bocas o tempo todo, mas ainda tenho fé que seja tique nervoso.

Quanto ao curso em si, foi muito enriquecedor. É sempre bom lembrar que a ignorância é tão infinita quanto o que se tem pra aprender. Aprendi bastante e espero não me esquecer de nada (muito rápido). O mestre demonstrou conhecimento e prazer em ensinar (S), além de uma seriedade sem ter fim (H). Achei os coelhinhos suuuuper fófis, mas isso não quer dizer nada.

A volta pra casa era sempre muito desgastante, apesar de o metrô já estar menos lotado e eu só receber encoxadas quando o trem desacelerava, saber que ia dormir na casa do cunhado era um pesadelo.

Na superfície, quebra-quebra e protesto de ambas as partes. Populares quebrando o patrimônio e a polícia quebrando os populares. Populares protestando contra o aumento das tarifas e a puliça protestando quando um popular escapava da borrachada.

Eu acho muito errado as pessoas protestarem assim, porque, afinal de contas, já nos roubam há tanto tempo e tão mais que essa mixaria, tipo um Maracanã ou um Itaquerão (meu time não precisava dessa mancha) e a gente nunca reclamou. Nossas excelentíssimas autoridades não merecem passar por esse tipo de choque. Pode dar a falsa impressão de que o povo tem força, coragem e alguma organização e que pode ser apenas o começo de uma ação maior que venha a colocar fim à excelentíssima mamata. E que se não nos tratarem com mais dignidade, respeito e transparência, afinal não somos muito idiotas, poderemos nos mostrar muito poderosos, porque a água já chegou no pescoço. Mas é só uma falsa impressão. Ainda assim, cuidado conosco!

No último dia foi legal, domingão, metrô vazio, mas me afligia um sentimento de vingança que só pude decifrar quando uma velhinha se ergueu pra descer na próxima estação e eu me vi me colocando bem juntinho dela, naquele vagão cheio de espaço. Sim, eu precisava encoxar alguém também pra me sentir menos lesado.

Foi o dia da aula prática e me impressionou muito o carinho que todos demonstraram com os coelhinhos, principalmente eu, que já tinha descarregado toda minha agressividade na velhinha do metrô. Também me admirou a facilidade com os números e o domínio sobre as regras de três que as garotas demonstraram.

Voltei pra minha cidade de carona com um novo colega, o Mário, sabem qual, né? Um cara meio esquisitão que me incluiu numa carona que ele filava do primo. Foi bom que teve até serviço de bordo. Sou grato.

Estou ansioso pela próxima aula, aprender, rever amigos. E, sinceramente, espero que na próxima não haja violência, que haja mais organização e que tenha mais gente enfrentando os poderosos e dizendo basta!

Veja mais:

EXPERIÊNCIA ESTÉTICA É O QUE SINTETIZA A NOVA VERSÃO PARA O CINEMA DO CLÁSSICO DE TOLSTÓI “ANNA KARENINA”

Versão para o cinema de 2012

Cena de “Anna Karenina”, versão 2012

Por Maura Voltarelli

Na primeira cena, o que se vê é o título do filme sobre a cortina de um palco de teatro. Como se quem assiste fosse avisado de que um espetáculo teatral estivesse para começar. O teatro anuncia a sua presença e essa será constante ao longo de toda versão do diretor Joe Wright para o monumental romance de Tolstói Anna Karenina.

O diálogo com o teatro, o caráter performático dos atores e das cenas iniciais, os movimentos muitas vezes nauseantes da câmera, os giros, os detalhes, as cores, tudo faz de Anna Karenina uma incrível experiência estética, e, embora o filme tenha muitos pontos discutíveis, este é aparente pacífico.

A inovação da montagem é tanta que lembra um pouco o Lars Von Trier de Dogville, com o seu cenário em forma de maquete, objetos, cenas e atores sendo ali manipulados. A direção de arte impecável, a beleza dos figurinos, dos cenários, a inovação no trato da imagem e a exploração de todas as suas possibilidades também lembra um pouco o estilo do diretor Luis Fernando Carvalho em filmes belíssimos como Lavoura Arcaica, onde a beleza das imagens solta um suspiro extasiante.

Se na experiência estética, essa versão acerta, não parece acontecer o mesmo com a escolha dos atores para representar os personagens do romance. O principal erro ocorre com a escolha do ator Aaron Taylor-Johnson para interpretar o conde Vronsky, amante de Anna na história.

Anna e Vronsky na versão de 1997

Anna e Vronsky na versão de 1997

Nesta versão, o amante de Anna parece um tipo “almofadinha”, afetado, que age simplesmente por capricho. Sua paixão por Anna, que no romance aparece de forma bem mais intensa, no filme é quase nula, não chega a atingir quem assiste. Da mesma forma, o conde Vronsky que aparece no filme não parece ser o tipo de homem por quem Anna se apaixonaria, deixando para trás o marido e o filho em pleno século XIX.

Em relação à escolha de Keira Knightley para interpretar Anna Karenina, a atriz pode não ser a melhor imagem da heroína mais conhecida do escritor russo, mas está lindíssima na versão. A beleza é tão expressiva que deixou faltar um pouco uma das principais características da personagem: sua melancolia grave e doce, que se alterna com seu espírito alegre, naturalmente livre. Keira deixa transparecer a alegria de Anna, mas não deixa vir à tona seu tom melancólico. Este surge apenas no fim, de forma apressada, sem naturalidade, abortando assim a possibilidade do espectador realmente se emocionar com os momentos finais que, no livro, são dosados pelo desespero trágico e também pela conversa com a loucura.

Já o marido de Anna, bem interpretado por Jude Law, está bonzinho demais. Quem leu o livro praticamente não o reconhece. Alexei Karenin, apaixonado por Anna até o fim, e magoado justamente por esse amor constante e ao mesmo tempo fonte de sua vergonha e desmoralização pública, faz de tudo para tornar as coisas ainda mais difíceis para Anna, pois talvez essa seja a forma de tornar as coisas um pouco mais fáceis para ele. A negação do divórcio e a proibição de que Anna continuasse a ver o filho são golpes de Karenin que atingem em cheio a lucidez de Anna. No filme, isso não fica tão claro. Karenin aparece como generoso e Anna como caprichosa.

Os coadjuvantes estão ótimos. Stiva provoca risos na plateia e ganha tons performáticos que evocam de fato o personagem do livro. Já sua esposa, Dolly, aparece tão doce quanto no romance. A personagem vive um momento bastante feliz no filme quando conversa com Anna naturalmente em um local público, enquanto todas as outras pessoas riem, cochicham e falam dela pelas costas. A interpretação da atriz nesta cena é tão natural e destoante do que então se via que atinge o espectador naquele que é um dos pontos essenciais do romance: a denúncia da hipocrisia da sociedade burguesa da época.

Greta Garbo, a primeira a viver no cinema a heroína de Tolstói

Greta Garbo, a primeira a viver no cinema a heroína de Tolstói

Anna sofre no livro, e isso de certa forma se deixa ver nessa versão, todo tipo de preconceito da sociedade de sua época por ser a mulher que traiu o marido, um influente político russo, e deixou seu mundo para viver uma paixão arrebatadora com um oficial do exército. Sofre as consequências por ter quebrado as regras, por ter se apaixonado.

Este é o núcleo central da história, que sempre ganha destaque em todas as versões do livro para o cinema. Paralelamente a ele, no entanto, há uma outra célula do romance que aborda a vida no campo, as questões da agricultura russa da época, do trabalho escravo, das relações de propriedade e, principalmente, discute o ideal do que seria uma vida feliz.

A resposta para essa pergunta acontece no livro no mesmo momento em que se desenrola o desfecho da história de amor e transgressão de Anna. O grande lance de Tolstói é cruzar os significados de uma coisa e outra de modo que a tragédia que é encenada em um palco, seja respondida em outro. Se Anna paga um preço alto por tentar ser livre em um contexto onde para a mulher não era reservado muita coisa, a resposta dada por Tolstói às aflições humanas, sejam elas de homens ou mulheres, invadidas pelo dilema do moral e do amoral, do certo e do errado, da liberdade ou da convenção, é de que a felicidade estaria nas coisas simples, no lugar originário.

Keira como Anna Karenina

Keira como Anna Karenina

Para os que dizem que a história do adultério de Anna Karenina já está ultrapassada em uma sociedade “livre” como a do século XXI, eu diria que a história nem de longe está ultrapassada. Não só por que o drama de Anna vai muito além de uma simples traição, mas envolve diversos outros aspectos que até hoje rondam o universo feminino, como também porque o que está em questão na obra de Tolstói é o preconceito burguês contra qualquer ato que simplesmente fuja da norma, e esse preconceito está atualmente mais presente do que nunca. Basta olhar os bons (e poucos) jornais.

Por isso, Anna Karenina continua tão atual. Por isso o romance já teve cinco, contando esta última, montagens para o cinema. E, em cada uma, novas Annas nos emocionam, nos revelam um traço de coragem que persiste até o fim, e denunciam a hipocrisia que sempre germina neste nosso oceano, às vezes sombrio e sempre misterioso, do social.

Edição com tradução direta do russo

Edição da Cosac Naify com tradução direta do russo

Filmar uma grande obra literária, vale dizer, nunca é fácil, e comparações entre livro e filme sempre acabam um tanto injustas pois os suportes são diferentes. O filme nem sempre dá conta da densidade literária do livro, histórias surgem apressadas e, muitas vezes, não há aquele tempo que as páginas fornecem para desenvolver o personagem e entregá-lo em toda sua complexidade nas mãos do leitor.

Esta versão de Anna Karenina não emociona tanto quanto a leitura do romance, no entanto, traz algo que Tolstói, dispondo apenas do papel e da tinta, jamais poderia realizar: a exploração do universo fascinante da imagem, o transporte para o mundo do teatro, a magia de tons, músicas, movimentos e sensações combinados para recontar uma bela história.

Veja mais em Educação Política:

“OS SALTIMBANCOS”, DE PICASSO, SERVIU DE INSPIRAÇÃO PARA A QUINTA DAS “ELEGIAS DE DUÍNO”, DE RILKE, QUE ABORDA A INDIFERENÇA DO MUNDO À ARTE
‘PÃO E VINHO’, DO POETA ALEMÃO FRIEDRICH HÖLDERLIN, PROCLAMA QUE OS DEUSES ESTÃO VIVOS E QUE A FUNÇÃO DO POETA NOS TEMPOS DE CARÊNCIA É ATUAR EM FAVOR DO MITO POR VIR
COM TRABALHOS QUE VÃO DO FANTÁSTICO À CRÍTICA SOCIAL, O GRAVURISTA RUBEM GRILO GANHA MOSTRA NO RIO DE JANEIRO
A PRINCESA TRISTE E O PRÍNCIPE PALHAÇO
 

“OS SALTIMBANCOS”, DE PICASSO, SERVIU DE INSPIRAÇÃO PARA A QUINTA DAS “ELEGIAS DE DUÍNO”, DE RILKE, QUE ABORDA A INDIFERENÇA DO MUNDO À ARTE

Por Maura Voltarelli

Pablo Picasso, Les saltimbanques, 1905

Pablo Picasso, Les saltimbanques, 1905

Elegias de Duíno, Rainer Maria Rilke

Quinta elegia

Mas quem são eles, dizei-me, os saltimbancos, um pouco
mais efêmeros que nós mesmos, desde a infância
por alguém torcidos – por amor
de que vontade jamais saciada? Entretanto ela os torce,
curva-os, entretece-os, vibra-os,
atira-os e os toma de volta! Do ar untado
e mais liso, eles resvalam
sobre o tapete gasto (adelgaçado
pelo eterno salto), esse tapete
perdido no universo.
Emplastro aderido lá, onde o céu
do subúrbio feriu a terra.
_______________E apenas lá,
ereto, mostra a grande maiúscula
inicial da Derelicção…e já o renitente
agarrar torna a rolar os homens mais fortes,
por jogo, como outrora Augusto o Forte, à mesa,
brincando com pratos de zinco.

Ah! e em torno desse centro,
a rosa do contemplar:
floresce e desfolha. Em torno do
triturador, o pistilo atingido por seu próprio
pólen florescente, novamente fecundado – fruto
aparente do desgosto, inconsciente de si mesmo –
com a fina superfície a brilhar
num sorriso leve, simulado.
Lá, o murcho, o enrugado atleta,
o velho que apenas rufla o tambor,
encolhido na pele poderosa como se outrora tivesse contido
dois homens e um já sobrevive ainda,
surdo e um pouco perturbado,
às vezes, na pele viúva.  […] (p. 27 e 28)

Nesta parte inicial da elegia, o sentimento predominante é o de frustração e inautenticidade. Os saltimbancos melancólicos não seriam movidos pelo Anjo, alheio à dor humana, e estariam “presos à imanência de um mundo incompreensível” (DA SILVA, s/d, p. 77). A existência do grupo seria um indigente “estar lá”, fazendo referência ao Dasein (o ser aí), comparação que vem do fato de as figuras no quadro estarem dispostas de modo a formar um D maiúsculo. Diante dos saltimbancos, que simplesmente estão lá, as pessoas passam indiferentes, o que talvez seja um motivo do desalento do poeta em relação à “arte pela arte”, o jogo intranscendente incapaz de iluminar a vida.

[…] Anjo: talvez haja uma praça que desconhecemos, onde,
sobre um tapete indizível, os amantes, incapazes aqui,
pudessem mostrar suas ousadas, altivas figuras
do ímpeto amoroso, suas torres de alegria, suas trêmulas
escadas que há muito se tocam onde nunca houve apoio:
e poderiam diante dos espectadores em círculo,
incontáveis mortos silenciosos. E estes arrojariam
suas últimas, sempre poupadas,
sempre ocultas, desconhecidas moedas de felicidade
para sempre válidas, diante do par
verdadeiramente sorridente, sobre o tapete
apaziguado. (p. 31)

Sob a perspectiva do Anjo, no entanto, que aparece nessa última parte do poema, o homem estaria liberto do jogo estéril da arte intranscendente, salvo da morte anônima, da vida inautêntica, realizando em uma praça milagres de harmonia em uma simbiose de amor e morte, onde ele aprenderia a sorrir verdadeiramente.

RILKE, R.M. Elegias de Duíno. Trad: Dora Ferreira da Silva. 4ºed. Rio de Janeiro: Ed. Globo, s/d

Leia mais em Educação Política:

‘PÃO E VINHO’, DO POETA ALEMÃO FRIEDRICH HÖLDERLIN, PROCLAMA QUE OS DEUSES ESTÃO VIVOS E QUE A FUNÇÃO DO POETA NOS TEMPOS DE CARÊNCIA É ATUAR EM FAVOR DO MITO POR VIR
COM TRABALHOS QUE VÃO DO FANTÁSTICO À CRÍTICA SOCIAL, O GRAVURISTA RUBEM GRILO GANHA MOSTRA NO RIO DE JANEIRO
A ARTE E A VIDA EM CÍRCULOS NAS ESCULTURAS DO MINEIRO GERALDO TELES DE OLIVEIRA, O GTO
CELSO BODSTEIN DIZ QUE CINEMA É A FORMA DE SINTETIZAR REFLEXÕES DE ORDEM FILOSÓFICA, SOCIOLÓGICA E ESTÉTICA

‘PÃO E VINHO’, DO POETA ALEMÃO FRIEDRICH HÖLDERLIN, PROCLAMA QUE OS DEUSES ESTÃO VIVOS E QUE A FUNÇÃO DO POETA NOS TEMPOS DE CARÊNCIA É ATUAR EM FAVOR DO MITO POR VIR

Baco e Ariadne

Baco e Ariadne

PÃO E VINHO
Friedrich Hölderlin

Mas amigo! Viemos demasiado tarde.
Na verdade vivem os deuses
mas sobre nossa cabeça, acima em outro mundo
trabalham eternamente e parecem preocupar-se pouco
se vivemos. Tanto se cuidam os celestes de não ferir-nos.
Pois nunca poderia contê-los um débil navio,
somente às vezes suporta o homem a plenitude divina.
A vida é um sonho dos deuses.
Mas o erro nos ajuda como um adormecimento.
E nos fazem fortes a necessidade e a noite.
Até os herois crescidos em uma cunha de bronze,
como em outro tempo seus corações são parecidos em força
aos celestes.
Eles vivem entre trovões.
Me parece às vezes melhor dormir, que estar sem companheiro.
A esperar assim, o que fazer ou dizer eu não sei.
E para que poetas em tempos de carência?
Mas, são, dizes tu, como os sacerdotes sagrados do Deus do
vinho,
que erravam de terra em terra, na noite sagrada.

(Tradução do espanhol: Maura Voltarelli)

Este poema pode ser encontrado em espanhol no ensaio “Hölderlin e la esencia de la poesia”, de Martin Heidegger, traduzido do alemão por Samuel Ramos e presente no livro Arte y poesia, 2ª ed. México: FCE, 1973

Veja mais em Educação Política:

COM TRABALHOS QUE VÃO DO FANTÁSTICO À CRÍTICA SOCIAL, O GRAVURISTA RUBEM GRILO GANHA MOSTRA NO RIO DE JANEIRO
ESTA IMAGEM OU ARTE DE BANKSY, O ARTISTA DE RUA BRITÂNICO, VALE MAIS DO QUE MIL PALAVRAS
ENFIM UMA BOA UTILIDADE PARA ELAS: OS INSTRUMENTOS MUSICAIS FEITOS COM ARMAS DE FOGO DO ARTISTA MEXICANO PEDRO REYES
LITERATURA: O ANÚNCIO DA COMPANHIA TELEFÔNICA EM ‘ATÉ O DIA EM QUE O CÃO MORREU’, DE DANIEL GALERA

REDAÇÃO EM PROVA DO ENEM, QUE TEM 6 MILHÕES DE INSCRITOS, SÓ COMPLICA E DEVERIA SER TROCADA POR QUESTÕES DE LITERATURA

fOTO: WIKIPEDIA ENEMAs últimas notícias sobre a prova de redação do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), em que alunos escreveram receitas de miojo e o hino do Palmeiras só reforçam a ideia de que a prova de redação é desnecessária.

É evidente que a avaliação de produção de texto é importante, mas essa opção deveria ser reavaliada em uma prova ampla, que tem abrangência nacional e conta com 6 milhões de inscritos.

Desde o início do Enem, a prova de redação é usada por interessados em destruí-lo. Além disso, a redação tem sido um foco de problemas, inclusive jurídicos, para o exame, que é de fundamental importância para o país e estabelece igualdade entre jovens ricos e pobres, de norte a sul do país.

A prova de redação é provavelmente o item mais caro para a correção, visto que exige um batalhão de corretores para avaliar 6 milhões de redações. E qual é realmente sua eficácia? A avaliação da escrita deve ser feita nas escolas, em salas com poucos alunos, em que o professor acompanha de forma individualizada cada aluno.

Num grande exame nacional, essa avaliação poderia ser substituída por respostas curtas ou por uma boa prova de literatura, em que o aluno deveria demonstrar conhecimento de romances e poesia brasileira, com livros pré-estabelecidos. Se o aluno tem uma bola leitura, certamente ele também terá uma boa escrita. Isso é um conhecimento redundante na prática educacional. Quem não lê, não escreve, diz o ditado.

Veja mais em Educação Política:

NO BRASIL DO SÉCULO XXI E COM AGRONEGÓCIO AINDA ESCRAVOCRATA, É NECESSÁRIO O POETA CRUZ E SOUZA

Imagem vagner carvalheiroESCRAVOCRATA

Oh! trânsfugas do bem que sob o manto régio
manhosos, agachados – bem como um crocodilo,
viveis sensualmente à luz dum privilégio
na pose bestial dum cágado tranqüilo.

Eu rio-me de vós e cravo-vos as setas
ardentes do olhar – formando uma vergasta
dos raios mil do sol, das iras dos poetas,
e vibro-vos à espinha – enquanto o grande basta.

O basta gigantesco, imenso, extraordinário –
da branca consciência – o rútilo sacrário
no tímpano do ouvido – audaz me não soar.

Eu quero em rude verso altivo adamastórico,
vermelho, colossal, d’estrépito, gongórico,
castrar-vos como um touro – ouvindo-vos urrar!

Veja mais em Educação Política:

LITERATURA: O ANÚNCIO DA COMPANHIA TELEFÔNICA EM ‘ATÉ O DIA EM QUE O CÃO MORREU’, DE DANIEL GALERA

Imagem: creative commons - Lari Arruguetti“Eu tinha comprado o jornal só para ver o tal anúncio da companhia telefônica no qual a Marcela tinha trabalhado.  Página Dupla. A propaganda era sobre um serviço no qual o usuário ganha descontos nas ligações de celular pra determinados números a sua escolha. Algo do tipo “pague mais barato para falar com seus amigos”. O anúncio, dirigido ao público jovem, mostrava um grupo de amigos numa praia. Dois surfistas musculosos de sunga e três minas gostosas de biquíni, alinhados diante do mar com grandes sorrisos no rosto e cabelos impecavelmente penteados. Os modelos estavam posicionados lado a lado de modo a substituir simbolicamente os algarismos de uma cifra em dinheiro, e separados por uma grande vírgula sobre a areia. A Marcela estava do lado esquerdo da vírgula, usando um biquíni verde, cabelos esvoaçantes, maquiada, saudável, feliz, enroscada num sujeito que segurava uma prancha debaixo do braço. A mensagem por trás daquilo seria algo como “converta suas amizades em dinheiro”. Era sem dúvida um dos anúncios mais retardados que eu já tinha visto. A Marcela não parecia ela mesma debaixo do pôr-do-sol retocado de Photoshop. Arranquei as folhas e botei fogo no anúncio com meu isqueiro. As chamas puseram o cachorro em estado de alerta.” (trecho do livro Até o dia em que o cão morreu, de Daniel Galera)

Veja mais em Educação Política:

A FORMIGA E A CIGARRA, NA TABERNA DO SR. CUPIM

foto: mauriciomercandante flickr creative commons

É certo que você já deve ter lido ou ouvido falar, talvez na sua infância, da tal fábula sobre A cigarra e a formiga, atribuída a Esopo e narrada por Jean de La Fontaine. Na fábula, a cigarra passou o verão a cantar e, no inverno, sem ter o que comer, bateu na porta da formiga, que sem piedade lhe bateu a porta na cara.

Mas a relação da formiga com a cigarra não terminou com aquela maldita frase dita pela formiga antes de bater a porta: “você cantou, agora dance”, e que se traduziu na gíria da sociedade contemporânea: “você dançou”.

Recentemente, pesquisadores da Universidade de Cicadidae descobriram fragmentos nas escavações de um enorme território na região da Eusocialidade. Os fragmentos descobertos sugerem uma sequência inesperada de acontecimentos. Veja só:

Quando a senhora formiga bateu a porta de sua casa, o mundo desabou para aquela pobre cantora de voz tão afinada e potente, mas que pouco lhe valia para o sustento e a provisão de dias ruins. A força daquela porta, o barulho e a recusa não mais se repetiria na vida daquela talentosa cigarra, exceto no dia em que conheceu as borboletas do Direito Autoral, mas essa é uma outra história a ser desvendada, afinal chega de tristeza e lamento. Dona Cigarra não gostava de fados, pouco astuta, apenas se virou e observou todo o bosque coberto de neve. Aquilo lhe soou como um fim, ajustou sua casaca velha e poída e enfrentou o frio ainda com a insolência de assobiar Meu mundo caiu, famosa canção na voz de Maísa, brazilian singer.

Do lado de dentro da casa da Formiga, aquela batida de porta também não foi de total satisfação, mesmo porque sempre que se é egoísta e má, um fel amargo escorre pela garganta e ativa o cérebro a trabalhar intensamente para justificar tais atitudes e foi o que aconteceu. Dona formiga pegou a vassoura, logo atrás da porta, e pôs-se a varrer e a  encontrar razões. “Ela merecia. Precisa aprender, é vagabunda. Não gosta de trabalhar”. Varreu, varreu, limpou, limpou e tudo parecia brilhar na sua magnífica casa, repleta de alimentos. Vale dizer que, mas isso dona formiga procurava esquecer, grande parte dos alimentos daquela repleta dispensa fora furtado. Sim, fora furtado de árvores impossibilitadas de se defender de suas garras e também de humanos negligentes que deixam potes e pacotes de produtos mal fechados. Por qualquer fresta mínima, lá a dona formiga se infiltrava na calada da noite para abastecer sua dispensa.

Por dias e dias dona formiga comia e dormia ao lado de seus proventos enquanto dona Cigarra perambulava em busca de alimentos debaixo daquele inverno gelado. Aquilo realmente era de entediar qualquer um e dona formiga passou a pensar uma loucura: “talvez a vida da Cigarra, pedindo comida pelo bosque, seja mais feliz que a minha que nada tenho a fazer aqui trancada”. Aliás, todas as outras formigas estavam trancadas em suas casas repletas de alimentos, mas sem prosa com vizinhas para não ter a desagradável audição de um pedido de comida qualquer.  O pensamento da dona formiga foi totalmente inesperado. Poder-se-ia duvidar dessa versão, mas os fragmentos escavados pelos pesquisadores dessa fábula comprovaram essa mudança de comportamento. Os pesquisadores também suspeitam que uma depressão ou solidão tenha desencadeado tal transformação, mas isso ainda há de se provar.

Pois bem, em um impulso, dona formiga encheu uma mochila de alimentos, agasalhou-se bem, passou a chave na porta e saiu pelo bosque em busca de algo para espantar o tédio. Caminhou e caminhou por dias sem encontrar viva alma insetídia. Certa tarde ouviu bem ao longe uma bela música. Cansada, já quase sem alimentos e solitária, dona Formiga se encantou e se embalou naquele som que mais parecia uma ilusão, tamanha a fragilidade com que chegava aos seus ouvidos. Perspicaz para conseguir alimento, não foi difícil para a formiga caminhar pelo trajeto sonoro e perceber que a cada passo o som ficava mais alto e belo. Mas de repente o som sumiu. Nada mais se ouvia, apenas o silêncio.

Sem trilha a seguir era impossível continuar, estava sem alimentos e sem o som para lhe guiar. Esperou, esperou, mas aquele som não voltou durante aquele fim de noite. Tudo escuro. Para a formiga, apesar de astuta e trabalhadora, foi difícil conseguir novos provimentos no rigor do inverno e teve de se arranjar dormindo perigosamente ao relento, escondida sob uma casca seca de uma grande árvore. Sabia que logo de manhã os pássaros estarão famintos e o perigo é grande, ainda mais numa época em que não há alimentos em abundância pela floresta.

De manhã, dona formiga ficou bem quietinha sob a casa árvore, mas ainda próxima do chão. Não contava com a tempestade que se avizinhava, os ventos fortes jogaram a casca para longe e ela precisou sair correndo para escapar da passarada. No meio da neve branca, o caminhar de uma cor vermelha e preta era uma presa fácil. Logo foi avistada por um Sabiá faminto. Quando ele se aproximou, a astuta formiga conseguiu se esconder no beiral da porta do tronco da taberna do sr. Cupim. A taberna estava fechada, mas entre as brechas das lascas da entrada, comida por esses terríveis beberrões, ela ficou protegida durante todo o dia e ao final da tempestade. O Sabiá não desistiu e ficou pelas redondezas só de bico calado.

Depois desse grande susto, dona Formiga ali adormeceu e sonhou magnificamente. Ela estava em uma grande festa, com amigos formigas, cigarras, gafanhotos, borboletas, aranhas e todas a insetarada. A música era belíssima e todos rodavam, sorriam e conversavam. Isso sim é que é viver, pensou e sorriu… O movimento dos músculos da felicidade a levou a acordar bruscamente e dar de cara com o Sabiá, lá fora, a sua espera.

Baixou a cabeça e ficou profundamente triste por acordar e com a realidade a sua volta. Mas logo ouviu novamente aquela bela música. Agora não era sonho e ela estava alta, bem próxima, e vinha de dentro da taberna do sr. Cupim. Com o barulho da música, o Sabiá resolveu se afastar e a Formiga pode caminhar até a entrada da taberna. Esperta que só vendo logo pensou: “parece que conheço essa voz…”. Caminhou por entre as frestas e olhou por meio da entrada de ar. Lá estava a dona Cigarra cantando e todos por ali conversando, dançando e trabalhando, assim como no seu sonho. Parou por um momento, pensou no Sabiá e entendeu porque as Cigarras passam a vida a cantar.

Veja mais em Educação Política:

A PRINCESA TRISTE E O PRÍNCIPE PALHAÇO
NA CURVA DA ESTRADA CONHECIDA E ESTRANHA
HÁ SEMPRE UM BOÇAL NA SUA COLA
HOMENS E MULHERES ME DISPUTAM E ISSO ME IRRITA

FOTOS DE KLEINER KAVERNA, NO ENSAIO DA PEÇA ‘O HOMEM DA CABEÇA DE PAPELÃO’, BASEADA NO CONTO HOMÔNIMO DE JOÃO DO RIO

O HOMEM DA CABEÇA DE PAPELÃO, CONTO DE JOÃO DO RIO, É UMA DENÚNCIA DA MECANIZAÇÃO DA VIDA E DAS MÁSCARAS SOCIAIS

Nesta segunda parte da entrevista, Orna Levin fala sobre um conto tardio de João do Rio, O homem da cabeça de papelão, e sobre dois temas principais que são retratados no conto: a mecanização da vida cotidiana e as máscaras sociais. O conto foi livremente adaptado pelo Curso Livre de Teatro, que acontece no Barracão Teatro, em Campinas, com estreia marcada para os dias 29, 30 de novembro e 01 de dezembro.

Ambos os temas do conto, como Orna explica, refletem o momento histórico da sociedade carioca da época. O Rio de Janeiro na passagem do século vivia transformações de ordem urbana e tecnológica, o que afetava o modo de vida, a percepção do tempo e também as relações sociais.

É nesse contexto que João do Rio escreve um conto que pode ser visto sob uma estética futurista, imaginando um mundo onde podemos trocar de cabeça, um mundo onde as máscaras sociais e os papéis sociais se multiplicam, e onde características como honestidade, por exemplo, já não encontram espaço. A narrativa literária, neste caso, esboça uma denúncia tanto de uma realidade onde o homem é tomado pelos objetos, quanto da falsidade das relações sociais.

E veja também a primeira parte da entrevista.

Veja mais em Educação Política:

ENFIM UMA BOA UTILIDADE PARA ELAS: OS INSTRUMENTOS MUSICAIS FEITOS COM ARMAS DE FOGO DO ARTISTA MEXICANO PEDRO REYES
A ARTE E A VIDA EM CÍRCULOS NAS ESCULTURAS DO MINEIRO GERALDO TELES DE OLIVEIRA, O GTO
A INTRIGANTE COMPANHIA PHILIPPE GENTY, EM VOYAGEURS IMMOBILES, COM TEATRO, DANÇA, MÚSICA E BONECOS
O REISADO E A BANDA DE PÍFANO NA ARTE EM MADEIRA DO CEARENSE MESTRE MANOEL GRACIANO

CRONISTA MUNDANO E JORNALISTA DE RUA: JOÃO DO RIO RETRATOU EM CRÔNICA, CONTO E ROMANCE A REALIDADE SOCIAL DE SUA ÉPOCA

Orna Levin, autora de “As figurações do dandi”

Paulo Barreto, mais conhecido como João do Rio, foi jornalista, cronista, escreveu contos, peças de teatro, romances, andou pelos salões elegantes da sociedade carioca, retratando seus costumes, e também pelas ruas do Rio de Janeiro, mostrando a realidade que pulsava nas periferias e regiões mais pobres.

Marcado por essa atividade múltipla e pela atuação como jornalista, a realidade social, seja das ruas, seja dos costumes da aristocracia da época, nunca abandonou suas produções literárias e João do Rio fez história nas letras nacionais como o “cronista mundano” que frequentava as festas e escrevia sobre a sociedade elegante do Rio de Janeiro, mas também como o jornalista de rua, atento às transformações de sua época e que mantinha uma postura excêntrica diante de um mundo em mudança.

João de Rio, de certa forma, incorporava a figura do dandi, como diz a professora doutora ( e não “doutorna”! veja vídeo) da Unicamp Orna Messer Levin, estudiosa da obra do escritor e autora de livros sobre ele como As figurações do dandi e Teatro de João do Rio.

Em entrevista à TV Educação Política (abaixo), Orna fala sobre o dandi como aquele que adota uma postura excêntrica, seja na maneira de se vestir, seja no comportamento, com o objetivo de fazer uma crítica à ascensão da burguesia e ao processo de massificação da cultura e da arte que esta ascensão representa. O dandi se pautaria, antes de tudo, por uma filosofia da arte, buscando, na sua forma de se diferenciar da uniformidade restante, guardar o lugar da nobreza do conhecimento estético.

Como dandi, João do Rio seria essa voz excêntrica, evitando ser arrastada pela massificação burguesa e fazendo-se presente  no território das ruas, presença que reverbera em toda sua obra.

Veja a segunda parte da entrevista

Veja mais em Educação Política:

CELSO BODSTEIN DIZ QUE CINEMA É A FORMA DE SINTETIZAR REFLEXÕES DE ORDEM FILOSÓFICA, SOCIOLÓGICA E ESTÉTICA
“É HORA DE O ESTADO ASSUMIR SUAS RESPONSABILIDADES”, DIZ FRANCISCO FOOT HARDMAN SOBRE A COMISSÃO DA VERDADE
PARA HISTORIADORA, CENTRO DE CULTURA POPULAR (CPC) DA UNE FOI UM EXPRESSIVO PERÍODO DE EDUCAÇÃO ESTÉTICA, POLÍTICA E SENTIMENTAL INICIADO COM PEÇA DE VIANINHA
A TERCEIRA MARGEM DO CORAÇÃO SELVAGEM – PENSANDO CLARICE LISPECTOR E GUIMARÃES ROSA

BERTOLD BRECHT EM SANTA JOANA DOS MATADOUROS: O INJUSTO ANDA CALMAMENTE NA RUA, O JUSTO SE ESCONDE

Cena da peça encenada em São Paulo

NOS MATADOUROS. OS DEPÓSITOS DAS INDÚSTRIAS GRAHAM

Os pátios já estão quase vazios. De raro em raro passam grupos de trabalhadores.

JOANA chega e pergunta:
Alguém aqui viu três homens à procura de uma carta?
Gritaria ao fundo, que vem avançando. Entram cinco homens cercados de tropa: os dois trabalhadores do comando da greve e os três da central elétrica. Um dos homens do comando pára e começa a falar aos soldados.

O DIRIGENTE
Vocês nos levam para a cadeia, mas fiquem sabendo que foi para ajudar gente igual a vocês que fizemos o que fizemos.

UM SOLDADO
Então continua andando, que você ajuda a gente mais ainda.

O DIRIGENTE
Esperem uni pouco!

UM SOLDADO
Está com medo?

O DIRIGENTE
Pode ser, mas não é por isso que estou falando. Eu quero que vocês entendam por que nos prenderam. Ouçam, porque vocês não sabem.

OS SOLDADOS RINDO
Está bem, diga por que nós te prendemos.

O DIRIGENTE
Vocês não têm propriedade, mas ajudam os que têm. Por quê? Porque ainda não enxergaram a maneira de ajudar os expropriados como vocês mesmos.

O SOLDADO
Muito bem, e agora vamos continuar.

O DIRIGENTE
Esperem! Eu não terminei a frase: mas nesta cidade os trabalhadores que têm emprego já começaram a ajudar os trabalhadores desempregados. Portanto a maneira de ajudar os expropriados está ficando clara. Pensem nisso.

O SOLDADO
Você está querendo que a gente te solte?

O DIRIGENTE
Você não me entendeu? Entenda que a vez de vocês também está chegando.

O SOLDADO
Vamos continuar?

O DIRIGENTE
Vamos, vamos continuar.

Eles continuam. Joana para e acompanha os presos com os olhos. Ela ouve a conversa de duas pessoas a seu lado

UM
Que gente é essa?

O OUTRO
Nenhum desses
Cuidou só de si
Passaram tormentos
Para dar pão a desconhecidos.

O PRIMEIRO
Por que tormentos?

O OUTRO
O injusto anda calmamente na rua mas
O justo se esconde.

(Trecho da peça Santa Joana dos Matadouros, de Bertold Brecht)

Leia mais em Educação Política:

A PRINCESA TRISTE E O PRÍNCIPE PALHAÇO

Ficção – Este deveria ser um conto de fadas, como outro qualquer. A princesa e o príncipe e um mundo encantado. E realmente parece ter sido isso mesmo o que se vai narrar aqui.

Numa pequena cidade, dava para ver nascer esta história em cada letra, sílaba, palavra ou frase que ia surgindo na folha de papel em branco. Numa pequena casa vivia a princesa, mas lá não estavam o Rei nem a Rainha. Ela vivia sozinha. Também não havia um batalhão de súditos aos seus pés, preparando as roupas, os jantares, os banhos e outras atividades cotidianas. A princesa nunca teve essas mordomias, ainda que sua família tivesse uma boa condição financeira e, pode-se dizer, passou a infância em um verdadeiro palácio, com escadas, quartos grandes, corredores e um quintal enorme cheio de frutas para brincar e se deliciar a tarde toda.

E é ali, naquela alegria da infância que nossa princesa conhece um pouco de sua melancolia. O ouvinte vai perguntar, mas como ficar triste diante de uma vida tão normal e feliz? Mas essas são as coisas da vida. O Rei, que sempre se achou mesmo um Rei, mesmo antes de se tornar Rei, não era lá tão amável quanto se podia pensar, mas também não era de todo ruim. Tinha lá seu jeito de decidir as coisas e viver em seu mundo imaginário do reino do poder. Quase não via nossa princesa diante de tantos afazeres para deixar o palácio a cada dia mais bonito, não faltar comida, tecnologia, educação e algumas marcas famosas, que custam caro justamente porque são marcas famosas. A Rainha, como todos sabem era uma mãe dedicada, mas as rainhas têm sempre aquelas ideias fixas na cabeça e, quando entra, demora muito para sair. Só mesmo com um belo tombo para tirar da cabeça daquela Rainha que aquele palácio não era tão feliz assim. Mas essas coisas são coisas de Rainha. Quem vai dizer não às rainhas sem ficar triste e também entristecê-la? Poucos se atrevem, a não ser os invejosos que enxergam brilho e felicidade em tudo que é alheio. E a Rainha não parava no lugar, nem em casa, também devido aos afazeres da vida.

E assim cresceu nossa princesa. Entre o palácio e o quintal. Entre as músicas daquele período, os programas de televisão, sim, porque naquele reino já havia muita tecnologia. Todos gostavam, a cada nova tecnologia que surgia, lá estava o Rei para reverenciar e, como consequência, os súditos todos desejavam. Mas algo marcava mais, os perfumes das plantas do quintal, o jardim e a cozinha das avós, tanto a mãe do Rei quanto a mãe da Rainha. Tudo estava ali, em seu bucólico universo de cores e sentidos. Mas tudo passa e a princesa cresce, mas ao crescer, um pouco de tudo se perde: as cores, os gostos, as músicas, as tardes, os sons, os espaços. Há uma perda a cada dia, a cada semana. As pessoas que chegam e vão embora, os domingos à tarde que atormentam, as segundas-feiras que tem aquela alegria de trabalho infinito e cansado.

A Rainha muitas vezes não estava e o Rei nunca estava. Então, o colo da vó a acalentou durante a tenra infância, mas depois tudo tornou-se só um sonho mal colocado. A vida e tantas coisas tristes que nos acontece, as pessoas que nos invejam, as pessoas que não nos amam, os que nos são indiferentes, os que nos odeiam porque, não sei por que… Mas tudo isso fazia da nossa princesa, já moça, bela com seus cabelos de princesa, seus olhos e cílios de arquitetura irreparavelmente gótica, sua boca um pouco com a beleza da boca das antigas escravas do reino, o corpo com as curvas mais cobiçadas por tantos príncipes e tolos cavalheiros.

E lá estava ela, naquela tarde de calor entediante e sonolento. Ela passava o tempo em seus livros, fugindo daquele reino de fantasia que era a sua realidade. Nos livros, ela encontrava a realidade que a fazia entender o seu conto de fadas. Sim, ela nunca duvidou das fadas que a acompanhavam em tudo, mas ela queria a realidade comum a todas as pessoas, aos viventes desse mundo, que estão do outro lado da porta, na casa vizinha, na outra cidade, dentro daqueles livros reais. Seus olhos, com aquele anoitecer gótico, escorriam lágrimas secas, que ninguém poderia enxergar, estavam lá irritadiços. A boca como um arco virado para baixo, sem que ninguém percebesse porque havia um esforço tremendo para deixar a linha reta, sem graça. Mas sua beleza impedia, era bela e triste aquela boca de lábios fortes, que não se colocavam de forma feliz, ainda que estivesse sorrindo.

A felicidade era para os bobos alegres. No fundo da alma daquela princesa havia uma dor muito grande, que nem o narrador desta história penetrou. Também não conhecemos todos os dias daquela menina, daquela infância. Era uma época que parecia feliz, mas pode ter acontecido algo que não percebemos. Não somos deuses, apenas contadores de história. Não dá para saber de tudo, ser onipresente. Havia um mistério que não poderíamos descrever porque realmente a princesa nunca falava, apenas fechava o livro e jogava seus olhos sobre o que estivesse a sua frente, a janela, a cortina, as nuvens, um sapato no chão, um farelo de comida no fundo do prato e tudo se perdia em uma densa neblina, fazendo-a voltar para a fantasia da sua vida.

Mas certa noite ela fechou o livro e viu uma pequena letra entre as páginas, de alguém muito diferente e que ela pouco conhecia. Não pergunte como apareceram aquelas letras ali, logo no início do livro, com um garrancho meio feio, de algum cavalheiro pouco afeito aos detalhes da caligrafia. Muito diferente de nossa princesa, que fez balé, piano, jazz, pintura e caprichava na letrinha redonda e pontuada. Essas letras aparecem, assim como aparecem nestas páginas, como num conto de fada. E assim, o autor das letras apareceu como um príncipe em sua vida. Coisas do destino ou dos contos de fada. E ela teve a certeza, essa certeza de Rainha, que quando coloca uma coisa na cabeça, não tira mais, a não ser que leve um tombo. E naquele príncipe ela viu também no fundo dos olhos, uma outra tristeza, muito próxima da sua, uma tristeza que não se apresentava assim de dia, nas falas cotidianas, nos afazeres do trabalho, mas lá no fundo, sem que quase ninguém a visse, só mesmo uma princesa para perceber tamanha delicadeza.

E aí, vocês já sabem como são os contos de fada, eles se apaixonaram. Mas com o tempo ela foi percebendo que aquele conto de fada da sua vida tinha se transformado em uma realidade. O príncipe que era príncipe, não porque era bonito e dava um beijo para acordá-la de um sono profundo, de um envenenamento ou outra tragédia comum na realidade dos contos de fada. O príncipe começou a decepcioná-la porque aquela tristeza, que parecia igual a sua, não era tão igual a sua. A tristeza do príncipe virava uma certa euforia de vida, era muito conto de fada para a sua fantasia de realidade. E lá estava ele, o príncipe, fazendo piadas e palhaçadas o tempo todo com ela e com suas coisas, histórias, modos e gestos. Tudo para o príncipe era motivo de ironia e piada, nada assim tão amargo ou que a magoava profundamente, mas aquela alegria que ele não controlava, aquelas tiradas, sacadas, e outras adas que, com o tempo, pareciam perturbar aquela arquitetura de tristeza que por tanto tempo a princesa construiu para suportar a sua própria existência de princesa.

E ela descobriu aos poucos que o príncipe não era um príncipe, como são os príncipes, aqueles príncipes bonitos e que a beijariam, a acordariam e não falariam mais nada. Simplesmente porque viveriam felizes para sempre e, se são felizes para sempre, não há muito o que falar e a história termina. Fim. Ele parecia um príncipe que levava esse ‘felizes para sempre’ ao pé da letra e para tudo havia uma graça, uma cor, um sabor, um humor, apesar dos olhos tristes que ela conheceu e descobriu logo de início. Ela não sabia de que conto de fadas ele teria aparecido, mas uma certeza ela tinha: tratava-se de um príncipe-palhaço. E ela teve aquela sensação, sabe…, de que o príncipe virou sapo.

Ora ora, nunca se ouviu falar de nenhuma história real ou imaginária em que habitavam príncipes-palhaços. Ela teria caído no falso conto de realidade. Somente no circo, mas o circo também sempre foi muito triste, como aquela dificuldade de artistas mambembes, circulando sem se fixar, sem morar perto dos parentes, rodando pelo mundo, passando o chapéu, vertendo um humor triste e trágico. Mas o que fazer…. E assim viveu a princesa, triste para sempre, mas de uma alegria estonteante, quando ali chegava o príncipe-palhaço, que como um mambembe ora aparecia, ora desaparecia do palco dos olhos da princesa. E assim se fez sentido aquelas duas máscaras na capa do livro do conto de fada: uma triste, outra sorrindo. Era apenas um conto de fadas de príncipes e princesas.

Leia mais em Educação Política:

NA CURVA DA ESTRADA CONHECIDA E ESTRANHA

HÁ SEMPRE UM BOÇAL NA SUA COLA

SOU CAPITALISTA, MAS NÃO SOU IDIOTA

HOMENS E MULHERES ME DISPUTAM E ISSO ME IRRITA

LÁGRIMAS NO CANTEIRO

HILARIANTE: DESEMBARGADOR NARRA A PIOR AUDIÊNCIA DA SUA VIDA SOBRE UM PUM QUE RESULTOU EM PROCESSO

A pior audiência da minha vida…

Por Paulo Rangel Des. TJRJ
No Blog O Terror do Nordeste via Nassif

A pose do Supremo e o pum na audiência

A minha carreira de Promotor de Justiça foi pautada sempre pelo princípio da importância (inventei agora esse princípio), isto é, priorizava aquilo que realmente era significante diante da quantidade de fatos graves que ocorriam na Comarca em que trabalhava. Até porque eu era o único promotor da cidade e só havia um único juiz. Se nós fôssemos nos preocupar com furto de galinha do vizinho; briga no botequim de bêbado sem lesão grave e noivo que largou a noiva na porta da igreja nós não iríamos dar conta de tudo de mais importante que havia para fazer e como havia (crimes violentos, graves, como estupros, homicídios, roubos, etc).

Era simples. Não há outro meio de você conseguir fazer justiça se você não priorizar aquilo que, efetivamente, interessa à sociedade. Talvez esteja aí um dos males do Judiciário quando se trata de “emperramento da máquina judiciária”. Pois bem. O Procurador Geral de Justiça (Chefe do Ministério Público) da época me ligou e pediu para eu colaborar com uma colega da comarca vizinha que estava enrolada com os processos e audiências dela. Lá fui eu prestar solidariedade à colega.

Cheguei, me identifiquei a ela (não a conhecia) e combinamos que eu ficaria com os processos criminais e ela faria as audiências e os processos cíveis. Foi quando ela pediu para, naquele dia, eu fazer as audiências, aproveitando que já estava ali. Tudo bem. Fui à sala de audiências e me sentei no lugar reservado aos membros do Ministério Público: ao lado direito do juiz. E eis que veio a primeira audiência do dia: um crime de ato obsceno cuja lei diz:

Ato obsceno
Art. 233 – Praticar ato obsceno em lugar público, ou aberto ou exposto ao público:
Pena – detenção, de três meses a um ano, ou multa. O detalhe era: qual foi o ato obsceno que o cidadão praticou para estar ali, sentado no banco dos réus? Para que o Estado movimentasse toda a sua estrutura burocrática para fazer valer a lei? Para que todo aquele dinheiro gasto com ar condicionado, luz, papel, salário do juiz, do promotor, do defensor, dos policiais que estão de plantão, dos oficiais de justiça e demais funcionários justificasse aquela audiência? Ele, literalmente, cometeu uma ventosidade intestinal em local público, ou em palavras mais populares, soltou um pum, dentro de uma agência bancária e o guarda de segurança que estava lá para tomar conta do patrimônio da empresa, incomodado, deu voz de prisão em flagrante ao cliente peidão porque entendeu que ele fez aquilo como forma de deboche da figura do segurança, de sua autoridade, ou seja, lá estava eu, assoberbado de trabalho na minha comarca, trabalhando com o princípio inventado agora da importância, tendo que fazer audiência por causa de um peidão e de um guarda que não tinha o que fazer. E mais grave ainda: de uma promotora e um juiz que acharam que isso fosse algo relevante que pudesse autorizar o Poder Judiciário a gastar rios de dinheiro com um processo para que aquele peidão, quando muito mal educado, pudesse ser punido nas “penas da lei”. Ponderei com o juiz que aquilo não seria um problema do Direito Penal, mas sim, quando muito, de saúde, de educação, de urbanidade, enfim… Ponderei, ponderei, mas bom senso não se compra na esquina, nem na padaria, não é mesmo? Não se aprende na faculdade. Ou você tem, ou não tem.

E nem o juiz, nem a promotora tinham ao permitir que um pum se transformasse num litígio a ser resolvido pelo Poder Judiciário.

Imagina se todo pum do mundo se transformasse num processo? O cheiro dos fóruns seria insuportável.

O problema é que a audiência foi feita e eu tive que ficar ali ouvindo tudo aquilo que, óbvio, passou a ser engraçado. Já que ali estava, eu iria me divertir.

Aprendi a me divertir com as coisas que não tem mais jeito. Aquela era uma delas. Afinal o que não tem remédio, remediado está.

O réu era um homem simples, humilde, mas do tipo forte, do campo, mas com idade avançada, aproximadamente, uns 70 anos.

Eis a audiência: Juiz – Consta aqui da denúncia oferecida pelo Ministério Público que o senhor no dia x, do mês e ano tal, a tantas horas, no bairro h, dentro da agência bancária Y, o senhor, com vontade livre e consciente de ultrajar o pudor público, praticou ventosidade intestinal, depois de olhar para o guarda de forma debochada, causando odor insuportável a todas as pessoas daquela agência bancária, fato, que, por si só, impediu que pessoas pudessem ficar na fila, passando o senhor a ser o primeiro da fila.

Esses fatos são verdadeiros?
Réu – Não entendi essa parte da ventosidade…. o que mesmo?
Juiz – Ventosidade intestinal.
Réu – Ah sim, ventosidade intestinal. Então, essa parte é que eu queria que o senhor me explicasse direitinho.
Juiz – Quem tem que me explicar aqui é o senhor que é réu. Não eu. Eu cobro explicações. E então.. São verdadeiros ou não os fatos?
O juiz se sentiu ameaçado em sua autoridade. Como se o réu estivesse desafiando o juiz e mandando ele se explicar. Não percebeu que, em verdade, o réu não estava entendendo nada do que ele estava dizendo.
Réu – O guarda estava lá, eu estava na agência, me lembro que ninguém mais ficou na fila, mas eu não roubei ventosidade de ninguém não senhor. Eu sou um homem honesto e trabalhador, doutor juiz “meretrício”.

Na altura da audiência eu já estava rindo por dentro porque era claro e óbvio que o homem por ser um homem simples ele não sabia o que era ventosidade intestinal e o juiz por pertencer a outra camada da sociedade não entendia algo óbvio: para o povo o que ele chamava de ventosidade intestinal aquele homem simples do povo chama de PEIDO. E mais: o juiz se ofendeu de ser chamado de meretrício. E continuou a audiência.

Juiz – Em primeiro lugar, eu não sou meretrício, mas sim meritíssimo. Em segundo, ninguém está dizendo que o senhor roubou no banco, mas que soltou uma ventosidade intestinal. O senhor está me entendendo?
Réu – Ahh, agora sim. Entendi sim. Pensei que o senhor estivesse me chamando de ladrão. Nunca roubei nada de ninguém. Sou trabalhador. Saiba mais

BARTLEBY, UM ESCRITURÁRIO QUE PREFERE NÃO FAZER, EM UM BELO TEXTO DO ESCRITOR NORTE-AMERICANO HERMAN MELVILLE

Ilustração do escriturário Barbleby, que preferia não fazer

“Então, numa manhã de domingo calhei de ir à igreja da
Trindade para ouvir um célebre pregador. Como cheguei
muito cedo ao local, pensei em ir até o meu escritório. Por
sorte, tinha a chave comigo; mas, ao colocála na fechadura,
notei que do outro lado algo impedia sua entrada. Bastante
surpreso, chamei em voz alta; foi quando, para minha con-
sternação, uma chave virou lá dentro; e, avançando seu
rosto magro em minha direção e segurando a porta entrea-
berta, surgiu a imagem de Bartleby, em mangas de camisa e
estranhamente desanimado, dizendo em voz baixa que sen-
tia muito, mas que estava profundamente ocupado naquele
momento e que preferia não permitir a minha entrada. Em
mais uma ou duas palavras, ele ainda acrescentou que talvez
fosse melhor que eu desse duas ou três voltas no quarteirão,
depois do que ele provavelmente teria concluído o que es-
tava fazendo.
Agora, a aparência totalmente inesperada de Bartleby,
assombrando meu escritório numa manhã de domingo com
seu cortês desleixo cadavérico, ainda que firme e calmo, teve
um efeito tão estranho sobre mim, que eu imediatamente
afastei-me de minha própria porta e fiz como ele desejava.
Mas não sem uma forte revolta impotente contra a educada
arrogância desse escriturário incompreensível. Na verdade,
foi principalmente sua incrível delicadeza que não apenas
me desarmou como, aparentemente, castrou-me. Porque eu
considero castrado um homem que permite tranqüilamente
que seu funcionário lhe dê ordens e diga-lhe para retirar-
se de seu próprio imóvel. Além do mais, fui invadido por
um enorme desconforto ao pensar no que Bartleby poderia
estar fazendo em meu escritório em mangas de camisa e
também em total desalinho numa manhã de domingo.”

(Trecho do conto Bartleby, de Herman Melville)

Veja mais em Educação Política:

A FAMÍLIA CADA DIA MAIS COMPLICADA PODE GERAR ATÉ UM SUICÍDIO POR DIFICULDADE DE ENTENDIMENTO DA COMPLEXA REALIDADE

ESCRITOR MEXICANO JUAN RUFO EM DOIS MOMENTOS: BROTOU NELA UM OLHAR DE SEMI-SONHO E NINGUÉM ANDA À PROCURA DE TRISTEZAS

Rufo escreveu apenas dois livros de ficção

“No entanto antes será preciso dizer quem e que coisa era essa Matilde Arcángel. E lá vou eu. Vou contar a vocês tudo isso e sem pressa. Devagarinho. Afinal, temos a vida inteira pela frente.
Era filha de uma tal dona Sinesia, dona da pensão de Chupaderos; um lugar como se diz por aí caído no crepúsculo, lá onde a jornada termina. Assim que tudo que era arriero que recorria esses rumos acabou ficando sabendo dela e pôde agradar os olhos olhando Matilde. Porque naqueles tempos, antes que desaparecesse, Matilde era uma mocinha que se infiltrava feito água no meio de todos nós.
Mas no dia menos esperado, e sem que a gente percebesse de qual maneira, ela se transformou em mulher. Brotou nela um olhar do semi-sonho que cavoucava pregando-se dentro da gente como um prego que dá muito trabalho despregar. E depois sua boa explodiu, como se tivesse sido deflorada a beijos. Ficou bem bonita a moça, a cada um sua justiça seja feita.”
(A Herança de Matilde Arcángel, em Chão em Chamas)

“Você se lembra, Justina? Você ajeitou as cadeiras ao longo do corredor para que as pessoas que viessem vê-la esperassem a vez. Ficaram vazias. E minha mãe sozinha, no meio dos círios; sua cara pálida e seus dentes brancos mal aparecendo entre os lábios arroxeados, endurecidos pela morte arroxeada. Suas pestanas já quietas; já quieto seu coração.
Você e eu ali, rezando rezas intermináveis, sem que ela ouvisse nada, sem que você e eu ouvíssemos nada, tudo perdido na sonoridade do vento debaixo da noite. Você tinha passado o vestido negro, engomado o decote estreito e o punho das mangas para que as mãos parecessem novas, cruzadas sobre o peito morto; seu velho peito amoroso, em cima dele eu dormi durante tempos, e que me deu de comer e que palpitou para ninar meus sonhos.
Ninguém veio vê-la. Foi melhor assim. A morte não se reparte como se fosse um bem. Ninguém anda à procura de tristezas.”
(Pedro Páramo, de Juan Rufo)

Leia mais em Educaçao Política:
FOTÓGRAFO CHRIS JORDAN MOSTRA O ESPELHO DA SOCIEDADE EM QUE VIVEMOS NOS FILHOTES DE ALBATROZ DE ILHA DO PACÍFICO
LEON TOLSTÓI EM SENHOR E SERVO: AS GALINHAS E OS GALOS CACAREJARAM ABORRECIDOS
DIREITO AUTORAL OU INDUSTRIAL? CANTORA SERTANEJA, ROBERTA MIRANDA, QUE VENDEU 15 MILHÕES DE CÓPIAS, DIZ QUE NUNCA SOBREVIVEU DA VENDA DE DISCO
ESQUEÇAM OS PIRATAS: O DIREITO AUTORAL, COMO EXISTE HOJE, VAI ACABAR E NÃO SERÁ A PIRATARIA QUE VAI DESTRUÍ-LO

GELADEIROTECA: EM UMA PRAÇA DE ARARAQUARA, INTERIOR DE SÃO PAULO, UMA GELADEIRA “CONSERVA” LIVROS QUE SÃO EMPRESTADOS À POPULAÇÃO

MANUAL DE LITERATURA (EN)CANTADA TRAZ TEXTOS DE MACHADO DE ASSIS E MÁRIO DE ANDRADE TRANSFORMADOS EM RAP

MC’s Machado de Assis, Cruz e Sousa e Mário de Andrade

A literatura, e todas as formas de arte, têm um íncrivel poder de mudar a realidade social e de promever diálogos antes impensados entre os diferentes estratos da sociedade. Acreditando neste poder transformador e na multiplicidade da linguagem artística, o músico e jornalista francês Frédéric Pagès tem explorado a musicalidade presente em textos literários consagrados ao transpor para letras de rap clássicos da literatura brasileira.

Depois de gravar Récits du Sertão, em 1998, com trechos musicados de Guimarães Rosa e elogiado por Augusto de Campos e Mia Couto, Frédéric lança agora o disco Manual de Literatura (En)Cantada, onde jovens da periferia de Diadema gravam no ritmo do rap textos de Machado de Assis, Cruz e Sousa e Mário de Andrade.

Com o projeto, Frédéric quer demonstrar o quanto os métodos pedagógicos de educação estão ultrapassados e o papel que a arte-educação pode ter para disseminar o conhecimento de forma eficiente, seja qual for o lugar, seja qual for a cultura. Transformar textos literários em rap é sem dúvida uma ótima forma de reinventar a prática literária, explorando o seu sempre inesgotável potencial de criação e fazendo-a cada vez mais fértil.

Veja mais no site da revista Cult!

Leia mais em Educação Política:

LEON TOLSTÓI EM SENHOR E SERVO: AS GALINHAS E OS GALOS CACAREJARAM ABORRECIDOS
EM “O AMOR NATURAL”, DRUMMOND CONSTRÓI POEMAS DE CUNHO ERÓTICO QUE NÃO FALAM DE OUTRA COISA SENÃO DA RARA MÁGICA ENTRE CORPO E ALMA
BERTOLT BRECHT: OS DIAS DO TEU CATIVEIRO ESTÃO CONTADOS, TALVEZ MESMO OS MINUTOS
MUSEU DA LÍNGUA PORTUGUESA TRAZ MOSTRA SOBRE JORGE AMADO

LEON TOLSTÓI EM SENHOR E SERVO: AS GALINHAS E OS GALOS CACAREJARAM ABORRECIDOS

“Vassili Andrêitch entrou na casa com o velho, enquanto Nikita conduzia o trenó pelo portão aberto por Petrúchka e, por indicação do rapaz, fazia o cavalo entrar debaixo do telheiro. A dugá alta roçou no poleiro, no qual as galinhas e o galo, já acomodados, se alvoroçaram e começaram a cacarejar, aborrecidos. As ovelhas perturbadas precipitaram-se para um lado, pisoteando com os cascos o esterco congelado do chão. E o cachorro, assustado e raivoso, gania e latia freneticamente para o intruso.

Nikita conversou com todos: desculpou-se perante as galinhas, tranquilizou-as, garantindo que não as perturbaria mais; censurou as ovelhas por serem tão assustadiças sem saberem por quê, e ficou acalmando o cachorro durante o tempo todo que levou amarrando o cavalo”.

(Leon Tolstói, em Senhor e Servo, editora LPM)

Leia mais em Educação Politica:

ESQUEÇAM OS PIRATAS: O DIREITO AUTORAL, COMO EXISTE HOJE, VAI ACABAR E NÃO SERÁ A PIRATARIA QUE VAI DESTRUÍ-LO
PINA, DE WIN WENDERS, EXPÕE NA ARTE DA DANÇA UMA ALEMANHA AFETIVA E HETEROGÊNEA EM CORES E RAÇAS
AI SE EU TE PEGO: PIRATARIA É SE APROPRIAR DE BENS CULTURAIS DA HUMANIDADE E COBRAR DIREITO AUTORAL
A LÓGICA DO LUCRO E DO AMOR NO DIREITO AUTORAL

EM “O AMOR NATURAL”, DRUMMOND CONSTRÓI POEMAS DE CUNHO ERÓTICO QUE NÃO FALAM DE OUTRA COISA SENÃO DA RARA MÁGICA ENTRE CORPO E ALMA

Neste vídeo, Sérgio Viotti lê Amor-pois que é palavra essencial, poema de Drummond presente no livro O Amor Natural. Considerado pornográfico, o livro só foi publicado depois da morte do poeta. Os versos deste poema e de outros do livro preservam uma beleza sutil própria de experiências sexuais verdadeiras, regadas pelo prazer do corpo e pelo diálogo fértil das almas.

Amor — pois que é palavra essencial

Amor — pois que é palavra essencial
comece esta canção e tudo a envolva.
Amor guie o meu verso, e enquanto o guia,
Reúna alma e desejo, membro e vulva.

Quem ousará dizer que ele é só alma?
Quem não sente no corpo a alma a expandir-se
até desabrochar em puro grito
de orgasmo, num instante de infinito?

O corpo noutro corpo entrelaçado,
Fundido, dissolvido, volta à origem
Dos seres, que Platão viu contemplados:
é um, perfeito em dois; são dois em um.

Integração na cama ou já no cosmo?
Onde termina o quarto e chega aos astros?
Que força em nossos flancos nos transporta
a essa extrema região, etérea, eterna?

Ao delicioso toque do clitóris,
já tudo se transforma, num relâmpago.
Em pequenino ponto desse corpo,
a fonte, o fogo, o mel se concentram.

Vai a penetração rompendo nuvens
e devassando sóis tão fulgurantes
que nunca a vista humana os suportara
mas, varado de luz, o coito segue.

E prossegue e se espraia de tal sorte
que, além de nós, além da própria vida,
como ativa abstração que se faz carne,
a idéia de gozar está gozando.

E num sofrer de gozo entre palavras,
menos que isto, sons, arquejos, ais,
um só espasmo em nós atinge o clímax:
é quando o amor morre de amor, divino.

Quantas vezes morremos um no outro,
no úmido subterrâneo da vagina,
nessa morte mais suave do que o sono:
a pausa dos sentidos, satisfeita.

Então a paz se instaura. A paz dos deuses,
estendidos na cama, qual estátuas
vestidas de suor, agradecendo
o que a um deus acrescenta o amor terrestre.

Veja mais em Educação Política:

BERTOLT BRECHT: OS DIAS DO TEU CATIVEIRO ESTÃO CONTADOS, TALVEZ MESMO OS MINUTOS
A TOCA DE KAFKA INVADE O TEATRO COM A ADAPTAÇÃO DE A CONSTRUÇÃO PARA OS PALCOS
EM ILUSÕES PERDIDAS, BALZAC JÁ TRAÇAVA UM OBSCURO E PERTURBADOR CENÁRIO DA IMPRENSA PARISIENSE
COMPOSIÇÃO DE ALICE RUIZ NA VOZ DE ALZIRA ESPÍNDOLA E ARNALDO ANTUNES

BERTOLT BRECHT: OS DIAS DO TEU CATIVEIRO ESTÃO CONTADOS, TALVEZ MESMO OS MINUTOS

“Schauva, os dias do teu cativeiro estão contados, talvez mesmo os minutos. Por longo tempo te mantive sob o freio de ferro da razão, que te pôs a boca em sangue, te espanquei a golpes de princípios racionais, te maltratei, com a lógica. És de natureza um fraco, e quanto te lançam insidiosamente um argumento, logo os engoles avidamente, não te podes conter. Obedecendo à tua natureza, não resistes ao desejo de lamber a mão de um superior, mas os teus seres superiores podem ser de toda sorte, e agora te chegou a hora da libertação – e breve poderá seguir tuas inclinações, que são baixas, e o teu infalível instinto, que te ensina a calcares as solas de teus sapatos das criaturas humanas. Pois o tempo da confusão e da desordem acabou, sem que tenham vindo os grandes tempos que encontrei descritos na canção do caos, canção que iremos cantar mais uma vez como lembrança desta época maravilhosa; senta-te e não massacres a música. Não receies que a ouçam , o refrão agrada sempre. Canta”.  (trecho de O círculo de giz caucasiano, de Bertolt Brecht)

Leia mais em Educação Política:

LÖWY: INTERESSE, CAPACIDADE E CONSCIÊNCIA REVOLUCIONÁRIA DEVEM GUIAR O PESQUISADOR NA SUA BUSCA PELA VERDADE
JUNG: A RACIONALIZAÇÃO NÃO LIVROU O HOMEM MODERNO DE SEUS FANTASMAS, NA AUSÊNCIA DE UM SENTIDO DO SAGRADO, VIVE-SE UMA ÉPOCA ANESTESIADA, REPLETA DE NEUROSES
RICHARD SENNET: A INSTABILIDADE PRETENDE SER NORMAL NO VIGOROSO CAPITALISMO CONTEMPORÂNEO
A ESBÓRNIA DAS PAPILAS GUSTATIVAS: SOCIEDADE VIVE EM EXCESSO DE SABOR E EM EXCESSO DE PESO

MUSEU DA LÍNGUA PORTUGUESA TRAZ MOSTRA SOBRE JORGE AMADO

Imagem da exposição sobre Jorge Amado no Museu da Língua Portuguesa

Um dos escritores mais amados do Brasil ganha mostra no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, em homenagem ao centenário de seu nascimento.

Autor de Dona Flor e seus Dois Maridos, Gabriela, Tocaia Grande e criador de mais de 5 mil personagens, Jorge Amado contou as histórias de um Brasil popular e místico, refletindo a terra que tanto amou, a Bahia, e imortalizando-a em suas narrativas.

A mostra JORGE AMADO E UNIVERSAL: UM OLHAR INUSITADO SOBRE O HOMEM E A OBRA conta um pouco da vida do escritor, fala de sua obra e da Bahia por ele reinventada.

Veja trecho de notícia sobre a exposição publicada pela Carta Capital:

Caminhos de Jorge Amado
Por Ana Ferraz

JORGE AMADO E UNIVERSAL: UM OLHAR INUSITADO SOBRE O HOMEM E A OBRA
Até 22 de julho
Museu da Língua Portuguesa
Praça da Luz, s/nº, Centro, São Paulo

Em seu processo de criação, Jorge Amado assumia o papel de executor das vontades de seus personagens. Em Dona Flor e seus Dois Maridos (1966), o escritor queria que a protagonista fosse embora com Vadinho, mas ela quis ficar com os dois maridos. Zélia Gattai, a mulher, e Paloma, a filha, contam em depoimento gravado os caminhos criativos do autor baiano, cujo centenário de nascimento ganha a exposição Jorge Amado e Universal, parceria entre a Grapiúna, Fundação Casa de Jorge Amado, Secretaria de Cultura do Governo de São Paulo e Museu da Língua Portuguesa.

“A mostra aproximará do grande público um dos autores que melhor retrataram nosso povo através de seus cerca de 5 mil personagens cheios de grandezas, fraquezas, sabedoria popular, sensualidade encantadora, malícia, fé e esperança”, diz Antônio Carlos de Moraes Sartini, diretor do Museu da Língua Portuguesa. (Texto completo)

Leia mais em Educação Política:

A SOFISTICAÇÃO SIMPLES DE MARINA WISNIK ESTÁ PRESENTE NO PRIMEIRO ÁLBUM DA CANTORA “NA RUA AGORA”
POPULARIDADE DOS LIVROS RELIGIOSOS CRESCE ENTRE OS BRASILEIROS QUE TÊM COMO AUTORES PREFERIDOS MONTEIRO LOBATO, MACHADO DE ASSIS E PAULO COELHO
EM ENVELOPES ANTIGOS MARK POWELL DESENHA AS MARCAS DO TEMPO UTLIZANDO APENAS UMA CANETA BIC
COM DISCO NAVE MANHA, TRUPE CHÁ DE BOLDO SEGUE FAZENDO MELODIAS E LETRAS CRIATIVAS, COMBINANDO RITMOS E REINVENTANDO TRADIÇÕES

PROJETO QUE PROÍBE LIVROS QUE CONTRARIEM A NORMA CULTA DO PORTUGUÊS NAS REDES DE ENSINO PÚBLICA E PRIVADA ESTÁ EM DISCUSSÃO EM MINAS GERAIS

Na terra da norma culta, qual é o lugar de Guimarães Rosa?

Regras existem para serem conhecidas. Mas regras não existem sozinhas, tampouco são absolutas. No português, como em boa parte das línguas, há uma forma correta de escrever organizada por regras que devem ser respeitadas, é a norma culta. Ninguém discute que a norma culta da língua não seja importante e que não se deve ensiná-la aos estudantes nas escolas e até universidades. Também não se discute o quanto é importante saber escrever corretamente.

No entanto, a língua não é apenas norma culta e não se conhede de fato uma moeda sem olhar seus dois lados. Do movimento da linguagem nasce tanto a norma culta, como as outras formas orais, populares e artísticas. Não se domina a língua conhecendo-a pela metade, e não se saberá a norma culta, se a oral também não tiver, ao menos, sido apresentada.

Nunca se escreve bem pela metade e escrever bem, conhecer o português, passa pelo espírito da totalidade sem exclusão ou ierarquização. Por isso, talvez seja mesmo “bobice”, como diz Fernando Filgueiras em texto publicado pela Carta Capital, o projeto de lei 1983/2011 que está sendo discutido pela Assembleia Legislativa do Estado de Minas Gerais, de autoria do deputado Bruno Siqueira, que proíbe a distribuição, na rede de ensino pública e privada do Estado de Minas Gerais, de qualquer livro que contrarie a norma culta da língua portuguesa.

Isso porque se está na terra de Guimarães Rosa!

Veja trecho do texto:

A bobice paira entre nóis!
Por Fernando Filgueiras

Bobice é uma palavra bastante mineira. Designa as tolices que só os mineiros são capazes de identificar. Aliás, coisa que mineiro mais faz é declarar a bobice alheia. Seja de paulistas, cariocas, pernambucanos, gaúchos, ou qualquer outro cidadão que não seja do mundo. Alías, pó pô pó no coador, pois a acusação da bobice alheia é o esporte preferido dos mineiros.

“Mas onde é bobice a qualquer resposta, é aí que a pergunta se pergunta.” A mãe de Riobaldo, em Grande Sertões Veredas, sabia das coisas. Guimarães Rosa, sempre ele, está certo nessa pequena questão filosófica da bobice. A bobice não está nas perguntas, mas nas respostas fáceis. Especialmente quando se trata de instituições que têm o papel de dar respostas à sociedade. O problema é que ultimamente a bobice tem imperado em Minas Gerais.

Autocríticas à parte, a Assembleia Legislativa do Estado de Minas Gerais está discutindo o projeto de lei 1983/2011, de autoria do deputado Bruno Siqueira. O projeto de lei “proíbe a distribuição, na rede de ensino pública e privada do Estado de Minas Gerais, de qualquer livro que contrarie a norma culta da língua portuguesa”. Eita! Não é que a bobice chegou?

Num país com déficit de leitura como o Brasil, projeto como esse deixaria corado Guy Montag, de Fahrenheit 451. Queimemos os livros de Guimarães Rosa! Afinal, precisamos estabelecer enquadramentos, nas quais opiniões próprias devem ser proibidas e todos devem seguir o caminho da norma culta, porque sem ela não há cultura. Me dá um cigarro. Diria o bom negro e o bom branco de Oswald de Andrade. Mas é culto o indivíduo que diz: “Dê-me um cigarro”. Sou fumante. E só quem é fumante sabe a solidariedade que existe quando o seu maço acaba e você encontra outro fumante. Mas se alguém me disser isso eu nego. Pois não há bobice e frescura maiores do que alguém dizer “dê-me um cigarro”. (Texto completo)

Leia mais em Educação Política:

AMEAÇAS CONTRA ALUNOS PUBLICADAS NA INTERNET GERAM CLIMA DE TENSÃO E INSEGURANÇA NA UNB
ESTUDANTES DE PÓS-GRADUAÇÃO PROTESTARAM NA ÚLTIMA QUINTA-FEIRA CONTRA A FALTA DE REAJUSTE DAS BOLSAS
ESCOLA DO MST LOCALIZADA NO MUNICÍPIO DE ABELARDO LUZ, EM SANTA CATARINA, TEM A MELHOR NOTA DA CIDADE NO ENEM
MEC DEFINE PISO NACIONAL PARA OS PROFESSORES EM R$ 1.451 PARA 2012, MAS MAIORIA DOS GOVERNOS ESTADUAIS NÃO CUMPRE A LEI

POPULARIDADE DOS LIVROS RELIGIOSOS CRESCE ENTRE OS BRASILEIROS QUE TÊM COMO AUTORES PREFERIDOS MONTEIRO LOBATO, MACHADO DE ASSIS E PAULO COELHO

Monteiro Lobato é o escritor mais admirado entre os brasileiros

O Instituto Pró-Livro divulgou mais uma pesquisa sobre os hábitos de leitura da população. Dessa vez, tentou identificar quais são os tipos de livros que o brasileiro mais lê. A Bíblia saiu na frente sendo citada por 42% dos entrevistados. Depois vieram os livros didáticos (32%), os romances (31%), os livros religiosos (30%) e os contos (23%).

Uma tendência apontada pela pesquisa foi o crescimento da popularidade dos livros religiosos junto à população. A professora Vera Aguiar, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), ouvida pela Agência Brasil, disse que o aumento na venda de livros religiosos pode ser bom por representar uma porta de entrada para a literatura, principalmente entre aqueles que nunca tiveram o hábito de ler.

A partir dos livros de temática religiosa, as pessoas podem sentir curiosidade de ler outras coisas, como os livros clássicos ou, mesmo os de entretenimento segundo ela.

Já entre os escritores brasileiros mais admirados, Monteiro Lobato continua no imaginário da população e está no topo da lista. Sua Emília, e o Sítio do Pica-Pau amarelo tornaram-se tão próximos das pessoas que o escritor que os idealizou parece nunca ser esquecido pelos leitores brasileiros. Além dele, aparecem, na sequência, Machado de Assis, Paulo Coelho, Ariano Suassuna, dentre outros.

Pelo quadro, podemos perceber que o Brasil é realmente um país peculiar. Entre as preferências dos leitores nacionais, um Machado de Assis e um Ariano Suassuna convivem lado a lado com um Paulo Coelho, que possui uma proposta literária totalmente diferente da dos anteriores. Eis a diversidade nacional!

Veja trecho da notícia sobre o assunto:

Bíblia é o livro mais lido pelo brasileiro e Monteiro Lobato o escritor mais admirado
Por Amanda Cieglinski

Brasília – A Bíblia continua sendo o livro mais lido pelos brasileiros – ganha dos livros didáticos e dos romances. Foi o que apontou pesquisa divulgada nesta semana pelo Instituto Pró-Livro sobre os hábitos de leitura da população. Ao questionar os cerca de 5 mil participantes sobre os gêneros que costumam ler, a Bíblia foi citada por 42% e manteve-se no primeiro lugar da lista, mesma posição ocupada na edição anterior da pesquisa, em 2007. Os livros didáticos foram citados por 32%, os romances por 31%, os livros religiosos por 30% e os contos por 23%. Cada entrevistado selecionou em média três gêneros.

Os títulos religiosos ganharam espaço na estante dos brasileiros. Na lista dos 25 livros mais marcantes indicados pelos entrevistados, o livro Ágape, do padre Marcelo Rossi, aparece em segundo lugar na lista. Perde apenas para a própria Bíblia e para A Cabana, do canadense William Young.

Luiz Alves de Moraes, vendedor de uma livraria em Brasília, disse que os mais vendidos são os títulos de filosofia, teologia e religião. “Pessoalmente, eu consumo mais livros de filosofia. O hábito de ler garante um amadurecimento da leitura. Comecei a ler aos 13 anos, por interesse pessoal, sem incentivo de ninguém”, conta. O colega dele, Edmar Rezende, concorda que a venda de religiosos cresceu. “Tem saído muito, principalmente o do padre Marcelo”.

A professora Vera Aguiar, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), avalia que os livros religiosos podem ser uma porta de entrada para a literatura, especialmente para uma parte da população que não tem o hábito da leitura. Para ela, o aumento das vendas desse gênero está ligada ao avanço das religiões neopentecostais. “Há uma atitude de leitura. Depois ele pode abrir seus gostos para outros tipos de literatura, os clássicos, o entretenimento. É muito significativa essa atitude leitora, a pessoa se decidir uma atividade introspectiva”.

Em seguida na lista das obras mais marcantes aparecem O Sítio do Picapau Amarelo, O Pequeno Príncipe, Dom Casmurro e as coleções Crepúsculo e Harry Potter. O livro da escritora britânica J. K. Rowling foi o primeiro que a estudante de 16 anos Evelyn Cabral comprou. Ela disse que sempre gostou de ler e foi muito incentivada pela mãe quando criança por meio dos contos de fada. (Texto completo)

Leia mais em Educação Política:

MINO CARTA LEMBRA O TALENTO PECULIAR DE MILLÔR FERNANDES E CHICO ANYSIO, CAPAZES DE FAZER RIR PENSANDO
OS FANTÁSTICOS LIVROS VOADORES: DIVERTIDA ANIMAÇÃO E O PODER QUE AS HISTÓRIAS E LETRAS TÊM DE VOAR…
A TOCA DE KAFKA INVADE O TEATRO COM A ADAPTAÇÃO DE A CONSTRUÇÃO PARA OS PALCOS
DE GERAÇÃO EM GERAÇÃO: O HÁBITO DE LER E CONTAR HISTÓRIAS É COMO SE APOSSAR DE UM TESOURO FORMADO POR TODA CULTURA DA CIVILIZAÇÃO
%d blogueiros gostam disto: